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segunda-feira, 26 de março de 2012

A Liberdade dos Servos

O filósofo Maurizio Viroli, professor em Princeton, é um dos mais destacados intelectuais italianos. Seu novo livro, “The Liberty of the Servants”, é uma análise lúcida e sombria do declínio da democracia no longo governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, e também um diálogo com teóricos políticos de Maquiavel a Bobbio sobre a dificuldade histórica da Itália em estabelecer regimes democráticos efetivos. A experiência anterior, da reunificação sob uma monarquia constitucional, desmoronou com o advento do fascismo em 1922, e Berlusconi é o homem que por mais tempo comandou a república italiana!

Viroli classifica o governo de Berlusconi como uma “sociedade de Corte”, na qual as instituições tradicionais de equlíbrio democrático foram corroídas pela enorme concentração de poder nas mãos do primeiro-ministro, que era também o homem mais rico do país e o principal empresário de mídia. Berlusconi foi extremamente hábil em distribuir os espólios desse império, construindo uma rede impressionante de aliados e mantendo até a oposição razoavelmente satisfeita com nacos de cargos e verbas públicas.

O filósofo observa que esse sistema não tem paralelos em nenhuma democracia ocidental, e que seria preciso compará-lo com regimes autoritários como a Rússia de Vladmir Putin para encontrar casos semelhantes. A questão é por que a Itália chegou ao ponto de aceitar algo assim, e Viroli nota a extrema dificuldade do país em construir um Estado de Direito vigoroso e democrático. A reunificação gerou uma nação frágil, com enormes desigualdades regionais e a persistência de relações autoritárias no campo, sobretudo no sul. A república pós-Segunda Guerra Mundial teve desenvolvimento econômico, mas com uma vida política marcada pela corrupção e pelo clientelismo, com um mundo partidário que naufragou nos escândalos do início da década de 1990, abrindo espaço para a ascensão vertiginosa de Berlusconi (aos interessados nesse tipo de discussão, vale ler também "The Pursuit of Italy", do jornalista britânico David Gilmour)

O ponto mais controverso do livro é que Viroli com frequência atribui as falhas da Itália a problemas de psicologia coletiva dos italianos, a quem ele atribui sérias deficiências de caráter, como a desconfiança constante, baixa autoestima e uma tendência a aceitar situações de servidão, em vez de buscar a autonomia que seria a marca dos verdadeiros cidadãos. Nesse sentido, o sucesso midiático de Berlusconi seria apelar a traços profundos da cultura política italiana, apresentando-se como uma espécie de caudilho dinâmico e sempre vitorioso, que não se importa com dogmas políticos e é pragmático para alcançar seus objetivos. Viroli pouco trata dos escândalos sexuais, considerando-os – a meu ver, com razão – como uma faceta secundária do fenômeno Berlusconi.

A Itália é formada por muitos componentes contraditórios e Viroli concentra-se em seus defeitos e problemas mais sérios, mas o país também tem tradições impressionantes de civismo, ética e mobilização política – o republicanismo cívico da Renascença, certas correntes do Risorgimento, a resistência ao fascismo, a tradição de bom governo regional e municipal no centro-norte, uma impressionante vida artística e intelectual. O cinema tem nos dado diversas reflexões interessantes sobre Berlusconi e o recente filme de Nani Moretti, “Habemus Papam”, também é boa discussão sobre o vácuo de liderança no país e sobre as enormes responsabilidades exigidas dos líderes.

***

As últimas semanas foram bastante movimentadas em termos de entrevistas. Aqui seguem os links:

Perspectivas de Carreiras em Relações Internacionais no Brasil (Globo)

Queda no comércio entre Brasil e Irã (Valor Econômico)

Brasil como doador internacional (IPS)

Há também a publicação de meu artigo mais recente, "Democracia e Política Externa no Brasil", na Revista de Estudos Políticos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Último Bunga Bunga em Roma



A crise na Europa faz mais duas vítimas, com a renúncia (efetiva) do primeiro-ministro da Grécia e (anunciada) de seu homólogo da Itália. Ninguém acredita que a mudança nos governos resolverá os problemas, que são ecumênicos do ponto de vista ideológico: afetam a esquerda grega e a direita italiana. Algo semelhante ocorreu em Portugal e deve acontecer na Espanha no dia 20. Em todos esses países, a liderança política está sendo substituída por sua incapacidade de formular ou implementar soluções para a turbulência econômica. A Itália é o caso mais impressionante, porque sua descida ao abismo se dá numa situação de relativa tranquilidade financeira.

O paradoxo se explica da seguinte maneira: a Itália tem superávit primário, isto é, arrecada mais do que gasta antes de pagar os juros de sua dívida. Só que ela é imensa – maior do que a soma dos débitos da Espanha, Portugal e Irlanda. Mas como mostra o gráfico abaixo, a crise na União Européia elevou os juros no continente, ao ponto de tornar o governo italiano insolvente.



