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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mar de Papoulas

O escritor indiano Amitav Ghosh tem sido comparado a mestres do romance histórico como Walter Scott e Alexandre Dumas por conta de sua triologia épica sobre as guerras do ópio, centradas na tripulação do navio Ibis. “Mar de Papoulas” é o primeiro volume, e até agora o único publicado no Brasil, e fez pensar em outro clássico: o Melville de “Moby Dick”, ao reunir um elenco multicultural de personagens para narrar os conflitos entre os impérios britânico e chinês da perspectiva da Índia, então colônia da Grã-Bretanha.

“Mar de Papoulas” não tem um protagonista, a narrativa se reveza por um grupo de pessoas que de origens muito diversas formará a tripulação do Ibis e se manterá unida ao longo da triologia: um marinheiro americano, mulato, que descobre que os mares do Oriente lhe dão a oportunidade de passar por branco, abrindo inesperados caminhos de ascensão social; um casal de camponeses indianos em fuga por conta de um amor adúltero impossível por razões de casta e honra familiar; um aristocrata indiano falido e injustamente condenado por fraude, com um insperável amigo chinês que conheceu na cadeia; uma jovem órfã francesa que herdou do pai cientista um temperamento questionador e rebelde e um elenco fascinante de personagens secundários vindos de todas as partes do globo. Eles falam uma língua mágica, um amálgama de vários idiomas, incrivelmente rico e poético. Aviso – li o original em inglês e ignoro como ficou a tradução para o português, é uma tarefa dificílima adaptar a inventividade do autor.

O navio também é parte do elenco. O Ibis transportava escravos da África para as Américas, mas quando a Grã-Bretanha começou a combater esse comércio, ele foi adaptado para outros negócios, como levar ópio da Índia à China e carregar prisoneiros e trabalhadores que assinaram contratos de “servidão por dívidas” para colônias européias.

O romance começa com a chegada do Ibis à cidade indiana de Calcutá, depois de uma jornada tumultuada que começou na América do Norte e passou pelo Cabo da Boa Esperança e pelas Ilhas Maurício. O contexto histórico é o da década de 1830. Os britânicos dominam a Índia, sobretudo por meio da Companhia das índias Orientais, e estão em sérias tensões com a China. Importam de lá seda, porcelana e outros artigos caros, mas não conseguem fazer com que os chineses se interessem por suas manufaturas. Até que o ópio desponta como solução para o déficit comercial.

O ópio é uma droga poderosa fabricada a partir da papoula, cultivada na Ásia meridional. No tempo do império britânico, a Índia era o principal centro produtor (hoje em dia, é o Afeganistão, as receitas financiam os Talibãs). Os lucros eram tão fabulosos que as melhores terras viraram plantações monocultoras dedicadas às exportações para a China, com os grandes comerciantes tomando terras de camponeses e rivais mais fracos. Naturalmente, as autoridades chinesas se preocuparam com a situação e tentaram proibir o ópio, levando a uma série de guerras pelas quais os britânicos impuseram não só o produto, mas também sua dominação territorial sobre vários dos portos do país.

Os personagens de Ghosh são arrastados pelos acontecimentos e têm posições ambíguas com relação ao ópio, de fascínio, medo ou desprezo. Alguns são viciados na droga. Seu épico é uma visão pós-colonial da globalização, o que significa que ele é muito crítico dos britânicos e dos valores de seu império: todos os personagens cristãos e ingleses são maus e trapaceiros, bem como a maioria dos indianos associados a eles. Ghosh é mais simpático aos franceses e americanos, bem como a hindus e muçulmanos. Seus perfis psicológicos são simples, por vezes maniqueístas (não chega nem perto de um Joseph Conrad, por exemplo) seu ponto forte é a compreensão de várias culturas e o modo como narra de forma divertida e inteligente os desencontros entre elas, bem como as sínteses inesperadas.

“Mar de Papoulas” é apenas o primeiro volume da triologia, e basicamente conta a história de como a tripulação do Ibis se conheceu. O segundo livro da série, “River of Smoke”, já foi publicado, com muitos elogios. Há um quê de “Senhor dos Anéis” ou “Guerra nas Estrelas” no estilo e escala do trabalho de Ghosh, em seu entretenimento de alta qualidade.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Dez Romances sobre Relações Internacionais

Gostei muito da repercussão da lista anterior, com 10 livros acadêmicos sobre política internacional. Agora,como prometido, continuo com uma seleção de romances. O gênero é moderno, de modo que as escolhas abaixos excluem clássicos como os poemas épicos de Homero, Virgílio, Camões ou obras teatrais que vão dos trágicos gregos aos dramas históricos de Shakespeare. Isto posto, vamos à lista, em ordem de publicação dos livros:

Guerra e Paz, Leon Tolstói
Napoleão invade a Rússia e o país se une para expulsá-lo. No processo, Tolstói nos brinda com reflexões pungentes sobre nacionalismo, família, amadurecimento e a busca de sentidos para a vida e a história. O trecho em que o príncipe Andrei, ferido no campo de batalha às portas de Moscou, olha a paz do céu azul e descobre que a glória da guerra é uma quimera é das coisas mais belas que a espécie humana já escreveu neste universo.

O Coração das Trevas, Joseph Conrad
O jovem agente de uma empresa de comércio de marfim relata a viagem de pesadelo que fez subindo o rio Congo, à procura do sr. Kurtz, outrora uma estrela da empresa, que se embrenhou no interior da África e enlouqueceu, criando seu próprio mundo megalomaníaco pela submissão dos nativos. Uma das melhores descrições da força destruidora do colonialismo.

A Montanha Mágica, Thomas Mann
Bem-vindo ao Sanatório Internacional Berghof, onde todos nos encontramos. Nessa clínica de luxo, nos alpes suíços, está internada uma população multinacional que representa uma Europa doente, às vésperas da I Guerra Mundial, e dividida por rivalidades patrióticas e polarizações idelógicas entre direita e esquerda. Outros magistrais romances de Mann também são fundamentais para compreender a política internacional européia dos séculos XIX e XX, em especial “Os Budenbrook” (unificação alemã) e “Doutor Fausto” (queda do Império, República de Weimar e ascensão do nazismo).

Doutor Jivago, Boris Pasternak
Clássico sobre as revoluções russas de 1905 e 1917, e das participações do país nas guerras mundiais, no conflito contra o Japão e nas convulsões internas que acompanharam a adoção do marxismo. O centro do romance é a história de amor entre o médico e poeta Iuri Jivago e sua amante Larissa, que ele conhece quando ambos servem o serviço de saúde do Exército na I Guerra Mundial. A célebre versão para o cinema cobre bem o romantismo, mas deixa de fora muito dos aspectos políticos da obra.

O Leopardo, Tommaso di Lampedusa
Um princípe siciliano assiste de modo resignado e cético às guerras de unificação da Itália, nas quais seu sobrinho toma parte ao lado dos guerrilheiros de Garibaldi. Entre as intrigas da Corte e o declínio do mundo semi-feudal que conheceu, o aristocrata percebe que “algo precisa mudar para que tudo permaneça o mesmo.”

O Mundo se Despedaça, Chinua Achebe
Os ingleses se estabelecem na Nigéria e aos poucos mudam profundamente as sociedades locais. Este romance – considerado o principal clássico da literatura africana contemporânea – conta a história de uma família infeliz do povo Ibo na qual o filho atormentado pelo pai autoritário foge de casa para juntar-se aos missionários cristãos, com consequências inesperadas para toda a aldeia.

The Sorrow of War, Bao Ninh
Nas minhas aulas sobre as guerras do Vietnã, é comum que meus alunos perguntem que livro narra o conflito da perspectiva dos vietnamitas. Este título é a resposta. Uma tocante história de amor e inocência perdida, por meio de um casal de namorados separados pela brutalidade da guerra, e um olhar cético sobre as divisões entre capitalismo e comunismo. Considero-o ainda melhor que “Nada de Novo no Front”, o clássico pacifista sobre a I Guerra Mundial, com o qual tem muito em comum.

