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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Greve Geral e Reforma da Constituição no Chile



As manifestações no Chile seguem com muita intensidade e na última semana incluíram dois dias de greve geral – a primeira desde a redemocratização, em 1990. Escrevi anteriormente neste blog sobre as principais causas dos protestos, como as demandas dos estudantes e dos mineiros. A paralização destes dias foi sobretudo em defesa da reforma da Constituição de 1980 – um dos últimos entraves à democracia chilena que restaram da ditadura Pinochet.

O documento foi produto de uma comissão de juristas encarregada pelo general de elaborar diretrizes que lhe permitissem institucionalizar o poder que havia tomado no golpe de 1973. Ironicamente, ele pouco governou com ela, pois adotou com frequência o recurso do Estado de Sítio e outros mecanismos de exceção. No entanto, emendou-a em 1989, estabelecendo as regras para a transição democrática, após ser derrotado no plebiscito que havia organizado para garantir mais anos na presidência.

A Constituição criou quase 25% de senadores não-eleitos, indicados por Pinochet, inclusive como representantes das três Forças Armadas e do Corpo de Carabineiros (polícia nacional). O próprio ditador permaneceria senador vitalício e comandante do Exército até meados dos anos 90. Os chefes militares não podiam ser exonerados pelo Presidente, mas somente pelo Conselho de Segurança Nacional, cuja metade dos integrantes são de oficiais das Forças Armadas. Elas também tinham assegurados vultosos recursos, com 10% das receitas de exportação da estatal do cobre, e reajuste automático dos soldos, de acordo com a inflação.

A maior parte desses abusos, como os senadores não-eleitos, foram eliminados com a reforma de 2005, mas permanecem problemas sérios como o sistema eleitoral. A Constituição de 1980 eliminou o voto proporcional que era tradicionalmente usado no país e instituiu modelo binominal. São 60 distritos eleitorais, cada um elegendo dois deputados. O primeiro posto fica com o mais votado do distrito. O segundo (quase sempre) com o mais votado do 2º partido, mesmo que seu desempenho tenha sido pior do que outros candidatos da sigla majoritária.



O sistema foi feito sob medida para beneficiar a direita, minoritária eleitoralmente, aumentando sua representação no Congresso - ver quadro acima, com resultados de 2005. A Alianza é a coligação dos dois partidos de direita, RN e UDI. Que ademais também ganha com a força excessiva dada às zonas rurais, mais conservadoras. E o sistema costuma excluir os candidatos da extrema-esquerda, como os comunistas, embora eles tenham em geral pelo menos 5% dos votos nacionais.

A Concertación, a coalizão de centro-esquerda que governou o Chile de 1990 a 2010, tentou reformar por diversas vezes o sistema eleitoral, mas nunca conseguiu. Na última campanha presidencial, outros pontos da Constituição foram colocados em discussão, como o modelo de Estado muito centralizado, no qual o presidente nomeia os intendentes regionais. Grupos progressistas chilenos demandam uma federação, com mais autonomia local, como existe na Argentina, Brasil e México. Alíás, a própria cidade de Santiago não tem um prefeito – com a alta concentração de população na capital, ele poderia fazer sombra ao poder do presidente. Em vez disso, a metrópole é dividida em várias zonas, cada qual com seu intendente.

O presidente Sebastián Piñera é hoje o mandatário mais impopular da América do Sul, com aprovação inferior a 30%. Os diversos ciclos de protesto são rejeição brutal de seu programa de reforma liberal para o Chile. Ele reagiu com mudança ministerial e repressão violenta, que já resultou em mortes. A tradição chilena é de que presidentes eleitos cumpram o mandato até o fim – o golpe contra Salvador Allende foi das poucas exceções – mas é difícil imaginar como Piñera poderia se manter no cargo caso persista tal nível de confronto de rua no país.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Os Protestos no Chile a Crise de Piñera



O presidente do Chile, Sebastian Piñera, enfrenta uma situação difícil: grandes protestos capitaneados pelos estudantes e pelos mineiros fizeram sua popularidade despencar para cerca de 30% (chegou a ser mais do que o dobro disso, na época do resgate dos trabalhadores presos na mina) e o levaram a substituir oito ministros. O cerne do conflito é político: os diversos manifestantes são contrários ao modelo liberal defendido por Piñeira e advogam maior ativismo do Estado no país, a exemplo do que acontece em outras nações latino-americanas.

Comecemos pelos estudantes. A rebelião dos pinguins, na década passada, foi um dos mais importantes movimentos sociais da região, e marcou o início de um novo ciclo de protestos no Chile. As demandas estudantis não foram resolvidas no governo da socialista Michelle Bachelet e Piñera tem tido dificuldade ainda maior em lidar com elas. Os manifestantes exigem que o Estado central assuma o controle das escolas secundárias, municipais, que regule de maneira eficaz o setor educacional privado, estabeleça o passe livre nos ônibus e acabe com a cobrança de mensalidades, que seriam custeadas pelo aumento de impostos sobre as mineradoras estrangeiras.



O choque entre expectativas e políticas governamentais é grande, e foi agravado pela escolha de Joaquin Lavín para ministro da Educação. Um economista muito liberal e conservador, sem experiência na área, não teve capacidade de negociação para lidar com o movimento estudantil, que desponta com líderes como Camila Vallejo (foto), que chama a atenção por sua beleza e preparo. Piñera afastou Lavín e nomeou para seu lugar o titular da pasta da Justiça, Felipe Bulnes, que tem mostrado mais capacidade de diálogo com a oposição.

Os mineiros também protestam e enfrentam o presidente por conta de seu plano de reformar a estatal da mineração, a Codelco. Eles afirmam que é o primeiro passo para privatizá-la, Piñera nega, e diz que só que tornar a empresa mais competitiva e eficiente. Para além disso, há uma série de conflitos entre o governo e os trabalhadores nas minas, envolvendo infraestrutura deficiente, legislação de proteção contra acidentes, aposentadorias etc.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Força da Tradição: os mineiros do Chile



Algumas vezes, sobreviver pode ser melhor do que viver.
Fala final do filme italiano "Caros F.. Amigos", de Mario Monicelli

Quando servi no Conselho Nacional de Juventude, conheci uma colega que havia vivido exilada no Chile, nos anos 60, na época do governo do democrata-cristão Eduardo Frei. Ela e o marido haviam fugido da ditadura brasileira e ainda estavam assustados, quando o porteiro do prédio em que moravam foi conversar com os dois. Trazia nas mãos o rascunho de um artigo sobre marxismo no qual o marido trabalhava, e que havia jogado fora. "Isso é de vocês?", ele perguntou. Ambos ficaram um pouco embaraçados, mas o medo se dissipou com o comentário seguinte do porteiro: "É porque não entendi por que você citou Lênin nesta passagem. Há um trecho de Trotski que funcionaria muito melhor." Sempre me lembro da história quando penso na força do movimento trabalhista chileno - uma tradição que vem pelo menos da Frente Popular da década de 1930, sobreviveu aos quase 20 anos da ditadura Pinochet e que se manifestou com intensidade no drama dos mineiros recém-resgatados após mais de dois meses soterrados.

