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sexta-feira, 9 de março de 2012

A Cidade e a Inovação

O mundo nunca teve tantas tecnologias que permitem comunicação instantânea mesmo entre pessoas que estão muito distantes, no entanto, a convivência cotidiana continua a ser um elemento essencial para diversas atividades, inclusive para fomentar a inovação intelectual e científica. Minha estadia em Nova York tem me feito conversar bastante sobre isso, pois essa percepção é comum na cidade e está presente até nos projetos de reformas arquitetônicas das instituições acadêmicas.

As excelentes oportunidades profissionais e culturais fazem de Nova York um imã para pessoas inteligentes, criativas, talentosas, inquietas e ambiciosas, de todas as partes do planeta, e o ritmo e a intensidade do trabalho por aqui impressionam. Há especialistas de todo o tipo na cidade, com frequência a uma distância muito curta uns dos outros - alguns quarteirões de caminhada, poucos minutos no metrô. Os variados círculos sociais se misturam em festas, eventos, coquetéis, reuniões e pelo circuito amigos-dos-amigos se pode conhecer bastante gente, ou receber indicações de emails e telefones para entrar em contato com aquele sujeito que trabalhou com seu colega no Banco Mundial, ou aquela amiga que tem um cargo de direção na ONU, ou o aluno que tem um pé no teatro off-Broadway e pode dar boas dicas sobre a vida cultural.

Para quem está interessado em desenvolver um projeto qualquer - uma pesquisa acadêmica sobre um tema pouco estudado, a criação de uma empresa para preencher um nicho de mercado inexplorado - basta soltar a idéia numa roda de conversa e sempre se sairá com meia dúzia de sugestões de pessoas a quem procurar. Basta uma delas topar para que a faísca da inovação seja aceita.

Muitas dessas idéias nascem de interações espontâneas ou acidentais, conversas ocasionais no café, um bate-papo no refeitório, um encontro inesperado no metrô. Construir espaços sociais que permitam esse tipo de convívio é uma preocupação explicíta das universidades. A New School está construindo um grande prédio na 5a Avenida, para colocar no mesmo campus especialidades acadêmicas distintas que estão espalhadas por vários edifícios. Esse mesmo objetivo marcou projetos em outras cidades, como a sede da Apple em Cupertino, na Califórnia ou o Instituto de Estudos Avançados de Princeton.

Minha própria pesquisa acadêmica tem sido muito beneficiada pelos estímulos e sugestões que tenho recebido por toda a parte em Nova York. Principalmente pela convergência de pessoas de dezenas de países, com experiências profissionais diversas - universidade, diplomacia, imprensa, Nações Unidas, organizações não-governamentais. O debate fica mais elétrico, provocador e interessante.

No domingo embarco para Washington, onde ficarei por alguns dias, realizando entrevistas e indo a eventos em centros de pesquisa na capital americana.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um Olhar sobre Nova York

No início era Mannhata ou Manata, a “ilha das colinas”, como a chamavam os povos indígenas. Com uma excelente baía e ao lado do rio que permitia a exploração do continente americano, logo chamou a atenção dos exploradores europeus. Os holandeses a compraram a nela construíram uma pequena cidade, Nova Amsterdã, que terminava em um muro poucas centenas de metros ao norte do porto. Os britânicos a tomaram pela guerra e a rebatizaram como Nova York. Sua história se confunde com a da economia global dos últimos 400 anos, e com as próprias mudanças no urbanismo. Cheguei aqui no domingo e fico cerca de um mês, lecionando e pesquisando no Observatório sobre América Latina da New School University.

Nova York era um pequeno porto de 10 mil habitantes quando os Estados Unidos se tornaram independentes, e a cidade foi praticamente destruída na guerra de independência, com ocupação britânica e dois grandes incêndios. Mas rapidamente se recuperou, juntando suas vantagens naturais e o dinamismo empreendedor de seus comerciantes, que inventaram novas maneiras de vender seus produtos (como lançar seus navios ao mar de forma regular, com ou sem muitas mercadorias a bordo). Sediou o governo americano em seus primeiros anos, mas o impulso para o crescimento veio na década de 1820, com a construção de um canal ligando à cidade aos grandes lagos, e por tabela à próspera agricultura do Meio Oeste, então um dos celeiros do mundo.