Na mesma linha, recomendo “No Zênite”, de Dhuong Thu Huong (Ho Chi Minh, moribundo e amargurado, lamenta os rumos do Vietnã) e “O Americano Tranquilo”, de Graham Greene. Em “Os Cus de Judas”, de Antônio Lobo Antunes, um psquiatra relembra seus traumas no Exército português em Angola e sua oposição à ditadura de Salazar em Portugal, numa narrativa muito semelhante aos clássicos sobre o Vietnã.

À Espera dos Bárbaros, J. M. Coetzee
Um magistrado serve numa remota província do Império, quando surgem rumores de uma ameaça bárbara nas terras selvagens além da fronteira. Uma força militar é despachada para lidar com a questão e logo o protagonista descobre que a civilização pode ser muito mais violenta que a bárbarie. Este romance sombrio e reflexivo é geralmente considerado uma alegoria do apartheid, mas acredito que ele funciona às maravilhas como uma representação dos dilemas de segurança da Guerra Fria, ou das dificuldades de entendimento entre culturas muito diferentes. São temas parecidos aos dos clássicos dos romances de espionagem, em especial os do mestre John Le Carré, como “O Espião que Veio do Frio” e “Tink Taylor Soldier Spy” (no Brasil, “O Espião que Sabia Demais”).

O Fundamentalista Relutante, Moshin Hamid
Um executivo paquistanês radicado nos Estados Unidos começa a questionar profundamente sua identidade e seus ideais políticos após os atentados de 11 de setembro de 2001. É a melhor obra literária sobre os impactos do terrorismo contemporâneo. “Sábado”, de Ian McEwan e “O Homem no Escuro”, de Paul Auster, são bons contrapontos, na perspectiva das consequências para o Ocidente.

A Mulher Foge, David Grossman (Nas edições internacionais, o título é “Até o Fim da Terra”)
Simplesmente o melhor romance sobre os conflitos árabe-israelenses. Contado por meio de uma mulher que sofre com a ausência do filho, que luta na 2ª Guerra do Líbano, e procura o ex-amante, pai do rapaz, para passar em revisão sua vida pessoal e a de Israel, de 1967 aos dias atuais. A descrição do Exército do Egito cruzando o Canal de Suez em 1973 é simplesmente a melhor narrativa de batalha desde Tolstói. Para interessados no tema, vale ler também o mestre Amós Oz (“A Caixa Preta”, “Uma Certa Paz”).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Máquina de Fazer Espanhóis



O escritor português Valter Hugo Mãe conquistou os brasileiros na última Flip, com sua belíssima carta-palestra a respeito de seu amor pelo país. Seu romance mais recente é "A máquina de fazer espanhóis", que usa um asilo como metáfora para a crise em Portugal, e as dores da velhice, da saudade e da "cidadania não praticante" que sucedeu as quatro décadas da ditadura de Salazar.

O protagonista da Máquina é António Jorge da Silva, um barbeiro de 84 anos que é internado pelos filhos num asilo, após a morte da esposa de toda uma vida. A princípio rancoroso e amargo, ele vai aos poucos fazendo amizades com os outros internos e passando a limpo as lembranças nem sempre fáceis de uma vida em que por diversas vezes foi covarde e apático diante dos momentos decisivos. O saldo com o qual se depara às portas da morte é uma situação econômica acomodada, de pequena classe média, com um filho distante, que vive na Grécia, e a lembrança de outro que morreu bebê.



Em "A Montanha Mágica" Thomas Mann usou um sanatório cosmopolita para falar de uma Europa doente, às vésperas da I Guerra Mundial. O asilo da Máquina também é permeado pela doença e pela morte, mas num cenário mais fechado, com homens idosos que refletem sobre a história portuguesa no século XX Sem saber exatamente se têm saudades ou ódio de Salazar. A ambiguidade é característica do próprio Silva, em especial quando ele se lembra de um rapaz perseguido pela polícia política a quem ele ajudou inicialmente, para depois ter uma atitude vergonhosa, com sérias consequências.

Portugal enfrenta uma severa crise econômica, mas o mal-estar narrado na Máquina é político. A sensação de que as pessoas ficaram paradas enquanto a História passava sob a janela e que agora talvez nada reste a fazer, a não ser pensar na vida como ela poderia ter sido. É uma poética do desencanto, triste e bela, sem esperança de redenção. Hugo Mãe afirma que escreveu o livro pensando no pai, que morreu antes de chegar à velhice. O próprio autor tem apenas 40 anos, mas suas descrições do asilo são muito verossímeis, talvez porque se referem ao estado do país, mais do que a uma época da vida.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Punho e a Renda



O papel do Itamaraty na repressão política na América do Sul é o tema deste fascinante romance de Edgard Telles Ribeiro (foto). Embaixador, ele conta um pouco da história de sua geração por meio da fulminante ascensão de Marcílio Andrade Xavier, mais conhecido como Max, um diplomata que após o golpe de 1964 faz um pacto fáustico com o regime autoritário, envolvendo-se em atividades clandestinas para derrubar os governos democráticos no Uruguai e no Chile. Em troca, Max terá uma carreira marcada por promoções velozes e postos de prestígio, com os quais tenta apaziguar seus fantasmas pessoais de ambição e culpa.

Profundo conhecedor da política externa brasileira e dos meandros do Ministério das Relações Exteriores, Ribeiro mistura realidade e ficção numa abordagem instigante de muitos dos principais temas internacionais das décadas de 1960-70, como a eclosão da guerrilha urbana dos Tupamaros em Montevidéu, o golpe contra o presidente chileno Salvador Allende, as negociações secretas do programa nuclear entre o Brasil e a Alemanha Ocidental e os primórdios da Operação Condor, a integração entre os aparatos repressivos das ditaduras sul-americanas. O romance é narrado em primeira pessoa por um personagem sem nome, um diplomata que foi um grande amigo de Max na juventude mas foi pouco a pouco afastando-se dele e já na época atual, tenta entender em retrospectiva as ecolhas trágicas do colega. E talvez, acertar as contas com seu próprio sentimento de culpa por não ter se rebelado contra a ditadura, permanecendo um funcionário cumpridor de ordens.



Max é o diplomata mais bem construído da literatura brasileira desde o Conselheiro Aires de Machado de Assis. É um carreirista capaz de trair qualquer um, mas também um intelectual brilhante e um articulista político habilidoso. Ingressa na diplomacia com a ânsia de reverter o declínio de sua família – tradicional, mas empobrecida – e um golpe de sorte o lança de imediato no gabinete do chanceler. Ali, ele será testemunha de uma reunião sigilosa com o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, na qual seu desempenho o consolidará como homem de confiança da Igreja Católica no Itamaraty. Meses depois, com o golpe militar, Max trilhará um caminho explosivo fazendo a ponte entre Forças Armadas, serviços de segurança (o Punho) e o mundo da diplomacia e dos governos estrangeiros (a Renda).

Leitores familiarizados com a história política brasileira não terão dificuldade em identificar alguns dos modelos para Max e para outros personagens do romance, como o embaixador extremista que é um dos mentores do jovem diplomata e depois assume um alto cargo no Estado. Mas claramente, Ribeiro misturou as trajetórias de vários indivíduos, junto com suas próprias criações poéticas, para compor o elenco do livro. Os historiadores apenas começaram a desvelar o papel da política externa brasileira na repressão política do período e a relutância do governo em abrir seus arquivos da época ditatorial não ajuda nessa tarefa. Neste contexto, ficcionistas têm importância ainda maior para lançar luz sobre certas sombras que precisam virar memória.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Um Outro Borges




“Todo escritor respeitável deveria ter um biógrafo inglês”, observou García Márquez. Edwin Williamson, que leciona literatura na Universidade de Oxford, ilustra o princípio. Sua estupenda biografia do escritor argentino Jorge Luís Borges mostra um autor apaixonado e engajado politicamente, muito distinto do retrato habitual do homem perdido entre bibliotecas, labirintos, tigres e espelhos.

