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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Construindo Raça e Nação



Preparo um curso sobre democracia nos Estados Unidos e por conta disso tenho lido muito sobre a história do país. Um dos livros mais interessantes que encontrei foi “Making Race and Nation: a comparison of South Africa, the United States and Brazil”, de Anthony Marx. O argumento central: nos EUA e na África do Sul, os conflitos violentos entre as elites brancas levaram à segregação formal dos negros, ao passo que no Brasil, um maior nível de unidade foi a base para um sistema de discriminação informal, sem as leis rígidas das outras duas nações. Mas isso dificultou a mobilização política negra com base na identidade étnica.

Tanto os Estados Unidos quanto a África do Sul passaram por guerras ferozes entre os brancos no século XIX. No primeiro país, o conflito que dividiu norte e sul (1861-1865) por conta das tensões relativas à escravidão, sobretudo sua expansão ou não para os novos territórios do oeste. No segundo, a guerra dos bôeres (1899-1902), na qual o império britânico incorporou as pequenas e ricas repúblicas africâners, produtoras de ouro e diamantes.

Todos os lados envolvidos nessas disputas usaram os serviços militares dos negros, em geral como forças auxiliares (cozinheiros, carregadores, operários etc), com exceção das tropas americanas da União, que chegaram a incluir quase 200 mil negros, muitos em funções de combate. Mas ao fim dos conflitos, as promessas de reformas que beneficiassem os aliados de pele escura foram abandonadas em nome dos interesses em apaziguar as populações brancas rebeldes. Mesmo que no caso dos EUA, os anos da Reconstrução (1865-1877), tenham sido marcados por avanços sociais para os negros que só seriam alcançados novamente na década de 1960.



O Brasil é o ponto fora da reta. Me parece que Anthony Marx subestimou a importância das rebeliões durante a Regência, que pelo menos no caso da Cabanagem (1835-1840) envolveram um componente de guerra étnica importante. As revoltas escravas brasileiras, do quilombo dos Palmares à insurreição dos Malês, também foram maiores do que suas similares nas outras duas nações, esse deve ter sido um elemento significativo na construção da solidariedade de brancos e mulatos. Mas é certo que as elites brasileiras mostraram um grau maior de unidade e capacidade de resolução pacífica de seus conflitos do que suas contrapartes nos EUA e na África do Sul.

Marx também estuda os esforços dos negros, nos três países, em reagir ao racismo e propor alternativas políticas. Havia, claro, muitos contatos e referências internacionais – as forças anti-apartheid se inspiraram em Martin Luther King Jr. e Malcom X, e nos EUA e na África do Sul os progressistas tendiam a idealizar o Brasil como uma “democracia racial”. O livro foi publicado no fim da década de 1990 e muita água correu debaixo da ponte, desde então: a eleição de Obama, os conflitos xenofóbicos entre negros na África do Sul e a ascensão das políticas de ação afirmativa no Brasil. Dito de outro modo, raça e nação ainda estão em construção nos três países e temos ainda outras possibilidades comparativas muito interessantes, como o movimento indígena na Bolívia.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Política da Copa



O desempenho da seleção brasileira na Copa rende um bom texto sobre catástrofes humanitárias, mas hoje vou abordar o evento da perspectiva da política. É a primeira Copa realizada na África e um teste importante para a capacidade de um país do continente sediar uma competição internacional de grande porte. Se tudo correr bem, abre-se a porta para a realização de outros eventos semelhantes, como Olimpíadas.

As apostas são mais altas, claro, na África do Sul, com a expectativa de receber cerca de 370 mil turistas, e investimentos em torno de US$12,5 bilhões. Abaixo do que era esperado inicialmente. As preparações para a Copa foram complexas, com atrasos no cronograma das obras e greves de operários e de seguranças, inclusive agora, com os jogos já iniciados. Outra decepção foi a pequena quantidade de turistas vindos de países africanos: apenas 3% do total.

Os custos e receitas das últimas Copas não seguiram padrão linear. A disputa na Coréia do Sul e no Japão, em 2002, foi de longe a mais rentável. A da África do Sul, evidentemente, significa grandes despesas com a construção da infraestrutura.
A Copa também uma oportunidade rara para países muito isolados internacionalmente tentarem alcançar audiência mais ampla. As lágrimas do camisa 9 da Coréia da Norte, durante a execução do hino no jogo contra o Brasil, fizeram mais por humanizar o país de Kim Jong-Il do que todas as bombas nucleares daquela ditadura. O Zimbábue não está na competição, mas conseguiu que a seleção brasileira jogasse um amistoso contra seu time nacional – bela propaganda para Robert Mugabe.



Países da Europa e da América Latina são, como sempre, os favoritos para vencer a Copa. Curiosamente, as potências emergentes estão quase excluídas da competição. O mau desempenho da China no futebol é um caso conhecido, e também chama a atenção a ausência de times do Oriente Médio, região que adora o esporte, e na qual as partidas por vezes servem de estopim para conflitos políticos.

Ainda sobre o tema: Henry Kissinger comenta como os estilos de jogar futebol refletem a política externa de cada país.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Terreblanche



No fim de semana foi assassinado um dos líderes da extrema-direita da África do Sul, Eugene Terreblanche. Aparentemente, não foi um crime político: segundo a polícia, ele teria sido morto por dois trabalhadores de sua fazenda, em razão de uma disputa salarial. Terreblanche já fora preso em 2001 por ter assassinado um dos funcionários em sua propriedade. Sua história, claro, é extrema. Mas nem tanto: desde o fim do apartheid, 3 mil fazendeiros brancos foram mortos na África do Sul, e no vizinho Zimbábue fugiram em massa após o confisco de suas terras pela ditadura de Mugabe.