Em condições quase impossíveis de sobrevivência, os 33 mineiros conseguiram se organizar, eleger líder, porta-voz, guia espiritual, dividir comida, remédios e suprimentos, manter a moral e o bom humor em alta e até preparar um fundo para gerir os recursos que começaram a vir com a fama repentina. Seus familiares montaram um aparato impressionante e eficiente para ajudar a imprensa e as equipes de resgate. Para além dos méritos individuais de cada integrante do grupo, um desempenho tão alto não teria sido obtido sem a tradição de mobilização trabalhista desse grupo profissional - sem dúvida, uma das mais ricas da América Latina.

A mineração é uma das principais atividades econômicas do Chile desde o século XIX. A maior parte das minas se concentra nas regiões desérticas ao norte do país, uma área inóspita, que às vezes parece uma paisagem de outro planeta. A concentração de trabalhadores em grandes instalações propiciou o ambiente para um sindicalismo combativo, o norte chileno foi um bastião da esquerda, sobretudo dos comunistas.

O drama dos mineiros soterrados ilustrou vários pontos das dificuldades do setor, como a falta de condições adequadas de segurança, o risco do desemprego e a instabilidade econômica decorrente da oscilação do preço internacional dos minérios. Os tons de pele e as feições dos protagonistas também serviram para lembrar o quanto o Chile é um país de grande população indígena e mestiça, ainda que seu imaginário nacional por vezes não goste disso - uma amiga brasileira perguntou a um taxista em Santiago com qual povo latino-americano os chilenos mais se identificavam e a resposta, após uma pausa pensativa, foi: "Com os ingleses."

Bem, os mineiros ingleses travaram sua última grande batalha na década de 1980, contra Margareth Thatcher, e o sindicalismo europeu enfrenta uma nova onda de protestos e greves gerais, na difícil conjuntura da crise atual. Talvez possam se inspirar nos chilenos. Ao menos o nível do humor melhoraria bastante.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A Sombra de Pinochet



Uma aluna que é amiga do político chileno Heraldo Muñoz me deu de presente seu excelente livro: “A Sombra do Ditador: memórias políticas do Chile sob Pinochet”. É uma mistura de análise e autobiografia que cobre do golpe militar contra Salvador Allende até a morte do general Augusto Pinochet, em 2006.

Quando Allende foi eleito presidente, em 1970, Muñoz já era um ativo membro do Partido Socialista, o mesmo do chefe de Estado. Em seu governo, exerceu o cargo de chefe de um sistema de lojas populares e recebeu (precário) treinamento para o caso da eclosão de uma guerra civil. O que veio foi um golpe militar clássico, mas inusitado para os padrões chilenos, onde as Forças Armadas se orgulhavam do respeito à lei e à democracia.

Pinochet era o típico oficial de carreira do Exército – um burocrata, não um fanático, e sua carreira havia sido conduzida de forma metódica, mas sem brilho. Ele se destacava pelo respeito e cordialidade aos superiores, inclusive por políticos de esquerda, como Allende e os prisioneiros comunistas que vigiou quando capitão, numa prisão no norte do Chile. Para Muñoz, Pinochet havia amargado uma vida de ressentimento e frustrações, que explodiram na forma de crueldade e fome de poder, quando se viu alçado à presidência.



A análise da ditadura no livro segue três eixos: o relato das principais atrocidades e massacres cometidos pelo regime (as execuções no Estádio Nacional, a Caravana da Morte, a Operação Condor, o assassinato de dissidentes nos EUA e na Argentina); as disputas pelo poder entre a cúpula das Forças Armadas e a guinada na política econômica, com a adoção do programa liberal dos “Chicago Boys”, e suas mudanças em momentos como a crise de 1982.

O mais interessante do livro é o relato autobiográfico de Muñoz sobre sua participação na formação da coalizão internacional contra a ditadura, focada na defesa dos direitos humanos no Chile. Durante o regime de Pinochet, o autor alternou temporadas no país, trabalhando como professor universitário, e períodos nos Estados Unidos, como doutorando e pesquisador. Era um jogo arriscado e ele escapou por pouco, muito pouco, de ser preso. Muñoz foi uma figura importante na reforma do Partido Socialista, trabalhando junto com Ricardo Lagos para a construção da Concertación, a aliança de centro-esquerda que governou o Chile de 1990 até o início deste ano.

Os capítulos sobre o retorno da democracia ao Chile são marcados pela presença de Pinochet no poder – ele continuou a comandar o Exército por muitos anos, e depois se tornou senador vitalício – e pela longa série de processos judiciais que começaram com a prisão do ex-ditador na Inglaterra, em 1998, por ordem de um juiz espanhol. Pinochet conseguiu voltar ao Chile, mas nunca mais teve paz. As investigações por violações de direitos humanos foram aumentadas pelas ações sobre corrupção – frutos, ironicamente, das leis anti-terrorismo nos EUA, que apertaram o cerco às fraudes financeiras.

Pinochet morreu sem ter sido condenado pelos tribunais. Mas algo do legado das investigações permaneceu. O recém-empossado presidente Sebastián Piñeira recusou a proposta da Igreja Católica em anistiar militares que cometeram violações de direitos humanos na ditadura.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ditadura e Repressão



Quando comecei a trabalhar no meu livro sobre “Ditaduras Contemporâneas”, um amigo me chamou a atenção para a lacuna existente na Ciência Política sobre a comparação de regimes autoritários. De modo que é excelente o lançamento brasileiro de “Ditadura e Repressão”, do cientista político Anthony Pereira, que dirige o Instituto do Brasil na King´s College, em Londres.

Seu livro é uma comparação de como três ditaduras militares latino-americanas – Argentina (1976-1983), Brasil (1964-1985) e Chile (1973-1990) – lidaram com os processos judiciais contra os adversários políticos. Os caminhos diferentes influenciaram não só o modo como a oposição enfrentou o regime, mas tiveram conseqüências para o tipo de democracia que se instalou em cada país.

