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segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Pacote de Socorro à Espanha

No sábado a Espanha pediu socorro financeiro de até $100 bilhões de euros para a União Européia, para tentar salvar seus bancos, cuja situação preocupa o continente. O PIB espanhol é de mais de um trilhão de dólares, maior do que a soma dos outros suplicantes – Grécia, Portugal, Irlanda. As reações iniciais ao pacote são de ceticismo. A quantia é considerada razoável, mas o receituário é basicamente o das mesmas reformas de austeridade que têm sido implementadas sem maiores resultados nos países do sul da Europa (embora pareçam ter melhor desempenho nas nações bálticas).

O cerco se aperta com a nova tentativa da Grécia em formar um governo, no próximo domingo. Com os Estados Unidos em dificuldades pelas eleições e com um presidente em minoria na Câmara, e os BRICS em redução do crescimento econômico, o foco das expectativas e temores se volta para a Alemanha.

A primeira-ministra Angela Merkel continua com a postura de rejeitar pacotes de resgate, mas ao fim de muitas súplicas acabar aceitando uma versão reduzida deles, atreladas a duras condicionalidades relativas ao corte de despesas públicas e algumas reformas econômicas. Contudo, há um difícil contraste político entre grandes acordos de ajudas econômicas para os bancos e outras instituições financeiras, e a precarização de serviços públicos e benefícios para a classe média e os pobres. Em sociedades organizadas e mobilizadas como as da Europa Ocidental, o resultado é uma leva de manifestações e protestos que tem derrubado diversos governos no continente.

A situação da Espanha é dramática, com o desemprego beirando 25% e ultrapassando 50% entre os jovens. O Partido Popular (conservador) venceu as eleições nacionais, desalojando os socialistas que estavam no poder quando a crise começou. Mas já está com dificuldades nas urnas, perdendo eleições nas regiões mais ricas como a Catalunha e em núcleos industriais importantes, como o País Basco. Contexto complicado para pensar o aprofundamento da austeridade. É preciso ao menos algum crescimento para enfrentar as pressões sociais.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Crise na Europa: Fase 2

Com as recentes eleições na Alemanha, França e Grécia a crise européia entrou em sua segunda – e mais turbulenta fase. Os eleitores rejeitam as medidas de austeridade e os pacotes de socorro internacionais, os extremos ideológicos crescem em força política. Meu palpite é que o resultado será a adoção de medidas de nacionalismo econômico e a saída grega do euro, seguida eventualmente de outros países na periferia européia.

Me baseio no excelente modelo criado pelo economista turco Dani Rodrik, segundo a qual na época atual os países vivem um trilema segundo o qual não podem ter ao mesmo tempo: a) Economia aberta; b) Estado-Nação autônomo; c) Democracia.

Apesar do crescimento do extremismo ideológico na Europa, golpes de Estado autoritários (ainda) não estão no radar. Talvez entrem no futuro. A alternativa B – um governo de tecnocratas indicados pela Comissão Européia em Bruxelas – não funcionou na Grécia, embora pareça ir melhor na Itália. Resta a opção A – fechar a economia e tentar blindar a sociedade das turbulências globais ou da competição externa, em particular da China. Qualquer um familiarizado com a história do século XX sabe que isso aconteceu em larga escala nos períodos que antecederam as guerras mundiais, com consequências trágicas, em particular na década de 1930: queda no comércio global, aprofundamento da Depressão etc.

O cenário eleitoral da Europa aponta, ao menos no curto prazo, para essa escolha. Mais protecionismo, um relaxamento das regras conjuntas da União e mais autonomia para cada país buscar sua própria saída da crise. Na França e Grécia, os resultados eleitorais foram claramente condenatórios das políticas de austeridade, ainda que um tanto ambíguos sobre a agenda que desejam que seja colocada no lugar (aqui minha entrevista sobre o tema, para a revista Carta Capital). Na Alemanha, mais uma derrota do partido da chanceler Angela Merkel, agora no maior estado alemão, mostram a rejeição da população a seu discurso de austeridade e aos custos de auxiliar as economias mais frágeis da UE.

Não há soluções à vista para a crise européia. No caso da Grécia, uma provável saída do euro acarretaria desvalorização brutal, queda no poder aquisitivo da população e seria acompanhada de moratória de parte considerável da dívida. Algo semelhante ao que houve na Argentina em 2001-2, mas sem a saída de um boom de commodities para reerguer a economia.

Talvez o apocalipse grego aponte medidas que sejam tomadas em maior ou menor grau por outras economias européias. Quaisquer sugestões, encaminhem para Bruxelas.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Crimes de Ódio na França

Na última quinzena ocorreram uma série de crimes de ódio no sul da França, nas cidades de Toulouse e Montauban. Falei hoje à Rádio CBN sobre o tema. Ambos foram executados da mesma maneira: tiros certeiros contra pequenos grupos de pessoas, matando soldados páraquedistas e alunos e professores de uma escola judaica. A polícia suspeita que foram cometidos pela mesma pessoa e desconfia que o criminoso seja um ex-soldado vinculado a grupos de extrema-direita. Também pesam dúvidas que apontam para os suspeitos de sempre, fundamentalistas islâmicos. Infelizmente, esse tipo de ataque tem se tornado comum na Europa – em 2011 houve os grandes atentados na Noruega e outros bastantes significativos na Bélgica, Itália e Alemanha. A boa nova é a reação exemplar francesa: todos os candidatos à presidência condenaram duramente os crimes e judeus e muçulmanos protestaram juntos contra a violência religiosa (militares de origem árabe foram mortos a tiros em Toulouse).

As origens desse tipo de agressão estão na profunda crise econômica européia, com longos anos de estagnação e desemprego na faixa dos dois dígitos. Esse é o combustível que alimenta conflitos étnicos e religiosos, embora a proporação de estrangeiros nos países europeus em geral oscile entre apenas 5%-10% . As principais vítimas dos ataques têm sido muçulmanos e ciganos, estes últimos nas nações da Europa Oriental. A violência antissemita tem sido comparativamente rara, em parte porque a extrema-direita européia passou a considerar Israel e as comunidades judaicas como aliados em uma imaginária cruzada contra o Islã.