A questão agrária no cone sul da África é um barril de pólvora, em função de um padrão de colonização muito particular. Na maioria do continente, a presença de colonos europeus foi bastante reduzida. Alguns poucos milhares, em geral administradores públicos ou militares. Mas na porção austral da região, o clima mais ameno propiciou a instalação de centenas de milhares de fazendeiros e comerciantes, sobretudo na África do Sul, Angola, Moçambique, Rodésia do Sul (o atual Zimbábue) e Quênia.

A instalação dos europeus se deu, claro, às custas da expulsão dos africanos de suas terras. Em geral após longas e sangrentas guerras coloniais – mais de 10 só na África do Sul, mas depois também por decisões administrativas dos governos. Durante o apartheid, as autoridades removeram diversas comunidades negras das cidades e zonas rurais que foram reservadas aos brancos e as instalaram à força em favelas como Soweto ou nos chamados bantustões/homelands, áreas destinadas para membros de determindadas etnias.



A ficção é que os bantustões seriam territórios independentes, cujos cidadãos permaneceriam temporiariamente na África do Sul, em busca de trabalho, mas sem direitos de cidadania. Os governos-fantoches das homelands eram pagos pelas autoridades do apartheid e alguns criaram pequenos impérios particulares, baseados em cassinos e prostituição. Sexo entre brancos e negros era proibido na África do Sul, mas não nos bantustões, o que criava, digamos, um nicho de mercado para o turismo sexual étnico.

Eugene Terreblanche entrou nessa história na década de 1990, propondo a criação de um bantustão para os brancos, no contexto dos anos finais do apartheid. A idéia era surreal: as homelands acabariam junto com o apartheid e os brancos estão muito dispersos no território sul-africano, não são maioria em nenhuma região. Mas no clima tenso daqueles anos, parecia uma alternativa razoável para os africâners apavorados com a possibilidade de um massacre quando os negros chegassem ao poder, com a eleição de Nelson Mandela.

O próprio Terreblanche era uma caricatura do extremista político, com a suástica que era o símbolo de seu movimento, e seu hábito de fazer discursos montado a cavalo – mesmo que ele costumasse cair do animal, em função de problemas com a bebida. Mas seu grupo chegou a ter a adesão de um respeitado ex-comandante do Exército, invadir o centro de convenções onde o governo e a oposição negociavam a transição para a democracia e até tentar conquistar pelas armas uma homeland negra em revolta, num ato que terminou num fiasco tão grande que sepultou politicamente o movimento.

A reforma agrária na África do Sul pós-apartheid caminha a passos lentos, demasiadamente lentos. A situação explosiva no Zimbábue fica como uma sombra, um lembrete do que pode ocorrer. O presidente Zuma tem agido muito bem na reação ao assassinato de Terreblanche, pedindo calma e moderação. Certamente se lembra dos dias trágicos em que negociou o cessar-fogo nos conflitos étnicos, com africânders e zulus.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Clube do Bangue Bangue



Na semana passada comentei sobre os erros e falhas dos correspondentes de guerra, agora é o momento de ressaltar o papel positivo que a imprensa desempenha em grandes conflitos políticos. Mais especificamente: como um grupo de repórteres fotográficos cobriu com talento e coragem a violência étnica que matou 14 mil pessoas na África do Sul, entre 1990 e 1994, e quase impediu a transição do apartheid para a democracia. O trabalho dos jornalistas foi fundamental para mostrar como elementos do governo, em especial na polícia, estimularam o conflito para tentar sabotar o diálogo. A história é contada no livro autobiográfico “O Clube do Bangue Bangue: instantâneos de uma guerra oculta”, de Greg Marinovich.

Marinovich foi um dos quatro repórteres que formaram o grupo, e ganhou um Pulitzer por sua foto de um homem zulu sendo queimado vivo pela multidão de xhosas numa favela próxima a Johannesburgo. Os outros membros do Clube eram os sul-africanos Kevin Carter, Ken Oosterbroek e o moçambicano João Silva. Todos eram jovens, na faixa dos 20/30 anos, com um histórico de rebeldia e inquietação, sérios problemas familiares e com drogas, extremamente habilidosos no que faziam e com a tendência a se viciar na adrenalina da violência. O talento cobrou uma conta trágica: Carter também ganhou um Pulitzer, pela imagem de um urubu espreitando uma menina faminta no Sudão, mas se matou depois disso, em parte angustiado por não ter ajudado a criança (ele já havia tentado o suicídio anteriormente, por problemas profissionais). Oosterbroek morreu atingido por uma bala perdida num confronto entre militares e gangsters e o próprio Marinovich foi atingido duas vezes, na África do Sul e no Lesoto.