Borges teve longa vida (1899-1986), mas só conquistou fama internacional na velhice. Williamson divide sua produção artística em três etapas: a primeira é marcada pelo nacionalismo cultural e pelos vínculos com as vanguardas europeias; a segunda caracteriza-se pelo ceticismo e pessimismo, com forte influência de Franz Kafka; a terceira é de certo retorno da paixão juvenil. Em todas, Borges destacou-se por romper com a visão de que a arte deveria ser espelho da realidade, considerando-a como um mundo em si mesma e elaborando gêneros considerados inferiores, como romance policial, de aventuras, fantasia e ficção científica.



O escritor nasceu em Buenos Aires, em família de herois da Independência – seus dois avôs foram coronéis nas guerras contra a Espanha – mas que perdeu poder e prestígio para a nova elite dos estancieiros. A mãe de Borges, Leonor, era obecada em restaurar a grandeza de seus antepassados e esperava que o filho fosse o instrumento dessa vingança social. O pai, Jorge, era um literato frustrado, boêmio que ensaiou rebeliões contra a ordem vigente, e sonhava que o herdeiro completasse o que começou. Borges foi sempre dividido entre esses opostos, situação que Williamson chama de “dilema entre espada e punhal”, no qual “ambos eram reações ao mesmo medo: o de ser desprezado, de perder o senso de identidade, de não ser ninguém.”

“Se eu tivesse que indicar o evento principal da minha vida, diria que é a biblioteca de meu pai”, escreveu Borges. Embora o filho não se destacasse nos estudos – era demasiado tímido, gago e míope, intimidado pelas outras crianças e nunca terminou o ensino médio – foi desde cedo um leitor voraz. Por sete anos a família viveu na Europa, principalmente na Suíça, onde o pai foi fazer um tratamento de saúde por conta da catarata que lhe tirava a visão. A estadia europeia coincidiu com a eclosão da I Guerra Mundial e o jovem Borges fez várias amizades nos círculos de vanguarda artística. De volta a Buenos Aires, tornou-se por algum tempo o líder de um grupo semelhante na capital argentina, defendendo nacionalismo cultural e identidade própria ao país, rejeitando visões de “submeter-se a ser quase norte-americano ou quase europeu, sempre quase outro”. Fundou revistas, publicou poemas e ensaios. Parecia no curso de uma brilhante carreira literária, mas seus problemas emocionais o lançaram em depressão e quase no suicídio.



O resto, na resenha que escrevi para o Amálgama.

quarta-feira, 23 de março de 2011

No País dos Homens



Antes da eclosão da revolta líbia, muitas pessoas imaginavam Kadafi como uma figura cômica, por conta de suas roupas espalhafatosas e de seu discurso ideológico exaltado. A extensão da violência na guerra civil mostrou a verdadeira face do regime e se você quiser uma dimensão artística sobre os dramas daquela nação, a disca de leitura é o romance “No País dos Homens”, de Hisham Matar (foto), que conta a história de um menino que descobre o mundo quando seu pai se envolve na oposição à ditadura. Publicado em 2006, foi aclamado internacionalmente como uma das expressões mais destacadas da literatura árabe contemporânea.

Há toques autobiográficos na ficção de Matar, pois sua família também passou por dificuldades por conta da resistência a Kadafi. Tiveram que fugir para o Egito, onde viviam vigiados pela política política de Mubarak, até o dia em que os dois ditadores chegaram a um entendimento e os egípcios sequestraram o pai do escritor, entregando-o à repressão líbia. Nunca mais foi visto.

O romance é narrado em primeira pessoa por Suleiman, o filho único de um casal de alta classe média na Líbia da década de 1970. Seu pai é um empresário bem-sucedido que organiza um movimento político contra Kadafi, com a ajuda de amigos intelectuais, do meio universitário. A ditadura estava no poder há dez anos e ainda havia vestígios da monarquia líbia e da presença colonial dos italianos no país, ao mesmo tempo em que a violência e o medo do novo regime se espalhavam rapidamente.

Suleiman vê seu mundo começar a ruir quando o pai de seu melhor amigo é preso (“Sumiu feito um grão de sal na água”) e seu próprio pai se ausenta cada vez mais em misteriosas “viagens de negócios”. Homens do comitê revolucionário, a política política, rondam sua casa e às vezes lhe abordam com conversas insinuantes para que ele os ajude. Sua mãe cai em depressão e recorre à bebida. Os telefones emitem estranhos ecos, quando são grampeados.

“Quero olhar para baixo e ver meu país feito um mapa distante, reduzido a linhas, reduzido a uma idéia”, diz a mãe, que sofre com uma dupla opressão: a da ditadura e o papel submisso que se espera das mulheres líbias, um destino que ela sonhou romper quando jovem, quando frequentava cafés italianos e imagina uma vida à base de capuccinos. A família de Suleiman começa a pensar em emigrar, como fez um tio poeta que foi para os Estados Unidos, ou os amigos egípcios que seus parentes têm no Cairo.




À medida que o ciclo da repressão se aperta, a família precisa recorrer à ajuda de vizinhos influentes no regime autoritário (“Posso sentir as reverberações distantes daquele dia, foi minha estréia na arte escura da submissão”), com o pano de fundo das atrocidades de Kadafi: os enforcamentos de dissidentes transmitidos pela TV, a guerra contra o Chade, os confiscos econômicos para destruir a independência da classe média.

Todas as ditaduras se parecem e o romance de Matar tem enredo e detalhes facilmente adaptados para a realidade da América Latina – poderia dar um excelente filme argentino, nos moldes de “Kamchatka”, de Marcelo Piñeyro. A proeminência literária de Matar o tornou o maior símbolo da oposição líbia, de seu exílio em Londres. Ele tem sido bastante ativo na denúncia a Kadafi e seu novo livro, “Anatomia de um Desaparecimento”, será lançado em breve no Brasil. O tema é a investigação a respeito do sequestro de seu pai.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Mapa do Amor, Ahdaf Soueif



Continuando com a idéia de ler literatura árabe contemporânea, nesta semana é a vez do romance “O Mapa do Amor”, da egípcia Ahdaf Soueif (foto), uma bela mistura entre lirismo e política no Oriente Médio, por meio do contraste entre dois casais de apaixonados, no início do século XX e no fim da década de 1990, quando o livro foi publicado.

O enredo é dominado pela paixão entre dois aristocratas, a inglesa Anna e o egípcio Sharif, que se conhecem no Cairo no turbulento contexto da consolidação do poder britânico sobre o Egito. Anna é a jovem viúva de um militar que morreu na campanha para derrotar a rebelião islâmica no Sudão. Sharif, um líder nacionalista que luta pela autonomia de seu país.

O Egito nunca foi formalmente uma colônia britânica, mas a experiência de dominação foi semelhante. Oficialmente parte do Império Otomano, desde meados do século XIX o país era governado por um soberano, o quediva, com poucos laços concretos de vassalagem ao Sultão em Constantinopla. Os governantes egípcios lançaram ambiciosos projetos de modernização, como a construção do Canal de Suez, que os deixaram completamente endividados. Britânicos e franceses ganharam grande influência no país a partir do controle de suas finanças públicas e a ocupação militar da Grã-Bretanha começou após uma rebelião nacionalista em 1882.



Soueif faz de Sharif filho e sobrinho de líderes dessa revolta, e ele tenta encontrar maneiras de aproveitar ao máximo os espaços de liberdade criados pelos britânicos, como jornais, tribunais e um arremedo de parlamento, para defender a causa do Egito. Anna, uma aristocrata não-convencional e algo rebelde, revela-se uma parceira entusiasmada de seu projeto, enquanto ambos enfrentam a desconfiança da colônia européia no país.

Quase cem anos depois, as cartas e o diário de Anna são descobertos por Isabel, uma de suas descendentes, que vive em Nova York e apaixona-se por um músico egípcio, Omar, também parente distante de Anna. Ele lhe aconselha viajar ao Egito para descobrir os detalhes do documento e lá ela torna-se amiga íntima de Amal, irmã de seu namorado e as duas viajam pelo país e pela história, enquanto a política egípcia passa pelas dificuldades da ascensão dos radicais islâmicos e da repressão desmedida e injusta do governo de Mubarak.