Para as autoridades regionais, Berlusconi era parte do problema e o primeiro-ministro vinha sendo submetido a cobranças humilhantes, como ter que apresentar relatórios trimestrais comprovando que vem implementando cortes de gastos públicos e restringindo benefícios sociais. Foi hostilizado nas cúpulas européias por seus colegas da Alemanha e da França. A crise econômica fez o que os escandâlos repetidos envolvendo sexo e corrupção não conseguiram: dividiram a base aliada de Berlusconi e o fizeram perder a maioria no Parlamento.

Esta é a terceira vez que Berlusconi ocupou o cargo de primeiro-ministro e ele foi o homem que por mais tempo foi chefe de governo na Itália desde a proclamação da República. Sua ascensão, em 1994, deu-se sobre os escombros de um sistema partidário desacreditado por corrupção e envolvimento com crime organizado. A morte de Berlusconi foi proclamada com alarde nas duas ocasiões anteriores em que deixou o posto, e não está claro que esta seja a última vez. As condições sociais que geraram seu fenômeno político continuam presentes. Deixa um legado de estagnação e dificuldades crônicas.

Berlusconi e Papandreou, o ex-primeiro-ministro grego, são políticos populares com ampla base de apoio. Não caíram por perder eleições, mas pelo desgaste em sua coalizão parlamentar, em função das tensões trazidas pelas pressões da União Européia por ajustes fiscais. Nos moldes do modelo proposto pelo economista Dani Rodrik (Harvard) é o “trilema” entre Estado-nacional autônomo, democracia e integração ampla à economia global. Na Reuters, Felix Salmon esboça um quadro mais matizado: a de que as contradições entre exigências internacionais e demandas sociais locais só consegue ser solucionada por líderes habilidosos e carismáticos, escassos na Europa de hoje. Salmon cita o ex-presidente Lula como modelo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Vergonha da Itália



Este é o primeiro de uma série de posts comentando os melhores filmes a que assisti no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, particularmente bom neste ano. Começo com dois documentários que tratam do declínio da Itália nesta época de crise econômica e de governo de Silvio Berlusconi.

“Itália, ame-a ou deixe-a” trata de dois rapazes que viajam pelo país conversando com pessoas sobre os problemas italianos, para decidir se irão emigrar (como fizeram vários de seus amigos) ou se permanecem e tentam mudar as coisas. O título é original, não é uma referência ao slogan do regime militar brasileiro.

O filme é surpreendente leve e bem-humorado, muito por conta da personalidade de um dos protagonistas, natural do Tirol, região italiana na qual a língua materna é o alemão, e que desempenha o papel de um cético rabugento, a todo tempo citando estatísticas que mostram o descalabro do país. Exemplo: apenas 15% de jovens na universidade, o índice mais baixo da União Européia!

No giro pela Itália, os dois rapazes vêem de tudo: crime organizado, corrupção, salários baixos, precarização do trabalho, cultura de massas vulgar e sórdida, degradação ambiental, descaso com o patrimônio histórico do país, maus tratos a imigrantes africanos, a persistência do fascismo e do autoritarismo na sociedade. Mas também encontram pessoas interessantes que estão engajadas em ações de transformação social. Não é um filme pessimista, mas chama a atenção o declínio acentuado com relação à prosperidade e criatividade do país nas décadas passadas.

O gráfico abaixo ajuda a entender os problemas, com a estagnação italiana desde a adoção do euro em 2002. O país perdeu competitividade internacional e enfrenta dificuldades crescentes para se manter solvente por conta da elevação das taxas de juros.



O documentário trata, claro, de Berlusconi – uma das sequências mais assustadoras é o encontro dos rapazes com um grupo de idosas que admiram o primeiro-ministro. Ele é o protagonista de “Para Sempre Silvio”, biografia não-autorizada e para lá de irônica, mas editada somente com seus discursos e declarações. Ou de pessoas próximas a ele, como sua mãe, mostrada no vídeo abaixo.



O filme trata brevemente de sua carreira como empresário, que o levou a se tornar o homem mais rico da Itália, mas concentra-se em seu envolvimento com a política. Depois que o sistema partidário italiano entrou em colapso com escândalos de corrupção, Berlusconi criou seu próprio partido e elegeu-se repetidas vezes com teatro público que tornou o primeiro-ministro célebre – ou infame – no mundo todo.

Os dois documentários por vezes acabam caindo na armadilha de focar nos escândalos sexuais de Berlusconi – assunto privado. Se ele organiza orgias com prostitutas com seu dinheiro, não é uma questão de Estado. Esse lado espalhafatoso do primeiro-ministro afasta o debate do que realmente importa: sua gestão da política pública italiana, a concentração de poderes em suas mãos e os riscos que representa para as instituições do país.

