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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Obama e os Direitos dos Homossexuais nos Estados Unidos

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser”, já trovava Luís de Camões. Barack Obama tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos a apoiar publicamente o casamento gay. A declaração foi feita em reação a uma decisão do estado da Carolina do Norte de proibir esse tipo de enlace. Atualmente, ele só é permitido em seis dos 50 estados americanos, e no Distrito de Columbia (na capital, Washington, e arredores). Em fevereiro um tribunal federal decretou inconstitucional a proibição na Califórnia e agora se especula se a Suprema Corte tomará posição a respeito. Os direitos dos homossexuais entraram com força no debate políticos dos EUA a partir de 1969 e na década passada o casamento entre pessoas do mesmo sexo começou a ser legalizado.

A Suprema Corte tem legado ambivalente com relação aos direitos dos gays. Só de meados da década de 1990 em diante suas sentenças passaram a proibir que a homossexualidade fosse tratada como crime e passasse a ser encarada como parte do direito à privacidade. O entendimento do tribunal é que não cabe ao Estado se pronunciar sobre relações sexuais consentidas entre adultos e também houve várias decisões proibindo discriminação contra gays. Contudo, elas convivem com casos nos quais a Suprema Corte acatou a exclusão de homosseuxais de organizações como os escoteiros, sob alegação de que sua presença iria contra os objetivos da instituição.

Os próprios conservadores entre os ministros da Suprema Corte estão divididos com relação ao casamento gay. A corrente majoritária defende que é uma decisão que cabe aos governos estaduais, mas há uma tendência dos libertários em afirmar o direito individual à escolha de um parceiro sexual, e ao reconhecimento pelo poder público dessa decisão.

Políticos e tribunais seguem as transformações na opinião pública e desde 2011 a maioria (53%) dos americanos é favorável ao casamento gay. É uma guinada notável com relação a apenas 27% em 1996. Contudo, há fortes divisões segundo identificação partidária e idade. Os democratas apoiam o tema bem mais do que os republicanos (69% contra 28%) e os jovens bem mais do que os idosos (70% e 39%).

Não por acaso, são os políticos democratas os que mais têm se empenhado pela aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo e Obama segue os passos bem-sucedidos do governador de Nova York, Andrew Cuomo, que o legalizou em junho de 2011. Três meses depois, o presidente tomou outra decisão importante, autorizando gays assumidos a servir nas Forças Armadas – desde 1993, vigorava a política “Não pergunte, não conte”, pela qual os militares não eram obrigados a declarar sua orientação sexual, mas não podiam manifestá-la caso fosse homossexual.

Os efeitos do apoio de Obama devem ser benéficos para sua campanha à reeleição, (re)mobilizando os jovens que foram importantes para sua vitória em 2008, e estão desapontados com os parcos resultados econômicos de seu governo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Estados Unidos e América Latina: novos (des)equilíbrios

Na quinta-feira passada fui palestrante na VI Rodada Latino-Americana do Laboratório de Estudos da América Latina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Falei a respeito das relações entre a região e os Estados Unidos nestes tempos em que os equíbrios de poder mudam em detrimento dos países desenvolvidos e favorecem os emergentes.

A América Latina representa cerca de 20% do comércio exterior dos Estados Unidos e esse número cresceu pouco mais de 3% entre 1996 e 2009 (gráficos abaixo). É menos do que se poderia esperar, visto que nesse período houve a assinatura de diversos acordos de livre comércio com a região. Além disso, 60% do total está concentrado no intercâmbio com o México, e metade do restante fica com Brasil, Colômbia e Venezuela.

Ainda assim, podemos argumentar que a América Latina está se tornando mais importante para os Estados Unidos, porque o país está vendo dimunuírem suas fatias dos mercados na Europa, Ásia e até no vizinho Canadá.

Da perspectiva latino-americana, o cenário é oposto. A região depende cada vez menos do comércio com os Estados Unidos. Ao longo da década de 2000 as exportações para lá caíram de 57% para 40%, e as importações, de 50% para 30%. A grande responsável por esse declínio percentual é a China, que chegou até mesmo a se tornar o principal parceiro econômico de países latino-americanos como Brasil e Chile. Ela também já é o 3º maior investidor, atrás apenas dos Estados Unidos e da Holanda. Os gráficos abaixo contam essa história:

As assimetrias entre Estados Unidos e América Latina continuam enormes, mas diminuíram. A região está mais próspera, virou uma área de renda média, com bolsões de pobreza na América Central, Bolívia e Paraguai. Há problemas sociais sérios, como desigualdades (as maiores do mundo), violência e Estados ineficazes e corruptos.

Embora se possa questionar a sustentabilidade do crescimento – ainda muito dependente dos ciclos das commodities – ele possibilita uma inserção internacional mais assertiva, como se manifesta no ressurgimento do nacionalismo, em particular quando aplicado ao controle dos recursos naturais pelo Estado. É uma visão política bastante diferente do liberalismo que esteve em voga na década de 1990.

A agenda externa dos Estados Unidos pós-11 de setembro foi pouco significativa para a maioria dos países latino-americanos, com exceção da Colômbia, que tem seu próprio problema interno de terrorismo. As nações da região se queixam do desinteresse de Washington por suas dificuldades e têm se posicionado contrariamente às principais abordagens americanas para o continente, como a guerra contra as drogas e a tentativa de manter Cuba isolada dos organizações hemisféricas.

Os Estados Unidos tratam o Brasil cada vez mais como um interlocutor para temas globais, acima de ser uma nação-chave na América Latina. Mas ambos os países parecem não saber o que querem um ou do outro, para além de constantes queixas pelas suas divergências internacionais, sobretudo no Oriente Médio. A política externa brasileira também tem o desafio de conviver com um desequilíbrio de poder crescente a favor do Brasil na região. A identidade internacional do país têm pendido para o lado da potência emergente ou BRICS, esforçando-se para se afastar da imagem de instabilidade e turbulência de muitos dos vizinhos.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Adversário de Obama

As primárias do Partido Republicano para escolher seu candidato à Presidência dos Estados Unidos arrastaram-se por cerca de um ano e foram lideradas por 11 pessoas diferentes. Com a desistência do ex-senador Rick Santorum no dia 10 de abril, a vitória sofrida e tardia deverá ser do empresário e ex-governador de Massachussets, Mitt Romney, cujas posições políticas moderadas foram ridicularizadas pelas alas conservadoras do partido, ouriçadas pelo fenômeno do Tea Party. À frente de um partido fragmentado, Romney tem a difícil tarefa de vencer Barack Obama na disputa pela Casa Branca. As pesquisas dão de 7 a 10 pontos percentuais de vantagem para o presidente, apesar da persistência da crise econômica.

Romney representa a corrente centrista dos republicanos, tradicional na Costa Leste dos Estados Unidos. Seu pai seguia a mesma linha política e governou o estado do Michigan, nos Grandes Lagos. A família pertence há várias gerações à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, uma denominação protestante que surgiu na década de 1820. Conhecidos como mormóns, os fiéis seguem os ensinamentos de seu profeta Joseph Smith Jr, abstêm-se do álcool e realizam intenso trabalho missionário – o próprio Romney exerceu essa função na França.

(...)

O Tea Party saiu-se bem nas eleições legislativas de 2010, com muitas declarações de apoio de deputados e senadores republicanos. Porém, o movimento sofreu sério desgaste nos conflitos envolvendo a elevação do teto da dívida pública dos Estados Unidos. Sua intransigência em aceitar acordos foi reprovada pela maioria dos eleitores, acostumados a compromissos com relação a esse tema.

Além disso, os pré-candidatos presidenciais simpáticos ao Tea Party saíram-se mal nas primárias presidenciais, demonstrando dificuldade de converter os slogans radicais do grupo em propostas de políticas públicas atraentes para os eleitores moderados que são fundamentais na conquista da Casa Branca. O dilema republicano é difícil: conciliar o fervor ideológico das bases com o centrismo necessário para ganhar uma eleição majoritária.

