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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ciberameaças e Relações Internacionais

O jornalista britânico Misha Glenny, autor dos livros “Mercado Sombrio – o cibercrime e você” (cuja edição brasileira chega às livrarias em dezembro) e “McMafia – crime sem fronteiras”, deu palestra na Fundação Getúlio Vargas falando sobre cibercrimes, ciberguerra e relações internacionais. Glenny foi correspondente da BBC nos conflitos nos Bálcãs e colunista do jornal The Guardian e destacou os enormes prejuízos causados pelos criminosos que agem na Internet e friou a necessidade – e os obstáculos – dos governos trabalharem em cooperação para deter esse tipo de bandido.

“Ninguém sabe exatamente os dandos que eles provocam. As estimativas variam de US$1 trilhão a US$300 bilhões por ano, dependendo da fonte. Sabemos, no entanto, que só no Ocidente os governos gastam anualmente US$110 bilhões anuais com ciber-segurança”, afirmou Glenny. Ele classificou as ciber-ameaças em três grandes grupos: crime, espionagem industrial e atos de guerra.

(...)

Segundo o jornalista, essas atividades só foram possíveis porque contaram com a cumplicidade de governos que fizeram acordos com os criminosos – imunidade em troca de que eles não atacassem empresas do país e auxiliassem as autoridades em casos de segurança nacional. Glenny afirma que essa aliança entre o serviço de inteligência da Rússia e os hackers locais é que executou os recentes ciberataques à Estônia, numa onda de invasões que tirou do ar vários sites do governo desse país báltico.

A preocupação com a ciberguerra tem levado à criação de departamentos especializados nesse assunto, como o Cibercomando das Forças Armadas dos Estados Unidos – que se junta às unidades existentes para Terra, Mar, Ar e Espaço sideral. O potencial dessa nova forma de combater é imenso, como mostra o uso do vírus stuxnet, que contaminou os computadores do programa nuclear do Irã e podem tê-lo atrasado em anos: “Há várias versões para explicar sua origem, alguns dizem que foi criado pelos Estados Unidos, outros por Israel. Mas o certo é que ele funcionou.”

O resto, no site do Centro de Relações Internacionais da FGV.

domingo, 16 de outubro de 2011

Um Pensageiro em Bruxelas



Por Ramon Blanco
Doutorando em Política Internacional e Resolução de Conflitos pela Universidade de Coimbra, em parceria com o Centro de Estudos Sociais (CES).
Blogueiro Convidado

A palavra ‘pensageiro’, cunhada pelo escritor Moçambicano Mia Couto, talvez seja a melhor forma de descrever a minha posição enquanto estive em Bruxelas durante o mês de Setembro deste ano. Durante esse mês, estive vinculado, enquanto pesquisador convidado, a um importante think-tank da capital belga ligado à área da Paz e Segurança Internacionais. Ao fundir as palavras ‘pensar’ e ‘passageiro’, Mia Couto ajuda-me a descrever o fato de que mesmo estando enquanto um mero passageiro, ou de passagem, em um assunto, situação, ou lugar, é inexorável a atividade de se pensar e refletir acerca deste momento, desta passagem. Mesmo esta sendo muito curta. Essa, obviamente, é uma interpretação, e certamente uma extrapolação, minha que muito provavelmente pouco, ou mesmo nada, tem a ver com a real intenção do autor Moçambicano ao ter cunhado o neologismo. Entretanto, a forma simples com que descreve a posição em que estive é precisa demais para ser ignorada.

Assim, gostaria de deixar aqui registrado três pequenas observações que fui recolhendo enquanto um pensageiro em Bruxelas. A primeira delas é que não é necessário muito tempo para notar o quão fácil pode ser descolar-se da dura realidade do mundo quando se está em Bruxelas. Um simples passeio pelo centro da cidade leva o/a visitante a lugares faustos, históricos, e obviamente cheios de turistas. Ao se caminhar por áreas residenciais centrais, nota-se claramente que se está em uma cidade muito rica onde bons carros e excelentes casas são a regra. É muito fácil ficar preso/a na “Bolha de Bruxelas”, como normalmente é chamado o ambiente da cidade por aquele/as que nela residem. Contudo, basta ir para a parte mais periférica da cidade para perceber a difícil realidade vivida maioritariamente por imigrantes, de várias origens, sendo uma parte significativa de árabes e muçulmanos. Sendo essa uma realidade próxima, tão próxima quanto três pontos de ônibus em alguns casos – contudo invisível, e muitas vezes invisibilizada; não é difícil pensar na facilidade que é perder-se nos meandros e tecnicidades eurocratas enquanto o resto do mundo assiste à uma Europa lenta, indecisa, e muitas vezes letárgica.

Uma segunda observação tem a ver com a abertura com que as instituições européias, e não só, têm para conversar com a sociedade em geral. Obviamente esse ponto me foi facilitado pelo fato de estar vinculado a um importante centro de pesquisa da cidade. Contudo, pude notar que não é nada fora do comum para a sociedade em geral conversar com tais instituições, participar de reuniões e eventos, e sobretudo ter acesso à pessoas chave nos processos de decisão das políticas européias. No caso das políticas relacionadas à Paz, por exemplo, há um genuíno interesse por parte das esferas institucionais européias em conversar e trocar perspectivas com organizações não-governamentais, centros de pesquisa e acadêmicos em geral, incorporando-os assim no processo de realização das políticas. Obviamente, tal relacionamento poderia ser não só mais aprofundado, como também alargado a outras esferas sociais. Entretanto, o simples fato deste relacionamento existir, e ser estimulado, é muito significativo e demonstra um importante amadurecimento democrático.



A terceira, e para mim muito relevante, observação que tive foi a importância que a Paz internacional tem dentro da sociedade em geral. A Paz é notoriamente um assunto crucial e isso percebe-se nas mais diversas esferas. Nas esferas institucionais da União Européia, desde a Comissão e passando pelo Conselho e Parlamento, esse é um assunto central na agenda. Contudo, o mais significativo foi ver o quanto essa é uma temática que perpassa a sociedade civil como um todo, organizada e não organizada. É notório, por exemplo, o grande número de organizações não-governamentais, centros de pesquisa, associações e institutos exclusivamente ligados à Paz.

As pessoas em geral participam e contribuem com associações onde a Paz internacional é a preocupação primordial. Mais do que isso, as pessoas regularmente acompanham os debates internacionais acerca do tema. Uma discussão incontornável durante o mês de Setembro foi o pedido feito por parte da Autoridade Palestina junto ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para o reconhecimento do Estado Palestino. Não era nada incomum esse ser assunto frequente em conversas entre pessoas das mais diversas idades e sempre com um acentuado conhecimento do mesmo.Uma das principais razões para a Paz ter essa elevada relevância me foi esclarecida por uma senhora, com pouco mais de oitenta anos, que conheci por lá. Ela explicava-me que Bruxelas foi uma cidade muito castigada durante as duas grandes guerras. Na opinião dela, as pessoas vêem que a Paz é algo que não deve ser tomado por garantido. Pelo visto, isso é algo que a cidade simplesmente não esquece, e nem tão cedo esquecerá.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Dez Livros sobre Política Internacional



Em discussão recente no meu perfil do Twitter, me foi sugerido indicar livros sobre ciência política e relações internacionais. A idéia é excelente e me baseio em sites como o Five Books para recomendar obras para os leitores interessados no tema. Minha lista é formada em parte por clássicos de história e teoria, mas também por escolhas bastante pessoais que incorporam debates sobre desenvolvimento, democracia e política comparada – ferramentas que considero essenciais para compreender relações internacionais, e que gostaria de ver utilizadas com mais frequência em cursos acadêmicos da área. Sugiro também a consulta de lista anterior que publiquei no blog, com 10 filmes clássicos sobre estes mesmos assuntos. Ainda postarei a respeito de romances e músicas – me cobrem!

O Homem, o Estado e a Guerra, Kenneth Waltz.

As relações internacionais nasceram como disciplina acadêmica após a I Guerra Mundial, mas dialogam com uma tradição muito mais antiga de filosofia e ciência política que no Ocidente remonta à Grécia clássica. Este livro é um estupendo apanhado teórico de três maneiras de se pensar a guerra, da Antiguidade ao fim da década de 1950, quando foi publicado: correntes que acreditam que a violência é parte inescapável da natureza humana, os que defendem que a guerra é característica de alguns tipos de Estado mas não de todos, e o que Waltz chamou de “terceira imagem”, e que localiza a origem primordial dos conflitos na maneira como a política internacional está estruturada como sistema, mais do que nos componentes individuais que a compõem. Desenvolveu essa idéia em seu livro posterior e mais famoso, ainda que em minha avaliação esta seja sua obra-prima.

After Victory, G. John Ikenberry.