Os quatro amigos cobriam uma guerra particular, que acontecia em seu próprio país, mas num mundo à parte. Nos anos finais do apartheid, as favelas e periferias negras estouraram em choques armados entre milícias que apoiavam o Congresso Nacional Africano, partido de Mandela, e os paramilitares zulus que tentavam um acordo de última hora com o apartheid para extrair privilégios em sua província originária, Natal. O conflito tinha dimensões étnicas, mas também refletia o choque rural/urbano, pois se tratava dos migrantes zulus atacando os grupos mais antigos nas favelas, usando como base os albergues para trabalhadores do campo . O governo – ou ao menos seus elementos mais extremistas - usou os zulus para tentar desacreditar Mandela e muitos temeram que a situação na África do Sul degenerasse num massacre comparável ao da Bósnia e de Ruanda. Foi por um fio: o chefe zulu só concordou participar nas eleições democráticas poucos dias antes da votação.

A polícia do apartheid protegia as milícias zulus e em alguns casos fazia ela mesma o trabalho sujo de assassinar os partidários do Congresso Nacional Africano. O trabalho do Clube do Bangue Bangue foi importante para denunciar os abusos que ocorriam então, embora a real escala do envolvimento governamental só tenha se tornado conhecida no fim da década de 1990, pelos trabalhos da Comissão de Verdade e Reconciliação. Aliás, o arcebispo Desmond Tutu, que a presidiu, assina o prefácio do livro.



Marinovich é um cronista excepcional da violência estúpida que presenciou, mas também relata de forma emocionante o despertar político do país, e de sua própria consciência, à medida que o filho de imigrantes croatas se torna mais próximo das comunidades negras, que até então ele conhecia apenas como empregados e serventes. Além da importância como documento histórico, seu livro é uma ótima análise sobre a criação de uma cultura de desconfiança com relação ao Estado que permeia muito da atual onda de criminalidade na África do Sul.

Os amigos fotojornalistas foram ironizados pela imprensa local como os “papparazzi do bangue bangue”, mais tarde mudados para “clube” a pedido deles mesmos. Marinovich é bastante direto ao relatar como ficaram viciados na emoção da guerra, e como a transição para a democracia deixou muitos deprimidos, e os impulsionou a buscar adrenalina em outras situações de conflito: ex-Iugoslávia, Somália, Sudão, Israel/Palestina. Uma tremenda história, que está sendo adaptada ao cinema. Tem tudo para render um grande filme.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Conquistando o Inimigo



Comentei há alguns dias o filme “Invictus”, que trata de como Nelson Mandela usou o rugby para promover a integração racial na África do Sul. Por conta do curso que preparo sobre o país, fui ler “Conquistando o Inimigo” (clique no link para ler o capítulo 1), do jornalista inglês John Carlin, o livro que inspirou a produção cinematográfica. Foi uma bela surpresa: a história é ainda mais interessante do que a versão que foi para a tela grande.

O filme começa com Mandela sendo libertado da prisão após quase 30 anos confinado, ao passo que o livro de Carlin se inicia bem antes, contando como o interesse do líder pelo rugby começou quando ele ainda estava encarcerado. O esporte foi a maneira que Mandela encontrou para se aproximar do pior diretor que enfrentou na cadeia, um coronel intratável que só amolecia quando o assunto era o rugby.

Mandela não era o único lider da resistência anti-apartheid a perceber a importância política do esporte. O rugby era a principal paixão - “religião secular”, diz Carlin – da comunidade africânder, os descendentes de holandeses que formaram o núcleo duro do regime racista sul-africano. A estratégia de seus oponentes foi utilizar as denúncias de violações de direitos humanos perpretadas pelo governo como base para uma série de sanções diplomáticas que terminaram por excluir a seleção da África do Sul das disputas internacionais. O gesto teve um impacto profundo e levou muitos africânders a questionarem o que estava acontecendo de errado em seu país.

Fiquei imaginando o que teria ocorrido na América do Sul se os ativistas contrários às ditaduras militares tivessem usado os mesmos métodos, com relação ao futebol. Basta pensar em como os regimes autoritários do Brasil e da Argentina usaram o esporte – e seus respetivos triunfos nas Copas de 1970 e 1978 – e temos aí uma bela questão para o debate.

A adaptação para o cinema do livro de Carlin se concentra no relacionamento de Mandela com o capitão da equipe sul-africana de Rugby, François Pienaar. É de fato uma bela história, mas há pelo menos dois personagens que ficaram de fora e que mereciam destaque. Um deles é Morné du Plessis. Ex-capitão da seleção, ele se tornou de maneira gradual um militante anti-apartheid. Como técnico do time na Copa do Mundo de 1995, ele tomou diversas medidas para promover a integração racial, como ensiná-los a cantar “Nkosi Sekelele”, a canção xhosa de resistência que se tornou um dos novos hinos oficiais da África do Sul. No filme, a iniciativa é atribuída a Pienaar, mas na vida real a cena foi mais bela: Plessis contratou uma jovem professora universitária de idomas para treinar o time, que foi às lágrimas, emocionados pelo simbolismo e pelo papel que desempenhavam.

O outro atleta que foi excluído do filme, injustamente, foi James Small. Um jogador genial mas temperamental e explosivo, foi parar na seleção como poderia ter ido para a cadeia. Descentente de ingleses num meio majoritariamente africânder, ele sentiu na pele a discriminação racial que existia mesmo entre os brancos sul-africanos. Chegou a ser espancado por colegas de time que queriam provar a ele que no rugby não havia espaço para pessoas de sua ascendência. Small se tornou um dos maiores entusiastas de Mandela e seu desepenho foi decisivo na dramática final contra a Nova Zelândia, pois a ele coube marcar o jogador mais perigoso do time adversário.