O resto, no artigo que escrevi para a Revista Pittacos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Reagan e Thatcher - uma relação difícil

Este livro do historiador britânico Richard Aldous, recém-publicado no Brasil, é um ótimo panorama de uma relação pessoal mais conflituosa e contraditória do que em geral se supõe. O autor argumenta que ela não atingiu a profundidade das ligações entre Roosevelt e Churchill e que os governos americanos e britânicos discordaram bastante durante o período de Ronald Reagan como presidente (1981-1989) e de Margaret Thatcher como primeira-ministra (1979-1990) em temas como a União Soviética, as guerras nas Malvinas e em Granada, o controle de armas nucleares e contratos de compra e venda de armamentos. Clique neste link para ver a entrevista do autor à Globo News.

Reagan e Thatcher eram ambos outsiders nos meios conservadores anglo-americanos, que custaram a ser levados a sério por seus pares devido às suas origens profissionais esociais (ator de filmes B, para Reagan; uma mulher da baixa classe média do interior para Thatcher). Uma vez no poder, levaram seus partidos a se afastarem do que havia sido o consenso keynesiano do pós-Segunda Guerra Mundal, em nome de uma reafirmação das práticas liberais. Curiosamente, ambos haviam identificado seu potencial mútuo de liderança ainda em meados da década de 1970, quando poucos acreditavam que um dia comandariam seus países.

Apesar da semelhança ideológica, as personalidades eram muito diferentes. Thatcher era cerebral e analítica, orgulhosa de sua formação acadêmica em química e direito, e cercada de intelectuais. Reagan, intuitivo e emocional, embora Aldous destaque algo que poucos observam: o presidente era um leitor compulsivo e profundo, em particular de história. desde seus dias como ator (Kissinger notou o mesmo). Contudo, as razões de suas fricções não foram tanto suas características individuais, mas os interesses nacionais distintos a as posições diversas de seus países na política internacional.

Na década de 1980, os Estados Unidos passavam por uma fase de prosperidade econômica e com uma política externa mais assertiva, aumentando os gastos militares para colocar a União Soviética na defensiva e voltando a intervir em pequenos países, de maneira direta (ilha de Granada, Líbia) ou financiando opositores armados locais (Nicarágua). O Reino Unido enfrentava uma situação econõmica mais difícil e as medidas de Thatcher eram impopulares, pelo menos até a vitória nas Malvinas. Os britânicos mostravam-se preocupados com as ações e a retórica de Reagan e queriam que os EUA agissem de modo mais discreto, preferencialmente em fóruns colegiados, como o G-7 e a OTAN.

Os dois governos encaravam Gorbachev como um líder soviético “com que é possível fazer negócios”, nas palavras de Thatcher, mas os britânicos se inquietavam com os discursos de Reagan, por vezes impetuosos (“império do mal”, “comunismo vai para a lata de lixo da história” “derrube esse muro, sr. Gorbachev”), por vezes descolados da realidade (eliminar todas as armas nucleares) e defendiam posições mais moderadas, amparadas por fortes aparatos de dissuação militar.

Curiosamente, os dois aliados resistiram às guerras promovidas pelo parceiro da “relação especial”. Os EUA não gostaram da disposição britânica em enfrentar os argentinos nas Malvinas, e propuseram soluções negociadas que envolveriam tropas da ONU nas ilhas. No Reino Unido, a decisão americana de invadir a ilha caribenha de Granada foi recebida com preocupação – temiam os efeitos no resto da América Latina – e Thatcher ficou enfurecida por ter sido apenas informada, e sequer consultada, sobre a guerra.

Outra razão de fricções entre os dois governos foram contratos militares. Para decepção britânica, empresas do país perderam vendas lucrativas para rivais franceses, que ofereciam preços mais baixos. Aliás, um dos elementos provocadores do livro é insinuar que em diversos momentos o presidente socialista da França, François Mitterand, teve relações mais próximas com os EUA do que sua contraparte conservadora no Reino Unido.

Para além do excelente estudo de caso, Aldous também mostra em detalhes como funciona a “relação especial” EUA-Reino Unido, com os fortes simbolismos envolvidos, da presidência à família real britânica, a ênfase em situações de intimidade, como visitas a casas de campo e passeios entre os chefes de Estado e o jogo de fascínio e estranhamento mútuo entre os dois países.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Dilma e Obama: em busca de novas regras para o jogo

A Agência Lusa (Portugal) publicou nesta sexta entrevista comigo a respeito da viagem da presidente Dilma Rousseff para os Estados Unidos. Gostei muito da reportagem e reproduzo o texto abaixo, está melhor organizado do que eu mesmo seria capaz de escrever:

A Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, viaja na segunda-feira para os Estados Unidos, num momento em que Washington saúda o crescimento da economia brasileira, apesar das discordâncias em temas cruciais da agenda internacional.

«Há um entusiasmo nos EUA em relação ao que está acontecendo hoje no Brasil, principalmente em termos económicos. Mas eles ficam confusos, muitas vezes irritados, quando o Brasil age de maneira contrária aos seus interesses em temas internacionais», afirmou à Lusa o cientista político Maurício Santoro.

A recente declaração de Dilma Rousseff de que o «tom» com o Irão precisa ser modificado, bem como a rejeição brasileira a uma intervenção militar na Líbia e na Síria, estão entre os temas que deixam os americanos «confusos», de acordo com o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

«Os EUA não conseguem entender que, embora o Brasil tenha essa semelhança muito grande com eles, ainda é um país em desenvolvimento e não uma superpotência. Portanto, a maneira como o Brasil vê o mundo é bastante diversa daquela que se observa nos EUA», compara Santoro.

Os interesses de um país em desenvolvimento - somados à crise mundial que afectou parte de seu mercado consumidor externo – fizeram com que o governo brasileiro perceba os países do Médio Oriente como uma oportunidade económica, enquanto, para os Estados Unidos, se trata de uma questão de segurança nacional.

«Estamos num momento em que as normas internacionais estão sendo ‘rediscutidas’. O que for decidido em relação à Síria ou ao Irão terá um peso muito maior do que simplesmente o destino desses dois países. Irá pautar muito da agenda internacional nos próximos anos», afirma Santoro, ao explicar por que estes temas são defendidos com tanta firmeza pelo Brasil.

Já em termos económicos, enquanto o Governo de Barack Obama olha para o Brasil e sua crescente classe média consumidora com «entusiasmo», o Governo de Dilma Rousseff está atento às possibilidades de cooperação na área de inovação e tecnologia.

Após mais de um século como o principal parceiro económico do Brasil, os Estados Unidos perderam o posto para a China, em 2009. Isso fez com que, já em março de 2011, a visita do Presidente Obama a Brasília fosse vista como uma tentativa de retomar essas relações.

Do lado brasileiro, a maior preocupação está no aumento excessivo do peso dos produtos primários na sua agenda de exportações.

«O produto que o Brasil mais exporta hoje para os EUA é petróleo. E essa tendência é perigosa, porque o preço das ‘commodities’ oscila muito», pondera Santoro.v Para o especialista, uma das medidas brasileiras mais efectivas na direcção de tentar contornar esse quadro é o programa estatal «Ciência Sem Fronteira».

«É uma maneira relativamente barata de como os dois países podem trabalhar juntos, num projecto de cooperação, que servirá para qualificar a sociedade brasileira», analisa.

A prova de que o crescimento económico do Brasil desperta o interesse do gigante norte-americano está no anúncio de facilitação de vistos para os brasileiros, feito no final do ano passado pelo próprio Obama.

«Não foi à toa que quando o Obama anunciou as medidas de facilitação de vistos, ele fez isso em frente ao castelo da Cinderela, na Disney. Se a Florida fosse um país, seria o principal parceiro económico do Brasil. Além disso, hoje, os turistas brasileiros são os que mais gastam em Nova Iorque», destaca.

A melhora das relações bilaterais, no entanto, embora espelhadas em sólidos factores, como o crescimento económico brasileiro e políticas públicas bilaterais, possui um «tecto» - avisa Santoro.

«Há uma tentativa do governo brasileiro de melhorar essa relação que esteve muito deteriorada nos últimos anos, principalmente no segundo mandato do presidente Lula da Silva, mas essa melhora tem um teto. Ela não irá passar da relativa cordialidade que os dois países desfrutam hoje», prevê.