No Brasil, a ditadura manteve a maior parte da estrutura jurídica dos governos democráticos. Os adversários eram julgados por tribunais militares, mas com a participação de juízes e advogados civis. Havia relativo espaço para a ação da defesa, que aproveitou essas brechas para conseguir reduções de pena e absolvições. A pena de morte foi reestabelecida, mas não chegou a ser implementada. Apesar disso, a tortura era uma prática comum e quase sempre ignorada pelos tribunais. E no caso da guerrilha do Araguaia, a repressão governamental se deu à margem do sistema judicial, com muitas execuções sumárias.




No Chile, a ditadura de Augusto Pinochet seguiu uma trajetória diversa. Os inimigos do regime eram julgados por tribunais militares especiais – Conselhos de Guerra – que não existiam nas administrações democráticas. Havia pouquíssima atuação dos advogados e juízes civis. Execuções ilegais foram comuns, em especial nos dois primeiros anos da ditadura, como na infame Caravana da Morte. A pena de morte foi legalmente reestabelecida e executada em diversos casos.

A Argentina constitui o caso mais extremo. A maior parte da repressão ocorreu totalmente à margem do sistema judicial, com prisões e execuções ilegais nos campos de concentração do regime, como a Escola de Mecânica da Marinha. Isso refletiu a desconfiança dos militares argentinos com juízes e advogados, que em ditaduras anteriores, como a do general Juan Carlos Onganía (1966-70) libertaram vários presos políticos.

Pereira analisou também como as democracias ressurretas das décadas de 1980/90 lidaram com o legado autoritário. A Argentina foi o país que mais empreendeu esforços para punir os crimes cometidos pelas ditaduras, encarcerando ex-chefes de Estado e prendendo centenas de pessoas. No Chile, esses processos também ocorreram, mas de modo mais limitado. E no Brasil, houve uma lei de anistia que impediu esse tipo de ação judicial – o que Estado fez foi indenizar em dinheiro as pessoas perseguidas pela ditadura.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Chile: depois das tragédias



Terremotos, tsunamis, incêndios, saques... Primeiro o Haiti, agora o Chile. O país andino sofreu o segundo pior tremor de terra da sua história – e com 8.8 graus na escala Richter, um dos maiores já registrados, pode ter alterado o próprio eixo de rotação do planeta! O terremoto chileno foi cerca de 500 vezes mais potente do que aquele que devastou o Haiti, contudo, matou quase 800 pessoas, contra mais de duzentas mil na nação caribenha. A diferença se explica pela força do Estado no Chile. Ou mais precisamente: pela eficácia da legislação de regulação da construção civil, adotada pelos governos democráticos ao longo da década de 1990, e pela reação da defesa civil, da polícia e das Forças Armadas para socorrer as vítimas, mesmo sem conseguir evitar tumultos e roubos na cidade de Concepción, a mais atingida pelos desastres.

Os danos à infraestrutura do país estão estimados em cerca de 20% do PIB, péssima cifra em qualquer época, ainda mais em um momento de crise para uma economia dependente da exportação de poucas commodities e que encolheu 0,9% em 2009. Os preços mundiais do cobre, principal produto chileno, já aumentaram em função da expectativa que a produção nacional diminua. Os danos aos portos causados pelo maremoto também atrapalharão muito no escoamento das exportações.

A situação emergencial é a pior notícia possível para o presidente eleito Sebastián Piñera, que tomará posse no próximo dia 11. Com a necessidade de ações imediatas por parte do Estado, a agenda liberal do mandatário, de corte de gastos públicos, está evidentemente suspensa. Dada a calamidade que se abateu sobre o país, Piñera provavelmente terá que utilizar os recursos economizados no fundo de estabilização, criado justamente para ser usado em momentos de dificuldades como este.

Há um forte precedente histórico. O planejamento governamental no Chile está vinculado à experiência com outras tragédias naturais, em particular o grande terremoto de 1939, que deixou cerca de 30 mil mortos. A catástrofe marcou os esforços da recém-eleita Frente Popular em criar órgãos estatais de promoção do desenvolvimento, e o resultado foi a criação da Coporación de Fomento de la Producción, que então era uma experiência pioneira no ramo, comparável ao que havia de mais avançado no New Deal dos Estados Unidos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Chile: o declínio da Concertação



O primeiro turno das eleições presidenciais chilenas foi realizado no domingo e marcou uma contradição: a presidente Michelle Bachelet termina seu mandato com excelentes avaliações, que batem nos 80% de aprovação, mas sua coalizão política, a Concertação, enfrenta séria crise e provavelmente será derrotada nas urnas, pela primeira vez desde que o Chile voltou a ser uma democracia.

O declínio da Concertação é natural. Após 20 anos no poder, é compreensível que os eleitores queram renovação, mesmo que muitos tenham boa opinião sobre a coalizão de centro-esquerda que reúne socialistas, democratas-cristãos e outros partidos. No longo período em que seus líderes estiveram à frente do país, a Concertação conseguiu conduzir uma difícilima transição para a democracia, sempre à sombra do general (e senador vitalício) Pinochet. Fez boa gestão da economia e, nesta última década, deu bastante atenção às políticas sociais e ao combate à desigualdade. Seus desgastes foram menores do que aqueles experimentados pelos socialistas na França e na Espanha, uma vez que os governos Mitterand e Gonzáles terminaram com escândalos de corrupção que estiveram ausentes no Chile.

Contudo, a Concertação deixa alguns impasses sérios. A política externa chilena não conseguiu resolver os problemas com os vizinhos sul-americanos, em particular com Peru e Bolívia. A marginalidade social dos índios continua forte, com conflitos violentos envolvendo disputas de terra no sul do país. A xenofobia e o neonazismo têm ocorrido em escala preocupante. As demandas por reformas amplas na educação não foram atendidas a contento e serão grandes desafios para o próximo presidente. E a estrutura interna da Concertação não soube lidar com seus rebeldes e dissidentes, o que culminou na fragmentação e alienação de seus integrantes mais dinâmicos.



A escolha do democrata-cristão Eduardo Frei para candidato à presidência foi um erro. A um eleitorado ávido por mudança, a Concertação apresentou um ex-presidente, filho de ex-presidente. As propostas de transformação mais interessante vieram de Marco Enríquez-Ominami, jovem cineasta com pinta de galã (foto acima), filósofo, ex-deputado pelos socialistas, filho de um dirigente guerrilheiro morto por Pinochet e enteado de um senador socialista. Ominami concorreu como independente e balançou o establishment com uma plataforma que incluía implementar o federalismo (num país muito centralizado) e diminuir o poder presidencial num sistema híbrido que criaria um primeiro-ministro, à semelhança do modelo francês.