A responsabilidade pelos crimes de ódio pesa não só sobre os extremistas e fundamentalistas, mas também é consequência de ações tomadas por partidos moderados, no poder em vários países. Eles adotaram parte do discurso xenófobo para atrair o eleitorado mais conservador. Na França, Itália e Reino Unido autoridades têm demonizado imigrantes da África e Ásia e contribuindo para legitimar posições racistas que com frequência assustadora têm degenerado em violência.

A sombria história da Europa – em particular a do período do entreguerras, nas décadas de 1920-1930 – é um lembrete poderoso de que mesmo democracias aparentemente sólidas podem decair para a barbárie, e que conflitos religiosos ou étnicos envolvendo mesmo minorias minúsculas são instrumentos importantes para demagogos. Afinal, os judeus eram menos de 1% da população da Alemanha quando Hitlter e os nazistas ascenderam ao poder.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Os Crimes de Ódio na Europa

Na terça-feira, dois homens atiraram em multidões nas cidades de Florença (Itália) e Liège (Bélgica). Mataram vários, feriram centenas e se suicidaram ao serem cercados pela polícia. Há pontos em comum com o terrorista que cometeu o massacre de julho na Noruega. Os três casos envolveram temas mal-resolvidos com xenofobia: o italiano atirou em imigrantes do Senegal numa feira, o noruguês agiu movido pelo ódio ao que julgava ser uma permissiva atitude do governo com respeito ao multiculturalismo, e o belga era ele mesmo um filho de imigrantes, que não conseguiu adaptar-se à nova sociedade, e vivia com problemas com drogas. Os três agiram sozinhos, mas sua loucura individual floresce em meio à força crescente da extrema-direita na Europa, que encontra um terreno fértil para ampliação com a crise econômica regional.

Os países europeus têm um percentual relativamente pequeno de imigrantes, em geral entre 5% e 10% da população. A título de comparação, cerca de 50% dos habitantes da cidade de Nova York nasceram fora dos Estados Unidos. No entanto, não se deve subestimar o impacto que o medo e raiva dessa minoria podem alcançar. Na Alemanha nazista, os judeus mal chegavam a 1% dos moradores do país, o que não impediu o antissemitismo de se tornar um pilar ideológico do regime. Os imigrantes da Europa vêm de várias partes: norte da África (França), do subcontinente indiano (Reino Unido), Turquia (Alemanha), da antiga União Soviética.

Florença, Liège e Oslo não são cidades marcadas pela violência étnica e por tensões sócio-políticas, como, digamos, os subúrbios de Paris ou leste de Londres, para citar o epicentro de distúrbios recentes. Mas os sentimentos de fanatismo estão por toda a Europa. Na porção oriental do continente, a extrema-direita já é um dos blocos parlamentares na Hungria. Na parte ocidental, recentemente voltou ao parlamento na Suécia e na Grécia e é forte candidata à presidência da França. Na Alemanha, ocorreram uma série de crimes ligados a grupos neonazistas.

Numa perspectiva otimista, a Europa passará a década de 2010 em crise, com baixo crescimento, alto desemprego (o britânico bateu recorde nesta semana) e fazendo os dolorosos ajustes para adaptar sua economia e sua rede de proteção social à uma economia global mais competitiva diante das potências emergentes. Esta é, repito, a visão otimista. Na pessimista, o próprio processo de integração sofrerá retrocesso, com nações da periferia européia abandonando o euro, com as tensões entre Reino Unido e Alemanha sobre o nível de controle supranacional adequado e desejado.

Mesmo na perspectiva otimista, haverá muitas oportunidades para o crescimento da extrema-direita e para o aumento de crimes de ódio. Imigrantes, ciganos, muçulmanos, cidadãos europeus de ascendência africana e pele negra. Até os pogroms contra judeus voltaram a ocorrer na Hungria. O sucesso da integração européia não eliminou os sentimentos racistas, o ódio ideológico e as simpatias por visões autoritárias, anti-políticas, que ofereçam supostos bálsamos diante das diversas falhas das democracias parlamentares.

O debate europeu sobre políticas para sair da crise tem se dado em meio a um espantoso clima de pobreza intelectual, limitado às reformas de austeridade. É um ambiente da década de 1920, pré-Keynesiano, e com frequência tenho a sensação de que o medo tem sido manipulado para forçar populações cautelosas a aceitar como inevitáveis medidas impopulares. Elas não bastarão, É preciso pensar em alternativas sociais para conter a maré de ódio, antes que ela escape ao controle.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Último Bunga Bunga em Roma



A crise na Europa faz mais duas vítimas, com a renúncia (efetiva) do primeiro-ministro da Grécia e (anunciada) de seu homólogo da Itália. Ninguém acredita que a mudança nos governos resolverá os problemas, que são ecumênicos do ponto de vista ideológico: afetam a esquerda grega e a direita italiana. Algo semelhante ocorreu em Portugal e deve acontecer na Espanha no dia 20. Em todos esses países, a liderança política está sendo substituída por sua incapacidade de formular ou implementar soluções para a turbulência econômica. A Itália é o caso mais impressionante, porque sua descida ao abismo se dá numa situação de relativa tranquilidade financeira.

O paradoxo se explica da seguinte maneira: a Itália tem superávit primário, isto é, arrecada mais do que gasta antes de pagar os juros de sua dívida. Só que ela é imensa – maior do que a soma dos débitos da Espanha, Portugal e Irlanda. Mas como mostra o gráfico abaixo, a crise na União Européia elevou os juros no continente, ao ponto de tornar o governo italiano insolvente.



Para as autoridades regionais, Berlusconi era parte do problema e o primeiro-ministro vinha sendo submetido a cobranças humilhantes, como ter que apresentar relatórios trimestrais comprovando que vem implementando cortes de gastos públicos e restringindo benefícios sociais. Foi hostilizado nas cúpulas européias por seus colegas da Alemanha e da França. A crise econômica fez o que os escandâlos repetidos envolvendo sexo e corrupção não conseguiram: dividiram a base aliada de Berlusconi e o fizeram perder a maioria no Parlamento.