O romance explora com habilidade as analogias entre os dois momentos do Egito e do Oriente Médio, ressaltando semelhanças como a questão palestina. Sharif se preocupa com o início da colonização sionista da região, que vê de modo semelhante aos projetos imperiais dos britânicos. Omar e Amal, filhos de mãe palestina, lamentam o rumo que a região tomou e desconfiam da ação dos Estados Unidos. Soueif também frisa a constante repressão política na história egípcia e fala com nostalgia do período de Nasser, como um tempo de esperança e de mudanças sociais, como reforma agrária.

Em “O Mapa do Amor” a utopia é menos política e mais pessoal, o romance entre pessoas de culturas diferentes oferece mais possibilidades do que os grandes projetos de transformação da sociedade. Uma das cenas mais bonitas é o encontro de Amal com ex-colegas do movimento estudantil da década de 1970, que comentam a ocupação da Praça Tahrir (pois é, desde então...) e como aquilo não levou a nada. Em outra passagem, os acertos imperiais entre Grã-Bretanha, França e Itália levam à invasão da Líbia pelos italianos, detonando o processo que até hoje reverbera naquele país.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Edifício Yacubian



Decidi começar a ler literatura árabe contemporânea, porque cheguei à conclusão de que somente por meio dos artistas entenderei os anseios, desejos e insatisfações que originaram as revoltas democráticas que varrem a região, do Marrocos ao Iêmen. O primeiro romance da minha lista foi “O Edifício Yacubian”, do egípcio Alaa Al Aswany. Publicado em 2004, tornou-se rapidamente um sucesso internacional e foi adaptado para o cinema. É fácil compreender por quê: seu painel de personagens retrata de maneira brilhante os impasses do Egito nos anos finais da ditadura de Mubarak.

O Edifício Yacubian existe (foto), é um prédio no centro do Cairo construído durante a monarquia por um milionário armênio como um conjunto residencial para as famílias da elite cosmpolita da cidade. Os anos foram impiedosos com o Yacubian. As comunidades estrangeiras fugiram ou foram expulsas do país pelo regime militar, oficiais do Exército ocuparam apartamentos e o telhado foi favelizado e transformado num centro de pequeno comércio. Os novos ricos trocaram o centro por subúrbios nos arredores da capital e o Yacubian ficou como um símbolo da decadência do Egito. O autor teve um consultório dentário no prédio.



A beleza do romance de Aswany é capturar o mosaico de figuras humanas cômicas, tristes e trágicas que circulam pelo edifício e formam um microcosmo da sociedade egípcia contemporânea. O mais cativante personagem é Zaki Beki el Dessuqi, um aristocrata que tenta manter os hábitos de playboy da monarquia, dedicando-se às mulheres e tentando encontrar um pouco de beleza e suavidade em meio ao declínio que o cerca. Seus diálogos com a jovem amante, que sonha em deixar o Egito, são o melhor do livro:

“Não consigo entender sua geração. Na minha época, o amor pelo próprio era como uma religião. Muitos jovens morreram lutando contra os britânicos.”
“Vocês fizeram manifestações para expulsar os britânicos? Certo, eles se foram. Isso significa que o país está bem?”

Outro bom personagem é Taha el Chazli, o inteligente e compenetrado filho do porteiro do edifício, que vê sua ascensão social barrada pela falta de conexões pessoais com as elites e pela corrupção e violência do regime, e se envolve com um grupo radical islâmico. Impressionam as descrições sobre a ação dos fundamentalistas nas universidades egípcias, agindo sobre os migrantes rurais e os jovens pobres que pela primeira vez chegam ao ensino superior.

Em certos trechos do romance, os personagens soam um tanto forçados, como a figura de Hagg Azzam, um empresário rico que resolve ingressar na política sob os auspícios do corrupto partido nacional de Mubarak, ou Hatim Rachid, um jornalista sofisticado e liberal que precisa manter sua homossexualidade em segredo. Mas o efeito mosaico, de pintar o quadro geral do Egito, compensa largamente esses pequenos problemas.

O romance mostra de forma clara as raízes da humilhação e raiva dos egípcios, mas deixou de fora outro elemento essencial das revoltas atuais: a esperança. Entre os personagens, não há nada parecido com os jovens modernos, dinâmicos e versados em tecnologia que foram tão importantes nas manifestações, embora o autor seja um profissional de classe média (dentista) e militante anti-Mubarak. A realidade será sempre mais rica do que a ficção, e ocasionalmente mais bela, como nestes tempos interessantes em que nos coube viver.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Liberdade Segundo Jonathan Franzen



Os Berglunds eram a família modelo num pacato subúrbio residencial do estado de Minnesota, sempre dispostos a ajudar os vizinhos e com dois filhos inteligentes e saudáveis. É certo que havia alguns questionamentos – por que Patty, a esposa,nunca visitava seus pais em Nova York? – mas eram questões menores. De repente, não mais do que de repente, as coisas saíram de controle. Talvez o 11 de setembro possa ser o marco, mas os atentados dificilmente explicam a saída de casa do filho caçula, Joey, ou a freqüência com que Patty passou a beber. E o que diabos representa para a família o músico-alternativo-que-virou-superstar, Richard Katz, o grande amigo de juventude de Walter, o marido? A mudança dos Berglund para Washington, DC, foi o prelúdio do desastre, mas ainda assim ninguém entendeu o perfil que o New York Times publicou do gentil Walter, associando-o à devastação do carvão e chamando-o de “notório arrogante.”

“Freedom”, de Jonathan Franzen, é um romance sobre excessos – de liberdade, de dinheiro, de opções e como todas essas possibilidades acabam fazendo com que as pessoas se percam em meio às dificuldades da vida contemporânea nos Estados Unidos. Como seu best seller anterior, “As Correções”, é também uma crônica das desventuras de um casal de classe média por sua crise de meia idade. A novidade é que Franzen está mais político, satirizando o clima de “o vencedor leva tudo” que tomou conta da sociedade americana, e elaborando tramas a partir das negociatas no Iraque. Eu havia gostado das “Correções”, e “Freedom” é ainda melhor.



A trama acompanha a trajetória de quatro personagens: Walter, Patty, Joey e Richard, com olhares momentâneos sobre seus vizinhos, amigos, amantes, parentes e fãs. O que os quatro têm em comum é o desejo de mudar de vida, mas a permanente insatisfação com as escolhas que realizam. Walter abandona a empresa na qual trabalhou por muitos anos para tocar uma fundação filantrópica ambiental, de credenciais questionáveis. Patty se sente frustrada com sua rotina de dona de casa e lamenta os erros que cometeu. Joey vive as ansiedades da adolescência e do início da vida adulta, principalmente as tentações do dinheiro, ao ser apresentado à milionária família de seu colega de quarto. O personagem mais interessante, sem dúvida, é Richard. Sua carreira boêmia e errática sofre um baque violento quando ele se torna um sucesso de público. Mas talvez ser bem-sucedido não seja o que ele procure.

O romance consegue ser engraçado e amargo ao mesmo tempo, com passagens inesquecíveis, como Richard criticando a pose dos roqueiros, Joey refletindo sobre a importância da música em sua vida ou a relação de amizade, carinho, rivalidade e ressentimento que une e separa Richard e Walter, desde os dias da faculdade. Há também problemas, em especial uma certa agressividade que com freqüência aparece nas descrições dos personagens femininos. Mas é muito bom encontrar um romance que me emocione e me faça pensar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Até o Fim da Terra



Meu ritmo acadêmico neste fim de ano anda tranqüilo e tenho aproveitado para ler romances, em especial de autores do Oriente Médio. Já comentei aqui sobre Amós Oz e agora é a vez de David Grossman, cujo “A Mulher Foge” está em praticamente todas as listas dos melhores livros do ano, com sua mistura épica de guerra e amor.