O favorito para ser o próximo presidente do Chile é o empresário Sebastian Piñera, o homem mais rico do país, dono de uma série de negócios que incluem a companhia aérea Lan Chile, redes de farmácia e times de futebol. Lidera a “Coalizão pela Mudança”, cujos principais integrantes são os partidos de direita Renovação Nacional e União Democrática Independente. Esta última é a sigla criada por Pinochet após o golpe de 1973, para substituir o tradicional Partido Conservador. Mas a direita chilena rachou depois da redemocratização – nas últimas eleições presidenciais concorreu com dois candidatos - e Piñera representa sobretudo a corrente que privilegiou o aspecto da liberalização econômica, e não o legado autoritário da ditadura. Este último se enfraqueceu muito com os escândalos de corrupção envolvendo Pinochet e sua família. No Chile, esse tipo de crime faz os políticos perderem votos. Que inveja!

Em comparação à Argentina e ao Brasil, a direita chilena se destacava por ser eleitoralmente forte, pelo menos até a década de 1960. O retorno dos conservadores ao poder, pelas urnas, é boa notícia para a democracia no Chile. Quando o revezamento ideológico-partidário se concretizar, o país poderá então celebrar o momento em que sua transição democrática estará completa. Só preocupa a concentração de poderes econômicos e políticos nas mãos de Piñera. A sombra de Berlusconi é um alerta do que pode ocorrer em casos assim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Adeus, Senhor Presidente



Na semana passada escrevi um pouco sobre o método de Planejamento Estratégico Situacional (PES) desenvolvido pelo economista chileno Carlos Matus. Fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que me pediram mais detalhes, portanto aqui vai este post. Se você quer um guia rápido para as principais ideias do autor, recomendo o livro-entrevista “O Método PES”, do jornalista Franco Huerta. Se você está disposto a um caminho mais heterodoxo, a dica é “Adeus, Senhor Presidente: governantes governados”, do próprio Matus. Ambos estão publicados no Brasil pela Fundap, que também traduziu outras obras do autor.

"Adeus, Senhor Presidente" mistura romance e ensaio. Cada capítulo abre com uma parte ficcional, nas quais temos cinco cenas da trajetória política do presidente de um país qualquer, presumivelmente na América Latina. Elas começam com sua posse, em meio a grandes expectativas de mudanças, e terminam com suas reflexões, já afastado do poder, sobre por que desapontou seus eleitores e não conseguiu realizar o que prometeu – seu consolo é que seu sucessor tampouco é bem-sucedido. Entre uma e outra, há uma excelente descrição de uma reunião ministerial para discutir a crise do país e até uma tentativa rocambolesca e divertidísisma de golpe militar.


A parte, digamos, científica, aplica o método PES a cada situação difícil vivida pelo presidente e procura convencer o leitor de que as ferramentas ali expostas resolveriam os problemas. Há muitas percepções interessantes, oriundas da ampla experiência de Matus como consultor e ministro de Salvador Allende. Gosto principalmente de suas análises sobre como questões banais e obstáculos protocolares com frequencia impedem os líderes políticos de se dedicarem ao que realmente importa. Mas os diagramas e etapas do método são muito complicados e permaneço com dúvidas se é viável aplicá-lo em sua totalidade.

De todos os gêneros literários, o romance é o que mais se aproxima das ciências sociais, como sabe qualquer um que tenha lido Balzac ou Machado de Assis. Matus se revela um ficcionista de talento surpreendente, e suas descrições do cotidiano político latino-americano fazem qualquer habitante do continente se identificar com os dilemas do presidente e de seus ministros. Há de tudo no círculo presidencial: sindicalistas veteranos, homens do partido (socialista, à la chilena), empresários, tecnocratas com muitos títulos acadêmicos e nenhuma vivência política, intelectuais idealistas, jornalistas céticos, parentes corruptos e as eternas polêmicas da região, tais como a melhor maneira de equilibrar as finanças públicas, e, simultaneamente, expandir os serviços governamentais e estimular o crescimento econômico.

Há bastante humor e sátira em Matus, em especial no episódio da tentativa de golpe, mas também um afeto real pelos esforços das pessoas que querem fazer um bom trabalho e desenvolver politicas públicas de qualidade. Certas passagens do romance – como o trecho em que o presidente media com habilidade uma discussão entre empresários e sindicalistas – são muito ricas em calor humano, fazem pensar se não seriam um retrato biográfico de Allende em ação.

Sempre me pareceu que a América Latina é tão complexa, inesperada e caótica que as categorias das ciências sociais simplesmente não conseguem dar conta do recado de compreender a região. É preciso um toque a mais, de romance, poesia ou música. Matus lançou um modelo muito promissor de romance-ensaio, pena somente que tenha preferido se concentrear no segundo aspecto, que ocupa muito mais espaço no livro, mas diz menos do que a parte ficcional.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Planejamento à Chilena


No imaginário político brasileiro, o Chile ficou associado à idéia de liberalização da economia. O aspecto é verdadeiro no que diz respeito ao comércio exterior, mas é curioso como a experiência chilena continua a ser uma referência importantíssima para a América Latina no que diz respeito ao planejamento governamental. Agora mesmo, no curso de formação de gestores de políticas públicas, tivemos longas aulas sobre o tema.

A atual coqueluche internacional é o método do Planejamento Estratégico Situacional (PES), elaborado pelo chileno Carlos Matus, um ex-ministro do presidente Salvador Allende (foto). O golpe de Estado de 1973 levou Matus a passar dois anos na prisão, e ele aproveitou o tempo para fazer um balanço bastante crítico dos erros que havia cometido no ministério, e em termos gerais, de todo o pensamento clássico sobre planejamento na América Latina.

Numa avaliação dura, Matus afirmou que era uma prática autoritária, que só tinha em conta um único ator: o próprio Estado. Ele formulou ferramentas alternativas, mais flexíveis, encarando o planejamento como um jogo com diversos participantes, cada um deles com sua estratégia e visão de mundo. Muitos elementos são imprevisíveis, mudam constantemente.