Esta é a terceira vez que Berlusconi ocupou o cargo de primeiro-ministro e ele foi o homem que por mais tempo foi chefe de governo na Itália desde a proclamação da República. Sua ascensão, em 1994, deu-se sobre os escombros de um sistema partidário desacreditado por corrupção e envolvimento com crime organizado. A morte de Berlusconi foi proclamada com alarde nas duas ocasiões anteriores em que deixou o posto, e não está claro que esta seja a última vez. As condições sociais que geraram seu fenômeno político continuam presentes. Deixa um legado de estagnação e dificuldades crônicas.

Berlusconi e Papandreou, o ex-primeiro-ministro grego, são políticos populares com ampla base de apoio. Não caíram por perder eleições, mas pelo desgaste em sua coalizão parlamentar, em função das tensões trazidas pelas pressões da União Européia por ajustes fiscais. Nos moldes do modelo proposto pelo economista Dani Rodrik (Harvard) é o “trilema” entre Estado-nacional autônomo, democracia e integração ampla à economia global. Na Reuters, Felix Salmon esboça um quadro mais matizado: a de que as contradições entre exigências internacionais e demandas sociais locais só consegue ser solucionada por líderes habilidosos e carismáticos, escassos na Europa de hoje. Salmon cita o ex-presidente Lula como modelo.

domingo, 16 de outubro de 2011

Um Pensageiro em Bruxelas



Por Ramon Blanco
Doutorando em Política Internacional e Resolução de Conflitos pela Universidade de Coimbra, em parceria com o Centro de Estudos Sociais (CES).
Blogueiro Convidado

A palavra ‘pensageiro’, cunhada pelo escritor Moçambicano Mia Couto, talvez seja a melhor forma de descrever a minha posição enquanto estive em Bruxelas durante o mês de Setembro deste ano. Durante esse mês, estive vinculado, enquanto pesquisador convidado, a um importante think-tank da capital belga ligado à área da Paz e Segurança Internacionais. Ao fundir as palavras ‘pensar’ e ‘passageiro’, Mia Couto ajuda-me a descrever o fato de que mesmo estando enquanto um mero passageiro, ou de passagem, em um assunto, situação, ou lugar, é inexorável a atividade de se pensar e refletir acerca deste momento, desta passagem. Mesmo esta sendo muito curta. Essa, obviamente, é uma interpretação, e certamente uma extrapolação, minha que muito provavelmente pouco, ou mesmo nada, tem a ver com a real intenção do autor Moçambicano ao ter cunhado o neologismo. Entretanto, a forma simples com que descreve a posição em que estive é precisa demais para ser ignorada.

Assim, gostaria de deixar aqui registrado três pequenas observações que fui recolhendo enquanto um pensageiro em Bruxelas. A primeira delas é que não é necessário muito tempo para notar o quão fácil pode ser descolar-se da dura realidade do mundo quando se está em Bruxelas. Um simples passeio pelo centro da cidade leva o/a visitante a lugares faustos, históricos, e obviamente cheios de turistas. Ao se caminhar por áreas residenciais centrais, nota-se claramente que se está em uma cidade muito rica onde bons carros e excelentes casas são a regra. É muito fácil ficar preso/a na “Bolha de Bruxelas”, como normalmente é chamado o ambiente da cidade por aquele/as que nela residem. Contudo, basta ir para a parte mais periférica da cidade para perceber a difícil realidade vivida maioritariamente por imigrantes, de várias origens, sendo uma parte significativa de árabes e muçulmanos. Sendo essa uma realidade próxima, tão próxima quanto três pontos de ônibus em alguns casos – contudo invisível, e muitas vezes invisibilizada; não é difícil pensar na facilidade que é perder-se nos meandros e tecnicidades eurocratas enquanto o resto do mundo assiste à uma Europa lenta, indecisa, e muitas vezes letárgica.

Uma segunda observação tem a ver com a abertura com que as instituições européias, e não só, têm para conversar com a sociedade em geral. Obviamente esse ponto me foi facilitado pelo fato de estar vinculado a um importante centro de pesquisa da cidade. Contudo, pude notar que não é nada fora do comum para a sociedade em geral conversar com tais instituições, participar de reuniões e eventos, e sobretudo ter acesso à pessoas chave nos processos de decisão das políticas européias. No caso das políticas relacionadas à Paz, por exemplo, há um genuíno interesse por parte das esferas institucionais européias em conversar e trocar perspectivas com organizações não-governamentais, centros de pesquisa e acadêmicos em geral, incorporando-os assim no processo de realização das políticas. Obviamente, tal relacionamento poderia ser não só mais aprofundado, como também alargado a outras esferas sociais. Entretanto, o simples fato deste relacionamento existir, e ser estimulado, é muito significativo e demonstra um importante amadurecimento democrático.



A terceira, e para mim muito relevante, observação que tive foi a importância que a Paz internacional tem dentro da sociedade em geral. A Paz é notoriamente um assunto crucial e isso percebe-se nas mais diversas esferas. Nas esferas institucionais da União Européia, desde a Comissão e passando pelo Conselho e Parlamento, esse é um assunto central na agenda. Contudo, o mais significativo foi ver o quanto essa é uma temática que perpassa a sociedade civil como um todo, organizada e não organizada. É notório, por exemplo, o grande número de organizações não-governamentais, centros de pesquisa, associações e institutos exclusivamente ligados à Paz.

