
Acabou. Durante 15 anos Osama Bin Laden foi um inimigo perseguido pelos Estados Unidos e o responsável pela maior mortandade cometida em solo americano desde a guerra civil. Bin Laden teve duas mortes. A de sábado foi a biológica. A mais importante foi a política, e aconteceu quando começaram as revoltas democráticas árabes, que marcaram a completa rejeição do projeto da Al-Qaeda e apontaram que o caminho escolhido pelos povos locais é algo muito diferente das ambições teocráticas dos terroristas.
O presidente Barack Obama é o grande vitorioso com a morte de Bin Laden. Conseguiu realizar em dois anos e meio o que George W. Bush falhou durante oito. E mais do que isso: mostrou que tinha razão em afirmar, desde a campanha presidencial, que os Estados Unidos deveriam deixar o Iraque e concentrar-se no Afeganistão e no Paquistão, verdadeiro foco da guerra contra a Al-Qaeda.
Obama já havia anunciado o desejo de retirar as tropas americanas do Afeganistão até o fim de seu primeiro mandato, o que fica mais fácil diante do assassinato de seu inimigo. Para a maior parte da opinião pública americana, a vitória foi alcançada e a justiça foi feita. Contudo, se por triunfo no Afeganistão entendemos a construção de um país estável e sólido, evidentemente isso não ocorreu. Os Talibãs iniciaram no fim de semana uma ofensiva de primavera e diversos grupos armados ilegais continuam a operar no país, sendo uma ameaça ao menos no nível regional da Ásia Meridional.
A Al-Qaeda fica sem um líder capaz de ser uma referência importante para todas as diversas facções locais que agora compõem a rede: Norte da África, Iêmen, Somália... O número 2 de Bin Laden, Ayman al-Zawahiri, é muito mais um ativista ligado à política no Egito, e uma figura que encontra muitas resistências mesmo entre os demais grupos fundamentalistas, por seu dogmatismo e temperamento explosivo. No entanto, é provável que ocorram ataques de pequena escala por parte da Al-Qaeda, nas próximas semanas, como atentados contra diplomatas americanos, para tentar vingar Bin Laden.

Há a questão ainda não esclarecida do envolvimento do governo do Paquistão com a operação conduzida pelas forças especiais americanas (SEALS da Marinha) que culminou com o assassinato do líder da Al-Qaeda. Obama teve o cuidado de ressaltar a cooperação das autoridades paquistanesas, mas não acredito que isso tenha ocorrido. Há longa história de falta de interesse delas em capturar Bin Laden e o terrorista havia se instalado numa casa confortável numa cidade de turistas e aposentados, que abriga também a principal academia do Exército.
Pós-Escrito:
Segue o link para a entrevista que dei ao Globo News Documento, sobre a morte de Bin Laden, com ênfase nos impactos para os Estados Unidos, tanto disputas domésticas quanto política externa.