Livro e filme têm uma perspectiva muito otimista, e um tanto ingênua, dos esforços de integração racial na África do Sul. A meu ver, é uma visão que não faz justiça à realidade conturbada do país. É possível, ou desejável, perdoar tudo? Em que medida certas iniciativas de reconciliação não são simplesmente impotência para punir os culpados? Perdoar é o mesmo que esquecer e apagar a memória dos crimes passados?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Invictus



Dou os toques finais num curso que lecionarei para jornalistas que cobrirão a Copa do Mundo na África do Sul. Por conta disso, tenho examinado ou revisto bastante material sobre o país, e por um acaso feliz na semana passada estreou nos cinemas brasileiros "Invictus", filme que narra como o presidente Nelson Mandela usou o esporte nos esforços para integrar racialmente a África do Sul, logo após a queda do apartheid.

"Invictus" é dirigido por Clint Eastwood - olha ele aqui de novo - um dos heróis deste blog, e é baseado numa história real. Quem conhece a obra de Eastwood não se espanta pela escolha do tema, pois o diretor há muito explora a questão dos ódios raciais em seus filmes. Aliás, "Invictus" reedita e sempre bem-sucedida parceria de Eastwood com Morgan Freeman, que interpreta de maneira brilhante Mandela, caracterizando à perfeição sua postura corporal e sotaque.

O enredo: Mandela está no início de seu governo e precisa enfrentar uma série de problemas sérios: o medo da população branca de que sua vitória represente a vingança contra as atrocidades perpretadas durante o apartheid, a calamitosa situação econômica do país e o aumento do crime. Nesse contexto, ele enxerga na desacreditada seleção nacional de rugby a possibilidade de um símbolo importante.

Nas divisões raciais que predominavam na África do Sul, o rugby era principalmente um esporte de brancos - a seleção nacional tinha apenas um jogador negro - e a população com outras cores de pele preferia, de modo geral, o futebol. Mas como a África do Sul sediaria a Copa do Mundo de Rugby em 1995, um ano após a posse de Mandela, o presidente apostou que o time poderia se tornar a representação da união nacional da qual o país tanto precisava.

Isso foi conseguido por meio de um intenso trabalho político, muito bem narrado no filme, que mostra as negociações de Mandela com a confederação esportiva nacional, para que mantivesse as cores e emblemas oficiais do time, um processo de sedução carismática dos jogadores, convencendo-os de sua importância para a África do Sul, e excursões e atividades sociais da equipe para identificá-la com a população negra e pobre.

Cerca de 2/3 do filme são dedicados a essas questões, apenas a parte final é um tanto tediosa, pois repete os habituais clichês dos dramas esportivos de "unidos venceremos" - a seleção sul-africana foi a campeã da Copa do Mundo. O roteiro também peca por um certo esquematismo nas relações raciais entre os personagens principais, as tensões étnicas na África do Sul continuam muito fortes e mal resolvidas, como era de se esperar após quase 50 anos de apartheid.

Ainda assim, "Invictus" vale a pipoca, quando mais não seja pela oportunidade de conhecer um pouco mais sobre um país que tem tanto a dizer ao Brasil, e que sediará, novamente, uma competição internacional esportiva.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Distrito 9



“Direitos Humanos... O próprio conceito é racista!”

De um general Klingon em “Jornada nas Estrelas VI”


A ficção científica tem basicamente duas maneiras de lidar com o tema dos encontros dos humanos com raças alienígenas: 1) Existem coisas lá fora e elas querem nos destruir (Aliens, Predador, Independence Day). 2) Existem coisas lá fora e o contato com elas, assustador à primeira vista, pode nos enobrecer (ET, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, O Jogo do Exterminador). “Distrito 9” é uma brilhante obra cinematográfica que mergulha nos traumas, medos e esperanças da África do Sul para desenvolver uma variação da segunda corrente. Nela, a fricção entre espécies diferentes desperta o que há de mais monstruoso na humanidade, ainda que guarde uma tênue esperança de redenção.

O enredo é simples e criativo: uma gigantesca espaçonave alienígena encalha em cima da cidade sul-africana de Johanesburgo, com dois milhões de ETs dentro dela, de aparência semelhante a crustáceos. Os alienígenas têm uma tecnologia sofisticada, mas que ninguém consegue operar, e a maioria de suas máquinas quebrou na viagem. Chegam doentes e famintos, o governo se vê diante de uma crise de refugiados e aloca-os num grande campo, o Distrito 9, que rapidamente se torna uma grande favela, com problemas de crime, racismo, xenofobia. As autoridades contratam uma empresa privada, a Multinational United (ótimo nome!) para gerir a segurança e a companhia decide remover os ETs para longe dos humanos. Só que o funcionário encarregado da tarefa é contaminado por uma estranha substância e começa a se transformar num alienígena, ao mesmo tempo em que descobre operações secretas da empresa e começa a questionar seus preconceitos.