Dois livros recentes de intelectuais italianos renomados chamaram minha atenção. Na Foreign Policy, o jornalista Beppe Severgnini discute sua nova obra com 10 razões pelas quais Berlusconi se mantém no poder – sobretudo por meio de redes de clientelismo e corrupção.

E a Foreign Affairs publica trecho do novo estudo do filósofo Maurizio Viroli sobre a “tirania velada” do primeiro-ministro. Embora ele nunca tenha dado golpes de Estado, Viroli elenca vários motivos pelos quais o premiê ameaça a democracia, do cerceamento à liberdade de imprensa ao envolvimento com o crime organizado. O autor aponta também a fragilidade estrutural da sociedade da Itália, observando como os períodos de democracia liberal foram curtos e instáveis no país.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Significados do Terrorismo: Brasil e Itália


A decisão do Supremo Tribunal Federal em libertar Cesare Batistti e não extraditá-lo para a Itália é um desfecho previsível diante das posições adotadas pelo ex-presidente Lula e pelo ex-ministro da Justiça Tarso Genro, mas a força da reação italiana mostra que nos dois países o terrorismo tem significados muito diferentes, que afetam suas relações diplomáticas. Tema especialmente caro a quem, como eu, é cidadão de ambas as nações.

No Brasil, “terrorista” era o epíteto que a ditadura militar dava a muitos de seus oponentes. Os da oposição armada preferiram outras denominações, como “guerrilheiros”. O abuso das doutrinas de segurança nacional pelo regime autoritário contribuiu para tornar os militantes da extrema-esquerda símbolos de idealismo e dedicação, até para pessoas que não compartilham de seu projeto político marxista. A palavra “terrorista” virou, compreensivelmente, um termo que raramente é usado, nem mesmo para classificar os atentados a bomba da direita (Riocentro, OAB) ou certas ações do crime organizado em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A Itália após a Segunda Guerra Mundial viveu somente sob democracia, mas numa combinação de crescimento econômico acelerado com problemas sérios, como partidos muito corruptos e a persistência de bolsões de pobreza e da desigualdade regional Norte-Sul. O mal-estar se traduziu na década de 1970 na eclosão de conflitos entre grupos extremistas armados, de esquerda e de direita, sendo que estes últimos com frequência tinham vínculos com o Estado italiano.

Battisti estava na cadeia por crimes comuns quando ingressou num grupo da esquerda armada. Fugiu e foi preso novamente, em flagrante, com armas ilegais, explosivos e documentos falsos, e condenado por terrorismo, e crimes como assassinato e roubo. Uma das vítimas viu o pai ser assassinado e ficou paraplégica em consequência dos tiros que levou. Battisti fugiu durante o processo e foi julgado à revelia, com base na delação premiada de colegas de sua organização, depoimentos de testemunhas e provas recolhidas pela polícia. Ele afirma ser inocente e questiona a validade da condenação judicial que sofreu. Há denúncias de irregularidades no processo. A sentença foi confirmada por tribunais da França e pela Corte Européia de Direitos Humanos.

O terrorismo foi um golpe duro para a democracia na Itália, em especial para a esquerda, que foi prejudicada eleitoralmente porque os eleitores associaram até os moderados à violência extremista. O governo brasileiro tenta transformar o caso Battisti numa cruzada contra o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, afirmando que sua condenação foi vingança ideológica da direita. Não é assim. Intelectuais progressitas italianos, como Umberto Eco, também defendem a extradição de Battisti.

O governo brasileiro tem usado com frequência o argumento da soberania, de que a Itália tem que respeitar a opção do Brasil em conceder refúgio político a Battisti. A retórica contradiz a prática - as autoridades brasileiras não aceitaram a decisão soberana da Justiça italiana em condená-lo por terrorismo.

Ao fim, o labirinto jurídico serve apenas para esconder a motivação partidária da decisão do governo brasileiro em proteger o integrante da organização Proletários Armados pelo Comunismo. Se Battisti fosse membro de um grupo da extrema-direita da Itália – digamos, Burgueses Armados pelo Capitalismo - já teria sido extraditado há muito tempo. Mas num Estado de Direito as leis devem ser iguais para todos, independente das ideologias que escolhemos para tentar dar sentido a este mundo confuso.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Arte e política na Itália: Vincere e Caro Michele



Poucos países tem uma tradição de arte política tão forte quanto a Itália. Gosto especialmente do cinema na segunda metade do século XX e de sua belíssima crônica das esperanças e desapontamentos do período. A Itália contemporânea é um estudo de caso para o declínio de valores éticos, mas suas produções artísticas continuam a maravilhar, mesmo que não com a mesma freqüência da época mais rica.