A cidade multiplicou sua população e virou o local de algumas das favelas miseráveis para imigrantes, em particular na parte leste de Manhattan. Os ricos começaram a migrar para o norte, em especial ao redor do novo Central Park, e os avanços nas ferrovias (e posteriormente, o automóvel) permitiu que as pessoas passassem a morar bastante longe do seu local de trabalho. Nova York cresceu para além da ilha original, e no fim do século XIX incorporou municípios e vilarejos vizinhos, como o Brooklyn, interligando-os numa complexa rede de estradas, pontes e linhas de metrô. Novas tecnologias de construção permitiram o surgimento dos arranha-céus, que dominaram o horizonte da cidade e tornaram-se alguns de seus símbolos mais conhecidos.

A Nova York poderosa e orgulhosa mergulhou numa crise nas décadas de 1960 e 1970. As indústrias deixaram a cidade, a classe média fugiu para os subúrbios ou municípios vizinhos e a arrecadação de impostos caiu, ao mesmo tempo em que a prefeitura aumentava gastos, expandindo a rede de serviços públicos para tentar lidar com as tensões sociais que então explodiam pelos Estados Unidos. A cidade faliu e a degradação e violência de áreas como Times Square e Bronx viraram ícones da crise urbana americana.

Hoje sabemos que eram as dores do parto, da transição de uma economia industrial para a nova etapa de desenvolvimento baseada em serviços – financeiros, de tecnologia da informação, de design, consultorias etc. Nova York e outras cidades americanas, como Pittsburg, conseguiram resolvê-la bem. Algumas, como Detroit, até hoje não superaram a crise. Nem os ataques terroristas de 11 de setembro conseguiram alterar a guinada rumo à prosperidade. Nova York atrai pessoas de todo o planeta – quase metade dos habitantes é de fora! – e o ambiente cosmopolita, multicultural e dinâmico que eles dão à cidade não tem preço.

Contudo, há muitos problemas. A infraestrutura é deficiente e está defasada com relação às novas metrópoles do Oriente, como Cingapura e Dubai. A desigualdade é enorme, maior do que a do Brasil, e com frequência tem implicações étnicas e culturais. Manhattan é caríssima, uma espécie de playground para ricos e turistas, e muitos lamentam os efeitos negativos disso para a coesão dos bairros e das comunidades.

Ainda assim, Nova York tem lidado melhor do que os Estados Unidos como um todo com as ansiedades e tensões contemporâneas, como crise econômica, medo do terrorismo, e do declínio. A cidade tem uma capacidade enorme de se reinventar e de absorver os fluxos criativos dos seus muitos filhos adotivos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cidades, Democracia e Integração na América Latina



Passei os últimos dias em Salvador, participando do Latin Cities a convite da organização do evento. Dei palestra sobre como a maior interação entre as cidades latino-americanas influencia em suas políticas públicas e na própria democracia.

As cidades são os principais nós da economia global, os pontos mais importantes das redes de fluxos de mercadorias, informações e pessoas que promovem o desenvolvimento. Nos últimos 20 anos os vínculos econômicos entre os países da América Latina aumentaram muito, como efeito da abetura do comércio e dos processos de integração regional. Cidade do México, São Paulo, Buenos Aires e Rio de Janeiro em geral são consideradas como as "cidades globais" do continente, com metrópoles como Bogotá e Santiago do Chile exercendo outros papéis de destaque.

As cidades latino-americanas tem olhado mais umas para as outras em busca de melhores práticas de políticas públicas, sobretudo em campos como segurança pública e transporte. Inovações como as abordagens colombianas integradas para combater a violência e modelos como o Transmilênio de Bogotá e as ciclovias da Cidade do México estão sendo reproduzidos pela região. Na área de mudanças climáticas, as metrópoles às vezes vão mais longe do que os governos nacionais, atuando em fóruns internacionais como o C-40 para compartilhar experiências em gestão de resíduos, controle da poluição e habitações inteligentes.