As pessoas em geral participam e contribuem com associações onde a Paz internacional é a preocupação primordial. Mais do que isso, as pessoas regularmente acompanham os debates internacionais acerca do tema. Uma discussão incontornável durante o mês de Setembro foi o pedido feito por parte da Autoridade Palestina junto ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para o reconhecimento do Estado Palestino. Não era nada incomum esse ser assunto frequente em conversas entre pessoas das mais diversas idades e sempre com um acentuado conhecimento do mesmo.Uma das principais razões para a Paz ter essa elevada relevância me foi esclarecida por uma senhora, com pouco mais de oitenta anos, que conheci por lá. Ela explicava-me que Bruxelas foi uma cidade muito castigada durante as duas grandes guerras. Na opinião dela, as pessoas vêem que a Paz é algo que não deve ser tomado por garantido. Pelo visto, isso é algo que a cidade simplesmente não esquece, e nem tão cedo esquecerá.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma Rede de Proteção à Grécia



Meu artigo nesta sexta no jornal "Folha de São Paulo":

Análise: Gregos correrão risco de queda livre sem rede de proteção da União Européia

A Grécia corre sério risco de decretar moratória de sua dívida externa. Apesar do aumento da ajuda externa e da adoção de medidas de austeridade, a situação econômica do país continua grave e sem solução visível. Ainda que esse desfecho seja inevitável, faz diferença se o governo grego contar com uma rede proteção internacional da União Européia ou se cair em queda livre, como aconteceu com os países da América Latina e da África na crise da dívida de 1982.

Naquela ocasião, os países em desenvolvimento ficaram privados de crédito e foram forçados a realizar reformas econômicas de maneira brusca por pressão das organizações financeiras multilaterais, sem a devida atenção às negociações em busca de apoios políticos domésticos para as mudanças. Os resultados da crise foram baixo crescimento combinado com inflação acelerada e uma “década perdida” de tensões e retrocessos sociais.

A Grécia pode evitar esse caminho. A União Européia oferece a possibilidade de negociar reformas que passam não apenas por preocupações econômicas, mas por um projeto de integração regional baseado em paz e desenvolvimento, com fundos estruturais de solidariedade entre nações ricas e pobres. A resposta às crises de 1914-1945, com duas guerras mundiais e uma grande depressão. Com seus altos e baixos, esse ideal político auxiliou muitos países a consolidarem suas democracias, inclusive a própria Grécia, que deixou para trás trajetória sombria que no século XX foi marcada por guerras contra seus vizinhos, ocupação nazista, embates entre monarquistas e comunistas e ditadura militar.

A recuperação grega será lenta e difícil – seus principais mercados externos estão na estagnada Europa, seu Estado está enfraquecido e com parcos recursos. Por isso é especialmente importante a ajuda da União Européia, para que o país possa sustentar políticas públicas de educação, saúde, assistência aos desempregados e requalificação profissional, que amorteçam os impactos de desastre que se anuncia inevitável. Tais medidas reduziriam a instabilidade, construindo pontes entre governo, sindicatos e movimentos sociais, na busca de pactos de governabilidade. Uma moratória negociada e amparada pelas instituições regionais também diminuiria o risco de contágio da crise para Portugal, Irlanda ou mesmo economias maiores como as da Espanha e Itália.

Maurício Santoro, 33, é doutor em Ciência Política pelo Iuperj e professor do MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Extrema-Direita e Islamofobia na Europa



Na última sexta-feira assisti no IESP a uma excelente palestra do cientista político José Pedro Zúquete, professor da Universidade de Lisboa, que abordou a ascensão da extrema-direita na Europa, em particular sua crescente rejeição ao Islã. Esse tema, junto com a crítica à globalização, tornou-se o principal aspecto da retórica radical européia, e tem levado a mudanças surpreendentes, como a aproximação com os judeus e com o Estado de Israel, em nome do combate ao inimigo comum.

Os muçulmanos são uma pequena minoria na Europa, entre 5% e 10% nos países em que são mais numerosos, mas ocupam um lugar central no imaginário da extrema-direita, que afirma que está em curso uma invasão islâmica do continente e que para evitar a formação da “Eurabia” (acima, um cartaz de propaganda desse tipo) é preciso “recristianizar a Europa”. Por conta disso, há a recuperação de símbolos e fatos históricos das guerras contra os muçulmanos, como Carlos Martel ou a batalha de Lepanto.

A ênfase no inimigo islâmico aumentou bastante após o 11 de setembro e, naturalmente, há a associação pelos extremistas dessa religião com a violência política e o discurso de que existem “zonas de sharia” na Europa, em mesquitas e comunidades de imigrantes. Curiosamente, a extrema-direita adotou o lema de defesa dos direitos das mulheres e até da proteção aos animais, denunciando o que seria o caráter supostamente cruel dos procedimentos para abatê-los segundo as normas halal, de adequação às exigências islâmicas.

A extrema-direita também tem fortalecido o discurso contra a globalização, mas por ironia, tem aumentando a cooperação internacional. Jean-Marie Le Pen declarou: “Patriotas do mundo, uni-vos” e conclamou pela formação de uma “internacional nacionalista”. Contradição em termos, talvez. De fato, a maior parte desses movimentos e partidos tem expressões como “povo” e “nação” em seu nome, ainda que muitos usem cada vez mais conceitos amplos como “Europa” ou “civilização ocidental”. No entanto, é difícil adotar perspectiva mais cosmopolita. A tentativa de formar um bloco da extrema-direita no Parlamento Europeu falhou, quando mais não seja pelo profundo ceticismo desses grupos quanto à integração regional.

Meu palpite é que se olharmos os segmentos sócio-econômicos que apóiam tais grupos,provavelmente iremos encontrar o mapa dos setores pouco competitivos da economia européia, como indústria de baixo valor agregado e mineração. São os ramos mais afetados pelas novas potências emergentes, como China e Índia e não seria de estranhar que busquem formas de reação radicalizadas, diante de um mundo que não compreendem e que lhes assustam. A crise mundial reforça tais tendências, como disse Zúquete, “é preciso tomar cuidado para os ventos atuais não se transformem em furacão”.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Choque na Civilização



Os atentados terroristas que mataram mais de 90 pessoas na Noruega tornaram o dia 22 de julho o mais violento na Escandinávia desde a Segunda Guerra Mundial. Anders Breivik, o réu confesso dos ataques é norueguês, cristão, vinculado a grupos de extrema-direita. Seus escritos o mostram como violentamente hostil à esquerda, aos muçulmanos aos imigrantes e como defensor de um nacionalismo que vê ameaçado pelo multiculturalismo contemporâneo. Uma década após o 11 de setembro, e depois dos atentados de Madri e Londres, o espectro do terrorismo abandonou o paradigma do “choque de civilizações” entre Islã e Cristandade e chegou ao âmago das tensões internas na região mais desenvolvida do planeta.