O encontro entre a Presidente brasileira, Dilma Rousseff, e o líder norte-americano, Barack Obama, ocorre no dia 9 de Abril, em Washington.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Tipo Certo de Revolução

Os Estados Unidos podem ganhar guerras. Podem ganhar revoluções?

Henry Cabot Lodge, político, militar e diplomata americano, ex-embaixador no Vietnã do Sul

Uma das maneiras de se entender a Guerra Fria é como o choque entre dois modelos antagônicos de desenvolvimento – o de economias de mercado, capitaneadas pelos Estados Unidos e pela Europa Ocidental, e os dos sistemas comunistas liderados pela União Soviética e pela China. Em “The Right Kind of Revolution – modernization, development and US Foreign Policy from the Cold War to the Present”, Michael Latham (Universidade Fordham, Nova York) critica as abordagens americanas para lidar com o desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo, avaliando que eram modelos simplistas, autoritários e que contribuíram para o agravemento das tensões daquele período conturbado e que continuam a pautar a ação dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.

Para Latham, a chave política desses modelos era o desejo dos Estados Unidos em exercer influência sobre os países que estavam se tornando independentes após a Segunda Guerra Mundial, impedindo que os soviéticos se tornassem a força dominante sobre eles. Nesse processo, os acadêmicos americanos criaram diversas fórmulas que procuravam explicar o processo de desenvolvimento de países pobres e propor soluções para que chegassem ao patamar das nações ricas.

A principal abordagem desse tipo foi a teoria da modernização, que atingiu o auge de sua influência na década de 1960 e foi importante na política externa de John Kennedy e Lyndon Johnson, servindo de base intelectual para iniciativas como a Aliança para o Progresso e as doutrinas de contrainsurgência no Vietnã. O cerne dessa perspectiva era uma divisão dos países em “tradicionais” e “modernos”, e a discussão sobre quais as políticas públicas para fazer a transição de uma etapa para outra – em geral, por investimento estrangeiro maciço. Walt Rostow, o autor do mais influente desses tratados, “The Stages of Economic Growth: a non-communist manifesto”, foi conselheiro de Segurança Nacional dos EUA.

Os teóricos da modernização acreditavam que a democracia era o destino final dos países em desenvolvimento, mas desconfiavam dela no curto prazo e em geral advogavam elites mais ou menos autoritárias impondo reformas de cima para baixo. A busca desse tipo de líder foi um fracasso constante dos Estados Unidos no Vietnã e o país também falhou em lidar com governantes que tinham um perfil desse tipo, mas cujo nacionalismo os tornava difíceis de controlar, como Gamal Nasser no Egito.

Latham faz a síntese das críticas que foram feitas à teoria da modernização. Por exemplo, como ela considera “tradição” e “modernidade” como conceitos absolutos e dicotômicos, ao passo que no mundo real a relação entre ambos é bem mais próxima e ambígua – autoridades tradicionais com frequência são agentes de modernização e podem legitimar novas instituições, como partidos políticos. Ele menciona também as abordagens da CEPAL e da teoria da dependência, que ressaltam que a pobreza não é só questão de más escolhas de governantes mas de trajetórias históricas de exploração colonial ou agressões estrangeiras.

“The Right Kind of Revolution” é um ótimo livro na fronteira fértil entre relações internacionais e estudos sobre o desenvolvimento, uma área que demanda novas abordagens e um olhar mais detalhado por parte dos brasileiros.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O Brasil Visto de Washington: a Eterna Busca da "Relação Especial"

Estou em Washington desde domingo, visitando os think tanks da cidade e fazendo entrevistas para minha pesquisa sobre democracia e política externa. O que vejo nos círculos políticos da capital americana é uma atitude contraditória com relação ao Brasil: apreciação pelo novo status internacional do país, acompanhada pela insatisfação e perplexidade quando as ações brasileiras refletem essa nova situação, como nos esforços de mediação no Oriente Médio ou na busca de políticas econômicas autônomas. Há uma curiosa obssessão com detalhes simbólicos e protocolares, como bom entrosamento pessoal entre os presidentes de ambas as nações, o que ilustra certa dificuldade em analisar o cerne da agenda diplomática.

Na primeira metade do século XX, Brasil e Estados Unidos tiveram relações muito próximas, uma "aliança não-escrita" ou mesmo um pacto formal, como na Segunda Guerra Mundial. Esse entendimento era calcado na economia (o mercado americano era o maior para os produtos brasileiros) e numa barganha eficaz pela qual o governo brasileiro apoiava a liderança internacional dos Estados Unidos em troca do auxílio americano para as ambições do Brasil na América do Sul - então bem modestas e centrada na definição das fronteiras e na manutenção de um vantajoso equilíbrio de poder diante da Argentina.

O modelo da relação especial começou a ser questionado com força na década de 1950 e não há sinais de que tão cedo ele voltará a ter vigência. Vários fatores explicam a guinada brasileira em busca de uma política externa mais diversificada: o aprofundamento do desenvolvimento e do comércio exterior, o relativo desinteresse americano no Brasil diante dos grandes conflitos da Guerra Fria na Europa e na Ásia e contenciosos em vários temas, complicados pelos novos e mais amplos interesses brasileiros.

Ouvi aqui em Washington que o governo Obama não trata o Brasil como uma grande potência, ao contrário do que faz, por exemplo, com a Índia. As razões são evidentes: os americanos precisam dos indianos para (tentar) equilibrar o jogo com a China e o poder militar da Índia é crescente, e inclui armas nucleares. As dimensões da importância do Brasil são outras: a força de sua economia e seu papel de moderador de crises na América do Sul, uma região secundária para os Estados Unidos. A Bolívia não é o Afeganistão e a Venezuela não é o Irã, nem nos dias de mau humor de Chávez.

Não é a melhor base para uma "relação especial", mas é campo sólido para construir uma boa agenda diplomática, contanto que mais ajustada a expectativas reduzidas. Ambições exageradas e estereótipos mútuos há muito prejudicam o entendimento entre Brasil e Estados Unidos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Uma Única Jogada dos Dados

A possibilidade de conflito militar entre Irã, Estados Unidos e Israel tem dominado os debates de política internacional por aqui e o melhor livro disponível sobre o assunto é “A Single Roll of the Dice – Obama´s Diplomacy with Iran”, do cientista político iraniano Trita Parsi. Baseado em entrevistas com líderes políticos de diversos países, seu argumento é que a tentativa de aproximação entre Washington e Teerã falhou por conta das objeções domésticas nos dois regimes, exacerbadas pelas tensões que envolvem os israelenses, e que os dois países estão presos numa situação de estagnação “sem guerra e sem paz”, marcadas por rodadas de sanções ineficazes.

Parsi é um analista excepcional e tem exercido importante papel político como líder do Conselho Nacional Iraniano-Americano, uma associação de oposição ao regime islâmico. Ele cresceu no exílio, acompanhando o pai, opositor dos aiatolás. Seu livro subiu para os 100 mais vendidos na Amazon, depois de ótima entrevista do autor no programa Daily Show, de Jon Stewart.

A história narrada por Parsi é fascinante: quando os Estados Unidos invadiram Afeganistão e Iraque – dois vizinhos do Irã – o presidente reformista iraniano Mohamed Khatami se apavorou e achou que seria o próximo. Seu governo apresentou uma proposta extraordinária a Washington, concordando com praticamente todas as exigências dos americanos, inclusive oferecendo a suspensão de ajuda aos aliados estrangeiros do regime islãmico, Hezbolá e Hamas. A Casa Branca se recusou a negociar – Bush e seus assessores achavam que poderiam conseguir o prêmio máximo, a derrubada da república islâmica, por meio da pressão militar e econômica.

Não foi isso o que ocorreu, evidentemente, e a situação dos Estados Unidos se complicou bastante com as crises no Afeganistão, Iraque e Paquistão, para não falar da crise econômica, ao passo que o Irã ascendeu como potência regional no Oriente Médio, sob a liderança radicalizada de Mahmoud Ahamadinejad. Obama ascendeu à presidência com a proposta de um “novo começo” nas relações entre os dois países. Sua disposição em conversar era sincera, mas foi recebida com ceticismo em Teerã e com indignação em Israel, onde o governo defendia que o programa nuclear iraniano era uma grave ameaça que tinha que ser eliminada, se necessário pela força.