A maior integração econômica tem aumentado a migração entre os países da América Latina e muitas pessoas deixam Bolívia, Paraguai, Peru e as nações centro-americanas com destino a São Paulo, Buenos Aires, Santiago do Chile e Cidade do México. As relações dos migrantes com as populações locais por vezes são marcadas por tensões, discriminações étnicas e culturais e ocasionais surtos de violência, como na Argentina, no fim do ano passado. Distúrbios urbanos como os que sacudiram Londres, Paris, Los Angeles e outras metrópoles do mundo desenvolvido também podem ocorrer por aqui.

O debate com a platéia foi ótimo, focado em temas sobre como os instrumentos de diplomacia federativa (isto é, entre governos subnacionais) podem ser aprimorados, como compartilhar experiências em assuntos sociais, em especial educação e também sobre os esforços dos estudantes de relações internacionais do Nordeste brasileiro, na Bahia e em Pernambuco, em construir seu campo profissional na região.

Por fim: antes de viajar, gravei na Globo News um especial sobre o Tea Party, focado na influência do movimento na crise americana. Clique no link para ver o programa.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cidades e Políticas Públicas na América Latina



Em agosto, estarei em Salvador coordenando uma mesa sobre políticas públicas no evento Latin Cities, que discutirá as relações internacionais das cidades da América Latina. É um assunto que tem ganhado importância nos últimos anos, com o aumento dos fluxos econômicos globais e com o questionamento acerca da capacidade dos Estados Nacionais em administrar de maneira flexível certos aspectos deste admirável mundo novo.

Há vários exemplos históricos de cidades que desempenharam papel relevante em termos de política internacional – Atenas, Veneza, Florença, e em épocas contemporâneas Cingapura, Hong Kong e Dubai. Na América Latina, Buenos Aires, Cidade do México, São Paulo e Rio de Janeiro sempre constam dos rankings das metrópoles globais. A realização dos grandes eventos esportivos no Brasil no lustro 2011-2016 reforça esse papel e de modo geral os governos municipais latino-americanos ainda dão seus primeiros passos em termos de construir estruturas burocráticas para lidar com questões diplomáticas, como atração de investimentos e negociações com órgãos internacionais.

A imigração também torna as cidades da região mais internacionalizadas. Há movimento populacional crescente dos países e áres mais pobres da América Latina (Bolívia, Paraguai, Peru, América Central) rumo à prosperidade do Cone Sul e do México. A questão é especialmente importante para o Brasil. A se manterem as taxas de crescimento atuais, o país precisará cada vez mais de mão de obra imigrante , inclusive de profissionais de alta qualificação vindos das nações desenvolvidas. É necessário pensar políticas públicas para lidar com a maior diversidade cultural, reformar as escolas para receber esses alunos, elaborar esforços de combate ao racismo e à exploração trabalhista de imigrantes em situação irregular.

Há também a agenda de maior cooperação entre as cidades latino-americanas no sentido de compartilhar experiências de busca de soluções a seus problemas comuns, como no caso das políticas de segurança pública de Bogotá e Medellín, que tanto influenciaram na criação das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro. O trânsito é outro problema sério, em particular para o Brasil, onde a combinação de maior acesso ao consumo (inclusive de automóveis) e falta de investimento em infra-estrutura urbana e transporte de massas gera o risco de um “apagão das cidades”. Há boas lições a aprender em Bogotá e Santiago do Chile.

Idéias e sugestões para a mesa são bem-vindas. Penso em estimular um debate na linha dos que acontecem no programa “Cidades e Soluções”, apresentado na Globo News pelo jornalista André Trigueiro.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Villa Soldati, Cidade e Democracia



A imprensa brasileira pouco comentou, mas ao longo da última semana ocorre um dos mais graves conflitos sociais da Argentina pós-crise. Em Buenos Aires, no bairro de Villa Soldati, moradores atacaram imigrantes bolivianos e paraguaios que haviam ocupado um conjunto habitacional em construção. Três pessoas morreram e muitas outras ficaram feridas. Villa Soldati é uma zona de classe média baixa, netos e filhos de italianos pobres, agredindo a nova pobreza recém-chegada à Argentina. Versão portenha do ótimo filme de Scorsese sobre as gangues da Nova York do século XIX.