Por que países vitoriosos em grandes guerras se dão ao trabalho de construir instituições internacionais que irão regular e limitar sua vontade, em vez de simplesmente impô-la pela força bruta? Ikenberry analisa três grandes momentos de redesenho da ordem mundial: o Congresso de Viena após a derrota de Napoleão (1815) e as conferências que se seguiram às duas guerras mundiais do século XX. Sua conclusão é que arranjos “quase-constitucionais” são vantajosos para as potências vitoriosas, que abrem mão de parte de seu poder em troca da estabilidade de longo prazo trazidas por regras e normas. Ele contrasta essa situação com o pós-Guerra Fria, onde não houve negociações semelhantes.

After Hegemony, Robert Keohane.

Na década de 1970, os Estados Unidos viviam sérias crises, pela derrota no Vietnã, pela estagnação econômica e inflação, pelos conflitos sociais internos e o escândalo do Watergate. Muitos acreditavam que o declínio do país seria também o das instiuições internacionais, mas Keohane argumenta que não, teorizando sobre por que é racional cooperar, mesmo na ausência de uma potência hegemônica que garanta o sistema.



Ascensão e Queda das Grandes Potências, Paul Kennedy.

Outro clássico oriundo da preocupação com o declínio dos Estados Unidos. Kennedy examina 500 anos de história e identifica o padrão da “sobreextensão imperial”: grandes potências expandem-se, passam a gastar cada vez mais com poder militar, para garantir seus domínios, e se vêem envolvidas em conflitos tão numerosos e diversos que terminam por perder recursos econômicos e capacidade de manterem-se competitivas tecnologica e cientificamente. A melhor introdução para a história diplomática das grandes potências (“Diplomacia”, de Henry Kissinger, é rival à altura).

O Mundo Pós-Americano, Fareed Zakaria.

Se você quer entender a ascensão dos BRICS, este é o livro, que se concentra na Índia (vista como futura aliada dos Estados Unidos) e na China (desafiadora e rival). Zakaria é indiano radicado nos EUA e argumenta que Washington tem que aprender a conviver com a inevitável perda de sua hegemonia, até porque continuará a ser um país muito importante. Ele acabou de lançar a 2ª edição do livro. Em ótima entrevista à Globo News, explica suas idéias.

A Grande Transformação: as origens de nossa época, Karl Polanyi.
Nascido na porção húngara do império Hapsburgo, Polanyi escreveu durante a Segunda Guerra Mundial, tentando entender como o mundo chegara à beira do apocalipse após um século de paz. Sua conclusão: a crise social ocasionada pela expansão da Revolução Industrial e da economia de mercado, com as pressões para transformar em mercadorias três pilares da vida cotidiana – terra, mão-de-obra e moeda. O resultado foi o surgimento de um “duplo movimento” de contenção, de criar proteções sociais domésticas (por meio de reformas na sociedade e aumento das tarifas) ou mercados externos protegidos (imperialismo, colônias). A rivalidade internacional crescente solapou as instituições do século XIX e com frequência adquiriu tons totalitários, com o nazi-fascismo e o comunismo. Polanyi propõe uma versão democrática, antecipando o Estado de Bem-Estar Social do pós-guerra.



As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia, Barrington Moore Jr.
Outra brilhante análise das grandes crises da primeira metade do século XX. Barrington Moore identifica diversas trajetórias pelas quais nações agrárias tornaram-se potências industriais, observando que a democracia só prosperou onde a classe média burguesa tomou o poder pelas armas e a agricultura assumiu feição capitalista, livre de amarras feudais (Inglaterra, França e EUA). Onde a burguesia era frágil, tornou-se sócia minoritária dos grandes senhores de terra, com modelos de desenvolvimento liderados pelo Estado autoritário (Alemanha e Japão) ou sucumbiu diante de revoluções comunistas (Rússia e China). Este trabalho seminal gerou diversos estudos que procuram aplicar, complementar ou refutar suas teses, sobretudo pela análise de potências médias, com trajetórias menos turbulentas. Sugiro “Nacionalism: five roads to modernity”, Liah Grenfeld, "Os Alemães", Norbert Elias, “Economic Origins of Ditactorship and Democracy”, de Daron Acemoglu e James Robinson e “Modelos de Democracia”, de Arent Lijphart.

Genocídio, Samantha Power
Este estudo inovador sobre o pior crime inventado pelo século XX é aula magna de política internacional e comparada, jornalismo de guerra e análise primorosa dos novos atores como organizações não-governamentais de direitos humanos, cadeias de mídia e complexas redes transnacionais que atuam em casos de invervenções. Para quem se interessar pelo tema, recomendo também "Activists Beyond Borders" de Margareth Keck e Kattryn Sikkink, e “The First Casualty”, de Phillip Knightley.

The Sino-Soviet Split, Lorenz Luthi.
Muitos dos livros acima abordam a Guerra Fria e suas crises, como a divisão da Alemanha, as guerras do Vietnã e da Coréia, o impasse nuclear em Cuba etc. Mas só este o faz da perspectiva das duas grandes potências comunistas, mostrando como as disputas por influência nos novos países surgidos da descolonização afro-asiática e divergências ideológicas sobre como lidar com os EUA e o Ocidente levaram à ruptura e uma quase-guerra entre ambas. Brilhante trabalho de pesquisa nos arquivos recém-abertos e belo exemplo dos novos trabalhos sobre história internacional, de ênfase mais cosmpolita que as tradicionais análises baseadas na política externa de um só país.

Latin America´s Cold War, Hal Brands.
Minha lista não estaria completa sem uma recomendação sobre a América Latina e este lançamento recente, que já resenhei no blog, é fruto de excelente pesquisa em vários arquivos nacionais, de um jovem autor que promete muito. Em linha semelhante, mas dedicado a outro continente, é “States and Power in Africa”, de Jeffrey Herbst, que mistura teoria de relações internacionais e política comparada para analisar a dinâmica diplomática dos novos Estados surgidos naquela região com a descolonização.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Primavera Árabe e o Conflito com Israel



Em meio às discussões pelo reconhecimento do Estado palestino, os nove meses da Primavera Árabe apontam para balanço duro: o acirramento do conflito com Israel. Nas últimas semanas, diplomatas israelenses foram expulsos ou fugiram do Egito, Jordânia e do país não-árabe que cada vez desponta como ator decisivo na região, a Turquia.

Muitos analistas de política internacional acreditam na teoria da “paz democrática”, isto é, a de que democracias tendem a ter relações mais estáveis e pacíficas com outros regimes da mesma natureza, em função do caráter público e negociado de suas deliberações e de muitos pontos de veto no sistema político à decisões que levem à guerra. No Oriente Médio, essa perspectiva reflete-se na esperança de normalização diplomática entre Israel e seus vizinhos árabes. Acredito que isso ocorrerá no médio prazo, em alguns anos, mas que nos próximos meses teremos mais convulsões e instabilidade, por duas razões

A primeira é a ocupação dos territórios palestinos por Israel e a persistência de tensões violentas por Jerusalém, pelo controle do rio Jordão e pelo direito de retorno de milhões de refugiados, desde a guerra de 1948. Para muitos países árabes, a questão palestina está numa fronteira tênue entre um tema internacional e política doméstica, particularmente para o Egito, onde a situação do Sinai está muito ligada à da Faixa de Gaza. Alguns regimes autoritários, como o egípcio, haviam controlado as demandas mais intensas pró-palestinos e agora essas reivindicações voltam com força.

A segunda é a existência de muitos bolsões autoritários na região – países, movimentos, instituições dentro de cada país – que agem no sentido de limitar ou contrapor-se às tendências democratizantes. Do Hamas aos colonos israelenses na Cisjordânia, do Irã ao partido extremista Israel Nossa Terra, passando por fundamentalistas de várias cores e matizes, há um excesso de grupos cujo interesse não está nos diálogos ou negociações, mas na permanência do conflito violento. E mesmo os atores democráticos desse jogo têm que chegar a acordos com esses parceiros ou adversários, buscando atrai-los para suas coalizões ou neutralizá-los por meio da adoção de versões mais moderadas de suas idéias.

O balanço atual da Primavera Árabe é que nos países mais homogêneos (Tunísia e Egito) as revoltas caminham rumo à transição para eleições democráticas. Nos estados mais fragmentados étnico-religiosamente, o quadro é sombrio guerra civil e intervenção da ONU na Líbia (talvez 25 mil mortos, numa população de 6 milhões) e massacres no Bahrein, Iêmen e Síria. Na Arábia Saudita, houve apenas protestos pouco significativos nas províncias de minoria xiita, e o rei reagiu com misto de repressão (inclusive mandando tropas ocupar a vizinha ilha do Bahrein), pagamento de benefícios financeiros e a decretação do direito de voto para as mulheres, em eleições municipais.

Também chama a atenção a mudança de comando na Al-Jazeera, emissora que foi tão importante na cobertura – e talvez na deflagração – das rebeliões. O jornalista palestino que a chefiava há oito anos foi substituído na semana passada por um membro da família real do Catar, país que sedia a empresa. O aristocrata não tem experiência com imprensa, era o presidente da estatal de gás natural. Tudo aponta para o fechamento político da Al-Jazeera, com maior controle por parte do emir do Catar.