Contudo, o que matou as negociações foi a eclosão da Revolução Verde no Irã, e a feroz repressão que se seguiu. Tornou-se impossível para Obama sustentar o diálogo em meio às pressões do Congresso para novas sanções contra a república islâmica. Em Teerã, as elites políticas chegaram à beira da guerra civil e mesmo a vitória (fraudada) de Ahamdinejad nas eleições não resolveu o jogo. Parsi afirma que os conflitos entre o presidente e os aiatolás refletem um amplo cisma geracional, do enfrentamento entre a velha guarda da Revolução de 1979 e os novos líderes, que foram ativistas de base na queda do xá e lutaram na guerra de 1980-1988 contra o Iraque.

Num cenário tão polarizado, é difícil ser mensageiro de soluções pacíficas e Parsi é um excelente cronista dos esforços do ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atômica, o egípcio Mohammed El-Baradei (Nobel da Paz por essa tentativa) e dos governos do Brasil e da Turquia para encontrar uma saída para o labirinto iraniano.

Parsi tem brilhante análise do plano turco-brasileiro, pelo qual o Irã enviaria seu urânio ao exterior para ser enriquecido sob supervisão internacional. A proposta havia sido feita originalmente pelos Estados Unidos, mas quando foi aprovada pelo Irã, os americanos já haviam negociado secretamente com Rússia e China nova rodada de sanções e ficariam furiosos com a mediação do Brasil e da Turquia.

Atualmente, 57% dos republicanos acredita que haverá guerra contra o Irã em 2012, contra 22% dos democratas. É uma polarização partidária. O próximo passo é acompanhar o embargo dos EUA e da União Européia contra o petróleo iraniano, que entra em vigor em 1º de julho. A foto do meio do post foi tirada por mim na Times Square. O manifesto contra Ahmadinejad contrasta com anúncio de nova série de TV cujo slogan é “ame seu vizinho.”

sexta-feira, 9 de março de 2012

A Cidade e a Inovação

O mundo nunca teve tantas tecnologias que permitem comunicação instantânea mesmo entre pessoas que estão muito distantes, no entanto, a convivência cotidiana continua a ser um elemento essencial para diversas atividades, inclusive para fomentar a inovação intelectual e científica. Minha estadia em Nova York tem me feito conversar bastante sobre isso, pois essa percepção é comum na cidade e está presente até nos projetos de reformas arquitetônicas das instituições acadêmicas.

As excelentes oportunidades profissionais e culturais fazem de Nova York um imã para pessoas inteligentes, criativas, talentosas, inquietas e ambiciosas, de todas as partes do planeta, e o ritmo e a intensidade do trabalho por aqui impressionam. Há especialistas de todo o tipo na cidade, com frequência a uma distância muito curta uns dos outros - alguns quarteirões de caminhada, poucos minutos no metrô. Os variados círculos sociais se misturam em festas, eventos, coquetéis, reuniões e pelo circuito amigos-dos-amigos se pode conhecer bastante gente, ou receber indicações de emails e telefones para entrar em contato com aquele sujeito que trabalhou com seu colega no Banco Mundial, ou aquela amiga que tem um cargo de direção na ONU, ou o aluno que tem um pé no teatro off-Broadway e pode dar boas dicas sobre a vida cultural.

Para quem está interessado em desenvolver um projeto qualquer - uma pesquisa acadêmica sobre um tema pouco estudado, a criação de uma empresa para preencher um nicho de mercado inexplorado - basta soltar a idéia numa roda de conversa e sempre se sairá com meia dúzia de sugestões de pessoas a quem procurar. Basta uma delas topar para que a faísca da inovação seja aceita.

Muitas dessas idéias nascem de interações espontâneas ou acidentais, conversas ocasionais no café, um bate-papo no refeitório, um encontro inesperado no metrô. Construir espaços sociais que permitam esse tipo de convívio é uma preocupação explicíta das universidades. A New School está construindo um grande prédio na 5a Avenida, para colocar no mesmo campus especialidades acadêmicas distintas que estão espalhadas por vários edifícios. Esse mesmo objetivo marcou projetos em outras cidades, como a sede da Apple em Cupertino, na Califórnia ou o Instituto de Estudos Avançados de Princeton.

Minha própria pesquisa acadêmica tem sido muito beneficiada pelos estímulos e sugestões que tenho recebido por toda a parte em Nova York. Principalmente pela convergência de pessoas de dezenas de países, com experiências profissionais diversas - universidade, diplomacia, imprensa, Nações Unidas, organizações não-governamentais. O debate fica mais elétrico, provocador e interessante.

No domingo embarco para Washington, onde ficarei por alguns dias, realizando entrevistas e indo a eventos em centros de pesquisa na capital americana.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Super Terça

Ontem foi a Super Terça das primárias republicanas, na qual 10 estados votaram para escolher o candidato presidencial do partido. Os resultados confirmam a vantagem de Mitt Romney - ele ganhou seis das disputas estaduais. Contudo, o mais moderado entre os competidores sofreu derrotas significativas para Rick Santorum (3 estados) e para Newt Gingrich (ganhou sua Geórgia natal) que ilustram sua dificuldade em conquistar o eleitorado conservador, sobretudo no sul. Romney não conseguiu definir a situação e a luta dentro do Partido Republicano prossegue.

O maior destaque da Super Terça é a disputa por Ohio. Este "swing state" vota nas eleições presidenciais ora com democratas, ora com republicanos, tornando-o um elemento essencial da rivalidade entre os dois partidos. Mais do que isso: quem ganhou em Ohio nos últimos anos, também levou a Casa Branca. Trata-se, portanto, de um prêmio com alto valor simbólico. Romney ganhou Ohio com leve vantagem frente a Santorum, mas com gosto amargo: gastou o triplo do rival e as pesquisas de opinião mostram que só um terço dos eleitores do estado acreditam que Romney entende os problemas dos americanos comuns.

Essa é sua fragilidade. Numa eleição marcada pela mais severa crise econômica desde a Grande Depressão, as pessoas estão com medo, descontentes com o presente e inseguras quanto ao futuro. A economia tem se recuperado, mas os empregos, não. O setor de manufaturas industriais, por exemplo, perdeu um terço das vagas desde 1999, embora sua produção tenha aumentado em mais de 30%. A classe média das pequenas cidades, assustada, tem encontrado conforto muito mais na religião e na afirmação dos valores conservadores de Santorum do que nas propostas centristas de Romney.

O problema para os republicanos é que eles precisam do voto dos eleitores moderados, e dos democratas insatisfeitos com Obama. É uma equação difícil de fechar. O partido está muito fragmentado e dividido - as primárias já tiveram 11 líderes! - e o presidente desfruta de popularidade de 50%, bastante razoável diante das circunstâncias do país. O cenário que se desenha é da nomeção de Romney, numa chapa que faça várias concessões à ala conservadora dos republicanos, à semelhança de John McCain - Sarah Palin em 2008.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O Brasil Visto de Nova York

Muitas pessoas no Brasil tem me escrito para perguntar qual é a imagem do país nas instituições acadêmicas de Nova York. Nesta última semana, tenho circulado bastante entre a New School, Columbia, New York University e conversado com pesquisadores de outras organizações. Me arrisco a formar um quadro genérico: há grande interesse e admiração pelo Brasil, visto como exemplo bem-sucedido de transição democrática e desenvolvimento econômico, mas esses sentimentos postivos são contrabalançados pela percpeção de certo isolamento brasileiro, de dificuldades significativas dos profissionais do país em dialogarem com os demais latino-americanos e de estarem presentes nas organizações internacionais.

Começando pelo lado favorável, o Brasil me tem sido descrito por aqui com termos como “a nova grande potência”, “o país mais emocionante do mundo”, “uma referência em políticas públicas para países em desenvolvimento” e em palavras menos impactantes, mas com igual admiração, como a de uma nação que percorreu um longo caminho para se distanciar da ditadura, da hiperinflação e que apesar dos muitos problemas melhorou de modo considerável.