Os brasileiros estamos acostumados a níveis cotidianos de violência que chocariam os visigodos, e talvez por isso não tenhamos percebido a importância do que aconteceu em Buenos Aires (ademais, reflexos de problemas de segurança mais amplos). Trata-se de um embate que será crucial nos próximos anos: a luta pela democracia em cidades que são, cada vez mais, nós de conexão das grandes redes globais. Que incluem levas de imigrantes, em muitos casos com outras cores de pele ou religiões diferentes, e com menos direitos do que os moradores nativos. Os riscos de xenofobia e o aumento do racismo não estão restritos às metrópoles da América do Norte e da Europa, conflitos sociais desse tipo eclodiram também na África do Sul, no México e, agora, na Argentina. Podem estourar em São Paulo ou Santiago do Chile.

Esses temas ganham cada vez mais força também na minha agenda acadêmica. Na sexta-feira fiz parte de uma banca de doutorado na Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A ótima tese discutia a gestão democrática da cidade, a partir de uma crítica do Estatuto da Cidade, por meio de autores marxistas. O argumento era que os regimes democráticos não conseguem assegurar uma boa cidade, porque deixam intacta a estrutura econômica injusta.

Na minha arguição, ponderei que a tese era dura demais com a democracia e que os temas urbanos tinham sido uma questão central para os movimentos sociais desde meados do século XIX, com a luta por habitação, saneamento e boas condições de vida nas cidades. Destaquei o caso da "Viena Vermelha" do entreguerras, onde os sociais-democratas construíram o mais importante embrião do Estado de Bem-Estar Social. Ou de como campanhas que à primeira vista não estão ligadas à cidade, como a dos direitos civis nos EUA, manifestam-se no ambiente urbano, nos conflitos pelo fim da segregação racial no transporte coletivo, por exemplo.

No mundo contemporâneo, a demanda democrática mais radical a ser feita é a da cidadania global, afirmaram Toni Negri e Michael Hardt. Essa é a utopia, o sonho além do horizonte.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Desafios para uma São Paulo Global



Dias atrás estive em São Paulo para participar do I Seminário Paradiplomacia das Cidades. Dei palestra sobre “Cidade, Democracia e Relações Internacionais: desafios para uma São Paulo global”. Meu ponto principal: as mudanças na demografia e as demandas econômicas do Brasil aumentam a necessidade de imigrantes para o mercado de trabalho, e o país precisa desenvolver instituições e políticas públicas para lidar com a nova população, numa perspectiva de afirmação de direitos e combate às discriminações.

O conceito de cidade global surgiu dos trabalhos da socióloga Saskia Sassen, que ressaltou a importância de Nova York, Tóquio e Londres para as redes internacionais que movem a economia do planeta. Cidades são, afinal, locais de reuniões de especialistas e profissionais altamente qualificados. Nesta ótima entrevista à Foreign Policy, ela chama a atenção para novas “cidades globais” em ascensão, como Miami e Copenhage, e comenta casos como Cingapura e Dubai. A reportagem com Sassen ocorreu por causa da publicação pela revista do ranking 2010 das cidades globais. São Paulo é a 35ª de 65, e na América Latina está atrás apenas de Buenos Aires (22ª) e da Cidade do México (30ª). O Rio de Janeiro é o outro representante brasileiro na lista, em 49º.

São Paulo é o principal elo de ligação do Brasil à economia global no contexto em que o país conjuga crescimento em bons níveis com estabilidade política, em meio à recessão no mundo desenvolvido. O Ipea identificou um grande déficit de mão-de-obra especializada, de 320 mil profissionais apenas nos setores de serviços e construção civil. Essas características tornam o Brasil muito atraente para imigrantes, tanto da América Latina quanto da Europa e dos EUA.

Além disso, há as mudanças demográficas. A população brasileira envelhece rapidamente, e a taxa de fecundidade caiu abaixo dos níveis de reprodução. As projeções do IBGE são de que a população começará a diminuir a partir de 2030. O resultado: as autorizações de trabalho para estrangeiros aumentam bastante, 19% no último ano. Certas categorias, como engenheiros, recorrem aos imigrantes em escala ainda mais profunda.