Guerras e influências de potências externas no Oriente Médio forneceram aos ditadores o pretexto de um conveniente inimigo para aglutinar a população, ou um aliado internacional importante para ajudar a perseguir opositores. No caso da Síria, estabelecer o país como uma espécie de fiel da balança numa zona de enfrentamentos intensos, de modo que todos ficaram temerosos pela derrubada de governos que, bem ou mal, representam estabilidade.

domingo, 11 de setembro de 2011

Do Fim da História à Guerra Preventiva

Entre 1989 e 1991 a História acabou, ou assim nos garantiu Francis Fukuyama. O mundo rumaria para a economia de livre mercado e para a democracia. O período dos grandes embates ideológicos havia terminado e seria substituído por variações sobre o tema do American way of life. Essa visão – otimista ou arrogante, conforme a perspectiva – ruiu ao longo dos violentos conflitos étnicos e religiosos da década de 1990, com os genocídios na Iugoslávia e em Ruanda, a vitória dos Talibãs na guerra civil do Afeganistão, o colapso do Estado no Congo, a nova Intifada na Palestina. Quando o World Trade Center e o Pentágono foram atingidos em 11 de setembro de 2001, acionaram um imenso catalisador político, que levou ao centro da agenda pública dos Estados Unidos ideias e propostas que haviam surgido nos anos anteriores, mas permaneciam às margens do debate.

A mais importante delas: Washington deveria abandonar a estratégia diplomática da Guerra Fria, de contenção aos Estados inimigos, e substituí-la por políticas de guerras preventivas, para impedir a ascensão de potências regionais que pudessem desafiar sua hegemonia em regiões-chave do planeta. Afinal, não havia agora uma superpotência rival que vetasse as ambições militares do país.

(...)

Entre os atentados de 2001 e as guerras no Afeganistão e no Iraque, morreram cerca de 10 mil americanos e um número impreciso de pessoas nos dois países asiáticos – as estimativas oscilam entre 100 mil e 600 mil apenas entre a população iraquiana. A Al-Qaeda foi enfraquecida e Bin Laden assassinado após uma década de caçada. Mas os Talibãs se reorganizaram no Paquistão, alteraram sua estratégia para se aliar a outros grupos étnicos além de seu núcleo pashtun e transformaram 2011 no ano mais sangrento da guerra do Afeganistão. Os Estados Unidos se retiram até dezembro do Iraque e tirarão dois terços de suas tropas do território afegão até suas eleições presidenciais de novembro de 2012. Declaram vitórias em ambos os conflitos, mas deixarão para trás dois países destruídos e fragmentados, caldeirões de ódios étnicos e religiosos.

A História é claro, não acabou, mas mudou o endereço de seus protagonistas. As multidões de jovens anônimos que derrubaram ditaduras na Tunísia, Egito e Líbia tornaram-se mais influentes do que as doutrinas dos Estados Unidos e do que os exércitos que atravessam o Oriente Médio. O sul global pode ser fonte de ameaças, mas também é de esperanças e renovação democrática.

A íntegra, no artigo que escrevi a convite do Portal Sul21.

E minha entrevista de sábado no especial da Globo News sobre os 10 anos do 11 de Setembro: a cidade de Nova York reagiu melhor do que os Estados Unidos como um todo ao terrorismo. Apesar de ter sofrido maior destruição, manteve seu caráter aberto e cosmopolita, ao passo que a política americana tornou-se muito fechada e amarga.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Regiões e Segurança Internacional



Meu amigo Helvécio de Jesus Júnior organizou a coletânea de artigos “Segurança Internacional: temas regionais contemporâneos”. Quatro autores, todos brasileiros, analisam crises ocorridas após a Guerra Fria na Ásia, África, América do Sul, Oriente Médio e a relação Estados Unidos-Rússia. Três dos participantes do livro são jovens acadêmicos na faixa dos 30 anos – o próprio Helvécio, Diego Santos Vieira de Jesus e Elói Martins Senhoras. O outro autor é o veterano jornalista Ricardo Bonalume Neto. A coletânea é um raro e bem-vindo exemplo de olhares nacionais sobre os principais acontecimentos da política global contemporânea.

O artigo de Helvécio aborda a Ásia como uma “região inacabada” no campo da segurança internacional, procurando compreender porque o continente não apresenta instituições sólidas nesse campo, ao contrário do que existe, por exemplo, na Europa. Para ele, há várias razões: a inexistência de uma potência hegemônica na Ásia, com rivalidades pendentes entre China, Japão, Índia, as Coréias; o passado mal resolvido das guerras locais, fronteiras ainda não definidas de todo e a estratégia dos Estados Unidos em lidar com os problemas regionais em caráter bilateral, sem criar organizações asiáticas de segurança, como na Europa. Helvécio examina as iniciativas recentes da Organização da Cooperação de Xangai e do Fórum Regional da ASEAN, mas chama a atenção para os conflitos entre China e Japão, afirmando que só será possível um nível elevado da integração na Ásia caso essas disputas sejam resolvidas.

Diego de Jesus contribui com dois artigos, um sobre EUA-Rússia e outro sobre o Oriente Médio. No primeiro, destaca a “nova relação estratégica” entre os dois antigos rivais da Guerra Fria, ressaltando as negociações para redução dos arsenais nucleares e as novas funções da OTAN. É uma agenda permeada por ambiguidades, escreve o autor, porque atravessa questões delicadas (como a aliança dos Estados Unidos com a União Européia) e o desejo russo de provar que ainda é uma grande potência. Ao tratar do Oriente Médio, faz o balanço das crises recentes entre árabes e isralenses, as guerras no Iraque e no Líbano e os impasses com o Irã, defendendo a busca de pontos de contato culturais como modo de destravar os obstáculos políticos.



Bonalume Neto examina a guerra do Congo como exemplo da africanização dos conflitos no continente, baseado em sua experiência como correspondente no país, no período em que a revolta liderada por Laurent Kabila e seus aliados em Ruanda levou à queda da ditadura de Mobutu Sese Seko, no poder havia mais de 30 anos. Mas o fim do regime autoritário não trouxe paz, o Congo virou palco de guerra que envolveu cerca de 20 grupos armados de nove países africanos, cada qual empenhado em pilhar o máximo possível dos recursos naturais congoleses.

Tive o prazer de participar de um debate com Elói Senhoras na Câmara de Vereadores de São Paulo, há alguns meses. Seu artigo fecha o livro examinando o complexo de segurança regional na América do Sul, que oscila entre a cooperação (sobretudo no “arco de estabilidade” do Cone Sul) e o conflito, marcado pelo ressurgimento de nacionalismos que por vezes dificultam a integração, e pela dificuldade de lidar com novas ameaças, como o crime organizado transnacional.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Momento de Wilson



Erez Manela é um professor de Harvard que tornou-se expoente da história internacional, o esforço em buscar perspectivas cosmopolitas para os grandes episódios da política global. Seu “The Wilsonian Moment – self-determination and the international origins of anticolonial nationalism” cumpre essa tarefa para o periodo crucial de 1918-9, quando as expectativas decorrentes do fim da I Guerra Mundial detonaram uma série de revoluções que visavam a redesenhar sistemas de governo, da Alemanha à China.

O livro de Manela concentra-se no impacto no mundo colonial e na China da doutrina de autodeterminação dos povos anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, como um dos “14 pontos” da reconstrução da ordem internacional após a guerra – a imagem que abre o post representa as palavras mais frequentes nesse célebre discurso. Wilson pensava nos súditos dos impérios multinacionais da Europa central e oriental e pouco tinha refletido sobre o que suas palavras significariam em outros continentes. O tema é abordado de passagem na maioria das histórias da época, mas Manela aborda de modo magistral as consequências revolucionárias do “momento wilsoniano” no Egito, Índia, China e Coréia do Sul.




Com exceção da China, todos os outros eram colônias, da Grã-Bretanha ou do Japão, e interpretaram os pronunciamentos de Wilson como a promessa de que conquistariam a independência, enviando delegados para tentar participar da Conferência de Paz de Versalhes. No caso chinês, a questão eram os enclaves estrangeiros no país, sobretudo os que os japoneses haviam tomado dos alemães durante a I Guerra Mundial. As expectativas despertadas por Wilson foram muito além do que os Aliados pretendiam oferecer após o conflito e o resultado foi a explosão de uma série de revoluções ou revoltas, todas duramente reprimidas, que foram o marco de passagem no surgimento do nacionalismo contemporâneo no Oriente Médio e na Ásia.



Neste post, tratarei apenas do Egito, uma vez que foi o país que motivou a ler o livro. Oficialmente, ele era parte do Império Otomano (mapa acima) mas gozava de grande autonomia desde meados do século XIX, sob uma dinastia albanesa de quedivas, os soberanos locais. A enorme dívida externa contraída para construir o Canal de Suez e tocar projetos de modernização levou à ocupação militar do Egito pelos britânicos, que decretaram um “protetorado”, consolidado após a derrota de uma revolta nacionalista sob um líder militar, o paxá Urabi.