Produzido por Peter Jackson (da triologia Senhor dos Anéis) e dirigido pelo jovem cineasta sul-africano Neill Blomkamp o filme fala, claro do aparheid. O título remete ao Distrito 6, um famoso bairro boêmio e multirracial da Cidade do Cabo, derrubado pelo governo racista. Os personagens mais intolerantes do filme são todos africâners, da mesma etnia que construiu o regime de exclusão racial. A África do Sul contemporânea também está na história. Brancos e negros convivem de maneira aparentemente amistosa, mas os negros ocupam as posições subalternas e pagam o preço quando os chefes erram. Os recentes conflitos violentos envolvendo imigrantes de outros países africanos igualmente estão implícitos no filme. Há uma quadrilha de nigerianos que controla o crime organizado no Distrito 9 e a própria premissa do enredo não difere tanto da crise de refugiados que aconteceu com o afluxo de pessoas do Zimbábue, que fogem da ditadura de Mugabe e do colapso econômico.


Mas as situações retratadas em Distrito 9 vão além da África. O filme tem inspirações temáticas e visuais de produções como Rocobop e Cidade de Deus e diz muito aos brasileiros. A primeira hora, focada na operação de despejo dos alienígenas, parece uma gigantesca incursão policial numa favela carioca e não por acaso as legendas brasileiras usam expressões da cidade, como “BOPE” para designar uma unidade militar de elite e “caveirão” para um carro policial. A tradução é mais precisa do que aparenta: o célebre veículo é uma adaptação do Mellow Yellow, o blindado que a polícia do apartheid usava para operações contra as favelas sul-africanas.

Agora é aguardar a continuação do filme – que certamente virá.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O Boom do Cinema Sul-Africano


O cineasta Walter Salles Jr. certa vez observou que um país costuma passar por um boom cinematográfico 15 anos após um grande acontecimento histórico. Ele citava como exemplo as nações da Europa Oriental, particularmente a Romênia, mas sua percepção se adapta à perfeição ao que acontece com a África do Sul. Década e meia depois do apartheid, diversos filmes estão em produção sobre aquele período.

Um deles é Distrito 9, inesperado sucesso nas bilheterias dos Estados Unidos. Dirigido pelo jovem cineasta sul-africano Neill Blomkamp, ele conta uma parábola sobre racismo e discriminação, usando como pretexto o mau tratamento que os humanos de Johannesburg dão a um grupo de alienígenas que desembarca na cidade.

Mas minha maior expectativa está com o “Clube do Bang Bang”, ainda em produção. É a história de um grupo amigos fotojornalistas que cobriu os momentos mais dramáticos da transição do apartheid para a democracia, como o conflito entre os xhosa e os zulu que quase cortou o país em dois. Algumas das imagens que os repórteres registraram se tornaram símbolos de uma época, como a imagem abaixo – de um homem queimado durante os choques étnicos – que ganhou o Prêmio Pulitzer.



Para além da importância jornalística do grupo, adorei a idéia de contar uma parte importante da história de um país por meio do trabalho de amigos repórteres. Fiquei pensando na riqueza do que aconteceu no Brasil nos últimos anos. Digamos, do fim da ditadura ao governo Lula. E em como o cotidiano meio maluco da imprensa é uma ótima maneira de olhar essas situações.

Outra boa pedida será a adaptação para o cinema do romance “Desonra”, de J. M. Coetzee, uma elogiadíssima trama de violência e degradação sobre a África do Sul pós-apartheid. O livro toca em tantos pontos polêmicos que nenhum produtor do país topou financiar o filme, o dinheiro saiu de investidores australianos. Coetzee, Prêmio Nobel de literatura, é um cronista talentoso e amargo das agruras de sua terra natal.

Um conto mais ameno será o que fala sobre a relação de Nelson Mandela com o rugby. Quando foi presidente, Mandela o usou habilmente para promover a integração racial e o espírito de solidariedade nacional, conseguindo fazer com que os negros se entusiasmassem pelo esporte, até então associado quase exclusivamente aos brancos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Batalha pela Alma da África do Sul



Eu procurava um livro com bom panorama da África do Sul contemporânea, pós-apartheid. Encontrei. “Bring Me My Machine Gun – the battle for the soul of South África”, do jornalista britânico Alec Russell, condensa sua experiência como correspondente do Financial Times e seu convívio com os principais líderes do país. Muito bem escrito e com excelentes percepções sobre as coisas boas e ruins que tem acontecido na nação do arco-íris – algo que o destaca da literatura recente, bem mais pessimista.

A eleição de Mandela despertou enormes expectativas de uma “renascença africana” capitaneada pela África do Sul, o Estado mais rico da região. É claro que a maioria delas não se concretizou, e que a longa noite do apartheid tem se mostrado mais difícil de ser dissolvida do que se imaginava. Contudo, houve progressos significativos. A democracia foi implementada com sucesso, com sistema multipartidário, imprensa e sindicatos livres, e sociedade civil organizada e contestadora. A economia cresceu às taxas mais elevadas desde a Segunda Guerra Mundial. Políticas de ação afirmativa criaram uma classe média negra.

Os avanços foram contrabalanceados por problemas sérios. O partido de Mandela, o Congresso Nacional Africano, envolveu-se em numerosos escândalos de corrupção e tem se mostrado bastante autoritário, pouco propenso a aceitar críticas, com freqüência acusando a oposição de racista. Ironicamente, o CNA absorveu seu velho rival do apartheid, o Partido Nacional, mas enfrentou seu primeiro racha, com a formação do COPE, fundado por militantes que não aceitaram a polêmica liderança do novo presidente, Jacob Zuma.