Claro, o Brasil já viveu um período parecido, em especial na primeira metade do século XX. E o país foi bem-sucedido em incorporá-los à cultura nacional. A foto acima foi tirada por uma amiga minha no bairro paulistano da Liberdade e mostra o que aparente ser um despacho de candomblé feito com comida japonesa.

Ainda assim, tem havido uma série de incidentes de xenofobia mundo afora, nos Estados Unidos e na União Européia e também em países em desenvolvimento como África do Sul. Em São Paulo, o tipo de crime de ódio que ocasionalmente é cometido contra migrantes do nordeste brasileiro é um alerta do que pode acontecer. Citei os trabalhos dos meus amigos no Instituto Pólis, que acompanham o modo racista com que muitas vezes os estrangeiros são representados na mídia, sobretudo quando são oriundos de outros países da América Latina, como Bolívia e Peru. Uma das melhores coisas do debate foi ter entrado em contato com jovens paraguaios que começam a se organizar em São Paulo, pela questão dos direitos dos imigrantes.

Também há desafios de política pública relacionados à educação (sobretudo para os filhos dos imigrantes) e à legislação trabalhista. O marco jurídico brasileiro na área de imigração está ultrapassado e precisa mudar. O Estatuto do Estrangeiro é época da ditadura militar, refletindo o pensamento autoritário sobre “segurança nacional”, com muitas aspas, por favor. Não dá conta das demandas econômicas modernas. E o Brasil ainda não ratificou tratados internacionais importantes nessa área, de proteção aos direitos dos imigrantes. Apesar de gestos magníficos, como a recente anistia aos trabalhadores estrangeiros em situação irregular, uma bela iniciativa na contramão dos fatos sombrios registrados em outros países.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Brasília, 50 Anos



Brasília completa nesta quarta 50 anos e nas palavras do jornal Valor Econômico, "inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1960 como símbolo do futuro, vai comemorar seu meio século envergonhada de sua elite política atrasada, que se especializou unicamente em dividir butins confiscados de todo o país." Sim, mas é preciso avaliar também os impactos econômicos - positivos e negativos - da construção da cidade.

Levar a capital para o interior de modo a impulsionar o desenvolvimento econômico do Centro-Oeste e do Norte era um velho projeto que estava presente na primeira Constituição republicana, de 1891. No entanto, não foi uma questão levantada pelos diversos governos desenvolvimentistas que se seguiram à Revolução de 1930, mais preocupados com a industrialização do Centro-Sul.

A idéia tampouco constava dos projetos iniciais de JK, que só a encampou quando foi perguntado num comício se cumpriria a determinação constitucional de transferir a capital para o interior. Em retrospecto, é fácil entender seu entusiasmo: ele havia sido prefeito de outra cidade planejada (Belo Horizonte), tinha um histórico com renovação urbana (o complexo da Pampulha) e as crises políticas de 1954-1956 o deixaram horrorizado com a estridência da imprensa carioca pró-golpe, contra Vargas e contra ele mesmo.

A construção da capital se encaixou mal no Plano de Metas com o qual JK pretendia fazer o país avançar "50 anos em 5" e a falta de planejamento financeiro adequado resultou num surto inflacionário que teve grande responsabilidade na crise econômica de 1961-1964, e na instabilidade que culminou na instalação da ditadura militar. Mas no médio prazo, a inauguração de Brasília e das rodovias que a ligaram aos extremos do país foram importantes para o desenvolvimento.

Do ponto de vista do urbanismo, Brasília é a concretização do ideário do movimento moderno, que queria racionalizar o que via como a situação caótica das grandes cidades, encaradas como focos de problemas sociais como más moradias, crime, dificuldades de circulação do trânsito e das pessoas. A nova capital queria ser outra coisa: setores separados para residências, comércio, trabalho, vias expressas para automóveis no lugar de ruas para pedestres.