O Império Otomano foi destruído na I Guerra Mundial e os espólios dos territórios árabes foram divididos entre britânicos e franceses pelos termos do acordo Sykes-Picot, ainda que os novos países criados então fossem declarados “mandatos” coloniais provisórios, sob a égide da recém-inaugurada Liga das Nações. Um mapa instável que o historiador David Fromkin chamou de “uma paz para acabar com todas as pazes”.

Não houve mudança formal na situação do Egito, e a elite local ficou revoltada em ser tratada pior do que as tribos da Arábia, que de imediato ficaram livres. Os nacionalistas egípcios formaram um novo partido, o Wafd (delegação) e impulsionaram a Revolução de 1919, visando à Independência – momento histórico admiravelmente narrado no primeiro volume da “Triologia do Cairo”, de Nagib Mahfouz, protagonizada por uma família partidária do Wafd. Os britânicos conjugaram repressão com concessões, cedendo mais poderes à assembléia legislativa local. Mas a autonomia do Egito só viria bem mais tarde, após a outra guerra mundial.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Wikileaks e as Funções da Diplomacia



Passadas algumas semanas da polêmica da recente onda de documentos oficiais vazados pelo Wikileaks, continuo a acreditar que a discussão foi exagerada, e que as revelações dos textos foram pouco expressivas, bem menos do que os Papéis do Pentágono provocaram durante a Guerra do Vietnã, por exemplo. Contudo, conversas com amigos, me convenceram da enorme importância pedagógica dos Wikileaks para explicar o que afinal fazem os diplomatas.

Comecemos com um pouco de história. A diplomacia como a conhecemos hoje é bastante recente. Na Antiguidade e na Idade Média, não havia embaixadas e consulados permanentes, apenas enviados temporários que iam negociar um acordo de paz ou um tratado qualquer. A mudança se iniciou no Renascimento, mas foi lenta e gradual. O quadro que ilustra este post, “Os Embaixadores”, de Hans Holbein, é de 1533 e mostra um dos esforços clássicos de curta duração: uma delegação conjunta de um nobre e um bispo franceses, para tentar convencer o rei inglês a permanecer na Igreja Católica. Imagine o que Wikileaks teria feito com Ana Bolena...

As três funções clássicas do diplomata são representar, informar e negociar. Talvez se possa dizer que elas tiveram seu apogeu entre os séculos XVI e XIX. O advento de comunicações e viagens mais rápidas retirou muito do poder que os antigos embaixadores possuíam em falar em nome de seu soberano ou de seu país. Hoje em dia, muito da política internacional de alto escalão se dá diretamente entre chefes de Estado ou ministros das Relações Exteriores. O próprio cargo de embaixador era muito restrito, quase sempre vinculado às relações entre grandes potências ou países que se valorizassem bastante mutuamente – o Brasil só teve seu primeiro no século XX, Joaquim Nabuco, em Washington - e só se generalizou depois da Segunda Guerra Mundial.

Quanto à informação fornecida pelos diplomatas, a leitura dos despachos da Wikileaks mostram que há pouco nos documentos que um leitor atento do noticiário internacional desconheça. As análises são corretas, às vezes até sofisticadas e divertidas, mas dificilmente superam um correspondente bem-informado, digamos, da Economist ou do Financial Times ou um acadêmico especializado no país em questão.

Há surpreendemente pouca reflexão dos diplomatas a respeito de como sua profissão tem sido transformada pelas novas tecnologias das últimas décadas, talvez pelo impacto que esses desenvolvimentos têm em seu prestígio e influência. A diplomacia continua a ser muito importante, naturalmente, mas a mer ver precisa mudar bastante, adotar perfis profissionais mais especializados e um ethos mais tecnocrático e menos preso aos rituais formais do passado. Há iniciativas promissoras como os esforços do Departamento do Estado dos EUA em lidar com a “diplomacia pública” dos meios de comunicação e dos cidadãos interessados pelos assuntos globais.

Temo que os Wikileaks, pelo medo que despertaram nos governos, detonem uma espécie de contrarrevolução nessa área, mas acredito que neste caso a história seguirá o ritmo da tecnologia, para frente.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AK-47



De todas as armas no vasto arsenal soviético, nada era mais lucrativo do que o modelo Avtomat Kalashnikova de 1947, mais comumente conhecido como AK-47 ou Kalashnikov. É o fuzil de assalto mais popular do mundo, uma arma que todos os combatentes amam. Um amálgama elegante de três quilos e meio de aço e madeira compensada, que não quebra, emperra ou superaquece. Irá disparar mesmo que esteja coberto de lama ou repleto de areia. É tão fácil de usar que até uma criança é capaz de manejá-lo, e elas com frequência o fazem. Os soviéticos o puseram numa moeda, Moçambique o colocou em sua bandeira. Desde o fim da Guerra Fria, o Kalashnikov se tornou a maior exportação do povo russo. Depois disso vem a vodca e os romancistas suicidas. Uma coisa é certa: ninguém estava fazendo fila para comprar os carros deles...

Do filme, “O Senhor das Armas

A pior arma de destruição de massa existente não é nenhum aparato atômico, químico ou biológico, mas sim o fuzil AK-47. Ele foi projetado pelo militar soviético Mikhail Kalashnikov, a partir de adaptações dos modelos alemães que ele havia observado nas batalhas da Segunda Guerra Mundial. Era uma arma de pobres: simples, fácil e barata de usar e manter. A princípio, os Estados Unidos não se preocuparam com ela. Só notaram sua importância quando se depararam com guerrilheiros vietnamitas que a usavam em combate. E então os americanos perceberam que o AK-47 era muito melhor do que seu próprio M-14.

Em linhas gerais, esse é o conteúdo da excelente entrevista que a revista Foreign Policy fez com C. J. Chivers. Ex-fuzileiro naval, jornalista e historiador premiado com o Pulitzer, ele lançou um livro sobre o AK-47. Ao traçar a história da arma, procura iluminar alguns fatos ainda obscuros envolvendo o velho Kalashnikov (foto que abre o post, posando com sua famosa criatura). Por exemplo, alguns de seus principais colaboradores terminaram presos pela polícia política de Stalin, e aparentemente o gênio de Kalashnikov foi menos em inventar e mais em sintetizar e aperfeiçoar inovações técnicas de outras pessoas.



Nenhuma outra arma ficou tão associada com guerrilhas e movimentos de libertação nacional quanto o AK-47 - líderes como Robert Mugabe (Zimbábue), Saddam Hussein (Iraque) e Osama Bin Laden posaram para fotos com ele, justamente para explorar o simbolismo de rebeldia, e anti-Ocidente, da arma. Mas seus usos iniciais foram na repressão aos movimentos libertários da Europa Oriental, como a revolta dos trabalhadores na Alemanha Oriental (1953) e a Revolução Húngara (1956). A URSS fabricou dezenas de milhões de unidades que se espalharam não só por seus Estados-clientes, mas para todo o tipo de grupo armado.

Chivers afirma que a situação se tornou ainda mais grave no pós-Guerra Fria, com o colapso do bloco comunista na Europa Oriental resultando na disseminação dos AK-47 por diversas zonas de combate, no mundo todo, e que a durabilidade da arma é um fator que ajuda a prolongar a vida de guerrilhas e rebeliões.



Uma série de brilhantes historiadores militares, como John Keegan e Martin van Creveld, nos chamam a atenção para o fato de que a guerra não é simplesmente a continuação da política por outros meios, mas um elemento fundamental da cultura e da afirmação da identidade. Creveld, em particular, tem um ótimo livro no qual discorre sobre o fascínio que as armas sempre despertaram nas pessoas, e como em todas as épocas os guerreiros as decoram com jóias, inscrições, enfeites etc. Penso que muito do glamour perverso do AK-47 vem não do simbolismo político, mas da beleza pura e simples do seu design. Ele não tem nada em excesso. É como uma ave de rapina, um predador selvagem. Um reflexo para o que temos de violento, a “natureza, vermelha com garras e dentes”, da qual falou o poeta Tennyson.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

As Guerras da América Latina



O Estado fez a guerra, e a guerra fez o Estado. (Charles Tilly)

A América Latina é um continente estranho. Tem menos guerras que a Suíça, e mais generais do que a Prússia. (Fidel Castro)

A América Latina é um continente com poucas guerras. Em quase dois séculos de vida política independente, houve apenas três conflitos de vulto entre os países da região (Tríplice Aliança, Pacífico e Chaco), com mortes na escala de dezenas de milhares de pessoas. As nações latino-americanas mais belicosas são as menores: Paraguai, Bolívia, Peru e Equador. Os maiores e mais poderosos, Argentina, Brasil e México, são bastante pacíficos. Mesmo o Chile, com todo seu estilo militar prussiano, não luta desde o século XIX. A situação é uma anomalia para os padrões internacionais e tem gerado em anos recentes uma quantidade crescente de estudos interessantes. Tratar da guerra é discutir a formação e limites do Estado.