O PES realmente é interessante e impressiona ver o quanto Matus se esforçou para divulgá-lo - ele deve ter lecionado para metade dos tecnocratas da América Latina e criou uma fundação para divulgar o método, inclusive elaborando uma versão simplificada para ser usada em sindicatos e movimentos populares. A questão é que, na ânsia de promover suas idéias, Matus foi injusto com a longa experiência chilena, desqualificando iniciativas importantes.

Afinal, o planejamento governamental no Chile vem da década de 1930, quando a recém-eleita Frente Popular precisou lidar com os problemas humanitários ocasionados por um grande terremoto. O Estado criou a Corporación de Fomento de la Producción, uma espécie de BNDES local, que foi muito importante para a economia do país. Na época havia pouca coisa parecida, mesmo o New Deal americano dava os primeiros passos. Não é por acaso que a Comissão Econômica da ONU para a América Latina e o Caribe (CEPAL) foi instalada em Santiago. Por mais que algumas de suas práticas possam ser excessivamente esquemáticas para os dias de hoje, é preciso lembrar que na época a instituição rompeu com uma série de preconceitos pelos quais a região estaria condenada à pobreza e a permanecer como uma grande fazenda.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Fórmula para o Caos


Ainda é raro que brasileiros escrevam livros sobre os vizinhos sul-americanos. “Fórmula para o Caos – a derrubada de Salvador Allende”, do cientista político Moniz Bandeira, contribui não só para a história do Chile, mas também para a da região como um todo, mostrando como as tensões do país andino estavam ligadas aos desdobramentos em outras nações da região, em especial Bolívia e Uruguai. A política externa do Brasil sai mal do retrato, que mostra o quanto o governo brasileiro influenciou na destruição da democracia chilena.

Embora os fatos básicos da queda de Allende fossem bastante conhecidos há muitos anos, Moniz Bandeira conseguiu novos documentos liberados pelo governo dos EUA durante a presidência Clinton, além de ter tido acesso livre aos arquivos diplomáticos brasileiros, em função de sua amizade com a atual chefia do Itamaraty. O resultado é um levantamento detalhado sobre os mecanismos utilizados pelas autoridades dos dois países para derrubar Allende: dinheiro, propaganda e pressões econômicas, no caso dos americanos, apoio político e logístico no que toca aos brasileiros.



O governo Allende (1970-1973) se deu em meio a um contexto turbulento na América do Sul, marcado por golpe contra uma ditadura militar progressista na Bolívia e pelo combate à rebelião dos Tupamaros no Uruguai. Em meio a isso, a Argentina do general Lanusse passava por delicada transição política para o retorno de Perón, e resolveu apostar numa diplomacia de “pluralismo ideológico”, ajudando Allende e acreditando com isso que isolaria o Brasil, então no momento mais violento de sua ditadura de 21 anos.

Moniz dedica talvez metade do livro às pressões internacionais contra Allende, mas boa parte da obra aborda algo que me interessa mais: as contradições internas da política chilena. O presidente liderava a Unidade Popular, uma instável coligação dos partidos de esquerda: socialista, comunista, esquerda cristã, MAPU e Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR). Quase todos acreditavam que Allende era demasiado lento e moderado e o encurralavam com invasões de terra, tomadas de fábricas, apoio à guerrilha boliviana, formação de milícias e construção de estruturas de “poder popular paralelo”, como cordões industriais e assembléias populares. Uma longa visita de Fidel Castro, de três semanas de duração, polarizou ainda mais os ânimos.



Para piorar, a Unidade Popular era minoritária no Congresso e precisava enfrentar fortes movimentos da direita nacionalista e católica, com setores extremistas promovendo bloqueios econômicos, greves patronais (como a célebre paralisação dos transportadores, que quase destruiu a economia), marchas e atentados. Desde o início o Exército resistiu a Allende e o fiel da balança militar foram generais legalistas, como René Schneider (assassinado por golpistas) e Carlos Prats (morto por terroristas de direita, no exílio, já na ditadura Pinochet). O partido de centro, a Democracia Cristã, se dividiu aos poucos e sua parcela hegemônica apostou contra a ordem constitucional, acreditando que os militares a livrariam de Allende e abririam caminho para sua volta ao poder. Teve que esperar 17 anos.

Moniz foi, desde a época, cético com relação ao projeto de Allende de construir o “socialismo pela via chilena”, à base de “vinho e empanadas”. O cientista político questiona o mito do “excepcionalismo do Chile”, que seria supostamente mais democrático e estável, e analisa diversos episódios de golpes militares e guerras civis, em particular a que levou ao suicídio do presidente Balmaceda, em 1891, numa disputa feroz pelos espólios minerais tomados à Bolívia e ao Peru na Guerra do Pacífico.

O livro de Moniz Bandeira vai na mesma direção de vários intelectuais chilenos contemporâneos, que se mostram críticos das contradições do socialismo utópico de Allende e ressaltam o quanto a tradição política do Chile é marcada pelo autoritarismo e pela violência.

Dica: visitem o site da Fundação Salvador Allende, com excelente material multimídia.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Chile, Laboratório do Desenvolvimento



Um dos melhores professores que tive na Argentina foi Sebastián Etchemendy. Em suas aulas sobre economia política latino-americana, ele destacava que o Chile podia ser tomado como um laboratório de aplicação das principais visões sobre desenvolvimento econômico. No período de Eduardo Frei (1964-1970), era a teoria da modernização, que tanto sucesso fez entre o governo Kennedy – Walther Rostov, o pai da idéia, foi assessor-chave do presidente. Durante a presidência de Salvador Allende (1970-1973), a voga coube à teoria da dependência. E por fim, sob a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), a liderança ficou com o neoliberalismo. Excelente artigo de Oswaldo Sunkel na revista Diplomacia, Estratégia e Política, editada pelo Itamaraty, defende o mesmo argumento e adiciona interpretação: o Chile da redemocratização estaria gestando novo modelo, baseado em mistura da corrente neoliberal mais pragmática com maior preocupação com programas sociais de combate à pobreza e distribuição de renda, em conjunto com política externa mais próxima da América Latina.

Acredito que a condição chilena de “laboratório do desenvolvimento” se deve a algumas características incomuns do país. É pequeno, com um Estado muito centralizado e bem organizado, e com um só produto – cobre - concentrando grande importância na economia nacional. Tudo isso torna mais fácil e eficaz planejar a ação governamental do que em países mais complexos, como Argentina e Brasil. Aprendi com o texto de Sunkel que a experiência chilena com planejamento vem da década de 1930, quando a recém-instalada Frente Popular precisou enfrentar uma tragédia natural: o grande terremoto de 1938. O governo Allende também inovou: usou até primórdio de computador para conduzir o planejamento.