O romance conta a história de Ora, uma mulher que resolve vagar pelo interior de Israel enquanto seu caçula, Ofer, serve o Exército na guerra do Líbano, em 2006. Ela acredita que se não puder ser contactada pelos militares, isso de algum modo protegerá o rapaz de morrer em combate. Ela é acompanhada em sua jornada por um ex-amante com quem pouco falava nas últimas décadas, mas que é o pai de seu filho, embora ela tenha se casado com outro homem.

A narrativa do triângulo amoroso é contada com grande sensibilidade, num prólogo inesquecível. Os três se conheceram adolescentes, isolados num hospital durante a Guerra dos Seis Dias (1967). Eles se tornam amigos inseparáveis, ainda que os dois rapazes disputem o amor de Ora. A história tem um desfecho trágico quando, no conflito do Yom Kippur (1973), Avram é capturado pelos egípcios e destruído psicologicamente pelas severas torturas que sofre na prisão. Apesar do apoio que o casal lhe dá, ele não consegue se recuperar e tem contatos apenas esporádicos com eles.



A jornada de Ora e Avram é, evidentemente, um acerto de contas com o passado, na medida em que a mulher recria com palavras a infância e juventude de Ofer, tentando compensar o pai pelos anos que perdeu da vida do filho. Difícil dizer o que é apenas ficção: Grossman escreveu o romance quando seu próprio caçula servia no Líbano, e ele morreu nas últimas horas da guerra, quando seu blindado foi destruído por um míssil disparado pelo Hezbolá. Os dois aparecem lado a lado na foto que abre este post.

Grossman despontou como escritor como um crítico da ocupação israelense da Cisjordânia e o modo como o conflito corrói as duas sociedades é belamente explorado neste romance. Na passagem que dá título à edição em inglês (To the End of the Land), Ora pede a um taxista árabe, velho amigo da família, que a conduza “até onde acaba o país”. Sua resposta: “Para mim, já acabou faz tempo”. Igualmente tocante é o despertar da identidade judaica de Ofer, ainda criança, quando decide que se chamará John e será inglês, povo que segundo ele “não tem inimigos”, ao passo que “todos querem matar os judeus, nossos feriados são todos sobre isso!”.

Há muita injustiça e violência na América Latina, mas somos amadores na arte de odiar. São necessários muitos séculos, talvez milênios, para aperfeiçoá-la ao ponto em que ela existe hoje no Oriente Médio. Não são dilemas políticos aptos a serem resolvidos de maneira racional, mas se há alguma esperança está na capacidade de empatia e compreensão, e a literatura é uma aposta tão boa quanto qualquer outra na aptidão humana por entender os sentimentos alheios.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Uma Certa Paz



O israelense Amós Oz está rapidamente se tornando um dos meus escritores favoritos. Começou quando li “A Caixa Preta”, uma história de amor devastadora sob o pano de fundo da ascensão do nacionalismo religioso. E continua agora com o lançamento no Brasil de seu romance “Uma Certa Paz”. Publicado pela primeira vez em 1982, é um triângulo amoroso ambientado às vésperas da Guerra dos Seis Dias, com protagonistas que representam o conflito entre a geração dos fundadores da Israel e seus filhos, para quem os ideais trabalhistas dos pais não servem mais como bússola, num mundo que se tornou estreito demais para o anseio por liberdade.

O protagonista do romance é Ionatan, uma espécie de rapaz-modelo da primeira geração a crescer em Israel. Seu pai é o secretário-geral do kibutz (fazenda coletiva) onde mora, e Ionatan sempre fez o que se esperava dele. Serviu lealmente ao Exército nas guerras, casou-se com uma colega de organização e trabalha com dedicação nas atividades agrícolas. Mas Ionatan se sente angustiado com as regras rígidas que regulam sua vida, e deseja com intensidade e urgência algo que ele não sabe bem o que é. Seu casamento é vazio de amor, a rotina lhe entedia e ele sente vontade de partir e conhecer o mundo.




O elemento que detona a decisão de Ionatan é a chegada ao kibutz de Azaria, um jovem excêntrico e um tanto desajustado, uma espécie de proto-hippie que traz em si algo do idealismo dos fundadores de Israel. Ele se esforça para se integrar à comunidade da fazenda e se apaixona por Rimona, a esposa de Ionatan, que corresponde a seu amor.

O pano de fundo político do romance é a tensão crescente entre Israel, Egito e Síria, que eclodiu em 1967 na Guerra dos Seis Dias. O pai de Ionatan, Iulek, é um líder respeitado, que foi ministro no governo de Ben Gurion e é um interlocutor, ainda que crítico, do primeiro-ministro Levi Eskhol, que faz algumas aparições na trama.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Ao Mestre, com Carinho: Nobel para Vargas Llosa



No mês passado, dei de presente a uma amiga o romance “Travessuras da Menina Má”, de Mario Vargas Llosa, pouco antes de que ela viajasse ao Peru. Almoçamos há poucos dias e ela me contava da sua fascinação pelo escritor, que é um dos meus favoritos. E eis que agora o Prêmio Nobel de Literatura finalmente é concedido a Vargas Llosa. Mais do que justo para aquele que é, ao lado de Gabriel García Márquez e Carlos Fuentes, um dos grandes autores latino-americanos vivos, expoente da geração do boom literário da década de 1960.

“O romance é a vida privada das nações”. A frase de Balzac, que Vargas Llosa usa como epígrafe em sua obra-prima, “Conversa na Catedral”, bem pode sintetizar sua produção artística. Seus mais de 30 livros passam em revista a história peruana – e o fluxo mais amplo da América Latina - no século XX. O autoritarismo das ditaduras militares (Conversa, Festa do Bode), as ilusões da luta armada (História de Mayta, Travessuras da Menina Má), a tragédia do Sendero Luminoso (Lituma nos Andes), as dificuldades de profissionalização dos escritores (Tia Júlia e o Escrevinhador), as utopias do passado, pelo olhar terno e algo cético do presente (O Paraíso na Outra Esquina), as hipocrisias e contradições de sociedades ainda muito tradicionais, mas desafiadas pelos ventos de mudança (A Cidade e os Cachorros, Pantaleão e as Visitadoras). Fora suas incursões pela história de outros países, como sua visita aos sertões brasileiros de Antônio Conselheiro (A Guerra do Fim do Mundo).

A política é essencial na obra e na vida de Vargas Llosa. Militante de esquerda nos anos 60 e 60, seu entusiasmo pela Revolução Cubana o levou a trabalhar na Prensa Latina, a agência de notícias criada pelo governo da ilha como uma tentativa de contraponto às grandes cadeias dos EUA e da Europa. Vargas Llosa se desgostou com a perseguição aos artistas cubanos e acabou rompendo com a Revolução, tornando-se politicamente um homem de direita. Concorreu à presidência do Peru nos anos 90, com uma plataforma liberal, mas foi derrotado por Alberto Fujimori, que manteve sua agenda econômica mas não seu compromisso democrático, e com o autogolpe de 1992 implementou um governo autoritário por 8 anos.

A obra ensaística/jornalística/política de Vargas Llosa não é, a meu ver, do mesmo altíssimo patamar de qualidade de seus textos literários. Mas a boa nova é que ele segue com seus romances. O mais recente é “O Sonho do Celta”, sobre um diplomata irlandês que denunciou as violações de direitos humanos no Congo, e terminou enforcado pelos britânicos, como traidor do Império (clique no link para ler as primeiras páginas).

No Brasil, os livros de Vargas Llosa estão sendo republicados pela Editora Alfaguara.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Arte e política na Itália: Vincere e Caro Michele



Poucos países tem uma tradição de arte política tão forte quanto a Itália. Gosto especialmente do cinema na segunda metade do século XX e de sua belíssima crônica das esperanças e desapontamentos do período. A Itália contemporânea é um estudo de caso para o declínio de valores éticos, mas suas produções artísticas continuam a maravilhar, mesmo que não com a mesma freqüência da época mais rica.