O acadêmico que tem realizado as pesquisas mais sistemáticas sobre o tema é o sociólogo Miguel Centeno, da Universidade Princeton. Ele interpreta a baixa quantidade de guerras na região como conseqüência da fragilidade dos Estados, sua baixa carga tributária e dificuldade de mobilizar os cidadãos. Centeno tem sido também um analista crítico dos novos papéis desempenhados pelas Forças Armadas da América Latina, em especial sua utilização no combate ao tráfico de drogas.

Outro que tem se dedicado ao tema é o historiador boliviano Antonio Mitre, que observa que quase todas as guerras latino-americanas foram motivadas por disputas de fronteiras, em particular quando o território contestado envolvia recursos naturais significativos, de guano e nitrato a petróleo, passando pelo controle de rios importantes. Ainda assim, Michael Ross, da Universidade da Califórnia, trata das “missing oil wars” do continente, notando a ausência de conflitos secessionistas, em que grupos rebeldes buscam o petróleo como base para criar um país independente.




O debate teórico é interessante, mas a meu ver não conseguiu responder a uma contradição essencial: por que Estado tão pacíficos em suas relações internacionais são tão violentos internamente, contra sua própria população? O histórico regional de ditaduras, guerras civis, e atos de barbárie é, afinal, péssimo. E por vezes esses regimes autoritários conduzem a conflitos bélicos, como nas Malvinas.

Uma saída pode ser incorporar à discussão questionamentos de outros continentes, como o ótimo livro “States and Power in Africa”, de Jeffrey Herbst, também de Princeton, que comecei a usar em meus cursos. Faz uma ótima e fértil mistura entre teoria de relações internacionais e política comparada para examinar a realidade africana, que nesse aspecto se parece com a América Latina.

A conclusão de Herbst é sombria: os líderes da África independente teriam chegado a um arranjo político de evitar causar problemas uns para os outros além das fronteiras, de modo a poder concentrar esforços na repressão a grupos étnicos/partidários/religiosos dissidentes em seus próprios países. Há uma ou outra exceção a esse padrão não-intervencionista, sempre atreladas a cruzadas ideológicas: a África do Sul do apartheid, o coronel Kadafi na Líbia, as guerras étnicas transnacionais entre tutsis e hutus, entre Ruanda e o Congo, que acabaram engolfando toda a região dos Grandes Lagos.

Outra analogia curiosa – e preocupante – entre América Latina e África é que os anos recentes, de pós-Guerra Fria e democratização, têm sido marcados pelo aumento de conflitos internacionais por recursos naturais, nas duas região. Não são necessariamente guerras, podem ser disputas diplomáticas, choques de fronteiras, ações judiciais etc. Continuo a apostar em que razões econômicas, como a alta do preço das commodities, é a influência principal. Mas o tema é aberto a interpretações.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Guerrilheiro Acidental



The Accidental Guerrilla” é o mais influente livro sobre assuntos militares publicado após os atentados de 11 de setembro de 2001 e as guerras do Afeganistão e do Iraque. Seu autor é David Kilcullen (foto), tenente-coronel do Exército da Austrália que assessorou autoridades dos Estados Unidos, como Condoleezza Rice e o general David Petraeus. É uma reflexão que busca entender a natureza dos conflitos assimétricos na Ásia.

Seu argumento: a maioria dos insurgentes que combatem os EUA na região são “guerrilheiros acidentais”, motivados por questões locais, basicamente a intromissão de estrangeiros em seus assuntos comunais. A dinâmica da “guerra ao terror” terminou por vinculá-los às redes terroristas internacionais, como Al-Qaeda e certas correntes entre os Talibãs, que são muito mais irredutíveis em seu ódio aos ocidentais. Para separá-los, Kilcullen propõe a mudança na estratégia de guerra, com contrainsurgência voltada para garantir a segurança da população, e não a destruição do inimigo. Inspirou o “surto”, a reviravolta americana no Iraque.

Kilcullen fez carreira no Exército australiano servindo em missões de paz na Indonésia, Timor Leste e em operações na África e no Oriente Médio. Doutorou-se em Antropologia sobre o impacto das insurgências em sociedades tradicionais, sobretudo os conflitos entre fundamentalistas islâmicos e culturas tribais. Pelo circuito acadêmico-militar, realizou rápida ascensão como consultor para o Pentágono e o Departamento de Estado. Os EUA simplesmente não tinham especialistas nesses temas, tendo praticamente abandonado a reflexão sobre contrainsurgência após a derrota no Vietnã. Agora, despontou nova comunidade que trata do assunto.

Seu livro começa com observações teóricas e dedica capítulos aos estudos de caso do Afeganistão e do Iraque. O ponto forte de Kilcullen é sua observação de campo sobre os costumes dos grupos étnicos (basicamente, redes familiares ampliadas) nos dois países. As tribos afegãs são mais igualitárias, mas as iraquianas têm hierarquias rígidas. Ambas as estruturas foram muito abaladas por décadas de guerra, ditadura, ocupações estrangeiras e as tribos aprenderam a negociar com os Estados, em padrões complexos de clientelismo, conflito, oposição e aliança.




Assim, os Talibãs se tornaram um movimentos dos pashtun – no Afeganistão e no Paquistão – para se impor sobre etnias rivais. Outros povos – Hazara, Uzbeques – com freqüência preferem apoio da OTAN. No Iraque, sunitas e xiitas travam uma feroz disputa sectária, mas certas tribos da primeira denominação, oriundas da província de Anbar, acabaram por se indispor com a Al-Qaeda, e mudaram de lado para apoiar os EUA.

A Al-Qaeda percebeu a importância das tribos e seus líderes procuram se casar com mulheres locais para se integrar às redes de solidariedade comunitária. Mas o puritanismo religioso dos fundamentalistas em geral entra em confronto com os costumes mais brandos das tribos, que podem incluir sunitas e xiitas. Outro estopim de divergência é o controle sobre lucrativos negócios ilegais, como contrabando e tráfico de drogas, tradicionalmente dominados pelos líderes tribais.

A estratégia proposta por Kilcullen é explorar tais divisões, e seu livro contém várias recomendações operacionais que foram aplicadas no Afeganistão e no Iraque, tais como patrulhas conjuntas entre os americanos e os locais, abandono de operações bruscas, como invadir casas em busca de suspeitos, esforços para construir a confiança com a população.

Já existe longa literatura sobre contrainsurgência, construída a partir de estudos sobre as guerras na Argélia e no Vietnã. “The Accidental Guerrilla” certamente entrará para o cânone dessas análises, mas com a cautela: os exemplos anteriores resultaram em fracassos bélicos. Em grande medida porque seus autores falham em encarar a amarga mensagem política de que, para os povos envolvidos, a maior medida de segurança pode muito bem ser a partida dos exércitos estrangeiros aos quais pertencem os escritores. Com todas as suas boas intenções.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Revendo o TNP



A conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) começou segunda-feira em Nova York, em meio a um atentado terrorista frustrado em Times Square e poucas expectativas que os Estados Unidos consigam avançar em seus principais objetivos: obter apoio ampliado ao Protocolo Adicional e deter o programa atômico do Irã.

Isso ocorre porque a última década foi marcada pela proliferação nuclear de países que não são signatários do TNP (Índia e Paquistão) ou que o abandonaram (Coréia do Norte). Os países do Oriente Médio estão descontentes com a estagnação do projeto de transformar a região numa zona livre de armas nucleares. Embora temam o Irã, ressentem-se da aliança americana com Israel, que continua a desfrutar de apoio apesar de ter a bomba atômica e nunca ter assinado o TNP.

O governo Obama tem feito esforços significativos no campo do desarmamento. Conseguiu assinar o Novo START com a Rússia, o primeiro acordo do tipo em 20 anos, pelos quais os EUA reduzirão seu arsenal atômico de 5.100 para 1.500. Antes do TNP, o número chegara ao pico de cerca de 31.200. A conferência de segurança nuclear presidida por Obama implementou algumas medidas de controle de materiais sensíveis, basicamente para proteção contra terrorismo. Há possibilidades de que o Congresso dos Estados Unidos finalmente ratifique o tratado que proíbe testes nucleares (CTBT).



O Brasil tem se esforçado para que o Irã não seja submetido a sanções, e também se opõe ao Protocolo Adicional ao TNP. Esse instrumento, de caráter voluntário, foi criado em 1997 e estabelece inspeções bastante intrusivas, inclusive visitas sem aviso. Se aderissem a ele, as autoridades brasileiras teriam que ampliar o monitoramento de instalações como a Fábrica de Combustível Nuclear de Resende, centro da tecnologia própria de enriquecimento de urânio desenvolvida pelo país. A Agência Internacional de Energia Atômica tem acesso restrito ao local, para proteger os segredos industriais brasileiros.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Segurança Nuclear



Desde o fim da Guerra Fria, três países desenvolveram armas atômicas: Índia, Paquistão e Coréia do Norte. Eles se juntaram às outras seis nações que já possuem bombas nucleares: EUA, Rússia, Reino Unido, França, China e Israel. O Irã caminha para ser o décimo da lista. A Cúpula sobre Segurança Nuclear realizada em Washington com 47 chefes de Estado foi um esforço de Obama para dar legitimidade multilateral aos objetivos americanos de promover o que um ex-chanceler brasileiro chamava de "congelamento do poder mundial". É duvidoso que tenha sucesso.