No Brasil, admiradores e opositores de Pinochet tendem a ver sua política econômica como algo contínuo, mas a história é mais complexa. Nos primeiros meses, os militares adotaram decisões bastante próximas ao modelo interventor-nacionalista, como a manutenção da estatização do cobre. Em 1974 é que tomou posse a equipe liderada por Sergio de Castro e seus “Chicago Boys”. O termo, irônico, se refere ao programa de treinamento que a Universidade de Chicago desenvolveu em parceria com a Universidade Católica do Chile, a partir de 1958. O objetivo era levar economistas chilenos para cursar pós-graduação nos EUA, de acordo com os princípios liberais, e assim criar uma contra-influência para as teses industrialistas da CEPAL, então no auge de seu prestígio (a melhor narrativa que conheço da história está no livro “The Internationalization of Palace Wars – lawyers, economists and the contest to transform Latin American States”, de Yves Dezalay e Bryant Garth).

Mas o reinado dos Chicago Boys durou, grosso modo, até a crise da dívida de 1982, que teve impacto bastante severo no Chile. Pinochet se assustou e resolveu implementar diversas reformas, suavizando a política cambial e protegendo alguns setores industriais. Os governos da Concertação, a coalizão entre democratas-cristãos e socialistas que governa o país desde 1990, herdou esse enfoque mais pragmático e o consolidou com mais de 50 acordos de livre comércio.

O artigo de Sunkel traz estatísticas muito boas sobre os principais dados econômicos do Chile ao longo de sua história recente. Ao contrário do senso comum, o período Pinochet foi de desempenho apenas moderado quanto ao crescimento do PIB (3% ao ano) e terminou com um horrendo índice de pobreza (38%). No regime democrático, a proporção de pobres caiu à metade, e a economia cresce a taxas melhores – de 2005 para cá, entre 6% e 11% anuais.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Tensão nas Fronteiras Sul-Americanas


Há tensão nas fronteiras sul-americanas nesta semana, com conflitos envolvendo Colômbia, Venezuela, Chile e Peru. Houve de tudo: remoção de embaixadores, deslocamento de tropas, negociações e processos em tribunais internacionais.

Comecemos pela novela entre Chávez e Uribe. O presidente venezuelano chamou seu embaixador em Bogotá para consultas e enviou policiais e militares para a fronteira com a Colômbia, alegando que defendia a soberania alimentar da Venezuela. Como os alimentos são subsidiados no país, há intenso contrabando para o lado colombiano. Enquanto isso, autoridades americanas do Pentágono e da DEA visitaram Bogotá e acusaram Chávez de facilitar o narcotráfico e promover corrida armamentista na região. O presidente venezuelano respondeu chamando seu colega colombiano de “chefe mafioso”.



Uribe passa a semana na Europa, visitando autoridades francesas, espanholas e da União Européia. Ele conseguiu que todas reafirmassem a classificação das guerrilhas colombianas como organizações terroristas, recusando o pedido de Chávez para que fossem consideradas como “grupos beligerantes”. Contudo, o mais importante é o avanço na proposta lançada pela Igreja Católica e apoiada por França, Espanha e Suíça: criar uma “zona de encontro” para que governo e FARCs possam negociar a libertação de reféns mantidos pela guerrilha. Foi a melhor sugestão a surgir no processo de diálogo até agora.



Peru e Chile têm disputa envolvendo direitos de pesca em seu litoral. O Peru promulgou uma lei no fim do governo Alejandro Toledo alterando a fronteira marítima entre os dois países, dando aos peruanos mais 35 mil km2. O Chile afirma que a iniciativa viola os tratados de limite da década de 1950. Nesta semana os dois países convocaram seus embaixadores e levaram o caso à Corte Internacional de Justiça, em Haia, que pode demorar até 5 anos para resolver a questão. Ou nem isso. A crise das papeleras entre Argentina e Uruguai se arrasta há quase tanto tempo e as decisões da Corte foram tão ambíguas que cada lado as interpretou como quis.

O conflito chileno-peruano é agravado pelas más práticas do passado. Primeiro, o Chile conquistou território desse país e da Bolívia na Guerra do Pacífico, no fim do século XIX, o que resultou numa situação de tensões até hoje não resolvidas. Para piorar, surgiram denúncias de que os militares chilenos contrabandearam armas para o Equador, durante o recente conflito desse país com o Peru, e tudo isso enquanto vigorava um embargo internacional (a Argentina, diga-se de passagem, fez o mesmo).

Com freqüência se trata da América do Sul como um continente onde as guerras foram poucas e tiveram importância reduzida. É um erro de avaliação que deve ser corrigido. Rivalidades militares e disputas nacionalistas são relevantes para o estudo da região. É preciso conhecer como surgiram, quais suas dinâmicas, que grupos ganham e perdem com elas. O notável é que as mais acirradas entre elas – Brasil x Argentina e Argentina x Chile – tenham dado lugar a cooperação política e econômica bastante intensa.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Inés da Minha Alma


Este ótimo romance de Isabel Allende conta a história de uma heroína chilena esquecida: Inés Suárez, uma das poucas mulheres a participar da conquista do país, no século XVI. Allende narra a epopéia em primeira pessoa, como autobiografia que Inés escreve, à beira da morte, para sua filha adotiva. O resultado é um painel fascinante, de aventura e paixão, dos primeiros anos da presença espanhola na América.

Inés é uma mulher do campo, rude e com pouca instrução, mas inteligente, observadora e habilidosa – na cozinha, na costura e na cama. Ela se casa com um galanteador fanfarrão, que parece um personagem de Jorge Amado, observa o diplomata indiano (e aficcionado pela América Latina) Rengaraj Viswanathan, em cujo blog li a resenha que me despertou o interesse por este romance. O marido a engana repetidamente e acaba por partir para a América, mas não sem antes ensiná-la a ser uma grande amante. Anos mais tarde, ela se cansa da falta de notícias e embarca para o Novo Mundo. Menos por amor e mais pelo descontentamento com o tédio e a falta de perspectivas de sua vida.

Na América, Inés passa rapidamente pelo que hoje são Venezuela, Colômbia e Panamá, e acaba na Cidade dos Reis – a Lima do conquistador Francisco Pizarro, uma sociedade de imensas riquezas, mas também de corrupção e violência. Mas é lá que ela conhece Pedro de Valdivia, militar veterano das guerras do Imperador Carlos V em Flandres e na Itália. Os dois se apaixonam e Inés se lança ao grande sonho de Pedro: a conquista do Chile, que no passado fora o limite austral do império Inca.

