
As eleições presidenciais do Uruguai e de Honduras, ambas realizadas no domingo passado, mostram duas faces opostas da política na América Latina.
No Uruguai, o ex-guerrilheiro Tupamaro José Mujica foi escolhido presidente numa campanha bastante tranquila, em especial se levarmos em conta que incluiu dois plebiscitos sobre temas extremamento polêmicos: a revogação da lei de anistia contra militares que cometeram violações de direitos humanos na ditadura e a descriminalização do aborto. Ambas as mudanças foram rejeitadas pela população.
Em Honduras, cinco meses após o golpe contra Zelaya, cerca de metade dos eleitores compareceu às urnas e elegeu o candidato conservador, Porfírio Lobo. Houve conflitos de rua no país e o alto nível de abstenção mostrou a fragilidade da votação. Mas a comunidade internacional já tende para a aceitação do novo governo. EUA, Colômbia, Peru, Costa Rica e Panamá já se manifestaram a favor, a Espanha deu indicações de que fará o mesmo. O Brasil segue recusando-se, mas levou reprimendado presidente da Costa Rica, Oscar Arias, veterano mediador de conflitos e Nobel da Paz, que criticou “certos países” que questionavam a democracia em Honduras mas acreditavam que estava tudo bem com as eleições no Irã.
O presidente eleito do Uruguai tem como vice o ministro da Fazenda de Tabaré Vázquez Danilo Astori, bastante conservador em sua gestão da economia. A escolha desse companheiro de chapa aponta para um governo que continue as políticas ortodoxas de Vázquez, natural já que ambos são da Frente Ampla. Mujica tem pela frente a tarefa de enfrentar a pressão internacional da OCDE contra os aspectos menos transparentes do sistema financeiro uruguaio. Curioso desafio para um ex-militante de um dos mais ativos grupos guerrilheiros do continente.

O novo mandatário de Honduras é o típico político centro-americano: um latifundiário conservador que, sinal dos tempos, acena com o desejo de implementar um programa ao estilo do Bolsa Família em seu país. Seria, claro, uma maneira inteligente de reaproximar-se do Brasil e pelo andar dos desdobramentos internacionais isso deverá acontecer mais cedo ou mais tarde. Sem consenso quanto às eleições hondurenhas mesmo na América do Sul, o desgaste para o governo brasileiro em sustentar sua posição atual será grande. E ainda há a questão da permanência de Zelaya na embaixada em Tegucigalpa.