“Vincere” [vencer, um dos brados dos fascistas], de Marco Bellocchio, é um olhar original sobre o fascismo, a partir de uma história pouco conhecida: o romance entre Benito Mussolini e a empresária Ida Dalser. Ela se tornou sua amante quando ele era um jovem e provocador jornalista de extrema-esquerda, nos anos que precederam a I Guerra Mundial. A eclosão do conflito dividiu os socialistas em toda a Europa, e Mussolini foi talvez o mais estridente entre os que abraçaram a causa bélica. No decorrer de quatro anos em que a Itália sofreu derrotas fragorosas, ele virou um nacionalista agressivo e um homem de direita.

Mussolini já era casado quando conheceu Ida, mas os dois tiveram um filho. A relação não era um problema nos tempos da militância socialista, porém virou um obstáculo político à medida que o fascismo ascendia e pregava um ideal bastante conservador de família, incompatível com os casos extraconjugais do Duce. Ida acabou num hospício, e o filho, criado por um ativista fascista.

Bellocchio usa a história de amor para fazer a anatomia da loucura do fascismo, sobretudo na sequências ambientadas nos diversos hospícios em que Ida é internada. Numa das melhores cenas, as internas cantam a altos brados os hinos fascistas, numa paródia que me lembrou a excelente peça Marat/Sade, de Peter Weiss, na qual o Marquês de Sade encena momentos decisivos da Revolução Francesa com seus colegas de encarceramento no hospício.

Destaque para o ótimo roteiro e uma dupla de atores sensacionais: Giovanna Mezzogiorno, como Ida, e Filippo Timi, que interpreta Mussolini e seu filho. Ele soa mais convincente e carismático do que o próprio Duce: imagens de época, exibidas no filme, o retratam como um canastrão risível, com mais do que uma semelhança ocasional com o atual primeiro-ministro Silvio Berlusconi...

Em suma, Bellocchio completa com este filme seu ensaio sobre outra loucura política italiana, a da extrema-esquerda, em seu ótimo “Bom Dia, Noite”, sobre as Brigadas Vermelhas.



A luta armada italiana é o tema de um belo e triste romance epistolar, “Caro Michele”, de Natalia Ginzburg, recém-publicado no Brasil. Ambientado no início dos anos 70, é a história de um rapaz (em italiano, Michele é o equivalente a “Miguel” em português) que se envolve com um grupo comunista em meio à uma intensa crise pessoal. Enquanto sua vida íntima cai aos pedaços, ele se envolve num conflito que não entende.

Acompanhamos seus dilemas por meio de cartas e bilhetes trocados entre ele, sua mãe, irmãs, o melhor amigo, uma moça a quem talvez tenha engravidado e outros personagens. A família é de uma confortável classe média e a correspondência entre os integrantes pulula de preconceitos: contra os pobres, homossexuais, e a incompreensão com as escolhas políticas do filho único. No belo texto de Ginzburg, a maior parte das coisas importantes não é dita, ou está nas entrelinhas, num jogo de silêncios e incompreensões que pavimenta o caminho para o destino trágico da geração dos anos de chumbo italianos.

Ginzburg escreve com conhecimento de causa: militante histórica da esquerda italiana, seu primeiro marido foi morto na prisão, durante o fascismo, e ela eurodeputada pelo Partido Comunista.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os Excluídos



Meu amigo João Daniel me recomendou este excelente romance, que na edição brasileira se chama “Os Excluídos” – em inglês o título é The Vagrants, isto é, pessoas muito pobres que se deslocam sem cessar, de um lugar para outro. Foi escrito por Yiyun Li, uma jovem autora chinesa que emigrou para os Estados Unidos na década de 1990. Menina-prodígio na matemática, ela se revelou também um imenso talento literário. Seu livro é um retrato dolorido da China após a Revolução Cultural, nos anos que antecederam a guinada rumo às reformas econômicas e à prosperidade e que foram marcados pela derrota do movimento do Muro da Democracia.

O romance é ambientado na aldeia (ficcional) de Rio Lamacento, a cerca de mil quilômetros de Pequim e começa com a execução de Gu Shan, uma jovem que durante a Revolução Cultural foi a mais radical Guarda Vermelha do local, e nessa condição cometeu diversas atrocidades contra a população do vilarejo. Contudo, ela se decepcionou com o camarada Mao e acabou denunciada às autoridades pelo próprio namorado.

A ação se inicia em 1979. Mao já morreu e seus colegas da Gangue dos Quatro estão na cadeia. Em Pequim, Deng Xiaoping disputa o poder com a corrente mais conservadora do Partido Comunista, e estimula cautelosamente protestos sociais e críticas do período da Revolução Cultural. Em Rio Lamacento, essa explosão de medos, ressentimento e expectativas frustradas ocorrerá em torno das pessoas que conviveram com Shan.

Desse modo, Yiyun Li pinta um painel fascinante do cotidiano chinês à época, por meio dos dilemas de cerca de uma dúzia de personagens. Os pais de Shan, um professor aposentado e sua esposa, se dividem entre a dor de perder a filha e a vergonha pelos crimes que ela cometeu na Revolução Cultural. O pai é especialmente traumatizado, pelas perseguições que sofreu no início do comunismo, e por ter se divorciado da primeira esposa, uma militante fanática. Kai, é uma ex-colega de escola de Shan, que se casou com um figurão do Partido e tem um confortável cargo de locutora na rádio oficial, mas cujas dúvidas com o regime são crescentes, em particular quando se torna amiga de um dissidente. Nini, uma adolescente que nasceu deformada em razão de uma agressão de Shan contra sua mãe. Tong, um menino recém-chegado do campo que vaga pelas turbulências locais sem compreendê-las – uma ignorância que se mostrará fatal num tempo de furacões políticos.

As emoções despertadas pela execução de Shan são contraditórias, e a ex-fanática maoísta vira um símbolo do amor à liberdade e à justiça para os jovens dissidentes. Embalados pela tolerância de Pequim com o movimento do Muro da Democracia, os ativistas resolvem organizar um protesto em Rio Lamacento contra a opressão comunista, mas logo ficará claro para direção sopram os ventos da nova China.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Por que Orwell Importa



Devo ao amigo Gabriel um excelente presente: o livro "Why Orwell Matters", de Cristopher Hitchens, que acaba de ser lançado em português comm o título "A Vitória de Orwell". Ambos compartilhamos a admiração pelo estilo literário de Hitchens e por sua verve de polemista franco-atirador, absolutamente imprevisível em suas contendas, que abarcam de Madre Teresa de Calcutá (!) a Henry Kissinger e incluem pérolas do jornalismo como seu artigo "Belive me, it´s torture", no qual descreve de forma impagável como mudou de idéia a respeito dos métodos de interrogatório usados para combater o terrorismo.

Hitchens naturalmente se identifica com George Orwell, o escritor e jornalista britânico de vida breve mas com uma obra rica em romances e ensaios, que tratam de temas como o imperialismo europeu na Ásia, o totalitarismo soviético, a guerra civil espanhola e os dilemas liberais e progressistas em meio à crise da democracia na década de 1930 e no alvorecer da Guerra Fria.

O livro não é uma biografia tradicional, e sim um perfil intelectual, no qual as idéias de Orwell são apresentadas em capítulos que sintetizam suas posições - e oposições - em relação ao imperialismo, à direita, à esquerda, ao feminismo, aos Estados Unidos e à Inglaterra, com seções um pouco menores abordando seus romances e sua recepção pelos críticos culturais contemporâneos.

Hitchens só é Hitchens se estiver defendendo ou criticando uma causa, e ele assume a defesa de Orwell com relação a seus opositores ideológicos mais ferozes, em todos os espectros políticos. É preciso ao mostrar como muitas vezes as idéias de Orwell foram deturpadas por seus críticos, mas admite que o escritor mantinha certos preconceitos com relação aos homossexuais e às mulheres emancipadas.

Naturalmente, todos temos nossas limitações, mas o que impressiona em Orwell é como ele foi capaz de superar várias delas. Criado numa família de elite, optou por não cursar a universidade e serviu como policial na então colônia britânica da Birmânia, experiência que o deixou enjoado com o imperialismo. Pediu demissão e viveu frugalmente como escritor e jornalista. Lutou na Espanha com uma milícia anarquista e foi testemunha - e quase vítima - do autoritarismo dos comunistas locais.