Isabel Allende é estupenda contadora de histórias e recria de modo bastante verossímil os detalhes do alvorecer da dominação colonial espanhola – a violência, o luxo desmedido, a ânsia de mando, os choques e trocas entre as culturas européias e os povos indígenas. As batalhas são descritas com exatidão de arrepiar, seja o célebre saque de Roma, sejam as campanhas dos conquistadores espanhóis contra os mapuche chilenos. Índios devotados à guerra que não se dobraram nem diante dos Incas, e logo aprendem as táticas da guerra moderna européia e passar a utilizá-las contra os invasores, com eficácia arrasadora.

Em muitos aspectos este romance se parece a “Desmundo”, de Ana Miranda, que também narra em primeira pessoa a saga de uma mulher européia nos primeiros anos da colonização do Brasil. Só que a heroína de Ana é uma órfã branca enviada de Portugal para povoar a terra com descendentes de europeus, sua história é de uma vítima constante e a metáfora que predomina é a da colonização como estupro. Inés é uma mulher ativa, senhora do próprio destino, protagonista do nascimento de uma nova colônia.

O único “senão” da forma escolhida por Allende é que a autora se sente incomodada com os aspectos mais brutais da conquista do Chile e às vezes força a mão para transferir esses sentimentos a sua heroina, fazendo que ela se manifeste criticamente aos castigos mais cruéis impostos aos índios. Gostei mais do método que Ian McEwan usou em “Na Praia” - um narrador distante e irônico que nos mostra como certos hábitos do passado são hoje ridículos, inaceitáveis e trouxeram tanto sofrimento inútil.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Chile: a panela de pressão


Uma amiga certa vez tomou o táxi em Santiago e perguntou ao motorista com qual povo latino-americano os chilenos mais se identificavam. O homem pensou um pouco e respondeu: “Com os ingleses”. Por essas e outras, muitos de nós os consideravam a mais tediosa população do continente. Algo mudou no país e o Chile tem vivido “tempos interessantes”, sem querer dar à expressão o mesmo peso dos antigos chineses, que a usavam para amaldiçoar os inimigos.

A notícia mais recente é a prisão da família do ditador Augusto Pinochet e mais de 20 pessoas de seu círculo íntimo, incluindo oficiais militares da ativa. A turma é acusada de roubar mais de US$20 milhões dos cofres públicos.

A segunda leva de notícias é a enorme quantidade de protestos sociais que têm ocorrido no governo da presidenta Michelle Bachelet.

A meu ver, as duas coisas estão ligadas.

A ditadura chilena teve caráter personalista que contrasta com suas contrapartes na Argentina e Brasil. Não há paralelo no Cone Sul ao culto de personalidade ao Tata, o “paizinho” Pinochet como o chamavam seus partidários. Pelo contrário, homens como o ditador argentino Jorge Videla são ilustrativos da tese da “banalidade do mal” de Hannah Arendt, justamente por seu aspecto apagado, nada carismático. Em outras circunstâncias seriam burocratas pacíficos que passariam a vida cumprindo suas obrigações rotineiras e regando o jardim aos domingos.

Não há nada parecido na Argentina e no Brasil com as velhinhas que idolatram Pinochet. O escritor Ariel Dorfmann observou o componente sexual desse tipo de manifestação. Não fosse a faixa etária das suplicantes, poderíamos tomá-las pela platéia de um show do High School Musical ou da Shakira. Veja a foto abaixo e diga se você concorda comigo e com Dorfmann:



Quando Pinochet morreu, em 2006 , sua desaparição de cena teve o efeito da retirada da tampa de uma panela de pressão. As pessoas se sentem mais seguras e confiantes na democracia e resolveram ir às ruas protestar, diz a Economist. Ou seja, deram vazão a sentimentos de descontentamento há muito latentes. Em grande medida são demandas por maior fatia no bolo da prosperidade da alta do cobre (movimento dos mineiros em la Escondida) e as greves da central sindical do país. Mas também os conflitos durante o aniversário do golpe militar, em 11 de setembro, as manifestações ambientais, as passeatas criticando a péssima reforma do sistema de transporte em Santiago e, claro, a Revolta dos Pingüins, o levante estudantil de 2006 que foi precursor da seqüência de protestos.



Bachelet cometeu erros de gestão em muitas dessas crises, mas em grande medida simplesmente deu azar de estar na presidência quando a torrente de insatisfação reprimida foi liberada. Sua popularidade caiu para apenas 35%.

Minha curiosidade com relação aos protestos é dupla: conseguirão remover as limitações à democracia no Chile? Provocarão alterações no modelo econômico do país? Quanto ao primeiro ponto, Pinochet legou aos seus compatriotas vários freios institucionais que limitam o controle civil sobre as Forças Armadas (incluindo a importantíssima questão das receitas do cobre, um percentual vai direto aos militares), além de impor um sistema eleitoral que favorece as zonas rurais, onde a direita é mais forte.

O segundo item é mais complexo, pois a economia chilena é presa a diversos compromissos internacionais (como mais de 50 tratados de livre comércio) que tornam difícil qualquer mudança significativa. O que os governos socialistas têm feito desde 1999 é intensificar os gastos com política social, para amenizar os efeitos mais brutais da desigualdade que se tornou comparável à brasileira.

Também é o caso de se perguntar se a liberalização dos costumes no Chile é causa ou conseqüência dos protestos, ou se vem tudo tão misturado que não dá para saber. Afinal, o país legalizou o divórcio, passa anúncios anti-AIDS na TV (para eles, foi uma tremenda ruptura!), elegeu uma mulher para a presidência. Andam cheios de saliência, os chilenos. Daqui a pouco resolvem organizar até carnaval.

E tomara que tenham uma política externa um pouco menos conflitiva com o resto da América do Sul. Até onde sei é o único país do continente que cogitava seriamente a possibilidade de guerrear simultaneamente contra todos os seus (três) vizinhos.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Salvador Allende



Voltei ao Brasil ontem à noite. À medida que organizo minhas anotações, escreverei mais sobre a experiência no Canadá, que foi excelente, e postarei fotos de Montréal. Hoje aproveito o aniversário do golpe de Estado no Chile para escrever sobre o documentário “Salvador Allende”, dirigido por Patricio Guzmán, que assisti no Festival de Cinema que fez parte do congresso da Associação de Estudos Latino-Americanos.