“Vincere” [vencer, um dos brados dos fascistas], de Marco Bellocchio, é um olhar original sobre o fascismo, a partir de uma história pouco conhecida: o romance entre Benito Mussolini e a empresária Ida Dalser. Ela se tornou sua amante quando ele era um jovem e provocador jornalista de extrema-esquerda, nos anos que precederam a I Guerra Mundial. A eclosão do conflito dividiu os socialistas em toda a Europa, e Mussolini foi talvez o mais estridente entre os que abraçaram a causa bélica. No decorrer de quatro anos em que a Itália sofreu derrotas fragorosas, ele virou um nacionalista agressivo e um homem de direita.

Mussolini já era casado quando conheceu Ida, mas os dois tiveram um filho. A relação não era um problema nos tempos da militância socialista, porém virou um obstáculo político à medida que o fascismo ascendia e pregava um ideal bastante conservador de família, incompatível com os casos extraconjugais do Duce. Ida acabou num hospício, e o filho, criado por um ativista fascista.

Bellocchio usa a história de amor para fazer a anatomia da loucura do fascismo, sobretudo na sequências ambientadas nos diversos hospícios em que Ida é internada. Numa das melhores cenas, as internas cantam a altos brados os hinos fascistas, numa paródia que me lembrou a excelente peça Marat/Sade, de Peter Weiss, na qual o Marquês de Sade encena momentos decisivos da Revolução Francesa com seus colegas de encarceramento no hospício.

Destaque para o ótimo roteiro e uma dupla de atores sensacionais: Giovanna Mezzogiorno, como Ida, e Filippo Timi, que interpreta Mussolini e seu filho. Ele soa mais convincente e carismático do que o próprio Duce: imagens de época, exibidas no filme, o retratam como um canastrão risível, com mais do que uma semelhança ocasional com o atual primeiro-ministro Silvio Berlusconi...

Em suma, Bellocchio completa com este filme seu ensaio sobre outra loucura política italiana, a da extrema-esquerda, em seu ótimo “Bom Dia, Noite”, sobre as Brigadas Vermelhas.



A luta armada italiana é o tema de um belo e triste romance epistolar, “Caro Michele”, de Natalia Ginzburg, recém-publicado no Brasil. Ambientado no início dos anos 70, é a história de um rapaz (em italiano, Michele é o equivalente a “Miguel” em português) que se envolve com um grupo comunista em meio à uma intensa crise pessoal. Enquanto sua vida íntima cai aos pedaços, ele se envolve num conflito que não entende.

Acompanhamos seus dilemas por meio de cartas e bilhetes trocados entre ele, sua mãe, irmãs, o melhor amigo, uma moça a quem talvez tenha engravidado e outros personagens. A família é de uma confortável classe média e a correspondência entre os integrantes pulula de preconceitos: contra os pobres, homossexuais, e a incompreensão com as escolhas políticas do filho único. No belo texto de Ginzburg, a maior parte das coisas importantes não é dita, ou está nas entrelinhas, num jogo de silêncios e incompreensões que pavimenta o caminho para o destino trágico da geração dos anos de chumbo italianos.

Ginzburg escreve com conhecimento de causa: militante histórica da esquerda italiana, seu primeiro marido foi morto na prisão, durante o fascismo, e ela eurodeputada pelo Partido Comunista.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cesare Battisti e a Itália de Chumbo



Depois de confuso e controverso processo no Supremo Tribunal Federal, é improvável que o presidente Lula decida extraditar Cesare Battisti à Itália, país no qual ele foi condenado por diversos crimes, em sentenças posteriormente confirmadas por tribunais da França e pela Corte Européia de Direitos Humanos. Manter Battisti no país viola o tratado de extradição entre Brasil e Itália e por isso o Ministério das Relações Exteriores e o Comitê Nacional para os Refugiados se opuseram à concessão do refúgio.

Os debates sobre o caso Battisti no Brasil dedicaram pouco espaço à análise da conjuntura da Itália nos anos de chumbo e é isso que pretendo fazer neste post – como possuo dupla cidadania, brasileira e italiana, a crise entre os dois países me diz respeito de perto.

Nas décadas de 1960 e 1970 a Itália enfrentou problemas sérios de violência política. Era uma jovem e frágil democracia, e muitos de seus líderes tiveram papéis de relevo no regime fascista. Isso levou a nova geração do pós-guerra a desprezá-los, e questionar a legimitidade de instituições representativas vistas como anêmicas e pouco mais do que uma cortina de fumaça para o domínio da elite tradicional. Os ativistas de extrema-esquerda formaram grupos armados, dos quais o mais conhecido foram as Brigadas Vermelhas. Houve equivalentes da extrema-direita, a ação de esquadrões neofascistas se tornou notória, em particular no norte do país.