A extrema-direita cresceu bastante na Europa Ocidental nos últimos 20 anos, tornando-se parte da coalizão governamental na Áustria, Itália, Dinamarca, Finlândia e estabelecendo-se como força política relevante na França, Suécia, Suíça e Holanda. Sua base de apoio são os trabalhadores não-qualificados e a pequena classe média, os segmentos sociais mais prejudicados pela abertura econômica e aqueles mais temerosos da competição com os imigrantes. Tensões culturais, religiosas e étnicas contam, e muito, e a radicalização ideológica mundial após o 11 de setembro as agravaram, como é possível ver em leis que procuram limitar ou eliminar símbolos islâmicos, como véus e minaretes nas mesquitas.

Por ironia, a extrema-direita não era considerada ameaça séria na Noruega. Os grupos são relativamente pequenos e desorganizados, sobretudo em comparação à vizinha Suécia. O governo norueguês é uma coalizão entre três partidos de esquerda, do qual o mais importante é o Trabalhista. Os atentados tiveram um fortíssimo caráter partidário, danificando o escritório do primeiro-ministro por meio de uma bomba, que aparentemente cumpriu função de desviar a atenção das autoridades para o alvo principal, o campo da juventude trabalhista, onde o terrorista perpretou o massacre de mais de 80 adolescentes.



Ele afirma ter agido sozinho, mas ainda não está claro se isso de fato ocorreu e se houve algum tipo de apoio logístico por parte de grupos de extrema-direita. O terrorista havia pertencido ao Partido Progressista, que apesar do nome é conservador, mas deixou a organização porque acreditava que ela havia perdido o idealismo e eram necessários valores mais rigorosos para evitar o que ele via como a ameaça de destruição cultural da Noruega. Ele se apresentava na Internet como um empresário bem-sucedido, mas perseguido por marxistas. Na realidade pertence a uma classe média sólida e confortável, mas não teve bom desempenho em suas iniciativas empreendedoras.

A Noruega não faz parte da União Européia – a população rejeitou em referendo integrar o bloco, porque temia a queda de seu altíssimo patamar de vida – mas é membro da OTAN, a aliança militar ocidental. E possui uma economia bastante aberta e bem-integrada aos fluxos globais de comércio e finanças. Os atentados sem dúvida são o pior trauma nacional desde a ocupação nazista na década de 1940, mas não acredito que mudarão significativamente a estrutura política local. O provável é o aumento na cooperação em segurança internacional com a UE, para monitorar de modo mais cuidadoso os grupos de extrema-direita.

Na última década, muçulmanos morenos tem sido considerados os elementos suspeitos por excelência. Logo após os atentados, consultorias como a Stratfor e jornais como New York Times atribuíram a “extremistas islâmicos” os ataques na Noruega. Quem sabe agora os especialistas globais em terrorismo passem a temer também os cristãos louros. Já deveriam ter aprendido a lição com Oklahoma, nos Estados Unidos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Trilema Europeu



Semanas atrás resenhei neste blog o novo livro do economista Dani Rodrik, que argumenta que o mundo atual vive um “trilema” entre globalização, democracia e Estado-Nação. É possível ter dois desses elementos ao mesmo tempo, mas não os três, afirma Rodrik. A crise da dívida européia, em particular os casos da Grécia e de Portugal, ilustra à perfeição essa discussão.

Por “globalização”, nesta situação, entendo o euro, uma moeda única para um conjunto de países bastante desiguais em termos de desenvolvimento econômico e competitividade internacional. A barganha era abrir mão da autonomia monetária em troca da prometida estabilidade que o euro traria. E também o pensamento em torno da “camisa de força dourada”, a idéia de que as restrições e exigências para adequar-se à União Européia contribuiria para governos mais responsáveis fiscalmente.

Como vemos atualmente, o resultado foi outro. A atual crise da dívida européia lembra o tipo de problema que os países sob padrão-ouro enfrentaram até a década de 1930. Na impossibilidade de alterar o câmbio, eram necessários cortes drásticos nos gastos públicos e nos salários para equilibrar as contas nacionais. Isso era difícil, mas possível, antes da era da democracia de massa. Deixou de ser viável com sociedades mais organizadas e sindicatos ativos e poderosos. As pessoas protestam, mobilizam-se, questionam o governo. Não é à toa que os jovens estão na vanguarda, basta olhar o gráfico abaixo para entender como sofrem com o desemprego na eurozona e como estão desapontados com a União Européia.



No trilema de Rodrik, a democracia coloca-se contra a globalização, e escolhe limitações à interdependência econômica para tentar salvaguardar empregos e nível de renda. O Nobel de Economia Amartya Sen vai pela mesma análise e ressalta a importância de priorizar a democracia sobre as exigências dos mercados financeiros internacionais.

Há diferenças importantes na crise européia com relação aos problemas que a América Latina viveu nas décadas de 1980-1990. Os europeus não sofrem com o problema da hiperinflação. Tem mais importância política e econômica, e podem recorrer aos recursos da União Européia, não estando dependente somente do FMI (onde, de resto, tem mais influência do que a América Latina). Contudo, justamente por sua posição central na economia global, um colapso por lá seria catastrófico. Os latino-americanos negociaram a reestruturação de suas dívidas por mais de dez anos, na Europa não há tanto tempo disponível.

É improvável, senão impossível, que Grécia, Portugal e outras nações européias consigam pagar suas dívidas nas condições atuais. Para evitar que entrem em moratória, com o risco de contágio para a Espanha, é necessária uma solução política. Renegociação da dívida em prazos mais longos e valores menores, com ajuda financeira mais vultosa da União Européia e do FMI. Vale lembrar o precedente da Alemanha, que por razões de estabilidade regional teve perdoadas largas parcelas de seus débitos públicos após as duas guerras mundiais.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Prisão de Mladic e o Império da Lei



Na semana passada foi preso o pior criminoso de guerra da Europa desde a Segunda Guerra Mundial: o general sérvio Ratko Mladic, responsável pelo massacre de Srebrenica, pelo cerco a Sarajevo e outras atrocidades. Dei entrevista à Globo News tratando do tema mas há pontos que gostaria de aprofundar aqui, principalmente a diferença entre a abordagem dos EUA e da União Européia para lidar com o tema dos violadores de direitos humanos. Enquanto os americanos assassinaram Bin Laden e jogaram o corpo no mar, os europeus optaram por valorizar o processo judicial do Tribunal Penal Internacional.