Vivi em Brasília por um ano, e não gostei da cidade. Senti falta do calor humano e mesmo da confusão que se encontram nas ruas do Rio de Janeiro. A sociabilidade de condomínios fechados, shopping centers e clubes é muito diferente daquela a que estou acostumado. Compartilho as críticas a Brasília feitas por urbanistas como James Holston e Marshall Berman e acrescento os problemas cotidianos de morar numa cidade com planejamento rígido, pensada para ter 500 mil habitantes no anos 2000, e que tem quase seis vezes esse total. O mais impressionante é a segregação social, com os pobres empurrados para longe (cidades satélites, municípios do entorno) - o Distrito Federal tem a mais séria desigualdade social do país. Consequência lógica de um modelo urbano que sempre os excluiu, não obstante as ideologias progressistas de seus fundadores.

Capitais são importantes não só como sedes administrativas, mas pelas imagens e representações dos países. Torço para que Brasília seja capaz de se reinventar e concretizar a modernidade sonhada em sua utopia. Porque hoje, ela manifesta o que há de arcaico na política nacional.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

El Alto: a cidade rebelde



Na semana passada chegou um pacote de livros sobre urbanismo que encomendei pela Amazon, e que marca o início de uma pesquisa sobre cidade e democracia na América do Sul. Quero estudar a relação de movimentos sociais e mobilizações cívicas com o espaço urbano do continente. Ainda não defini com precisão os casos que analisarei, mas a princípio penso em Buenos Aires, Bogotá, Rio de Janeiro e La Paz/El Alto. Esta última cidade é, justamente, o tema de “El Alto: rebel city”, da antropóloga Sian Lazar.

Na resenha de outro livro sobre a Bolívia, mencionei a importância crucial da descentralização política para a ascensão de movimentos sociais nos países andinos, pois foi pela participação nas administrações municipais que formaram ativistas e líderes. El Alto é um caso extremo. A cidade se expandiu muito nos últimos 20 anos e boa parte dos moradores é de origem rural e indígena, e mantém fortes vínculos com seus vilarejos natais. A proximidade de La Paz – não mais do que 20 minutos de van, num horário sem trânsito – deu às mobilizações locais o poder de influir diretamente na vida política nacional, e mesmo de isolar a capital (localizada na cratera de um vulcão extinto, a foto abaixo dá o panorama visto de El Alto), uma vez que o aeroporto está em terras alteñas.



O potencial se manifestou em diversas ocasiões, em particular no período que vai da “guerra do gás” (2003) à posse de Evo Morales na presidência (2005), quando El Alto se tornou o fiel da frágil balança que terminou por derrubar os presidentes Sanchéz de Lozada e Carlos Mesa. A repressão policial foi violentíssima e os alteños me mostraram com tristeza e orgulho cívico os locais dos principais enfrentamentos. No entanto, foram apenas os estágios mais recentes da longa mobilização que passou pelas lutas por asfaltamento de ruas, construção de infraestrutura urbana e mesmo pela curiosa relação do Estado com os movimentos sociais para a gestão de certos aspectos da vida da cidade, como o gigantesco mercado popular.



Em minha visita a El Alto, me havia chamado a atenção a enorme preponderância das mulheres no comércio local. Mais de 90% das barracas são comandadas por elas, e acreditei que seria porque os homens haviam migrado para Argentina, Brasil ou então trabalhavam em La Paz. O excelente estudo de Sian Lazar me ensinou que na realidade é uma tradição que remonta à era colonial, pela qual as mulheres assumem as funções de intermediárias entre a produção camponesa/indígena e o mercado citadino. Ela compara a própria cidade de El Alto com esse papel feminino habitual, e examina a liderança política dos alteños por sua perícia em ligar a capital ao mundo dos povos originários, num contexto em que esse universo cultural se tornava cada vez mais influente nos jogos de poder bolivianos.

Contudo, há um ponto que ela não abordou e que me fascinou em meu trabalho na cidade. Vi um nítido contraste geracional entre as mulheres adultas, vestidas à moda indígena (pollera e chápeu coco) e seus filhos crianças e adolescentes, que trajam camisas de times de futebol ou bandas de rock, com bonés. No mercado popular, circulam CDs e DVDs piratas dos produtos da indústria cultural global, de Harry Potter a Britney Spears. Ao mesmo tempo, esses rapazes e moças – que entrevistei para a pesquisa sobre juventude sul-americana – se orgulham da ascendência indígena e escrevem canções em aymara e quéchua. Mas no ritmo de hip hop, numa fusão artística fascinante, e sempre em movimento. A foto abaixo mostra um centro cultural, a “Casa de Jovens” - significado do letreiro em aymara.