O Partido Comunista Italiano (PCI), em seus anos de glória, era conhecido pelo brilhantismo intelectual de seus dirigentes, do naipe de Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti. Embora sem conquistar o poder no nível nacional, o PCI se estabeleceu como bom administrador regional no centro-norte, em particular em Bolonha, a “cidade vermelha”.

Na década de 1970, o PCI criou o “eurocomunismo”, rompendo com o autoritarismo soviético e se firmando como alternativa plausível ao poder. Foi então que o primeiro-ministro Aldo Moro, da democracia-cristã optou pela política do “compromisso histórico”, de aliança com os comunistas. Isso foi demais para os radicais e nesse contexto as Brigadas Vermelhas sequestraram e mataram Moro. Apesar da esquerda moderada sempre ter condenado esse tipo de ação, muitos analistas acreditam que o terrorismo dos pequenos grupos comunistas a atingiu, eliminando suas chances de ascender à chefia de governo. Isso só aconteceu no pós-Guerra Fria, com o sucessor bem mais conservador do PCI, o Partido Democrático de Esquerda.



Cesare Battisti havia sido por roubo, na prisão conheceu radicais políticos e se juntou ao grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), uma dissidência das Brigadas Vermelhas que rompeu com a organização principal por achar suas estruturas decisórias muito centralizadoras. A segunda foto deste post os mostra em ação e se tornou uma das imagens mais conhecidas dos anos de chumbo da Itália. Battisti foi condenado por envolvimento em quatro homicídios cometidos pelo PAC, alguns contra policiais e militantes fascistas, outros contra comerciantes que reagiram a assaltos. Ele nega ter participado desses crimes, mas os tribunais de dois países e da União Européia concluíram de forma contrária.

Battisti foi preso na Itália, mas fugiu e rumou para a França, onde ficou alguns anos sob a proteção da Doutrina Mitterand. O presidente francês, ansioso por agradar a seus aliados comunistas, críticos de sua política econômica, havia decidido abrigar os ativistas políticos de esquerda condenados em outros países. A Doutrina foi abolida na década de 2000, pela pressão dupla de governos conservadores e dos tribunais europeus, que a julgaram incompatível com as leis anti-terrorismo do continente. Battisti passou à clandestinade na França e veio para o Brasil.

O Ministro da Justiça, Tarso Genro, baseia sua decisão de conceder refúgio a Battisti em dois argumentos principais: seus crimes teriam sido de natureza política e os tribunais italianos não teriam legitimidade para agir de forma independente do Executivo – em sua declaração mais recente, o governo Berlusconi seria um exemplo de “fascismo galopante”.

A Justiça brasileira entende “crime político” como aquele em que a vítima é condenada em função de sua opinião. Essa definição exclui, por exemplo, assassinatos cometidos por motivação política. Se não fosse assim, Bin Laden teria que ser acolhido no Brasil, segundo a classificação de Genro.

Quanto à avaliação que o ministro faz do regime político italiano, ela pouco importa. Afinal, Battisti também foi condenado na França e na Corte de Direitos Humanos da União Européia.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Kaká Derrotou Berlusconi



A política européia neste ano tem sido uma sucessão de escândalos em meio ao agravamento da crise econômica. As eleições ao parlamento europeu registraram grau recorde de abstenção, que já vinha em queda nos últimos anos. Pouco mais de 40% dos eleitores votaram. Os resultados favoreceram os partidos de direita e, mais do que isso, marcaram derrotas históricas para a esquerda, em diversos países.

O governo britânico está ameaçado de cair, devido ao desvio de recursos públicos pelos parlamentares do país. Mas é na Itália – como sempre – que os conflitos atingem o paroxismo da farsa. O primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, declarou que o desempenho abaixo do esperado de seu partido nas eleições européias foi culpa do ruidoso divórcio com sua ex-mulher, da modelo menor de idade com quem que ele teve uma, digamos, amizade festiva, e do jogador de futebol Kaká, que acabou de trocar o Milan pelo Real Madri. Um elenco e tanto.

Contudo, os movimentos conservadores que venceram as eleições o fizeram sem triunfalismo, com muitas divisões, em particular entre a direita liberal e os partidos extremistas que têm expandido sua força.

Na Itália isso ficou muito evidente. O PDL de Berlusconi é uma fusão de seu antigo Forza Itália com a Aliança Nacional (uma dissidência dos neofascistas do Movimento Social Italiano). A sigla teve 35% dos votos para o Parlamento Europeu, cerca de 10 pontos abaixo do que era esperado. Quem se beneficiou não foi a oposição de esquerda, que continua desorientada diante do inimitável primeiro-ministro, e sim os adversários ainda mais à direita – a Liga Norte, que dobrou sua votação com uma campanha anti-imigração.