A política econômica acalmou os empresários ao adotar os cânones liberais, mas não atraiu muitos investidores externos (há mercados emergentes mais estáveis e prósperos). O progresso de empreendedores negros beneficiou uma minoria, e as desigualdades sociais e étnicas do país cresceram no pós-apartheid. A ação afirmativa foi mal implementada em diversos casos, em particular no serviço público, resultando em deficiências de funcionários qualificados em áreas-chave para o país, agravada por ampla emigração de brancos de formação universitária. Há campos explosivos que podem degenerar em sérios conflitos sociais, como a questão agrária.



As duas maiores catástrofes provavelmente são o aumento do crime e a epidemia de AIDS. Russell aponta com precisão o legado de anarquia do apartheid, quando os cidadãos negros não confiavam na polícia e passaram a recorrer a grupos de vigilantes, milícias e linchamentos. No entanto, acho que ele não a importância devida aos crimes sexuais, que merecem análise mais aprofundada pelo que mostram da fragilidade das mulheres na sociedade local. Quanto à AIDS, Russell conta em detalhes como os diversos líderes políticos sul-africanos falharam em lidar com a doença, em grande medida pelos preconceitos que ela desperta junto aos mais pobres, em especial na zona rural.

Outro bom momento do livro é o capítulo a “sombra do Zimbábue”. Russell a examina não só como o fracasso retumbante da política externa sul-africana em lidar com a promoção da democracia na região, mas também como uma espécie de espelho distorcido que mostra como a relativa estabilidade obtida na era pós-apartheid pode degenerar na tirania, caos econômico e ódio racial do país vizinho.


O livro consegue o equilíbrio entre as entrevistas do autor com os presidentes Mandela, Mbeki e Zuma (foto que abre o post) e as histórias cotidianas que mostram as transformações em curso no país. Russell é um analista político primoroso e seu livro ilumina a personalidade complexa e atormentada de Mbeki, e os riscos que o carismático Zuma leva para a presidência da República.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Na Prisão com Mandela


No sábado dei aula sobre o uso do cinema para o estudo das relações internacionais. Entre outros pontos, comentei que os filmes sobre a África tratavam menos da realidade do continente do que dos esforços de algum branco bem-intencionado (nativo ou estrangeiro) para melhorar a qualidade de vida dos negros. Disse aos alunos que era uma perspectiva muito limitada, e que bastava a comparação com a produção artística e intelectual dos próprios negros africanos para constatar esses problemas. Bom exemplo é contrastar o filme “Mandela – a luta pela liberdade” (Goodbye Bafana, no título original) do diretor dinamarquês Bille August com a autobiografia do ex-presidente, “Long Walk to Freedom”.

O filme é baseado em fatos reais e conta a amizade entre Mandela e um de seus carcereiros, James Gregory. O guarda foi o censor responsável pela correspondência dos líderes do Congresso Nacional Africano presos na ilha Robben (foto abaixo), um antigo leprosário próximo à Cidade do Cabo que virou a prisão de segurança máxima do apartheid. Com o tempo, Gregory passou a admirar Mandela, tornou-se seu amigo e acabou se convencendo da justiça de sua causa. Teve papel importante em garantir a segurança de Mandela no fim da década de 1980, quando suas condições de detenção foram relaxadas e ele negociou com o governo a transição do apartheid para a democracia.



É uma bela histórica, rica em relações humanas. A crítica brasileira detestou o filme, mas a meu ver os comentários foram injustos. É verdade que o roteiro tem problemas, e que as mudanças de atitude dos personagens ocorrem muito rapidamente. As atuações também poderiam ser melhores. Mas, para além de seus defeitos, é um retrato poético de um período essencial na história da África do Sul, cujos detalhes são pouco conhecidos no Brasil.

Minha objeção principal ao filme é que o foco é no carcereiro de Mandela. Assim como no longa sobre Steve Biko, que comentei recentemente no blog, os roteiristas europeus e americanos estão mais interessados nos dramas de consciência dos brancos do que na luta dos negros contra o apartheid. E com freqüência, este segundo aspecto é bem mais interessante.

Gregory, o carcereiro de Mandela, é retratado como um racista que aos poucos muda de opinião, em função do carisma de seu prisioneiro e de suas próprias experiências de uma infância passada na zona rural xhosa, próxima ao local onde nasceu Mandela. Essa é uma licença poética um tanto desnecessária. Em suas memórias, o ex-presidente cita Gregory algumas vezes, sempre com admiração e carinho, e ressalta que ele se destacava desde o início dos outros guardas, por sua gentileza e educação. Mandela elogia especialmente o respeito que Gregory devotou a Winnie, sua esposa e na cordialidade com que a recebia durante suas visitas às prisões.

O filme se concentra nos problemas familiares de Gregory, que vive uma rotina de classe média baixa e sonha em enviar os filhos à universidade (que eram muito caras durante o apartheid), embora mal tenha dinheiro para as despesas essenciais. Sua esposa teme que a amizade com Mandela acabe prejudicando sua carreira.

É um enfoque válido, mas não entendi por que deixar de lado o universo dos presos políticos, que levavam uma existência bastante movimentada na ilha Robben. Mandela descreve em detalhes as negociações e mobilizações incessantes que ele e os demais membros da liderança do Congresso Nacional Africano conduziram com os sucessivos diretores da prisão para melhorar as condições de vida. Aos poucos conquistaram vitórias expressivas, como a instalação de cursos educacionais – eram tantos que o lugar ficou conhecido como “a universidade”.