Os analistas em Nova York destacam a trajetória ascendente do Brasil, a idéia de que o país continuará a se desenvolver pelos próximos anos. Dependendo da pessoa com quem converso, pode ser ressaltado o aspecto econômico, a capacitação de certos setores do Estado (em particular o Itamaraty, respeitadíssimo por aqui), a força cultural e artística, o dinamismo dos movimentos sociais ou a habilidade política dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula. A grande exceção é a imprensa brasileira, sobre a qual só escuto críticas por aqui – algumas muito duras.

Seria de esperar que uma nação ascendente como o Brasil procurasse ocupar os importantes espaços das instituições acadêmicas em Nova York – o ambiente cosmopolita da cidade significa que trabalhar por aqui resulta na construção de redes internacionais significativas. No entanto, não é isso o que ocorre. Chineses, indianos, sul-coreanos estão por toda a parte. Da América Latina, argentinos e chilenos estão bem representados. Mas os brasileiros costumamos ser uma minoria muito pequena, bem abaixo do que poderia se esperar pelo tamanho do país.

Nestes tempos de classe média emergente, os turistas brasileiros estão, claro, por toda a parte, e são os que mais gastam em Nova York – em torno de US$1,6 bilhões por ano. A cidade agradece. Mas é preciso também ter profissionais brasileiros por aqui, para melhorar o diálogo com os Estados Unidos e ampliar o alcance brasileiro nas redes globais.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um Olhar sobre Nova York

No início era Mannhata ou Manata, a “ilha das colinas”, como a chamavam os povos indígenas. Com uma excelente baía e ao lado do rio que permitia a exploração do continente americano, logo chamou a atenção dos exploradores europeus. Os holandeses a compraram a nela construíram uma pequena cidade, Nova Amsterdã, que terminava em um muro poucas centenas de metros ao norte do porto. Os britânicos a tomaram pela guerra e a rebatizaram como Nova York. Sua história se confunde com a da economia global dos últimos 400 anos, e com as próprias mudanças no urbanismo. Cheguei aqui no domingo e fico cerca de um mês, lecionando e pesquisando no Observatório sobre América Latina da New School University.

Nova York era um pequeno porto de 10 mil habitantes quando os Estados Unidos se tornaram independentes, e a cidade foi praticamente destruída na guerra de independência, com ocupação britânica e dois grandes incêndios. Mas rapidamente se recuperou, juntando suas vantagens naturais e o dinamismo empreendedor de seus comerciantes, que inventaram novas maneiras de vender seus produtos (como lançar seus navios ao mar de forma regular, com ou sem muitas mercadorias a bordo). Sediou o governo americano em seus primeiros anos, mas o impulso para o crescimento veio na década de 1820, com a construção de um canal ligando à cidade aos grandes lagos, e por tabela à próspera agricultura do Meio Oeste, então um dos celeiros do mundo.

A cidade multiplicou sua população e virou o local de algumas das favelas miseráveis para imigrantes, em particular na parte leste de Manhattan. Os ricos começaram a migrar para o norte, em especial ao redor do novo Central Park, e os avanços nas ferrovias (e posteriormente, o automóvel) permitiu que as pessoas passassem a morar bastante longe do seu local de trabalho. Nova York cresceu para além da ilha original, e no fim do século XIX incorporou municípios e vilarejos vizinhos, como o Brooklyn, interligando-os numa complexa rede de estradas, pontes e linhas de metrô. Novas tecnologias de construção permitiram o surgimento dos arranha-céus, que dominaram o horizonte da cidade e tornaram-se alguns de seus símbolos mais conhecidos.

A Nova York poderosa e orgulhosa mergulhou numa crise nas décadas de 1960 e 1970. As indústrias deixaram a cidade, a classe média fugiu para os subúrbios ou municípios vizinhos e a arrecadação de impostos caiu, ao mesmo tempo em que a prefeitura aumentava gastos, expandindo a rede de serviços públicos para tentar lidar com as tensões sociais que então explodiam pelos Estados Unidos. A cidade faliu e a degradação e violência de áreas como Times Square e Bronx viraram ícones da crise urbana americana.

Hoje sabemos que eram as dores do parto, da transição de uma economia industrial para a nova etapa de desenvolvimento baseada em serviços – financeiros, de tecnologia da informação, de design, consultorias etc. Nova York e outras cidades americanas, como Pittsburg, conseguiram resolvê-la bem. Algumas, como Detroit, até hoje não superaram a crise. Nem os ataques terroristas de 11 de setembro conseguiram alterar a guinada rumo à prosperidade. Nova York atrai pessoas de todo o planeta – quase metade dos habitantes é de fora! – e o ambiente cosmopolita, multicultural e dinâmico que eles dão à cidade não tem preço.

Contudo, há muitos problemas. A infraestrutura é deficiente e está defasada com relação às novas metrópoles do Oriente, como Cingapura e Dubai. A desigualdade é enorme, maior do que a do Brasil, e com frequência tem implicações étnicas e culturais. Manhattan é caríssima, uma espécie de playground para ricos e turistas, e muitos lamentam os efeitos negativos disso para a coesão dos bairros e das comunidades.

Ainda assim, Nova York tem lidado melhor do que os Estados Unidos como um todo com as ansiedades e tensões contemporâneas, como crise econômica, medo do terrorismo, e do declínio. A cidade tem uma capacidade enorme de se reinventar e de absorver os fluxos criativos dos seus muitos filhos adotivos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Batalha pelo Partido Republicano

Mitt Romney venceu as primárias do importante colégio eleitoral da Flórida com cerca de 46% dos votos e ficou mais perto de conseguir a indicação dos Republicanos. Os eleitores conservadores são maioria, mas estão divididos entre três candidatos: Newt Gingrich, Rick Santorum e Ron Paul. Eles também eram a principal base de apoio de outros políticos, que desistiram da corrida (gráfico abaixo), como Rick Perry, Sarah Palin e Michelle Bachmann. Romney é o mais competitivo nacionalmente contra Obama por sua capacidade de atrair eleitores centristas, mas terá problemas como um Partido Republicano no qual o termo “moderado” passou a ser pejorativo. Este é um desdobramento recente e importante, que contraria uma tradição centenária da sigla.

O Partido Republicano nasceu das tensões da década de 1850, em torno da persistência da escravidão no Sul, de sua expansão para os novos territórios do Oeste e dos debates como como incorporar as levas crescentes de imigrantes. Os dois grandes temas da sigla eram a manutenção da União e de tarifas industriais altas. Foi bem sucedido em ambas, comandando a vitória na guerra civil e administrando o boom econômico que se seguiu. Os republicanos governaram os EUA quase sem interrupção por 50 anos, até a década de 1910. Os democratas haviam se reduzido a um pequeno partido regional do sul americano.

Isso começou a mudar com as grandes transformações sócio-econômicas da primeira metade do século XX: crescimento das cidades, mais migração de minorias religiosas (católicos, judeus) e a primeira leva de mudança dos negros para os centros industriais do norte, a partir da I Guerra Mundial. Os democratas se reestruturaram como uma aliança entre esses segmentos emergentes, mais progressistas, e os setores tradicionais do Sul. Era uma formidável combinação eleitoral, como demonstraram as quatro vitórias de Franklin Roosevelt e as de John Kennedy e Lyndon Johnson.

O ponto fraco da aliança era a pressão para expandir as reformas sociais para o Sul, o que ocorreu entre 1954-1965, destruindo o sistema de segregação racial e o secular domínio dos democratas na região. A classe média e a elite locais migraram em massa para os republicanos, como mostra o mapa abaixo. Os estados vermelhos são aqueles nos quais o partido obteve a maioria no colégio eleitoral nas disputas à presidência. É quase todo o sul, a exceção significativa é a Flórida. Os democratas se concentram nas principais zonas industriais: costa leste e oeste, e grandes lagos.