Em parte isso se deve às particularidades regionais da Itália. A abstenção foi mais alta no sul e nas ilhas, onde Berlusconi tem sua base de apoio. A Liga Norte bateu forte na política externa do primeiro-ministro, criticando a proposta de que a Turquia se torne membro da União Européia. Os temas diplomáticos ainda devem render mais polêmicas na Itália, agora que Berlusconi recebeu o ditador líbio Kadaffi, que tem se reaproximado da antiga metrópole por razões econômicas.

E, claro, o Milan perdeu Kaká. Talvez seja mesmo o começo do fim de Berlusconi.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Gomorra



Não é todo dia que chega às telas um filme sobre crime organizado tão poderoso quanto “Gomorra”. Baseado no livro do jornalista Roberto Saviano, é uma dissecação do funcionamento da máfia de Nápoles, a Camorra. Daí o título da obra, além dos óbvios ecos bíblicos para uma cidade dominada pelo pecado.

O filme está estruturado como uma coleção de cinco histórias contadas simultaneamente, o que às vezes pode confundir o espectador. Duas dizem respeito a gangsters de baixo escalão – um adolescente dando os primeiros passos na vida criminosa e um homem de meia idade que executa serviços burocráticos para a Camorra - tentando se (re)adaptar às circunstâncias de uma guerra entre grupos mafiosos rivais. Em outra subtrama, dois jovens pé-rapados resolvem tentar grandes golpes, sempre atrapalhados, para se tornarem bandidos respeitados. Roubam drogas de uma quadrilha de imigrantes e furtam armas da Camorra, mas são marcados de morte pelos chefões. Essas são as narrativas mais tradicionais no filme.

As duas mais interessantes – e que a meu ver deveriam ter ganhado mais destaque na produção – falam das relações da máfia com a economia global. Numa delas, um alfaiate que trabalha para uma confecção semi-falida é cooptado por uma empresa têxtil chinesa, ilegal, para treinar seus operários a entrar no mundo da alta-costura. Tratado como um herói, e pago regiamente, ele logo se supreenderá com o fantástico alcance de seus produtos, mas também com a reação furiosa que seu sucesso desperta. Na outra, um elegante executivo faz a ponte entre a Camorra e grandes empresas internacionais, que querem despejar seu lixo tóxico no sul da Itália. Mas seu jovem assistente começa a ter problemas de consciência.



A maioria dos filmes sobre a máfia apresenta criminosos que se vestem como reis de moda e se comportam como CEOs de grandes corporações, às vezes quase numa paródia do mundo empresarial. Em “Gomorra”, tudo é mais sujo, pobre, feio, mesquinho, como no conjunto habitacional napolitano que é cenário para duas das histórias. Os chefões são tão estropiados quanto seus capangas. Do ponto de vista lingüístico, isso é simbolizado pelo uso do dialeto napolitano, no qual a maior parte do filme é narrado. Só os personagens conectados à economia global falam italiano, e ironicamente isso pode abarcar dos imigrantes chineses ilegais ao executivo que lida com lixo tóxico – e que a dado momento diz a seu assistente melhor frase de “Gomorra”: “Pessoas como eu e você botamos esta merda de país na Europa”.

A publicidade do filme no Brasil vem tentando vendê-lo como “a Cidade de Deus italiana”. Típica bobagem de marketing fácil. Em muitos aspectos, “Gomorra” é o oposto da famosa produção brasileira, pois não glamouriza a violência e nem mostra os bandidos como alienígenas sem relação com o resto da sociedade. As mazelas da Itália estão expostas no filme, o eterno drama de seu Estado incompleto e da fragilíssima integração nacional, agora piorados na medida em que o território do país se torna passagem para rotas do crime organizado internacional. Senti falta apenas de histórias que mostrassem a relação da Camorra com a política e a polícia.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A Itália de Berlusconi


Houve um tempo em que a Itália era referência para a esquerda mundial, tanto pela notável qualidade de seus pensadores e artistas quanto pelas gestões municipais bem-sucedidas do Partido Comunista. Naturalmente, esse quadro pertence a um passado distante. A Europa atual é conservadora, de direita ou de centro, e mesmo nesse cenário a vida política italiana como sendo particularmente refratária às mudanças. O símbolo mor desse imobilismo sem dúvida é o primeiro-ministro e magnata da mídia Silvio Berlusconi, alvo do documentário satírico "Viva Zapatero!", dirigido pela humorista Sabina Guzzanti.