Um dos rapazes que entrevistei compôs uma música sobre a sensação de se sentir um alienígena ao caminhar no Passeio El Prado, a avenida elegante do centro de La Paz. Por coincidência, terminei aquele dia por lá, em busca de livros sobre história boliviana. Para os padrões da classe média brasileira, é uma vizinhança comum, sem mais destaques. Pedi um sorvete e pensei na vida que passava apressada, indo e vindo pelas ruas da cidade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Batalha por Nova York



O parque parecia destinado a grandes acontecimentos. Henry James e Cole Porter lhe dedicaram obras de arte. Jack Kerouac e Bob Dylan gostavam de perambular por seus bancos, matando o tempo e observando as crianças a brincar. A poucos passos da Quinta Avenida, o Washington Square Park também seria o estopim de um conflito que mudaria o urbanismo dos Estados Unidos, opondo o principal construtor de Nova York, Robert Moses, e a jornalista e ativista comunitária Jane Jacobs. A história dessa disputa – e das diferentes concepções de cidade que os dois representavam – está contada de maneira magnífica em “Wrestling with Moses”, do jornalista Anthony Flint.

Moses estava no auge do poder no início da década de 1960. Desde o New Deal ele era uma figura importante na política nova-iorquina, chegando a ocupar simultaneamente mais de 10 cargos nos governos municipal e estadual, quase todos ligados à realização de obras públicas. Ele construíra 17 parques, 13 pontes, 10 piscinas públicas gigantes, 2 túneis e mais de 1000 quilômetros de estradas. Mudou a face da cidade e se tornou o mais conhecido planejador urbano dos Estados Unidos.



Jacobs era uma jornalista respeitada nos círculos dedicados à arquitetura, mas ainda pouco conhecida. Ela migrara para Nova York vinda do cinturão do carvão e do aço na Pensilvânia e trabalhara como repórter para publicações diversas. Sua grande paixão era a própria cidade, em especial o bairro de Greenwich Village, onde morava com o marido arquiteto e três filhos pequenos.

Para Moses, Nova York era parte do problema. Superpovoada, com bairros repletos de ruas estreitas e prédios decadentes, e problemas de circulação sem fim. A solução: derrubar os cortiços e áreas pobres, recomeçando do zero para que a iniciativa privada pudesse construir prédios novos, como torres de apartamentos. Viadutos, vias expressas e pontes melhorariam o trânsito e aqueceriam combalida economia municipal, que sofria com a perda de sua base industrial. Escrevendo sobre arquitetura e planejamento urbano, Jacobs começou a criticar esse modelo, ressaltando a importância da vida comunitária, dos laços entre as pessoas nas vizinhanças tradicionais, de como o pequeno comércio era importante para dinamizar o cotidiano, fornecendo às pessoas mais do que produtos e serviços, mas também um espaço para conversar, encontrar amigos. A boa cidade não era feita do planejamento, mas fruto do convívio espontâneo e da recriação do dia a dia, de milhares de gestos simples.

Jacobs passeava com os filhos no Washington Square Park e ficou indignada com o plano de Moses de cortá-lo em dois com uma via expressa. Terminou como líder de um movimento comunitário que se opunha ao projeto, e que serviu de base para contestar toda a doutrina das grandes obras e enterrar a carreira de Moses. Como argumenta Flint, o embate prenunciou em alguns anos a turbulência dos Estados Unidos pós-1968, com os protestos contra o Vietnã e a desconfiança das autoridades após o escândalo de Watergate. Moses saiu do confronto criticado como autoritário, cheio de segredos e abrindo as portas para a corrupção (embora ele mesmo não tenha se aproveitado de dinheiro público).