Essas regiões também elegeram políticos republicanos para governos estaduais ou senados, mas que em geral ficaram conhecidos por sua moderação e liberalismo, como Nelson Rockefeller em Nova York ou o pai de Mitt Romney no Michigan. Isso começou a mudar na década de 1950, com a ascensão de um tipo de político conservador mais radicalizado ideologicamente, primeiro nos temas da Guerra Fria, como o senador Joseph McCarthy, e mais tarde na oposição à expansão do governo federal (exceto em Defesa e segurança nacional). Sobretudo no Sul, onde o assunto era inseparável das tensões raciais – o senador Jess Helms é um bom exemplo. É um forte contraste aos republicanos de outra era, como o presidente Dwight Einsenhower, que aceitara as reformas do New Deal, ampliara o investimento público em infraestrutura, construindo uma excelente rede rodoviária, e alertara os Estados Unidos contra o risco do crescimento desmensurado do complexo industrial-militar.

Em boa medida essa nova guinada ideológica se deveu à mobilização política de movimentos religiosos, assustados com as rápidas mudanças da década de 1960 e com o que parecia ser o declínio americano no Vietnã e no Terceiro Mundo de modo geral. Esses grupos foram importantes no apoio a presidentes como Ronald Reagan e George W. Bush, ele mesmo um evangélico convertido.

Reagan e Bush foram habilidosos em criar coalizões que envolviam as várias facções dos republicanos: o meio empresarial, religiosos, libertários, neoconservadores, liberais. Não há hoje ninguém no Partido que consiga isso, em meio à rebelião das bases partidárias do Tea Party. Romney tem contra ele não só suas posições político-econômicas mas até sua religião – os mórmons são menos de 2% da população americana e em geral são vistos com desconfiança pelos eleitores conservadores, que tendem a considerar o grupo uma seita fechada. Um terço da população dos Estados Unidos sequer sabem que os mórmons são cristãos!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

J. Edgar

“Se homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Se anjos governassem os homens, não seriam necessários controles externos ou internos ao governo. Ao planejar um governo que será administrado por homens, sobre homens, a grande dificuldade é esta: você precisa primeiro habilitar o governo a controlar os governados, e em seguida obrigá-lo a controlar a si mesmo.”

Alexander Hamilton e James Madison, “Os Artigos Federalistas”

“J. Edgar”, novo filme de Clint Eastwood, é um ensaio sombrio a respeito dos impactos do (abuso de) poder sobre o caráter de um homem extremamente habilidoso e dedicado a seu país, mas atormentado por fantasmas emocionais que pioram ao longo dos anos e o transformam numa pessoa ruim e mesquinha, corrompida pela enorme influência que obteve por seu trabalho policial. Está longe de ser o melhor filme de Eastwood - há problemas com o elenco e o roteiro – mas é mais um forte trabalho em sua trajetória como cronista e intérprete da democracia nos Estados Unidos.

Seu biografado é John Edgar Hoover, que chefiou o FBI entre 1924-1972 e o transformou de um insignificante escritório no Departamento de Justiça numa das forças policiais mais eficazes do planeta, uma referência em termos de ciência e tecnologia aplicadas às investigações e com uma história de realizações no combate ao crime organizado nos EUA. Contudo, Hoover também era responsável por muitos casos envolvendo delitos políticos e ameaças à segurança nacional, e extrapolou por diversas vezes os limites da lei, da ética e de suas responsabilidades – ocasionalmente por ganho pessoal, em outros momentos por fanatismo e paranóia, que o levaram a enxergar maquinações comunistas em grupos democráticos que questionavam as ações dos presidentes americanos, como o movimento dos direitos civis. Ele não hesitava em chantagear os ocupantes da Casa Branca com base num enorme arquivo pessoal secreto, com gravações, fotos e documentos incriminadores sobre os governantes ou seus parentes próximos. Nenhum deles ousou demiti-lo do cargo.

Hoover nunca se casou e morou com a mãe até a morte desta. Houve muitos rumores sobre sua sexualidade, atribuindo-lhe um romance homossexual com seu principal assistente no FBI e até o hábito de usar roupas femininas em casa. O filme toma esses boatos como verdadeiros, e os mostra de maneira mais explícita do que acho necesário. O ponto essencial é que se tratava de um homem infeliz e amargo, com dificuldades de se relacionar com as pessoas e com uma formação moral muito rígida que se manifestava com frequência em perseguições aos seus próprios agentes no FBI, proibindo-os de usar certos tipos de terno, de ter bigode ou barba.

Ele foi um administrador eficiente, inovador e habilidoso nas disputas burocráticas com o Congresso com outros departamentos do Executivo. O filme mostra sua importância em usar as impressões digitais como uma técnica de investigação, em criar laboratórios para apoiar a ação do FBI e conseguir a aprovação de leis que permitissem mais campo de atuação para seus agentes, por vezes se aproveitando de casos dramáticos que levaram o pânico aos EUA, como os atentados da extrema-esquerda após a Revolução Russa, ou o sequestro do filho do aviador Charles Lindbergh. Ele também era atento à importância da imprensa e da arte, buscando contatos com jornalistas, desenhistas de quadrinhos e roteiristas de Hollywood para que retratassem com simpatia as proezas do FBI.

Há dois problemas significativos no filme. O primeiro é a fragilidade como ator de Leonardo DiCaprio para encarnar um personagem tão complexo. Ele não dá conta da tarefa, imaginei como seria ter um mestre da atuação, como Phillip Seymour Hoffman ou Gary Oldman como Hoover. Teríamos outro filme, muito melhor.

O segundo obstáculo é o roteiro. A narrativa é confusa, dividida em três momentos: Hoover na década de 1960, narrando sua juventude para agentes do FBI, depois o próprio período dos seus anos iniciais, 1919-1934, e posteriormente seus últimos meses de vida, já no governo Nixon. As idas e vindas são um tanto confusas e não funciona bem do ponto de vista dramático a autojustificativa de Hoover ao narrar sua própria trajetória.

*** Abusos de poder e necessidade de controles democráticos sobre o governo não são, evidentemente, um problema exclusivo dos Estados Unidos. Nesta semana em que a presidente Dilma Rousseff visita Cuba, vale sempre boa discussão sobre o tema. Abaixo, duas de minhas intervenções recentes:

Entrevista à Globo News – Uma sociedade mais democrática no Brasil pressiona por posições pró-direitos humanos nas relações com Cuba, em meio a um novo contexto regional na América Latina.

Entrevista à Rádio Holanda Internacional – Por que a diplomacia brasileira passou a criticar o Irã por violações de direitos humanos, mas mantém a postura de não-intervenção com respeito a Cuba.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOPA, PIPA e a Política da - e na - Internet

Ao longo desta semana está sendo travada uma batalha sobre a Internet, envolvendo dois controversos projetos de lei no Congresso dos Estados Unidos, mas que impactariam sobre a web global. De um lado estão empresas de cinema e música, de outro portais de busca, redes sociais e movimentos de protesto ativos na rede (charge acima). O conflito é sobre diferentes modelos de negócios e as transformações em direitos autorais provocadas pela Internet, mas também a respeito da liberdade de expressão e dos novos modos pelos quais cidadãos e associações estão aprendendo a usar os recursos da web.

Os dois projetos de lei são Stop Online Piracy Act (SOPA) e Protect IP Act (PIPA). O primeiro ainda está em discussão, o segundo seria votado na próxima semana, mas talvez seja adiado pela força dos protestos. Ambos são voltados para o combate à pirataria e para a proteção da propriedade intelectual. No contexto da Internet, isso significa sobretudo restrições à possibilidade de baixar filmes, músicas, textos etc. Os métodos propostos vão do bloqueio de sites à suspensão de anúncio, podendo incluir até prisão de usuários.

O vídeo abaixo foi feito por opositores do PIPA. Embora se possa criticar algumas interpretações dos efeitos do projeto, ele sintetiza bem os principais temas em discussão:

As duas leis foram redigidas pelo deputado Lamar Smith (Republicano do Texas), presidente do Comitê Judiciário da Camâra. Foram apoiadas por outros parlamentares, incluindo muitos democratas, e surgiram de pressões de gravadoras e estúdios de Hollywood, o tipo de empresa que mais tem perdido com as chances que as pessoas têm de baixar seus produtos de graça na Internet. Naturalmente, elas querem restringir esse tipo de prática. O problema é que há outras firmas para quem os lucros estão exatamente nesse potencial de compartilhamento gratuito de conteúdo da rede, em geral pela venda de anúncios para quem usa seus serviços, que nada custam. São sites de busca como o Google, de referência como a Wikipedia, de vídeos como o You Tube e redes sociais como Facebook e Twitter.