Guzzanti é famosa por seu humor mordaz e em pleno reinado de Berlusconi foi convidada pela TV pública, a RAI, para montar um programa cômico sobre a política italiana. Durou apenas uma apresentação. Apesar do sucesso de audiência, a emissora o cancelou quando a metralhadora giratória de Sabina se voltou contra o primeiro-ministro, em particular os riscos da concentração de poder em suas mãos oriundos do controle das emissoras públicas e e de suas próprias empresas privadas.

O caso não foi isolado. Além de Guzzanti, jornalistas de prestígio na Itália, como Enzo Biagi (que narrou a queda do fascimo em 1943!) e Michele Santoro (nenhum parentesco com este blogueiro!) perderam os empregos na RAI por suas críticas a Berlusconi. "Viva Zapatero" é um acerto de contas de Guzzanti com a cultura da censura e do medo que se instalou na Itália, e que levou o país a ser classificado pela Freedom House como "parcialmente livre" no que toca à imprensa, na mesma escala de muitas nações latino-americanas e africanas.



O título faz menção à decisão do primeiro-ministro da Espanha de retirar seu poder de nomear os executivos da TV pública, mas apesar da referência os modelos que Guzzanti cita no filme são o Reino Unido e a França, cujos jornalistas e humoristas comentam horrorizados os rompantes autoritários que observam na Itália. Um exemplo é o editor da revista britânica The Economist, que fala sobre os processos milionários que Berlusconi moveu contra a publicação - aliás, ele perdeu!

Indignação ausente em boa parte da oposição italiana, cujos interesses se misturaram tanto aos de Berlusconi que por vezes é difícil distingir quem é governo e quem o critica. Muitos dos melhores momentos do filme vêm dos depoimentos constrangedores dos líderes oposicionistas.

Os governistas são mais diretos e basicamente afirmam que Guzzanti não fazia "sátira" ou "humor", mas jornalismo, e que portanto tinha a obrigação de ser imparcial. Tanto quanto os jornais de Berlusconi, presume-se, e os retratos da mídia oficial oferecidos no filme são impagáveis, e fazem a Fox News ou a Veja parecerem... Bem, fazem com que eles se pareçam como as versões locais da mediocridade italiana.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Meu Irmão é Filho Único



Houve um tempo em que o cinema italiano era referência internacional e formou gerações de cinéfilos, encantados com ladrões de bicicletas, partigiani que lutavam contra fascistas ou com os heróis cômicos que povoam as impagáveis comédias do país. Não é fácil criar à sombra de talentos como Fellini, Rossellini, Antonioni ou Monicelli, e nas últimas décadas os filmes produzidos na bota foram de mediocridade assustadora. Agora, alguns críticos apontam para indícios de renascimento. Torço para que seja verdade, e quem sabe “Meu Irmão é Filho Único” seja um sinal promissor.

O belo filme de Daniele Luchetti conta a história de dois irmãos mergulhados até o pescoço na política extremista da década de 1960. A trama é narrada pelo caçula Antonio, dito “Accio” (aço) pelo hábito que possui desde a tenra idade de resolver suas discussões a tapa, em particular com o irmão Manrico, comunista, mulherengo e arrojado, não necessariamente nessa ordem. Accio passa uma breve temporada no seminário, mas troca a batina pela militância no fascismo, aderindo ao Movimento Social Italiano, o herdeiro das tradições de Mussolini. A lenha na fogueira entre os dois fratelli vem quando Accio se sente atraído pela namorada de Manrico, Francesca.



O filme é incrivelmente leve e bem-humorado, muito mais do que seria de se esperar para uma trama que envolve alto grau de violência política de extrema-esquerda e extrema-direita: há surras, bombas, tiros, assaltos, mas quase sempre num tom de chanchada, de um saudável não se levar muito a sério. A família de operários a qual pertencem os dois irmãos se comunica à base de gritos e pancadas e vivem em uma casa literalmente caindo aos pedaços, à espera de irem para um conjunto habitacional que nunca fica pronto, por artes da burocracia italiana.

Há pelo menos um personagem antológico no filme, o vendedor de toalhas e militante fascista Mario, que apresenta Accio às realizações do Duce e que será um mentor atrapalhado para o rapaz. Entre outros méritos, “Meu Irmão é Filho Único” é uma vitrine para o trabalho de dois jovens atores italianos: Elio Germano, o melhor em cena, que interpreta Accio com paixão e dedicação, e a bela Diane Fleri, no papel de Francesca.