O conflito serviu de estímulo para que Jacobs colocasse suas idéias em formato de livro, resultando em “Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas”, um clássico absoluto que mudou a maneira pela qual as pessoas pensam sobre urbanismo. Mas a luta foi dura e ao fim Jacobs e sua família trocaram Nova York por Toronto, no Canadá, onde seu marido foi construir hospitais, e seus filhos, escaparem do recrutamento obrigatório para o Vietnã.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O Choque de Civilizações no Planeta Favela



Um amigo me chamou a atenção para o artigo de Leonardo Boff em que o teólogo afirma que o verdadeiro “choque de civilizações” não será entre religiões ou culturas nacionais, mas ocorrerá entre populações urbanas marginalizadas e aquilo que no Rio de Janeiro chamamos de “asfalto”, os bairros de classe média e alta.

Boff cita com admiração o livro “Planeta Favela”, do geógrafo americano Mike Davis, que é sem dúvida um dos pensadores mais originais na encruzilhada entre problemas sócio-ambientais e relações internacionais. Contudo, acho que ele é mais útil como um provocador, alguém que identifica padrões globais, do que como um analista capaz de influenciar o debate sobre políticas públicas. Isso porque Davis tem uma retórica tão apocalíptica que ao leitor crédulo só resta armazenar comida, comprar um fuzil de assalto e arrepender-se rapidamente dos pecados.



Em “Planeta Favela” Davis aponta para o fenômeno gêmeo da crescente urbanização e favelização globais: basicamente porque a maioria dos novos moradores das cidades vão para as periferias das capitais dos terceiro mundo, alguma das quais cresceram ao limite do absurdo, como Lagos, na Nigéria. A tese do geógrafo é que essas populações são o epicentro de uma série de calamidades, de problemas de saúde à violência, passando por especulação imobiliária. O fim está próximo, como não cansam de advertir meus vizinhos de trabalho no Largo da Carioca.

Claro que muito do que Davis aponta é verdade, mas minha experiência de campo em favelas latino-americanas é de que a história não é bem essa. Longe de serem sucursais do inferno, muitas favelas são soluções extremamente criativas de moradia barata, de criação de práticas artísticas e culturais e de vínculos de solidariedade comunitária. Em relação à miséria rural, uma casa em El Alto ou Rocinha (para não mencionar locais em outros continentes, como Kibera, Soweto, Dharavi) costuma ser um passo à frente, ainda que em condições precárias. Há em Davis um pouco do tom do intelectual ocidental chocado com o que considera a barbárie do Terceiro Mundo, sem notar que os costumes de sua classe social e país de origem não são as leis universais do comportamento humano.

Boff também comenta os estudos dos militares dos EUA a respeito dos conflitos em áreas favelizadas e faz o paralelo com o Rio de Janeiro. Pensei imediatamente na batalha de Mogadício, descrita de maneira brilhante no livro “Falcão Negro em Perigo”, do jornalista Mark Bowden (clique aqui para ler o primeiro capítulo). A história virou filme e é bastante conhecida: os EUA estavam em missão de paz na Somália e tentaram prender líderes de um dos clãs que disputavam o poder no país. A operação deu errado, dois helicópteros foram abatidos e o que se seguiu foi uma espécie de rebelião popular contra a presença americana, que terminou em centenas de mortos e na retirada das tropas dos Estados Unidos daquele país.



Bowden termina o livro com a previsão sombria de que as guerras do século XXI irão se parecer mais com a batalha de Mogadício do que com os combates clássicos entre dois exércitos inimigos num campo aberto. Ele afirma que o Pentágono, apesar de alguns esforços, ainda não considera seriamente as implicações dessa nova forma de luta.

Tinha lido Bowden logo depois de “Elite da Tropa”, do antropólogo Luís Eduardo Soares e dos ex-oficiais da PM Rodrigo Pimentel e André Batista. Fiquei muito espantado com a semelhança das ações do Batalhão de Operações Especiais da polícia fluminense e o tipo de enrascada em os Rangers e Deltas americanos se meteram na Somália. Não por acaso, a equipe de efeitos especiais que adaptou a história de Bowden ao cinema está fazendo o mesmo trabalho no filme sobre o BOPE.