Guzmán é um cineasta chileno conhecido sobretudo por seu domentário “A Batalha do Chile”, sobre o governo da Unidade Popular, a coalizão de partidos de esquerda liderada por Allende. Seu filme sobre o ex-presidente não é uma biografia tradicional, trata-se antes de uma dissertação a respeito do impacto que as ações de Allende tiveram numa série de pessoas comuns e de como o país não conseguiu ainda recuperar a memória do que foi seu governo e os anos de confronto anteriores ao golpe de Pinochet.

A cena emblemática é o próprio Guzmán raspando um muro branco, próximo ao aeroporto de Santiago. Por baixo da pintura, descobre vestígios dos murais que foram parte importante do governo da Unidade Popular. Diante da hostilidade dos meios de comunicação, os partidários de Allende usaram os muros para transmitir mensagens políticas, protestar ou simplesmente expor sua arte. Não teve o mesmo impacto internacional do muralismo da Revolução Mexicana, mas vale conhecer a experiência.

A história de Allende é bem conhecida, o barato do filme de Guzmán é destacar seu lado mais humano e menos cerimonial, como suas tendências mulherengas. Uma das melhores entrevistas do documentário é com a secretária do ex-presidente, que também foi sua amante, e fala desse caso de amor com uma ternura na qual os silêncios contam mais do que as palavras cautelosas e hesitantes. Outro silêncio eloqüente é dos vizinhos de Allende, nas aristocráticas mansões do bairro alto de Santiago, que até hoje se recusam a falar do saque e da destruição da casa do presidente, que ocorreu logo após o bombardeio ao Palácio de La Moneda.

O Chile sempre foi um país marcado por grandes desigualdades sociais – que hoje, após quase 20 anos de ditadura, são em alguns aspectos piores do que as brasileiras. Politicamente, essas diferenças se expressaram numa enorme polarização partidária e os ódios nunca foram tão fortes quanto durante o governo Allende. Guzmán dá pouca, pouquíssima voz aos adversários do ex-presidente. O mais interessante é a entrevista com o ex-embaixador dos EUA no Chile, que faz um notável mea culpa, ainda que acuse o mandatário chileno de vários erros graves. Mas eu gostaria de saber mais a respeito daquelas respeitáveis senhoras de classe média que foram às ruas de panela na mão pedir a deposição de Allende.

Por coincidência, antes de viajar ao Canadá eu havia lido “Canção Inacabada – a vida e a obra de Victor Jara”, biografia escrita por sua viúva Joan. Admirava Jara por suas belíssimas canções (minha favorita é Te Recuerdo Amanda) mas desconhecia totalmente sua importância como diretor de teatro. O livro de Joan é uma tocante história da vida cultural chilena nos anos 60 e 70 e chama a atenção o quanto havia de comum com o que ocorria no Brasil e na Argentina.



Jara foi um fiel defensor de Allende e compôs até o hino da Unidade Popular, Venceremos. Os militares odiavam Jara, que ao lado de Neruda era a principal figura da cultura chilena naqueles tempos. Seus algozes o prenderam no dia do golpe e o levaram ao Estádio Nacional, onde lhe quebraram os pulsos e o mataram sob tortura.

Convivo com muitas pessoas (brasileiras e chilenas) que participaram com entusiasmo do governo da Unidade Popular e sempre me impressiono com o carinho e a emoção com que elas descrevem a época. Para esses amigos e mestres, ficam estas breves palavras, num dia de lembranças por uma América que também é nossa.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Vinho e Relações Internacionais



Artigo na The Economist desta semana fala sobre a competição entre as indústrias vinícolas da Argentina e do Chile, dando vantagem à primeira. O texto tem acesso restrito na Internet, não dá para linkar, mas ele me fez pensar em como o vinho se vincula às relações internacionais, com aplicações para economia, turismo e até identidades nacionais.

A indústria do vinho na Argentina passa por um momento de renovação e crescimento. Depois da brutal desvalorização do peso em 2002, o investimento estrangeiro se multiplicou no setor e com ele, inovações técnicas. Até então a maioria dos vinhos argentinos era produzida para consumo local e não tinha boa reputação no mercado externo. Forte contraste com o Chile, cujos vinhos há muito são um dos principais produtos de exportação nacionais.

O centro da indústria vinícola na Argentina é a encantadora cidade de Mendoza, à sombra dos pontos mais altos da Cordilheira dos Andes. A província é rica em petróleo, mas o vinho – e o turismo gastronômico associado a ele – estão mudando para melhor a região. Fiquei deslumbrado pela beleza de Mendonza, pela amabilidade das pessoas e pela excelente infra-estrutura disponível para os turistas.

Mendoza é a terra da uva Malbec, que serve de base para o tipo de vinho tinto mais famoso na Argentina. Variedade típica do país, ao ponto de ter se tornado um instrumento poderoso de marketing. Agrega valor, diriam os economistas. Em comparação, o Chile produz uvas tradicionais como Cabernet Sauvignon e Chardonnay.

Quem compra vinho não busca apenas uma bebida, está à procura também de um certo estilo de vida, de uma imagem glamourosa e idealizada de prazer e sofisticação. Quem viu filmes como “Mondovino” e “Um Bom Ano” sabe do que falo. Nesse sentido, a Argentina tem muito a oferecer, pela visão que muitos estrangeiros têm do país como uma terra apaixonada, qualidade que se ressalta em seus mitos nacionais, como Maradona, Evita, Che Guevara.

A reportagem da The Economist afirma que isso ajuda nos negócios e estou de acordo. O conceito que utilizamos na ciência política é “poder macio”, isto é, elementos simbólicos e culturais que ajudam um Estado a alcançar seus objetivos políticos e econômicos.

Exemplo é o efeito provocado pelo filme “Sideways”, ambientado nos vinhedos da Califórnia. Há uma identificação entre o protagonista da história, um homem sensível mas deprimido e de trato difícil, com o Pinot Noir. Pois bem, o filme provocou grande aumento nas vendas desse vinho, além de ser um tremendo cartão-postal turístico para aquela região dos Estados Unidos.

Um vinicultor francês do século XVIII, o barão de Montesquieu, dizia que o “doce comércio” aproxima os povos e adoça os costumes, contribuindo para a paz. Entre uma adega e outra escreveu alguns dos mais importantes tratados políticos da humanidade, como O Espírito das Leis, em cujo prólogo afirma que a fama de seus livros contribuiu em muito para o sucesso de seus vinhos. Suponho que o velho barão entenderia plenamente a situação atual, quem sabe escrevendo a respeito, embalado por um bom Malbec argentino.