Outro ponto que valeria ser explorado é a relação entre a velha guarda da resistência ao apartheid, como o próprio Mandela (preso em 1962) e a nova geração que começou a ser detida após a rebelião de Soweto (1976), já influenciada pelo movimento da consciência negra de Biko. As discordâncias eram profundas e o regime do apartheid fez tudo para estimulá-las. Enfim, tudo isso está muítissimo bem narrado na autobiografia de Mandela, um livro extraordinário que é um dos meus favoritos.

A ilha Robben é hoje um ponto turístico muito visitado e com freqüência ex-prisioneiros e ex-guardas convivem como guias, num exemplo notável de conciliação política, dificilmente observado em outros países. Eu teria encerrado o filme com uma cena que mostrasse um encontro desse tipo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Tempos Sombrios para a África do Sul


A África do Sul é um dos principais aliados internacionais do Brasil, e as duas nações têm problemas tão parecidos que me espanta a escassez de informações disponíveis por aqui sobre o que se passa com o amigo do outro lado do Atlântico. Nos últimos dias aconteceu a maior mudança política sul-africana desde o fim do apartheid, com a renúncia das principais autoridades do governo: presidente, vice, 11 ministros, entre outros. A nova liderança está com o atual líder do partido oficial, o Congresso Nacional Africano - Jacob Zuma. Ele provavelmente sucederá Thabo Mbeki como chefe de Estado nas eleições de abril. Mais do que uma dança de cadeiras entre poderosos, é uma transformação com profundas implicações sociais, econômicas e étnicas. Algumas delas, perturbadoras.

escrevi sobre Zuma, as acusações de corrupção, estupro e suas incraditáveis declarações sobre AIDS. Tratei também de sua rivalidade com o presidente Mbeki. Portanto, vou só aprofundar certas questões. Comecemos pelo dinheiro.

A África do Sul é uma economia industrial moderna. O PIB de quase US$300 bilhões é o maior do continente e tem crescido em torno de 5% ao ano. A renda per capita é de quase US$10 mil em paridade do poder de compra – semelhante à do Brasil. Os problemas aparecem quando olhamos a situação social: metade da população na pobreza, desemprego acima dos 20% (passa de 40% em algumas regiões) e índice Gini de desigualdade de 0,65, pior do que os mais terríveis já registrados na sociedade brasileira. Violência e AIDS são selvagemente disseminados.

Embora os governos Mandela e Mbeki tenham feito muito pelo estabelecimento da democracia e dos direitos civis e políticos, o aspecto sócio-econômico é sombrio. A agenda nessa área foi conservadora e procurou acima de tudo conquistar a confiança de investidores internacionais e marcar a diferença com relação ao período autárquico do apartheid e à retórica anti-capitalista que esteve presente em boa parte da luta de libertação.

Zuma é zulu, e poderá ser o primeiro representante do maior grupo étnico da África do Sul a alcançar a presidência. Mandela e Mbeki são xhosas, povo que sofreu o impacto da colonização européia já no século XVII, e quase foi extinto durante a década de 1850, quando uma líder messiânica levou-os a dizimar seu gado, principal fonte de sobrevivência. Depois disso, os xhosa se subordinaram ao império britânico e com o tempo a elite local chegou a ter benefícios. Mandela cresceu na Corte xhosa, pois seu pai havia sido primeiro-ministro do rei. Ele mesmo fora treinado quando jovem para ocupar a posição, recebendo a raríssima distinção de estudar Direito na universidade dos brancos.

Os zulus foram afetados mais tarde pela colonização européia, só no século XIX, e desenvolveram um sofisticado sistema militar para enfrentar os invasores, comparável àqueles criados em Esparta ou na Prússia. Infligiram derrotas humilhantes ao império britânico e, embora finalmente vencidos, nunca se consideraram conquistados.



O apartheid jogou com as rivalidades entre os dois grupos e favoreceu os zulus e seu poderoso rei, em detrimento dos xhosa, cujos intelectuais formaram boa parte do núcleo dirigentes do Congresso Nacional Africano e da oposição ao regime racista. Os anos finais do apartheid foram marcados por onda de violência entre as duas etnias que esteve perto, muito perto, de inviabilizar a transição para a democracia. Claro, havia zulus importantes no Congresso Nacional: o próprio Zuma era uma figura de destaque desde seus tempos de guerrilheiro na década de 1960, e ficou preso ao lado da Mandela na mítica prisão de Robben Island. Sua parceria com Mbeki foi fundamental para garantir o fim das hostilidades entre os dois grupos étnicos.

Zuma apela aos sentimentos rebeldes e esperançosos do passado, por seu histórico de guerrilheiro e sua vivência de classe trabalhadora, ao contrário do pedigree aristocrático de Mbeki, um intelectual pós-graduado na Inglaterra. Contraste ainda mais marcante pela diferenciação étnica, que reproduz os esteriótipos de longa data entre zulus e xhosas, e isso num momento em que a violência xenofóbica contra imigrantes de outros países africanos, sobretudo do Zimbábue, aumentou bastante.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

De Steve Biko a Barack Obama



No fim de semana assisti a “Um Grito de Liberdade”, cinebiografia do líder do movimento da consciência negra na África do Sul do apartheid, Steve Biko. É uma produção de 20 anos atrás, que comprei um pouco por acaso numa oferta. A história é tão fascinante que nem a direção melodramática de Richard Attenboroughs (o mesmo de “Gandhi”) consegue estragá-la.