Não se trata somente de destacar o império da lei, mas do impacto que os procedimentos do TPI terão sobre a opinião pública, no sentido de reforçar a construção da memória, por meio dos depoimentos das vítimas, da investigação dos fatos e da revelação da verdade. Isso é especialmente importante no caso dos crimes sexuais, tão comuns na guerra étnica da antiga Iugoslávia, na medida em que as mulheres violentadas são chamadas a romper com o pacto de silêncio e desafiar o tabu de falar a respeito do estupro.

Os americanos não quiseram julgar Bin Laden porque temiam que fizesse do tribunal um palanque para difundir sua mensagem política. Naturalmente, a questão de Guantánamo e a prática da tortura na guerra contra os grupos terroristas tampouco formam uma base sólida pela qual os EUA possam aplicar procedimentos jurídicos. O país sequer é signatário do TPI. O caminho europeu é mais longo e difícil, mas resulta em maneiras muito mais estáveis e legítimas para a resolução pacífica de conflitos, inclusive os que envolvem violações maciças de direitos humanos.

Outro elemento importante é o papel da integração regional na democratização dos Bálcãs e no respeito aos direitos humanos. A pressão sobre a Sérvia é muito grande: cooperar nessas áreas para poder ingressar na União Européia. Entrar na organização regional não garante a prosperidade, mas é a única opção viável de formular uma estratégia de inserção internacional bem-sucedida para essa pequena república balcânica. Não existe nenhum incentivo semelhante para países com os quais os Estados Unidos têm problemas no Oriente Médio e na Ásia Meridional, como o Paquistão.

Outras duas rápidas atualizações do que ando fazendo por aí:

Entrevista que Bruno Borges e eu demos ao portal Sul21, comparando os modelos de desenvolvimento do Brasil e da Coréia do Sul.

Minha colaboração à edição especial da Revista Ética e Filosofia Política (UFJF), sobre o diálogo entre Direito e as Relações Internacionais. Escrevi sobre a Primavera Árabe.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Europa: a geopolítica do medo



Ontem conversava com meu amigo Bruno Borges sobre o excelente livro "As Consequências Morais do Desenvolvimento Econômico", do economista de Harvard Benjamin Friedman, e observamos como ele pode ser aplicado à União Européia de hoje, para entender a crise que ameaça vários aspectos do processo de integração regional.

O argumento de Friedman é que o crescimento continuado da economia cria um ambiente de cooperação política que favorece o aprofundamento da democracia, inclusive em suas iniciativas mais controversas, como políticas de ação afirmativa. Períodos de declínio da renda, por outro lado, quase sempre provocam retrocessos no campo democrático, embora isso não seja universal - o New Deal, por exemplo, foi uma resposta à Grande Depressão da década de 1930.

A Europa Ocidental enfrenta décadas de baixo crescimento econômico, com a persistência de taxas de desemprego de dois dígitos, mesmo em momentos de maior prosperidade. Tensões envolvendo grupos marginalizados, como imigrantes da África e da Ásia, explodem em conflitos violentos como a revolta dos jovens das periferias francesas ou o envolvimento de britânicos filhos de imigrantes em atentados terroristas cometidos no Reino Unido.

A crise que começou em 2007 apenas agravou tais tendências preocupantes, com consequências negativas para o processo de integração, como a situação da dívida pública nos PIIGS e o risco, mesmo que remoto, que esses países deixem a zona do euro, pela impossibilidade em desvalorizarem a moeda para tornar suas exportações mais competitivas e tentarem lidar com seus problemas econômicos. Na política, ascendem os partidos de extrema-direita, crescem as ações contra imigrantes e discutem-se limitações ao próprio Acordo Shengen, de liberdade de movimento dentro das fronteiras européias.

A atual liderança da União Européia já não tem a experiência pessoal de ter vivido a Segunda Guerra Mundial e a Depressão, acontecimentos traumáticos que ajudaram a firmar o compromisso com a paz e a integração, abrindo mão de perspectivas nacionalistas mais estreitas.

Como afirma o cientista político francês Dominique Moisi, a Europa vive sob a "geopolítica do medo" (do declínio econômico, do terrorismo), ao passo que China e Índia experimentam momento balizado pela esperança, e nos países árabes (ao menos até a eclosão de suas revoltas democráticas, em janeiro) predomina a vivência da humilhação.

A integração européia já passou por crises semelhantes, como a "euroesclerose" da década de 1970, para não falar do cataclisma das décadas de 1930-40. As propostas de restringir a imigração são inviáveis diante da situação demográfica, com países como a Itália encolhendo em termos de habitantes, e populações muito envelhecidas em todo o continente. Manifestações nascentes como as dos jovens espanhóis e portugueses talvez sejam o início de uma mobilização que aponte outro caminho.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Com Fronteiras



Há poucos dias dei duas entrevistas para rádios – Band News e Cultura de Porto Alegre – a respeito das controvérsias na União Européia com respeito à imigração. A Dinamarca anunciou que irá reinstalar controles nas fronteiras e França e Itália pressionam pela revisão do acordo Schengen, que garante a livre circulação de pessoas dentro da UE. O pano de fundo para essas decisões é a ansiedade decorrente da crise econômica e do acirramento dos conflitos culturais e religiosos, com o fortalecimento eleitoral dos partidos de extrema-direita.