A rejeição ao totalitarismo se manteve mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, quando a URSS era fundamental para a derrota da Alemanha nazista, mas ao contrário de muitos, Orwell nunca embarcou na ilusão de acreditar que o regime stalinista era algo mais do que uma máquina terrivelmente repressora. Daí surgiram seus romances mais famosos, "Revolução dos Bichos" e "1984".

Intelectuais independentes e críticos costumam ser leitura bem mais interessante do que aqueles que jogam as cartas marcadas das quase sempre tediosas contendas das igrejinhas partidárias. Por isso Orwell importa e os pontos que Hitchens levanta são de suma importância para manter acesa a chama da inquietação. Sempre

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ressurreição



A Cosac e Naify publicou uma nova edição de “Ressurreição”, o último grande romance de Liev Tolstói, pela primeira vez traduzido diretamente do russo para o português. O mestre é um dos meus escritores favoritos e este livro é de qualidade excepcional.

Ao participar como jurado no caso de uma prostituta acusada de assassinar um cliente, um aristocrata descobre que a ré é a ex-criada que ele seduziu e abandonou, grávida. Ele cai numa crise de culpa e se oferece para casar com ela e acompanhá-la à Sibéria, onde ela deve cumprir pena de trabalhos forçados, por conta de um erro judicial. O enredo foi baseado num acontecimento verídico, contado a Tolstói por um famoso advogado da época, que também sugeria tramas a Dostoiévski.

O príncipe Dimitri Nekhliúdov, protagonista de “Ressurreição”, tem elementos do próprio Tolstói e já havia aparecido em esboços autobiográficos do autor. É um dos “homens supérfluos” que povoam a literatura russa. Um aristocrata ocioso que passou por várias fases em sua vida: estudante idealista, simpático às idéias radicais de reforma social, serviço militar nos Regimentos da Guarda (restritos à elite, pois conviviam com a família imperial) e por fim uma existência de luxo e dissipação,que ele coloca em xeque ao reencontrar Kátia no tribunal.

O romance faz um belíssimo flashback para contar como Dimitri e Kátia se apaixonaram na juventude, quando ela trabalhava como criada na fazenda das tias do rapaz, onde ele passava férias. A descrição do amor romântico de ambos é linda, e marca o contraste quando Dimitri, já corrompido pela vida no Exército, seduz a moça.

Ao envolver-se novamente com ela, o aristocrata mergulha no mundo das prisões e do sistema judiciário do fim do império czarista e acaba se tornando amigo e admirador dos presos políticos, pertencentes aos vários grupos socialistas da época ("as melhores pessoas na sociedade russa atual") e dos dissidentes religiosos. Tolstói dá uma demonstração de maestria literária impressionante, descrevendo em detalhes os ambientes mais diversos: dos gabinetes dos altos funcionários em São Petersburgo, onde Dmitri vai pleitear por Kátia e seus amigos, à realidade sórdida e difícil das diversas masmorras do Império: a Fortaleza de Pedro e Paulo, prisões provinciais e os cárceres na estrada para a Sibéria.

O interesse de Tolstói pelo tema ia além do literário. “Ressurreição” foi escrito ao fim do século XIX, quando ele havia quase abandonado a literatura de ficção e se dedicava a uma série de causas sociais, em particular a defesa de seitas religiosas que desafiavam a Igreja Ortodoxa, oficial. O romance foi pensado como um modo de arrecadar dinheiro para essas organizações.

As análises de Tolstói sobre a decadência das instituições russas, e o modo como se tornaram instrumentos para os interesses da aristocracia são impressionantes, bem como a narrativa dos caprichos, vaidades, pequenas e grandes corrupções da elite.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Romantismo: uma questão alemã



“Foi um tempo perigoso para jovens inteligentes... extremamente excitante e tensa, a vida se movimentava entre diversos extremos.”

O principal argumento deste excelente livro do filósofo e jornalista Rudiger Safranski é que o romantismo alemão foi uma reação ao racionalismo do Século das Luzes com profundas implicações para a arte e a política da Alemanha não só no início do século XIX, mas com ecos na ascensão do III Reich e até nas revoltas sociais de 1968. As distintas manifestações românticas têm em comum a valorização das emoções, a ânsia pelo segredo e pelo mistério, a vontade de tornar especial o cotidiano. Como escreveu Eichendorff, “E o mundo começa a cantar, se apenas achas a palavra mágica.” As correntes libertárias priorizavam a autonomia do indivíduo diante das convenções sociais, outras abordagens preconizavam a comunidade e as tradições acima dos desejos pessoais.

Safranski identifica o auge do romantismo alemão entre a Revolução Francesa e a década de 1830. O ímpeto inicial veio do movimento “Sturm und Drang”, de Goethe e Schiller, que contrapunha aos acontecimentos políticos franceses a necessidade de uma profunda transformação no espírito alemão, uma nação dividida em múltiplos reinos, principados, ducados nos quais “tudo estava fragmentado, estreito e pequeno”.

A filosofia cumpriu papel importante nesse processo, com os escritos de Herder e Fichte, defensores de que cada nação tem sua tarefa no curso da história mundial, e à Alemanha estava reservado um grande destino. Mas se os primeiros românticos estavam mais preocupados com poemas de amor, contos de fada e lendas medievais, as guerras napoleônicas tornaram o movimento uma questão política, intensamente nacionalista e um tanto agressiva. Por ironia, muito desse espírito foi transferido para os socialistas e outros grupos de esquerda, que criticavam os românticos por seu desinteresse pelos assuntos públicos: “Os sonhos gerais de libertação continuavam românticos, mas o comportamento pessoal não deve sê-lo”.



Para Safranski, existe uma tensão não-resolvida no romantismo entre a reação ao desencantamento do mundo moderno, com a busca pelo exótico e pelo diferente, e uma certa nostalgia da paz burguesa, da vida simples do campo ou do período medieval. Essa inquietação é bem sintetizada nos versos de Holderlin: “Por que nunca dorme, pois / o ferrão no meu peito?”.

Tais contradições experimentam diversos retornos na vida alemã, diante das crises sociais trazidas pela rápida industrialização do país, e pelas rivalidades internacionais crescentes. O III Reich é apenas a versão mais catastrófica de uma tendência perigosa que está presente em Wagner, Nietzsche e outros: “Procura-se na política algo que jamais se encontrará ali: a salvação, o verdadeiro ser, a resposta às últimas perguntas, a realização dos sonhos, a utopia da vida que deu certo, o Deus da história, o apocalipse...”

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Instantâneos do Século XXI



Em julho lecionarei na Casa do Saber o curso “Instantâneos do Século XXI – Grandes mudanças no cinema, na literatura e na sociedade”. A idéia é discutir em quatro aulas o que a arte produzida nos últimos 10 anos tem a nos dizer sobre o mundo contemporâneo.
Estruturei o curso em quatro aulas: terrorismo/guerra; celebridades/líderes, economia global e uma sessão dedicada ao olhar atual sobre as utopias do século passado. É muito comum que eu cite filmes e romances nos meus debates a respeito de Ciência Política, de modo que a idéia de um curso inteiro para abordagens artísticas é um desdobramento lógico.

Eis alguns dos autores que pretendo utilizar:

Na literatura e no teatro: Ian McEwan, Mohsin Amid, Eduardo Mariani, Aravind Adiga, Tom Stoppard, Michael Frayn, J.M. Coetzee, Mia Couto.

No cinema: Robert Redford, Clint Eastwood, Walther Moreira Salles Jr., Costa-Gavras, Neill Blomkamp, Ari Folman, Fernando León de Aranoa, Juan José Campanella, Roman Polanski.