Um tema particularmente explosivo é que os distintos modelos de negócios para a Web se interpolam com liberdade de expressão e direitos civis e políticos. Os projetos de lei exigem que os provedores monitorem a atividade dos usuários, como os sites que eles visitam, e ninguém sabe qual seria o limite desse tipo de vigilância, em particular nas redes sociais – só o Facebook tem mais de 500 milhões de participantes, o que cria enormes problemas sobre como controlar e censurar todo o material que postam diariamente. São questões que haviam sido levantadas pelo caso Wikileaks e que continuam no ar. O deputado Smith tem um histórico sombrio com respeito aos meios de comunicação, tendo proposto multas para “transimissões indecentes” e advogando controle dos sites que as pessoas visitam e do que fazem na rede.

Como era de se esperar, a própria Internet se mostrou um excelente meio de protesto e mobilização, principalmente pelo chamado “blecaute” – cerca de 10 mil sites, incluindo gigantes como a Wikipedia, colocaram-se parcialmente fora do ar, com sinais de luto e mensagens de protesto, solicitando aos usuários que entrem em contato com seus deputados e senadores. A pressão se fez sentir e vários parlamentares estão retirando apoio aos dois projetos.

Ontem, o FBI tirou do ar o Megaupload, um dos principais portais de compartilhamento. Seu fundador foi preso. Manifestantes reagiram derrubando a página do Departamento de Justiça, e da gravadora Universal.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Panorama das RIs nos Estados Unidos

Nesta semana foram divulgados os resultados de uma ampla pesquisa sobre os professores e pesquisadores de Relações Internacionais nos Estados Unidos, que nos dão excelente panorama do país que lidera a disciplina. Os dados mostram acadêmicos bem sintonizados com as prioridades diplomáticas americanos, mas com posições políticas divergentes dos últimos governos.

O gráfico que abre o post ilustra a convergência de pesquisadores e líderes políticos quanto aos principais temas da agenda global para os Estados Unidos: a ascensão da China, as turbulências no Oriente Médio (não por acaso, ênfase da nova estratégia de segurança nacional anunciada na 5ª feira) e a crise econômica internacional. Os acadêmicos olham com mais atenção para assuntos sócio-ambientais como pobreza e mudança climática, as pessoas em postos-chave no Estado preocupam-se mais com questões de segurança, como terrorismo, armas de destruição em massa e ciber-ameaças.

Os pesquisadores de RI são sobretudo homens (no Brasil, é bem mais equilibrado, e a maior parte das minhas turmas é formada por mulheres) e cerca de dois terços identificam-se politicamente como “liberais” – o que classificaríamos por aqui como “progressistas” ou “centro-esquerda”. É um contraste forte com a sociedade americana como um todo, bem mais conservadora, onde os liberais estão em geral na faixa dos 25%-30%.

Isso explica também porque a maior parte dos acadêmicos avalia negativamente os últimos presidentes americanos (se bem que isso vale para multidões, do Tea Party ao Occupy Wall Street) e se mostram bastante céticas das doutrinas de intervenção militar humanitária, tão em voga ultimamente nos Estados Unidos. Como se vê pelo gráfico abaixo, somente as ações contra Kadafi foram bem aceitas e a possibilidade do uso da força contra Irã e Paquistão encontra resistências muito maiores.

Do ponto de vista teórico, a corrente mais seguida pelos acadêmicos é o construtivismo, seguida do liberalismo institucional. Os realistas – que eu diria que ainda dominam a cena de RI no Brasil, embora o quadro mude rapidamente – são apenas 16%. Para quem não participa dos debates universitários, o resumo da ópera é que a maior parte dos pesquisadores acredita que identidades, culturas e instituições são temas essenciais nas RIs, em contraste com as abordagens clássicas da Guerra Fria que priorizavam discussões sobre poder, em especial capacidades militares.

Contudo, a lista dos acadêmicos mais influentes da área – conforme indicados por seus colegas – ainda cita em destaque muitos expoentes do realismo, como John Mearsheimer, Kenneth Waltz, Henry Kissinger. Natural, visto que praticamente todos que trabalham com Ris foram formados lendo seus trabalhos, mesmo que para elaborar seus próprios estudos em críticas às abordagens tradicionais.

Infelizmente, não temos no Brasil um panorama tão amplo e detalhado do campo acadêmico de RIs, que cresceu muito a partir da década de 1990. O mais próximo que dispomos é o estudo realizado por Amaury de Souza há alguns anos sobre as opiniões da comunidade de política externa brasileira, que inclui meio universitário, empresários, diplomatas e jornalistas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Geopolítica de Ormuz

No dia 28 o Irã iniciou uma manobra naval no estreito de Ormuz, por onde passam 17% do petróleo global. O exercício é uma resposta à nova rodada de sanções prestes a ser adotada pelos Estados Unidos e mais um episódio das tensões políticas entre os dois países e Israel. Os mercados reagiram com tranquilidade e o preço do barril chegou até a cair. A serenidade vem do poderio marítimo que os EUA tem na região, pois o Bahrein sedia a V Frota da Marinha americana. Há também a percepção de que as ações iranianas se dão em grande medida para consumo interno, devido aos conflitos entre conservadores e extremistas que disputam o poder em Teerã – os moderados estão na oposição, na prisão, no exílio ou no cemitério.

Ainda assim, o governo do Irã marcou um ponto, relembrando que em caso de guerra a situação no estreito prejudicaria de imediato o abastecimento de petróleo mundial e no mínimo elevaria os preços por conta do medo e da especulação inerente a esse tipo de crise. Os interesses envolvidos são imensos: além do Irã, as exportações da Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Catar e Emirados Árabes passam por Ormuz.

Apesar das diversas rodadas de sanções, a economia iraniana vai bem. Cresceu 5,5% em 2011. O PIB é da ordem de US$400 bilhões e cerca de 25% dele vem do petróleo. Os preços aumentaram 10% neste ano, o que também reforça o caixa do governo, visto que as sanções não afetaram a indústria dos hidrocarbonetos, por pressão de parceiros importantes como China e Rússia.

No início do governo Obama houve uma tímida tentativa de reestabelecer o diálogo com o Irã, descrita como “uma única jogada de dados”. Ela falhou e foi enterrada de vez na oposição dos Estados Unidos ao acordo proposto por Brasil e Turquia com respeito ao programa nuclear iraniano. O cenário no próximo ano é bastante sombrio, com o que promete ser uma campanha presidencial americana bastante agressiva, em meio às dores da crise e os temores do declínio da influência dos EUA no Oriente Médio.

***

Este é meu último post do ano - movimentadíssimo, por sinal. Retomo o blog na segunda-feira e que 2012 seja pelo menos tão interessante quanto 2011. Me despeço com minha entrevista para a revista do Valor Econômico, na qual faço a retrospectiva dos últimos 12 meses e arrisco duas ou três previsões. Bom Ano Novo a todos!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Kissinger sobre a China



Secretário de Estado e Assessor de Segurança Nacional de dois presidentes (Richard Nixon e Gerald Ford, 1969-1977), o cientista político Henry Kissinger foi o principal arquiteto da aproximação entre os Estados Unidos e a China comunista, como uma maneira de pressionar a União Soviética, contra a qual os dois países tinham interesses comuns. Em seu livro mais recente, Sobre a China, Kissinger conta os bastidores dessa diplomacia triangular e procura traçar o panorama da história das relações internacionais chineses do século XIX aos dias atuais. Contudo, o resultado é decepcionante, pois Kissinger está preso a um formato de reflexão intelectual que leva em conta somente as intenções dos principais líderes políticos e dá pouca ou nenhuma atenção às grandes transformações das sociedades, ao desenvolvimento econômico e a temas como democracia e direitos humanos.