Os Estados Unidos atacaram duas vezes o Japão com armas atômicas em 1945, e depois disso nunca mais esse tipo de bomba foi utilizada em conflitos bélicos, embora tivesse havido o risco de que isso acontecesse em outras ocasiões, sobretudo na crise dos mísseis cubanos, em 1962. Tampouco a posse de armas nucleares serviu para impedir guerras e ataques terroristas aos países que as possuem. Índia e Paquistão continuam a se engalfinhar pela Caxemira, e o mesmo vale para Israel e seus vizinhos árabes. Do mesmo modo, o gigantesco arsenal atômico da União Soviética não conseguiu impedir o esfacelamento do Estado, e nem sequer a derrota no Afeganistão (como os EUA já haviam aprendido na Coréia e no Vietnã), ou na Rússia de Ieltsin, na primeira guerra na Chechênia.

De modo que os benefícios das armas nucleares têm se mostrado bem menos generosos do que se costuma imaginar, e talvez por isso a proliferação atômica no mundo pós-Guerra Fria tenha sido bastante limitada. Nem Alemanha nem Japão desenvolveram essas armas, assim como outras nações com histórico de fragilidade militar e invasões estrangeiras, como Polônia e Coréia do Sul. A exceção da Índia e do Paquistão pode ser explicada pela ascensão do nacionalismo hindu, com o BJP fazendo do programa nuclear uma importante plataforma para sua vitória eleitoral na década de 1990. Medo do fundamentalismo islâmico no eterno rival, mas também receio pela potência ascendente da China, que havia humilhado o exército indiano na guerra no Himalaia, em 1962.

O que mudou esse cenário foi a agressividade da política externa americana no pós-11 de setembro. Embora o Iraque tenha sido invadido a pretexto de eliminar armas de destruição em massa, o que a guerra estimulou foi o efeito inverso: incentivou regimes hostis aos EUA a desenvolver armas atômicas como garantia de que não seriam atacados. No caso da Coréia do Norte, foi mais um empurrão num processo que vinha desde a década de 1990, quando Kim Il-Sung apostou no programa nuclear como modo de extrair auxílio econômico do Ocidente, no contexto da desintegração de seu patrono na URSS e nas reformas pró-mercado na China. No Irã, com seus vizinhos Iraque e Afeganistão ocupados por exércitos estrangeiros, não é de estranhar a histeria nacionalista no país, ainda mais tendo em conta que os iranianos sofreram cinco ataques militares no século XX (dois britânicas, dois russos, um soviético e um iraquiano).

O argumento de Obama de que é necessário conter a proliferação nuclear para impedir que bombas atômicas caiam nas mãos de terroristas é útil como estratégia de marketing político, e também para aprovar medidas mais eficazes de controle dos arsenais que já existem. Mas é precário para impedir que mais países se armem, uma vez que persistem as razões para seus medos e inseguranças e as grandes potências mantém enormes quantidades dessas armas.

No entanto, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU concordam com a continuação das sanções ao Irã, e o regime em Teerã está numa situação bastante difícil. Não é uma questão de justiça internacional, mas do medo que um Irã com armas nucleares se torne a grande potência regional no Oriente Médio, em momento em que seu rival tradicional (Iraque) está em ruínas e Israel demonstra fragilidade política pela instabilidade de suas coalizões governantes, pela estagnação do diálogo com os palestinos e pelas feridas não-cicatrizadas das recentes guerras no Líbano e na Faixa de Gaza. Para EUA, Rússia, China e União Européia, é mais interessante que o Golfo Pérsico continue uma área com lideranças fragmentadas por razões religiosas, étnicas e políticas, sem um Estado que predomine e possa opor uma posição conjunta às grandes potências.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A Primeira Vítima



A primeira vítima de uma guerra é a verdade, nos diz o jornalista australiano Phillip Knightley em seu “The First Casualty: from the Crimea to Vietnam, the war correspondent as hero, propagandist, and myth maker”. Knightley aponta horrendas falhas de reportagem em mais de 100 anos de jornalismo de guerra. Erros e omissões que aconteceram por uma mistura de incompetência (desconhecimento da língua e cultura locais sendo os pecados mais comuns), dos efeitos da censura e da manipulação política governamental e da vaidade de profissionais que acreditaram nas próprias ilusões de glamour.

O moderno jornalismo de guerra começou na Criméia em meados da década de 1850, graças aos avanços tecnológicos – telégrafo, ferrovias, navios a vapor – que permitiam mobilidade mais rápida aos repórteres e às notícias enviadas por eles. Também contou, e muito, a ampliação do público leitor, fazendo com que o caro negócio de enviar um correspondente ao exterior se tornasse viável financeiramente. O inventor do ofício foi o jornalista William Howard Russell, que a serviço do The Times denunciou o despreparo do Exército britânico, em particular as péssimas condições médicas e sanitárias, no conflito contra a Rússia. Russell foi hostilizado e ameaçado pelos militares, mas seus artigos contribuíram para melhoras significativas.

Já a guerra civil americana se mostrou um desastre jornalístico. Os repórteres da União e do Sul escreviam mais motivados por propaganda do que em busca de objetividade, e deixaram de perceber momentos cruciais do conflito, como a importância do discurso de Gettysburg, de Lincoln, ou a invenção da “guerra total” pelo general Sherman, em sua marcha para tomar Atlanta e dividir a Confederação em duas.

Em linhas gerais, a ideologia também prevaleceu sobre o bom jornalismo nos conflitos coloniais e na Primeira Guerra Mundial, sendo que neste último caso implacáveis sistemas de censura atrapalharam muito mesmo os bons profissionais.

Não faltam figuras pitorescas, como Winston Churchill, que era simultaneamente militar e jornalista, e usava as reportagens que escreveu no Sudão e na África do Sul – onde sempre se retratava heroicamente – como trampolim para sua carreira política. Ernest Hemingway fazia parecido e até “conquistava” cidades, aceitando a rendição de autoridades em nome dos exércitos que cobria como repórter.

Mas Knightley destaca alguns mestres que mantiveram o espírito crítico e os ideiais humanitários em meio às carnificinas, como o italiano Luigi Barzini, eterna consciência da brutalidade da guerra. Ou John Reed, em sua extraordinária observação sobre a Revolução Russa. E ainda Evelyn Waugh, que usou os absurdos que viu na Etiópia como matéria-prima para sua sátira romanceada dos correspondentes, “Scoop”.

A guerra civil espanhola rende um dos capítulos mais dramáticos de Knightley, pela polarização política e manipulação ideológica entre nacionalistas e republicanos, e como cada grupo conseguiu recrutar numerosos jornalistas. Mesmo tragédias como o bombardeio de Guernica quase não foram compreendidas no calor dos fatos, pelas suspeitas de que se tratassem apenas de propaganda.

Knightley também é crítico do modo como a Segunda Guerra Mundial foi coberta, mas é interessante como examina o surgimento de novos estilos de correspondentes, menos presos aos esteriótipos machistas e focados no cotidiano dos soldados (como Ernie Pyle) ou aos grandes desdobramentos da história. É emocionante ler como Ed Murrow implorou a seus ouvintes que acreditassem em seus relatos sobre os recém-descobertos campos de concentração.

O capítulo sobre o Vietnã mostra como a cobertura da mídia começou sintonizada com a propaganda dos governos Kennedy e Johnson, e foi aos poucos se transformando pelo choque dos repórteres com o racismo, brutalidade e a corrupção do conflito. A ofensiva vietcongue do Tet, em 1968, despertou a opinião pública para os descaminhos da estratégia americana no Sudeste Asiática.

Li a primeira edição do livro, de 1975, posteriormente foram lançadadas atualizações abarcando até as guerras do Kosovo (1999) e do Iraque (2003). Mas os pontos principais de Knightley estão bem demarcados nos estudos de caso anteriores e os problemas que ele observa se aplicam em grande medida às falhas da imprensa nos conflitos atuais.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O Nobel de Obama



O comitê que concede o prêmio Nobel da Paz tem sido responsável por grandes surpresas nos últimos anos, em particular pela concepção abrangente de sua missão, laureando trabalhos dedicados à promoção do desenvolvimento sócio-econômico entre os pobres (microcrédito) e os esforços da ONU e de Al Gore em combater a mudança climática. A escolha deste ano de premiar o presidente Barack Obama sinaliza o compromisso do Nobel com o multilateralismo e a busca de soluções pacíficas para os conflitos mundiais. E a esperança de que os Estados Unidos sejam parte da solução, e não do problema, como durante a era Bush. Obama é o primeiro presidente americano em exercício a ganhar o Nobel desde Woodrow Wilson (em 1919) mas o terceiro líder do Partido Democrata a recebê-lo nesta década, após Jimmy Carter (2002) e Al Gore (2007).