Pena apenas que o diretor Daniele Luchetti pareça às vezes não saber muito bem o que fazer com um bom elenco. Sobretudo na parte final, ele adota um tom sombrio, de passar um sermão sobre a falta de perspectivas da geração que se bandeou para as Brigadas Vermelhas, algo que já feito com muito mais categoria em outros filmes (como “Bom Dia, Noite”).

terça-feira, 29 de julho de 2008

A Anatomia do Fascismo



Fazia tempo que não mergulhava em um livro de história tão bom quanto “Anatomia do Fascismo”, de Robert Paxton. Pelo brilhantismo da análise e beleza literária do texto, o trabalho do professor da Universidade Columbia se compara ao do mestre Eric Hobsbawm. O objetivo da obra de Paxton é identificar os elementos comuns ao ciclo de ascensão, consolidação e queda de diversos movimentos fascistas, com ênfase na Itália e Alemanha, sendo a França um contra-exemplo de país onde essa tendência, embora presente, não chegou a triunfar.

“O fascismo foi a grande inovação política do século XX, e também a origem de boa parte de seus sofrimentos”, escreve Paxton. Definir “fascismo” é notoriamente difícil, e o autor optou por fazê-lo através da enumeração de características presentes nesses regimes, como a primazia do grupo sobre o indivíduo, a identidade coletiva construída a partir do sentimento de ser vítima de inimigos internos ou externos, doutrinas que pregam a “purificação” da raça/nação/cultura, eliminando os segmentos sociais vistos como corruptores, a defesa da superioridade da intuição do líder sobre a razão, um sentido de missão histórica e povo eleito que tudo justificaria.



O fascismo difere de ditaduras comuns, como aquelas da América Latina e da África, ou a Espanha de Franco e o Portugal de Salazar, porque aspira a mobilizar a população, ao passo que regimes autoritários tradicionais querem apenas manter o povo em silêncio, e em casa. Paxton estabelece um vínculo instigante entre democracia e fascismo, afirmando que este nasce como a manipulação sombria da política de massas e da reação à chamada “primeira onda de globalização”, a partir da década de 1880. Seus intrumentos: uso do nacionalismo exacerbado, do anti-semitismo e outras formas de racismo. Há muitos precursores aos fascistas, como a Klu Klux Klan nos EUA, o general Boulanger e a direita radical anti-Dreyfus na França, Karl Lueger em Viena (um dos principais inspiradores de Hitler).

O que transformou esses pólos de extremismo em sistemas políticos foram os traumas resultantes da Primeira Guerra Mundial, das revoluções comunistas (completadas ou abortadas) na Rússia e na Europa e do descrédito do Estado liberal, centrado na defesa dos direitos individuais. Em tais circunstâncias, os partidos políticos conservadores e respeitáveis se dispuseram a abrir caminho para aventureiros como Hitler e Mussolini, com suas novas táticas de brigas de rua, camisas coloridas e espancamento de minorias. A direita tradicional, inclusive os grandes grupos empresariais, acreditou que poderia manipulá-los e aceitá-los como o mal menor diante do comunismo. Isso funcionou na França e na Hungria, mas fracassou tragicamente na Itália e na Alemanha.



Um dos méritos do livro é estudar a estratégia partidária e eleitoral de Hitler e Mussolini, mostrando como mudaram e adaptaram sua maneira de agir, para ampliar sua base de apoio e se assenhorar do poder. Paxton analisa a Itália e a Alemanha como “Estados duais”, nos quais a estrutura habitual do serviço público convivia de maneira tensa com os partidos totalitários. Entre os italianos, a presença da monarquia e da Igreja Católica serviu como freio para muitas das intenções dos fascistas. No caso alemão, o domínio nazista foi muito mais amplo, encontrando resistência signficativa em poucas instituições. Em ambos os países, a violência atingiu proporções aberradoras nas suas aventuras bélicas e imperiais, como a Etiópia ocupada pela Itália e a Europa Oriental e a União Soviética invadidas pela Alemanha.

É bastante conhecido que o fascismo italiano não tinha o anti-semitismo como caráter central, ao contrário do nazismo (embora ele estivesse presente, sobretudo a partir das leis de 1938), e tendia a discriminações mais voltadas para questões de cultura e de história do que biologia e raça. Paxton sintetiza muito bem as diferenças, e apresenta uma hipótese fértil para examinar o Holocausto como uma política imposta “de baixo para cima”, das ações da SS nos territórios ocupados ao Leste.

Os últimos capítulos do livro são dedicados a estudar o fascismo fora da Europa – nos EUA, Japão, Argentina, Brasil e África do Sul, e a apontar sua permanência na Europa contemporânea. Paxton afirma que embora o fascismo não mais exista como sistema dominante, elementos seus continuam bastante presentes, agora reiventados como ojeriza aos imigrantes, mais anti-islâmico do que anti-semita e persistentemente hostil ao liberalismo econômico. Ele observa que é curioso que os programas de expansionismo territorial tenham sido abandonados (com exceção dos Bálcãs) e que agora a extrema-direita defenda a secessão de pequenas regiões, como o Norte da Itália ou a área flamenga da Bélgica.