Meu objetivo é fazer um apanhado geográfico bastante abrangente, com artistas da Europa, EUA, América Latina, Ásia e África. Afinal, este século se inicia sob o signo das potências emergentes, fora do mundo ocidental.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Primeiro Camus



Dias atrás li “O Primeiro Homem”, de Albert Camus, o romance autobiográfico que conta a história de um bem-sucedido escritor, Jacques Cormery, que na meia idade relembra sua infância pobre na Argélia. O livro estava inacabado quando Camus morreu num acidente de automóvel, e foi publicado postumamente. Nem parece: é uma pequena jóia e um testemunho sobre um mundo há muito desaparecido, o dos colonos franceses no norte da África.

O romance começa com Cormery visitando o túmulo do pai, morto na França na Primeira Guerra Mundial, quando ele era apenas um bebê. O protagonista percebe que é mais velho do que o pai, quando partira para a batalha, e a desorientação o leva a relembrar sua infância. A pobreza era rigorosa, e aumentada por aflições familiares: a mãe e o tio eram quase surdos, e pouco falavam. A casa era dominada pela avó, analfabeta e autoritária.

Era um mundo fechado, quase tribal, pouco conectado com o que acontecia ao redor. Cormery descreve a reação da mãe à deflagração da I Guerra Mundial: “ela não sabia história da França, nem o que era história. Conhecia um pouco da sua, e mal conhecia a das pessoas que amava... Dentro da noite do mundo, que não era capaz de imaginar, e da história, que ignorava, uma noite mais escura simplesmente acabava de se instalar.”

O que salva Cormery – e Camus – é a educação pública de qualidade, a principal conquista da III República Francesa. O menino se destaca na escola primária e conquista a admiração e afeto do professor, que o recomenda a uma bolsa de estudos para o ginásio e convence seus parentes a apostar em sua educação, em vez de forçá-lo a trabalhar para ajudar no sustento da casa. Camus dedicou o Prêmio de Literatura a esse professor, e a edição do livro contém as cartas que os dois trocaram após o seu “querido menino” ter sido laureado pela Academia Sueca. Diz o narrador do velho mestre que ele “lançara Jacques no mundo, assumindo sozinho a responsabilidade de arrancá-lo de suas raízes para que fosse em busca de descobertas ainda maiores.”



A ascensão social tem um preço alto para Cormery, pois sua vida se divide entre duas existências que não se tocam – o mundo dos livros e das aspirações despertadas pela escola, e a rotina familiar. A avó, por exemplo, não consegue entender os meses de férias aos quais o rapaz tem direito, pois ela havia trabalhado sem trégua desde menina. Cormery ganha consciência de quão pobre é sua família ao preencher uma ficha escolar onde anota a profissão da mãe: “empregada doméstica”. Ele tem vergonha, e se sente mal pelo sentimento.

Camus escrevia em meio à sangrenta guerra de independência da Argélia. Os rascunhos do romance contém apontamentos que indicam que ele abordaria o tema, por meio da amizade do Cormery de meia idade com ativistas favoráveis ao rompimento com a França. Mas esses trechos não chegaram a ser escritos, e o que ficou foi a prosa – magnífica – descritiva dos bairros populares de Argel, do anoitecer na África, das manhãs de sol à beira do Mediterrâneo, do prazer do futebol e das leituras. E também certa nostalgia pelo universo de sua infância, na qual brancos pobres conviviam de forma razoavelmente harmoniosa com os árabes, quase irmanados por suas posições subordinadas na sociedade colonial.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Gabriel García Márquez: uma vida



O escritor colombiano Gabriel García Márquez brincou que todo autor respeitável deveria ter um biógrafo inglês. O seu, Gerald Martin, cumpriu a tarefa com maestria. Após quase 20 anos de pesquisa, lançou um estupenda biografia, que examina a gênese do universo criativo de García Márquez e destrincha suas relações políticas com sua Colômbia natal e com a Revolução Cubana, de quem se tornou o principal defensor intelectual.

García Márquez passou a infância em pequenas cidades e vilarejos da costa caribenha da Colômbia. Sobretudo Arataca, cujas lendas ele imortalizaria na Macondo de “Cem Anos de Solidão”, sua obra-prima. Seu modelo era o avô materno, um coronel que lutou pelos liberais na Guerra dos Mil Dias, e em cuja casa o escritor viveu quando pequeno.

Na juventude, García Márquez foi estudar em Bogotá, mas nunca se sentiu à vontade na capital da Colômbia, situada nos Andes e de costumes bem mais conservadores do que a parcela tropical do país. Estudou Direito, sem se formar, se iniciou no jornalismo e assistiu ao terrível Bogotazo, a rebelião popular que marcou o início de La Violéncia, a guerra civil entre conservadores e liberais que se arrastou pela década de 1950.




Mas então García Márquez era menos interessado em política do que em literatura, cinema e jornalismo, e viveu aos trancos e barrancos como repórter por uma série de países: Colômbia, Venezuela, França, Estados Unidos e, finalmente, México, onde foi muito bem acolhido e desfrutou de um excelente ambiente cultural, no qual floresceu seu casamento com Mercedes e cresceram seus dois filhos, Rodrigo e Gonzalo.

Seus primeiros romances, como “La Hojarasca” e “Ninguém Escreve ao Coronel” começaram a torná-lo conhecido como escritor. A fama internacional veio com “Cem Anos de Solidão”, em 1967, saga familiar que mistura guerras civis, massacres de trabalhadores nas plantações de banana, ciganos, mitos e que se tornou um dos livros mais amados do século XX. García Márquez se tranformou numa celebridade global, íntimo de estadistas e artistas, e o Nobel conquistado em 1982 apenas reforçou seu status.

O escritor despontou no contexto do boom da literatura latino-americana, no qual também figuraram outros autores de primeiro quilate, como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes. Eram bastante amigos, mas García Márquez e Vargas Llosa terminaram adversários e protagonistas de uma célebre briga a socos, num coquetel explosivo que envolvia rivalidade pessoal, disputas amorosas e divergências políticas.

O cerne da polêmica foi Cuba. García Márquez fez parte da equipe da Prensa Latina, a tentativa da Revolução de 1959 de criar uma agência de notícias internacionais que desafiasse as grandes empresas ocidentais. O projeto fracassou em meio às disputas internas do próprio governo cubano, mas o escritor conseguiu aos poucos se aproximar de Fidel Castro e ambos se tornaram grandes amigos. García Márquez mediou alguns esforços humanitários – como libertar presos políticos cubanos – mas se calou diante do autoritarismo e das violações de direitos humanos do regime de Castro e com o tempo se transformou em algo muito próximo a seu propagandista, ao passo que outros intelectuais foram rompendo progressivamente com a Revolução cubana, criticando seu autoritarismo.



Aliás, García Márquez é fascinado pelo poder e pela proximidade com presidentes de diversos matizes, inclusive ditadores como Castro e como o general panamenho Omar Torrijos. Gerald Martin examina muito bem como isso reflete em sua obra, em particular nos romances “O Outono do Patriarca” e “O General em seu Labirinto”, que apesar de tratar de Bolívar, incorpora algo de Fidel.

García Márquez esposou outras causas políticas, como a condenação às ditaduras latino-americanas (em especial a de Pinochet) e o apoio à transição democrática na Espanha. Em sua Colômbia natal, seus esforços foram mais contraditórios e falhos. Seus projetos de revistas jornalísticas nunca prosperaram muito e sua relação com líderes políticos locais foram tensas. Ele oscilou da proximidade com os guerrilheiros do M-19 ao flerte com conservadores no contexto da ascensão do poder do narcotráfico. Na Venezuela, onde morou, García Márquez não gosta de Chávez, talvez porque seja amigo íntimo de seus adversários, como o ex-presidente Carlos Andrés Pérez (que Chávez tentou depor num golpe militar, em 1992) e do líder de esquerda Teodoro Petkoff.

Na maturidade, a obra literária de García Márquez passou a abordar principalmente o tema do amor, que parece coincidir com certo desencanto com o poder. Martin é entusiasta do romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, e mais crítico com respeito aos livros mais recentes do escritor (como “Memórias de Minhas Putas Tristes”). O biógrafo retrata o declínio da saúde de García Márquez, como sua luta contra o câncer e problemas neurológicos que o têm acometido com frequencia.