À primeira vista, o Nobel é um bônus para Obama num momento difícil, em que sua espantosa popularidade inicial foi reduzida pelas dificuldades econômicas e pelos obstáculos na reforma do sistema de saúde. Sua política externa enfrenta muitas objeções de segmentos importantes da sociedade americana, em particular por suas posições moderadas no Oriente Médio e com relação à Rússia.

Mas as atrocidades do 11 de setembro e os conflitos políticos da era Bush reforçaram a desconfiança da opinião pública americana quanto aos aliados europeus e instituições multilaterais como a ONU e nesse sentido nada garante que o Nobel ajude Obama. Pode até dificultar sua vida, indispondo-o ainda mais com os setores isolacionistas. Basta lembrar que Wilson teve a Liga das Nações rejeitada pelo Senado e deixou a presidência em amargura. Seu legado só foi reconhecido e valorizado muitos anos depois. Curiosamente, há pouco tempo a revista Foreign Policy publicou artigo com severas críticas ao Nobel da Paz, apontando seus muitos erros e omissões (Gandhi, por exemplo, nunca ganhou).

Obama vive a contradição semelhante a de Gorbatchev, a de ser muito mais popular no exterior do que entre seus próprios compatriotas. A analogia tem outros pontos em comum: a necessidade dos dois estadistas em retirar seus países de guerras desastrosas no Afeganistão (no caso de Obama, também no Iraque), de reformar uma economia repleta de problemas e o fato que ambos representavam a corrente mais inovadora do establishment político. Deve ter muita gente na velha União Soviética olhando para o presidente americano com uma sensação curiosa de Dejá Vu, e talvez de pensamentos pessimistas.

Com apenas nove meses no cargo, é muito difícil fazer qualquer previsão do sucesso ou fracasso das iniciativas diplomáticas de Obama. Mas a lista impressiona pelas ambições. O belíssimo discurso do Cairo, focado no entendimento entre culturas e religiões. O cancelamento do controverso projeto do escudo de mísseis na Europa Oriental. A recomposição das relações com os aliados da OTAN. Um importante e bem-executado tour pela África. O reconhecimento dos países emergentes da economia internacional, no G-20. Outros permanecem problemáticos: a deterioração nas relações com Israel, a crise com o Irã, agravada pelos avanços no programa nuclear e pela repressão violenta do movimento democrático, a situação complexa no Afeganistão, Paquistão e Iraque, a dificuldade de entendimentos com a Coréia do Norte, as diretrizes confusas para a América Latina.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Guerra no Mar



De uns poucos anos para cá, quando convivi de maneira mais próxima com militares, tenho observado uma aproximação excelente entre as Forças Armadas e a comunidade acadêmica. Um excelente exemplo é o lançamento de “Guerra no Mar – batalhas e campanhas navais que mudaram a história”, organizado pelo almirante Armando Vidigal e pelo comandante Francisco Eduardo Alves de Almeida. A coletânea reúne 15 artigos escritos por oficiais da Marinha e por professores universitários (sobretudo das instituições do Rio de Janeiro) que abarcam da Grécia Antiga ao conflito pelas ilhas Malvinas.

Independente da formação profissional dos autores, todos os textos dão grande atenção ao contexto político no qual se desdobram os combates navais. Parece ser uma constante história que uma potência em ascensão ambiciona a construção de uma marinha de guerra, para garantir o domínio de rotas comerciais, acesso a matérias-primas ou negar o espaço marítimo a adversários. Isso vale mesmo para poderes tradicionalmente lembrados por suas conquistas terrestres, como a República Romana, a França Napoleônica e a Alemanha de Bismarck e Guilherme II. A cronologia dos artigos é um “quem é quem” das disputas entre diversos impérios: gregos e persas, romanos e cartagineses, espanhóis e turcos, espanhóis, ingleses e holandeses, ingleses e franceses. Faltou um ensaio dedicado a Portugal, omissão bastante curiosa em livro preparado por brasileiros!

Grosso modo, a tática naval permaneceu muito próxima à terrestre da Antiguidade até a batalha de Lepanto, no século XVI, na qual o expansionismo turco no Mediterrâneo foi detido por uma aliança complexa entre espanhóis e cidades-estado italianas. Nesse tipo de confronto, a embarcação primordial era a galera, movida a remo, que levava tropas de infantaria para abordar os barcos inimigos. Inovações tecnológicas como velas mais eficientes e a energia a vapor revolucionariam a maneira de lutar no mar, com a formação de grandes linhas de batalha, como as que se enfrentaram em Trafalgar, túmulo das ambições oceânicas napoleônicas.



Dos países não-ocidentais, o Japão é aquele examinado com mais detalhes no livro. Diversos artigos mapeiam a ascensão do poder naval nipônico, em suas bem-sucedidas guerras contra China e Rússia, e no esforço hercúleo, mas fracassado, de derrotar os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

Dois ensaios tratam da história militar sul-americana. Um deles aborda a batalha do Riachuelo, na qual a Marinha brasileira praticamente destruiu a paraguaia, em momento decisivo da Guerra da Tríplice Aliança. O segundo analisa a Guerra das Malvinas sob o prisma naval e é um testemunho eloquente das lições que a Marinha brasileira tomou daquele conflito, em particular a importância do submarino nuclear. O afundamento do cruzador General Belgrano (foto que abre o post) por uma dessas embarcações foi um dos instantes cruciais que selou a sorte das tropas argentinas.

Aliás, a universidade na qual estudei em Buenos Aires fica no bairro de Belgrano e na estação de metrô onde eu saltava havia uma maquete do cruzador tragicamente afundado nas Malvinas, com relatos de sobreviventes. Para quem se interessa pela história desse conflito, vale ler o relato do emocionante encontro entre um tripulante britânico do submarino e marinheiros do Belgrano. Às vezes as pessoas conseguem se elevar além da estupidez das nações.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Segundo Mundo



Se você se interessa por política internacional, anote o nome de Parag Khanna. Este acadêmico indiano de apenas 31 anos ainda está completando o doutorado na London School of Economics, mas já tem uma brilhante carreira que inclui empregos no Council on Foreign Relations, Brookings Institute, Fórum Econômico Mundial e assessorias de alto nível para as Forças Especiais do Exército dos EUA no Iraque e Afeganistão e para o presidente eleito Barack Obama. Seu livro “O Segundo Mundo – impérios e influência na nova ordem global” é um impressionante panorama das crises mundiais neste início de século, com destaque para a situação da Ásia.

Khanna analisa o mundo dividido entre três grandes pólos de influência: Estados Unidos, União Européia e China. O que determinará o sucesso de cada uma dessas locomotivas é sua influência sobre os estados periféricos globais, fontes de mercados consumidores, matérias-primas, locais para investimentos e para a internacionalização das cadeias produtivas. Ele deixa de lado os países mais pobres (basicamente, África subsaariana, América Central e Caribe, e Ásia meridional) e concentra seu livro no que chama de “segundo mundo”. Não se trata agora do antigo bloco socialista, mas de uma série de nações emergentes que combinam elementos dos Estados ricos com características de pobreza, conflito e instabilidade soc.ial. Os que ele destaca como mais promissores são Brasil, Turquia, Cazaquistão, Irã, Malásia e as “cidades globais” de Cingapura e Dubai.

Seu livro é o que os analistas diplomáticos classificam de tour d´horizon, um apanhado da situação geral de cada região. É um tipo de obra comum entre veteranos como Henry Kissinger (Does America Needs a Foreign Policy?) e Zbigniew Brzezinsky (The Grand Chessboard). Khanna visitou um número surpreendente de países, mas é claro que seus conhecimentos, embora vastos, são limitados. A seção sobre América Latina é bastante superficial e basicamente repete o que qualquer um pode ler na Economist ou no Financial Times. O único país africano examinado em detalhes é o Egito, e mesmo assim muito mais pela ótica de seu envolvimento dos conflitos do Oriente Médio.



Contudo, as seções sobre Ásia Central são espetaculares. Khanna narra de modo magistral os desdobramentos políticos na antiga Rota da Seda, que basicamente cobre as antigas repúblicas soviéticas que separam a Rússia da China, mostrando como esses novos e frágeis países vem manobrando no espaço político entre essas potência e os Estados Unidos. É igualmente brilhante sua análise dos jogos diplomáticos entre os pequenos Estados reformistas do Golfo Pérsico (Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos) e a Arábia Saudita, com esses micro-países representando uma bem-sucedida combinação entre o Islã e a economia global.

Khanna não escreve muito sobre a China propriamente dita, mas discorre com lucidez sobre a política externa do país no Sudeste Asiático, iluminando as relações de Pequim com os vizinhos prósperos (Vietnã, Malásia) e turbulentos (Myanmar, Indonésia, Tailândia) além de discorrer de modo claro sobre os desafios chineses em suas regiões de conflito étnico e religioso, com a ameaça latente de separatismo (Tibete e Xinjiang). Material de alta qualidade, difícil de encontrar em português.