(...)


O livro torna-se mais interessante quando aborda a China após a Revolução Comunista de 1949. Kissinger examina os erros cometidos pela liderança dos Estados Unidos naquela época, mostrando como a rigidez ideológica do período os cegou para as possibilidades de explorar as divergências crescentes entre Pequim e Moscou, e atrelou Washington a uma aliança ineficaz com o regime nacionalista em Taiwan. Medos e desconfianças fizeram com que os Estados Unidos creditassem ao governo comunista chinês intenções agressivas com relação à Coréia, numa escalada que culminou com a guerra de 1950-2, que terminou num surpreendente impasse militar – ninguém esperava tal desempenho do exército chinês, desgastado após o longo embate contra japoneses e nacionalistas.

(...)

O que Kissinger tem a oferecer são anedotas – algumas delas saborosas – sobre suas negociações com líderes chineses como Mao, Zhou Enlai e Deng Xiaoping. Ele vê o primeiro como um filósofo camponês desconfiado e astuto, o segundo como um diplomata refinado, um mandarim cortês como os que serviram os imperadores. Claramente foi seu interlocutor favorito: “Mao era ávido por acelerar a história: Zhou se satisfazia em explorar suas correntes”. O terceiro é elogiado como pragmático e direto: “Ele incubia seus subordinados de inovar, depois endossava o que funcionava.” Há bons perfis dos líderes chineses da era de Deng, como o reformador heterodoxo Zhao Zyiang, o presidente Jiang Zemin e o chanceler Qian Quichen (“um dos ministros das Relações Exteriores mais habilidosos que já conheci”).


O texto completo, em minha resenha para o Amálgama.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Jogos, Trapaças e Canos Fumegantes: Irã, Arábia Saudita e EUA



Na terça-feira o procurador-geral (ministro da Justiça) dos Estados Unidos acusou o Irã de planejar um atentado contra o embaixador da Arábia Saudita em Washington. A denúncia serviu para estimular a proposta de mais uma rodada de sanções dos EUA e da União Européia contra a República Islâmica. No entanto, a história tem diversos pontos soltos e não explicados e se parece bastante com o teatro armado para justificar a invasão do Iraque. É preciso cautela – e muita – para examiná-la, mas independemente de sua veracidade ilustra a rápida deterioração da situação internacional iraniana, provocada sobretudo pela revoltas democráticas nos países árabes.

Segundo o governo americano, a Guarda Revolucionária (unidade de elite do Irã) teria contratado um cartel do tráfico de drogas do México para assassinar o diplomata saudita. Um informante das autoridades entre os traficantes denunciou o suposto agente iraniano, Manssor Arbabsia, um vendedor de carros usados condenado no passado por fraude bancária. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos afirma ter gravações de conversas de Arbabsia com os criminosos mexicanos, e provas de que ele transferiu US$100 mil para os bandidos, como primeira parcela de um total de US$1,5 milhões cobrados para executar o embaixador.

O governo do Irã realizou diversos atentados terroristas no exterior – no Líbano, na Arábia Saudita e até na Argentina – mas o modus operandi denunciado pelos Estados Unidos é bastante estranho. Os iranianos têm serviços de inteligência extremamente eficazes e profissionais, além de contar com aliados experimentados como o Hezbolá. O tipo de erro primário cometido na suposta operação contra o diplomata saudita simplesmente não faz muito sentido. O historiador Juan Cole levanta a hipótese de que seja um projeto não-oficial, planejado por membros da Guarda Revolucionária envolvidos em disputas de tráfico de drogas com os sauditas. É uma sugestão verossímil, inclusive porque essa unidade é quase um Estado dentro do Estado, e sua atuação tem sido marcada por ferozes lutas por poder com autoridades civis e religiosas.

Talvez nunca saibamos ao certo o que aconteceu, mas há fatos que podemos analisar neste momento. O mais importante deles é que as revoltas da Primavera Árabe ameaçam a influência do Irã sobre dois de seus aliados-chave no Oriente Médio: o grupo radical palestino Hamas e o governo da Síria. O Hamas tem se aproximado cada vez mais do Egito, fez a trégua com a Autoridade Nacional Palestina e acordou uma importante libertação de mil prisioneiros com Israel. O regime sírio de Assad enfrenta um desafio grande por sua própria sobrevivência, contra a maioria sunita do país, apoiada pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita.

Sauditas e iranianos tem história de disputas que diz respeito, em última instância, a modelos distintos de fundamentalismo religioso, sunita e xiita, e formas de governo, monárquica e republicana. Ambos são ditaduras, mas a da Arábia é ainda mais fechada do que a iraniana, não realizando sequer as eleições limitadas desta, e com restrições piores aos direitos das mulheres. Esse conflito se tornou mais intenso após a Revolução Islâmica de 1979 e agravou-se após o 11 de setembro, quando o Irã se beneficiou do fortalecimento dos movimentos políticos xiitas no Iraque e no Líbano.

A Primavera Árabe também é uma ameaça para os sauditas, que inclusive intervieram militarmente no vizinho Bahrein, para ajudar a monarquia local (sunita) a debelar uma rebelião popular (xiita). Mas a condição de um dos principais fornecedores de petróleo aos Estados Unidos, e aliado fidelíssimo desde a Segunda Guerra Mundial tem poupado o rei saudita do tipo de crítica e sanções internacionais recebidos por tiranos semelhantes na Líbia, Síria e Egito.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Primavera (no Outono) Americana



“Os republicanos acharam que levariam a democracia para o mundo árabe invadindo o Iraque. A ironia é que foi o mundo árabe que nos deu uma lição de democracia, e posso garantir que estamos aprendendo rápido”. Assim disse o estudante de Administração Brandon Klein, na ótima reportagem do Valor sobre a ocupação de Wall Street por movimentos sociais críticos às grandes empresas, ao setor financeiro e ao governo do país. Curiosamente, a inspiração não vem só da Tunísia e do Egito, mas também do outro lado do especto ideológico, com o Tea Party. Ambos são expressões da revolta da classe média americana com os descaminhos da crise nacional.

O Ocupe Wall Street se assemelha à Primavera Árabe no modo como transforma praças em acampamentos de rebeldes e descontentes, e pelo uso intenso das redes sociais para a organização dos protestos. De modo semelhante, aliás, ao que o “movimento dos indignados” fez na Espanha. Mas no Cairo e em Túnis havia inimigos concretos, regimes autoritários a serem derrubados – e a perspectiva séria e provável de enfrentamentos mortíferos com a polícia, prisão e tortura.

A agenda do movimento americano é bem mais difusa. Ele não apresenta reivindicações imediatas, não há uma lista de demandas para o presidente Obama ou o prefeito Bloomberg. É uma espécie de festival-cidadão, com marchas, protestos, shows, nos quais as pessoas podem expressar seu descontentamento. A praça da Liberdade já virou um imã para visitantes e celebridades. É fácil desqualificar tal ocupação como uma bobagem, mas ela me parece algo mais, como a faísca de um novo modo de mobilização política em quadro de ceticismo com os partidos e desorientação ideológica.



Chama a atenção a rapidez como esse modelo de ação política espalhou-se pelo país (mapa acima). Novamente, a analogia é com a disseminação dos grupos do Tea Party, no primeiro semestre de 2009. Os nova-iorquinos têm se destacado pelo bom humor das manifestações, como a encenação de um ataque de zumbis, e por um protesto na ponte do Brooklyn que culminou com 700 prisões. Houve outros incidentes de violência policial, mas também bom convívio entre eles e os manifestantes, que inclusivem lhes servem comida e café.

Em breve será inverno nos Estados Unidos e provavelmente os grandes protestos ao ar livre serão interrompidos, não sendo claro se retomarão com força em 2012, numa campanha eleitoral que promete opor Obama a um candidato escolhido pela direita religiosa no Partido Republicano (Romney, Perry, quem seja). Mas as manifestações são boa nova, que rompe com a apatia e aponta caminhos para a sociedade americana. Como diria George Bernard Shaw:

You see things; and you say, 'Why?'
But I dream things that never were; and I say, "Why not?”