
Muitos alunos têm me perguntado o que irá acontecer com o Mercosul, em particular caso a oposição vença as eleições presidenciais brasileiras. O bloco perdeu importância e enfrenta problemas sérios, mas a recente Cúpula de San Juan, realizada nesta semana, marcou avanços importantes. Primeiro, foi finalmente aprovado o Código Aduaneiro do Mercosul, que entre outras coisas elimina a dupla cobrança da Tarifa Externa Comum (TEC). Explico: Além um produto que era importado, digamos, pelo Brasil, pagaria novamente a tarifa quando ingressasse no Paraguai. Era necessária coordenação entre as autoridades alfandegárias para eliminar o problema. Agora, parece que isso acabou. A ver.
Mas a TEC continua a apresentar dificuldades. Os países do bloco supostamente cobram os mesmos impostos de importação para produtos que vem de fora de sua área geográfica, enquanto entre eles a maioria das mercadorias circula livremente (há exceções importantíssimas, como automóveis e açúcar). Mas há variações na TEC. Uruguai e Paraguai têm mais flexibilidade nela, e a Argentina a modificou na marra e impôs proteções extras aos parceiros, em meio às suas turbulências políticas e econômicas.
Os membros do Mercosul acordaram em San Juan beneficiar o Haiti com tarifas de importação mais baixa. A idéia tinha sido lançada pelo Brasil há alguns meses, e o objetivo era fazer algo parecido com o HOPE Act, por meio do qual os Estados Unidos abrem seu mercado para as exportações haitianas. Sobretudo de têxteis e vestuário, que chegaram a ser uma atividade econômica importante no país, antes das sanções da década de 1990. Difícil prever se o Haiti pós-terremoto poderá se beneficiar das oportunidades no Cone Sul. Fica a torcida.
O Mercosul acordou em San Juan um tratado de livre comércio com o Egito. É o segundo que o bloco assina com um país de fora da América Latina – anteriormente, só havia um com Israel. O Egito é um mercado promissor para o agronegócio da região, e o acordo pode ser uma porta de entrada importante para aumentar os negócios com o mundo árabe.
Brasil e Argentina também aprofundaram entendimentos na área nuclear. O presidente Lula aproveitou a ocasião para defender o direito iraniano a um programa nuclear pacífico. Acredito que o discurso foi motivado pela determinação em manter o diálogo com o governo Ahamadinejad com respeito à libertação de Sakineh Mohammadi Ashtiani, a mulher condenada à morte por apedrejamento por supostamente ter cometido adultério, e a quem o Brasil ofereceu asilo.
A Argentina tem apoiado a mediação brasileira nas crises envolvendo o Irã, apesar das autoridades da República Islâmica terem patrocinado dois terríveis atentados em Buenos Aires, na década de 1990, que destruíram a embaixada de Israel e a organização judaica AMIA. A Interpol tem mandatos de prisão para vários dirigentes iranianos, inclusive para o atual ministro da Defesa.