Biko é interpretado por Denzel Washington. O filme retrata o personagem como sendo alguém que continua a luta de Mandela contra o regime racista, o que é verdade, mas o roteiro omite alguns dos pontos mais interessantes da história. O Congresso Nacional Africano tinha como base a Carta da Liberdade, de 1954, um documento escrito na melhor tradição do liberalismo, de direitos iguais para todos. Biko percebeu que isso não era suficiente e advogava a valorização das culturas africanas e da auto-estima negra, no contexto explosivo das rebeliões juvenis em Soweto. Black is beautiful, num de seus lemas mais famosos. Era um desvio bastante significativo com relação às diretrizes do Congresso e respondeu aos anseios de uma geração de militantes mais jovens e radicalizados, bem diferentes da liderança de elite do início da mobilização contra o apartheid.



Biko foi um pioneiro do que hoje em dia se chama de “política de identidade” mas ão faltou quem o acusasse de responder ao apartheid com sua própria versão do racismo. Sua contraparte no filme é o jornalista Donald Woods, muito bem interpretado por Kevin Kline como o arquétipo do reformista progressista e bem-intencionado, mas encastelado em suas ficções juridicas. O melhor do enredo é a descoberta de Woods de como vive numa bolha de privilégios e ilusões. O pior da trama é que Biko morre na metade do filme e a narrativa dá mais destaque aos dilemas do jornalista do que à vida e à luta do ativista.

Quando “Um Grito de Liberdade” foi lançado, Barack Obama era um jovem ativista comunitário em Chicago, e devido ao seu enorme interesse pelo tema, é muito provável que tenha visto o filme no cinema. Vinte anos é uma piscadela em termos históricos e me pergunto o que aquele rapaz inquieto tenha pensado durante a sessão. Difícil acreditar que mesmo em seus sonhos mais otimistas ele imaginaria sua própria posição atual, e uma África do Sul livre do apartheid, e que, apesar dos muitos problemas, evitou os abismos das guerras étnicas de outros países do continente.



Comentando minhas impressões do filme com amigos negros, me dei conta de que algo também mudou no Brasil. As pessoas com quem conversei eram profissionais de classe média alta, no serviço público e na iniciativa privada, muitos com pós-graduação. Meu convívio com eles representa uma experiência bastante diferente daquela que viveu a geração dos meus pais. E olhando para o Estado, vejo negros como ministros e no Supremo Tribunal Federal. A mudança é mais lenta do que eu gostaria, mas ela existe e está em avanço.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Jacob Zuma riu por último?


Há poucos dias o Congresso Nacional Africano, mais importante partido da África do Sul, elegeu Jacob Zuma para ser seu presidente. No contexto do país, isso significa que provavelmente ele será o próximo chefe de Estado e que ganhou uma queda de braço de quase uma década com o atual mandatário, ex-aliado e desafeto político, Thabo Mbeki.

Zuma venceu as primárias do partido derrotando o próprio Mbeki, algo raro em qualquer parte, e ainda mais numa agremiação conhecida por sua disciplina férrea, herança dos tempos em que era uma organização clandestina na luta contra o apartheid. Zuma foi um ativista de base daqueles tempos heróicos, adolescente que se juntou a Mandela na luta armada e passou dez anos preso a seu lado na prisão de segurança máxima de Robben Island. Mbeki é filho de um dos líderes do movimento, mas cresceu no exterior, fez mestrado em economia na Inglaterra se tornou o principal diplomata do movimento anti-apartheid, que chegou a ter mais representações no estrangeiro do que a própria África do Sul.

Mbeki e Zuma trabalharam juntos na redemocratização do país e a parceria dos dois foi fundamental para chegar a um acordo com o influente partido dos zulus. Zuma pertence a esse grupo étnico, que com freqüência acusa o Congresso Nacional Africano de ser um bastião dos xhosa (como Mandela e Mbeki). Zuma foi vice-presidente sob Mbeki até 2005, quando ele o afastou após diversos escândalos de corrupção. Os tribunais afirmam que há provas suficientes para condená-lo.

Além disso, Zuma foi acusado de ter estuprado uma amiga. Ele afirma que o sexo foi consensual e a justiça o inocentou. A moça é HIV-positiva mas Zuma disse que isso não é problema, porque tomou uma boa chuveirada depois das relações com ela. Ele chefiou o serviço anti-AIDS de um país onde talvez 1/3 da população sofra com a doença. Há pouco conversava com uma amiga que voltou recentemente da África do Sul e que me prometeu o material utilizado para prevenir a doença - é terrivelmente falho, propondo combatê-la com abstinência e monogamia. Não é propriamente o comportamento sexual habitual da raça humana.

A força de Zuma vem da identificação popular com sua trajetória. As acusações de corrupção e mesmo de violência sexual pouco prejudicaram seu prestígio num país em que, lamentavalmente, ambos os problemas são extremamente comuns. Há uma cultura de permissividade com relação a tais crimes, de conseqüências trágicas para a África do Sul.

Uma amiga que é professora universitária no país e viveu também no Zimbábue e em Moçambique, analisa assim a atual liderença do Congresso Nacional Africano: "Tenho muitas discordâncias com relação a Mbeki, mas ao menos ele é um pensador, quando fala você percebe que ele fez uma análise do problema. Mas Zuma...".