A Dinamarca é governada por uma coalizão de conservadores, liberais e uma agremiação extremista, o Partido do Povo Dinamarquês. A mudança de política com relação aos controles fronteiriços fez parte de barganha pela qual o PPD apóia a reforma do sistema de aposentadorias e pensões proposto por seus aliados. Na França, os conservadores precisam responder ao desafio da extrema-direita, com a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, à frente do presidente Nicholas Sarkozy nas pesquisas de intenção de voto para a eleição de 2012. Os socialistas franceses acabam de perder seu principal pré-candidato: Dominique Strauss-Kahn, diretor do Fundo Monetário Internacional, foi preso sob acusação de tentar estuprar a camareira de um hotel em Nova York. Na Itália, a extrema-direita é desde o início parte das coalizões de apoio a Silvio Berlusconi e o auxiliou em gestos como o acordo com o ditador líbio Muhamar Kadafi, para conter a emigração africana em troca de dinheiro.

A última década foi marcada por tensões crescentes relativas à imigração na UE, em particular quando trata-se de pessoas oriundas da Ásia, África ou América Latina, com peles mais escuras ou de religião muçulmana. A controversa diretriz de imigração aprovada pela União é muito questionada pelas contradições com os princípios de direitos humanos que orientam o processo de integração europeu. Os choques culturais manifestam-se na aprovação de leis limitando ou proibindo o uso dos véus, na eclosão de rebeliões de jovens imigrantes (ou seus filhos) como a dos subúrbios franceses e mesmo na participação desses grupos em atentados terroristas islâmicos, como os que atingiram recentemente o Reino Unido.

Mesmo antes da crise econômica iniciada em 2007, a União Européia já era afligida por baixo crescimento do PIB e por taxas de desemprego de dois dígitos, as atuais dificuldades agravam quadro que já era muito ruim. As revoltas árabes lançam nova esperança para o Oriente Médio e o Norte da África, mas a instabilidade dos novos regimes levou cerca de 25 mil pessoas a tentar emigrar para a Europa, com ou sem crise na economia. A reação dura da UE manifesta-se em conflitos como o trem de refugiados da Tunísia que vagou entre Itália e França, por vários dias, numa cena que lembra os dramas dos refugiados judeus no período de ascensão do nazi-fascismo.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Juventude, Democracia e Desenvolvimento



As revoltas democráticas iniciadas pela juventude nos países árabes iluminam tendências comuns demonstradas pela participação juvenil em outros protestos, como os que ocorrem na União Européia, em meio à crise econômica. Também notei semelhanças com o que observei quando pesquisei movimentos sociais juvenis na América do Sul. Os pontos principais: a juventude sente com mais intensidade as linhas de choque da economia global, como o desemprego, as deficiências do sistema de educação e a exposição às novas tecnologias da informação.

Na pesquisa que realizamos na América do Sul, as demandas mais frequentes dos jovens eram por trabalho e educação. Ou mais especificamente, por um emprego estável, de boa qualidade, diferente das ocupações precarárias em geral disponíveis para a juventude. No caso educacional, tratam-se de jovens com bem mais instrução do que seus pais, mas insatisfeitos com a qualidade baixa das escolas e universidades, e com a incapacidade dessa formação extra lhes render uma boa situação no mercado de trabalho.



São condições muito parecidas com as que existem no Egito e na Tunísia, onde o índice de desemprego juvenil está entre 25%-33%, mas não é um problema exclusivo do mundo em desenvolvimento. O gráfico acima mostra como a questão está presente nos países ricos, membros da OCDE. Em geral, o desemprego entre os jovens é o dobro, triplo ou mesmo quádruplo daquele registrado para os adultos. Notem que em países como a Espanha, a taxa é inclusive maior do que a das nações árabes.

A juventude européia é bem qualificada e educada, mas isso não tem sido suficiente para resolver o problema do emprego precário e de baixa remuneração. Na Itália se fala da "geração mil euros", que não consegue ultrapassar essa faixa de renda e continua vivendo com os pais mesmo depois dos 30 anos. Em Portugal o patamar é inferior, a "geração dos 500 euros" que tem seu hino na canção satírica do vídeo abaixo - que me foi gentilmente enviada por meu amigo Ramon Blanco de Freitas, que cursa o doutorado em Relações Internacionais na Universidade de Coimbra:



A instatisfação da juventude européia tem resultado em protestos, como as greves gerais na França e as ocupações universitárias no Reino Unido. Na América do Sul, os jovens têm sido atores importantes nos movimentos sociais que ganharam força na região. Ao contrário dos países árabes, nesses dois continentes há estruturas de participação política democrática (ainda que bastante falhas), que canalizam a raiva e a frustração. Naturalmente, é preocupante o crescimento da extrema-direita na Europa e a persistência de bolsões de autoritarismo na América do Sul, mas o quadro atual é muito melhor do que o passado sombrio dos dois continentes, como os regimes nazi-fascistas europeus das décadas de 1920-40 e as ditaduras militares sul-americanas dos anos 1960-80.

Outro ponto comum é o fascínio dos jovens com as novas tecnologias de informação. Observamos isso na pesquisa na América do Sul e me supreendi em como, por exemplo, os músicos do hip-hop indígena na Bolívia usavam a Internet para se articularem com artistas de tendência semelhante em diversos países. No Egito, os manifestantes da praça Tahrir ensinaram ao mundo inteiro como usar essas ferramentas para organizar protestos, denunciar abusos governamentais e cultivar a imagem internacional pacífica do movimento.



Há uma particularidade importante no mundo árabe, que é a deficiência das mídias tradicionais. O Egito possui meios de comunicação privados, que tentam conquistar espaço para criticar o regime ditatorial. Outros países possuem uma situação mais complexa. Nesse contexto, aumenta a importância de tecnologias de informação que permitam aos usuários gerar e compartilhar notícias, imagens e dados. Há também o caso muito especial da Al-Jazeera, a rede de TV sediada no Catar que tem realizado a melhor cobertura das revoltas democráticas árabes. Por reunir profissionais de várias nacionalidades e buscar uma perspectiva ampla, é possível que ela esteja contribuindo para o fortalecimento de uma identidade regional, pan-árabe.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Alemanha e a Crise do Euro



A crise financeira que atingiu Grécia e Irlanda e ameaça derrubar Portugal e Espanha chegou a um ponto no qual se começa a discutir a sério a possibilidade de alguns desses países saírem do euro. Segunda maior exportadora do mundo, atrás apenas da China, a Alemanha não tem incentivos para desvalorizar o euro. Perderia muito com a depreciação da moeda. No entanto, isso é necessário para as economias mais frágeis, que precisam desse estímulo para melhorar sua competitividade diante de rivais como os chineses e os americanos, que se beneficiam do câmbio favorável.