Curiosamente, Khanna é muito descrente de sua Índia natal, que analisa brevemente como um Estado de pouco potencial, devido às extensas zonas de miséria e à burocracia incompetente. Ele se mostra igualmente crítico de seu país de adoção, os EUA, com comentários bastante ácidos sobre as atuais dificuldades políticas e econômicas. Dificil escapar da impressão de que é fascinado pelo dinamismo do futuro em construção que encontrou nas nações emergentes que visitou com tanto interesse.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Sapatada



Atire a primeira pedra quem não gostaria de repetir o gesto do jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi e jogar um sapato no presidente Bush.

Infelizmente o governo do Iraque libertado não tem muita simpatia por protestos heterodoxos e o repórter está preso, pode pegar 15 anos de cadeia e, segundo as denúncias, foi espancado pelos guardas e está com alguns ossos quebrados.

Nestes tempos de You Tube, o uso criativo das novas tecnologias de informação faz com que críticas inusitadas e bem-humoradas circulem rapidamente. O Sergio Leo fez um apanhado hilariante dos vídeos que parodiam a sapatada iraquiana. Meu favorito é o do Matrix.

Menção honrosa também para as análises pseudo-culturalistas que falam da suposta especificidade árabe, em que é ofensa mostrar a sola do sapato para alguém. Ora, meus queridos, em qualquer país jogar uma bota no seu interlocutor é sinal de que ele fez algo muito ruim para você – como invadir sua nação e matar dezenas de milhares de inocentes, por exemplo.

Sapatos à parte, a agressão a Bush serve como ilustração de uma tendência de diversos estudos sobre o panorama da segurança internacional: os problemas para os Estados Unidos não vem de rivais ricos, mas do países em desenvolvimento. Nações empobrecidas e devastadas pela guerra, que são um ninho de marimbondos para extremismo político, terrorismo, disseminação de epidemias etc. Como tais estudos são preparados por técnicos do hemisfério norte, há sempre a preocupação com a migração, sobre o que aconteceria se essas pessoas resolverem fugir para os EUA e a Europa. O problema de um é a solução do outro.

O link acima vai para o blog de Duncan Green, um dirigente da ONG britância Oxfam, instituição que publica algumas das melhores pesquisas e reflexões que conheço sobre temas como comércio internacional, agricultura familiar e meio ambiente. Green chama a atenção para como muitos dos debates políticos travados nas organizações multilaterais ainda são marcados por perspectivas estreitas em termos de classe social, gênero, etnia.

O mundo precisa de horizontes mais amplos. Ou vão faltar sapatos.

Pós-Escrito: Patricio dá a dica de um site onde o visitante desfrutar de um jogo cujo objetivo é acertar um sapato em Bush. Boa prática!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vinte Anos de um Clássico


Ocasionalmente meus alunos no preparatório para o Itamaraty me perguntam “Que livro você recomenda para quem nunca leu nada sobre política internacional, mas quer se dedicar ao tema?”. Minha recomendação, invariavelmente, é “Ascensão e Queda das Grandes Potências”, do historiador inglês Paul Kennedy. O livro completa 20 anos nesta semana e há uma certa festa na comunidade acadêmica para celebrar a data.

Kennedy examina a construção e declínio de diversos impérios, do Renascimento aos dias atuais. Sua tese central é que a expansão territorial leva as grandes potências a assumir um número excessivo de compromissos militares, que acabam por causar problemas à economia e impor um custo humano e político insustentável. O livro foi escrito em meio à ressurgência da Guerra Fria durante a presidência de Reagan, e afirmava que os Estados Unidos estavam no rumo da decadência. Ironias da história: é claro que não estavam, mas a tese de Kennedy se aplica à perfeição para explicar o colapso do bloco soviético, que ocorreu meses após a publicação da obra.

Em suma, Kennedy errou na análise de conjuntura, mas forneceu uma ferramenta importante para o exame de diversas situações de conflitos, para não mencionar o prazer da leitura de suas narrativas históricas. Embora o autor já fosse um acadêmico veterano, seu livro o catapultou para o status de celebridade global, e ele se tornou um debatedor importante nas controvérsias sobre política externa dos EUA. De seu posto em Yale, ressaltou a importância de se pensar em termos de “grande estratégia”, olhando além das dificuldades e problemas cotidianos.

Nos últimos 20 anos Kennedy continou ativo, escreveu um bom livro sobre tendências globais contemporâneas (“Preparando para o Século XXI”) e uma história da ONU, que não li. Ele agora trabalha num estudo sobre o escritor Rudyard Kipling, que a maioria talvez considere como um defensor instransigente do imperialismo, por conta de seu poema "O Fardo do Homem Branco", um apelo aos Estados Unidos para seguirem os passos dos britânicos. Pessoalmente, acho que a verdade é mais complexa. Kipling perdeu o filho na Primeira Guerra Mundial e se tornou bem mais amargo com relação ao militarismo e às aventuras coloniais, ambigüidade presente em algumas de suas melhores obras, como o conto "O Homem que queria ser rei".

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Regiões e Poderes



Ontem dei aula no MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. Foi minha estréia como professor na FGV, embora esteja tocando também outros projetos para a instituição. O tema da minha apresentação foi o papel das organizações regionais na manutenção da ordem internacional, tanto no aspecto econômico quanto em termos de segurança. A eclosão da guerra no Cáucaso tornou a discussão bem mais atual, e eventualmente um tanto mais assustadora.

Após o colapso da URSS, EUA e União Européia avançaram sobre a antiga área de influência de Moscou. A Europa Oriental foi incorporada à UE e à aliança militar, a OTAN - o mapa que abre o post mostra sua expansão. Acordos de cooperação foram assinados com Geórgia e Ucrânia, e bases americanas estabelecidas em diversos países da Ásia Central, sobretudo depois dos atentados do 11 de setembro e das guerras no Iraque e no Afeganistão. A idéia era tornar a Rússia um "Estado pós-imperial", o que significaria reverter uns bons 4 ou 5 séculos de sua história.

Entre 2003 e 2005 houve uma série de “revoluções coloridas” na Geórgia, Ucrânia e Quirguistão, acompanhadas de convulsões semelhantes no Azerbaijão e no Uzbequistão. Essas mobilizações resultaram na queda de governos pró-Moscou e na eleição de presidentes mais dispostos a aprofundar o vínculo com Estados Unidos e União Européia.

O país em que essa tendência foi mais forte foi a Geórgia, onde chegou ao poder Mikheil Saakashvili. Ele substituiu o último ministro das Relações Exteriores da URSS, Eduard Shevardnadze, que governava a Geórgia desde 1995. É visto como o mais pró-Ocidente dos líderes do Cáucaso e mandou até tropas para o Iraque – embora desprezadas pelos EUA por sua falta de treinamento e equipamento adequadas, são valorizadas como apoio político num momento de dificuldades para Washington.

Uma olhada no mapa abaixo mostra como o Cáucaso é o coração da instabilidade global, bem no meio das potências rivais e dos locais onde ocorrem guerras. Explica porque a Rússia dá tanto valor à região e porque Moscou cada vez mais se considera cercada e isolada pelas instituições comandadas pelos EUA e pela Europa.



Na perspectiva do novo nacionalismo que ganhou força na era Putin, é a reedição do “cordão sanitário” (grupo de Estados hostis ao redor do país) que foi imposto à União Soviética após a Revolução de 1917. Do ponto de vista dos vassalos do antigo império soviético, é a busca de aliados que possam contrabalancear o expansionismo de Moscou, a tentativa de jogar com a rivalidade entre as grandes potências e conseguir um pouco de espaço de manobra.

Na Guerra Fria, o Ocidente assistiu basicamente passivo enquanto a URSS esmagava rebeliões em seus satélites na Alemanha Oriental (1953), Hungria (1956) e Tchecoslováquia (1968). A Rússia parece ter ganhado a batalha na Geórgia – os EUA precisam da cooperação de Moscou em diversas questões mais sérias, como o Irã, e a Europa depende do gás russo. Foi dado um recado claro para outros países do Cáucaso que buscam aproximar-se do Ocidente, em especial para a Ucrânia, a jóia da coroa na região.

O resultado da guerra é muito mais difícil de prever. A escala da reação russa foi tão violenta que bem pode ter o efeito contrário no longo prazo, estimulando a formação de coalizões anti-Moscou. O Ocidente acena com integração e cooperação econômica. O que a Rússia tem a oferecer para rivalizar com tais seduções? Também não está claro para mim até que ponto a OTAN irá permitir aos russos a manutenção de uma zona de influência, inclusive com intervenções militares. A Geórgia não é prioritária, mas é difícil imaginar a mesma reação conformada diante de um eventual ataque à Ucrânia, ou mesmo aos países da Ásia Central.