A Alemanha Ocidental, depois da Segunda Guerra Mundial, foi liderada por uma série de estadistas que priorizaram o projeto de integração europeu, colocando freios institucionais à autonomia germânica. Entendiam claramente que era o preço a pagar pela história sombria do país, a garantia que precisavam dar aos parceiros de continente de que a nova Alemanha abandonara os projetos de expansão imperial e estava comprometida com a paz e a prosperidade da Europa. Como nos lembra Barry Eichengreen, para entender o euro é preciso compreender a história política da região. Talvez mais até do que a economia.

A expansão da integração européia, em particular a criação do euro, foi condição para que os outros países aceitassem a reunificação da Alemanha. A barganha funcionou bem durante 20 anos, com o novo Estado funcionando como uma locomotiva econômica para as nações do antigo bloco comunista, fomentando o desenvolvimento com seus investimentos. Mas esse acordo deixou de ser tão interessante no momento de crise. Não há mais adversários ideológicos externos, como o comunismo, para impulsionar os europeus a esquecerem suas divergências e focarem no bem comum.

A nova geração de políticos alemães – a premiê Angela Merkel é a primeira oriunda da antiga Alemanha Oriental a governar o país – tem mostrado pouca disposição para a causa européia, e uma perspectiva bastante voltada para os problemas domésticos. A proposta germânica tem sido a de um regime fiscal europeu que seja mais severo, e fiscalize com rigor as finanças públicas dos países da UE. “Teremos que pagar por toda a Europa?”, perguntou a manchete de um jornal popular.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Europa na Encruzilhada



A Grécia em greve geral e com conflitos nas ruas. A Espanha com desemprego acima de 20% e pânico nos mercados financeiros. Portugal rebaixado pelas agências de risco. O Reino Unido numa reviravolta eleitoral, com a perspectiva de um governo minoritário para enfrentar a recessão e com projeções de dívida pública ainda piores que as gregas. A Alemanha falando na Europa em tempo de encruzilhadas, com o futuro em jogo. São dias sombrios para a União Européia.

O pacote de ajuda da UE e do FMI à Grécia é o maior da história, mas corresponde a apenas 1/3 da dívida do país, e há questionamentos sérios se a conjuntura econômica será boa o suficiente nos próximos anos para permitir a retomada do crescimento grego. Martin Wolf, colunista do Financial Times, aponta outras contradições:

"Está se pedindo à Grécia que faça o que fez a América Latina na década de 1980. Aquilo resultou numa década perdida, e os beneficiários foram os credores estrangeiros. Além disso, uma vez que os credores estão sendo pagos para escapar, quem irá substituí-los? Esse pacote certamente não conseguirá trazer a Grécia de volta ao mercado em condições administráveis em poucos anos. Mais dinheiro será necessário se a reestruturação da dívida for, imprudentemente, descartada."

Wolf tocou num ponto importante - a semelhança do ajuste estrutural imposto à América Latina na década de 1980 com o pacote atual aceito pelo governo da Grécia sob fortes pressões da Alemanha. A reação da população grega foi feroz, com a decretação de uma greve geral, enfrentamentos com a polícia nas ruas e cenas que lembram eventos parecidos na política latino-americana: o Caracazo na Venezuela, a marcha dos mineiros na Bolívia, o levantamento indígena no Equador.

As autoridades alemãs e do Banco Central Europeu têm insisto no risco de contágio, que a crise grega se espalhe rapidamente por outras combalidas economias européias. A figura abaixo ajuda a entender esses medos. Os países mais problemáticos devem muito não só às nações mais ricas, mas também entre si. Por exemplo, se Portugal entrar em moratória, o efeito sobre a Espanha seria terrível.




Sair de uma crise assim seria difícil em qualquer circunstância, mas é ainda mais em função da rigidez do sistema monetário europeu. A adesão ao euro significa ganhos em termos de estabilidade e confiança, porque os governos se comprometem a jogar de acordo com as regras severas do Banco Central Europeu. Mas em contrapartida, abrem mão de flexibilidade e de possibilidades de escolhas em políticas públicas. Não podem promover desvalorizar o câmbio, para tornar suas exportações mais competitivas, nem emitir moeda.

A Alemanha tem se mantido rigorosa em condicionar a ajuda à Grécia a um programa amplo de reformas fiscais que requer que o governo grego mude as práticas clientelistas e irresponsáveis que adota, bem, desde que Péricles ajudou seu sobrinho Alcebíades a comandar a desastrosa expedição à Sicília que selou a derrota de Atenas na guerra contra Esparta. Com o risco da disseminação da crise, mais e mais membros da UE questionam a rigidez germânica. O ex-ministro das Relações Exteriores Joschka Fischer declarou ao New York Times: "Recentemente conversei com um grupo dos chamados jovens líderes alemães. De um ponto de vista pessoal e político eles não são mais investidores na Europa. Seu envolvimento se limita a serem consumidores da Europa." Será que a zona do euro se manterá intacta? Ou veremos países se retirando dela?

sexta-feira, 26 de março de 2010

O Pacote de Ajuda à Grécia



A cúpula da União Européia em Bruxelas chegou a uma solução negociada para socorrer a Grécia, pela qual cerca de 2/3 dos recursos virão dos países da zona do euro, e o restante, do FMI. O acordo prevê regras bastante duras para que Atenas possa utilizar o dinheiro e constituiu, na prática, a vitória da posição da Alemanha, que teme precisar pagar por todos os outros membros da UE em sérios apuros financeiros, como Espanha, Portugal e Itália.

A União Européia concordou em criar um fundo de segurança com cerca de 22 bilhões de euros, que poderá ser utilizado pelo governo grego para evitar a moratória de sua dívida pública. O risco é concreto, pois Atenas deve pagar 20 bilhões somente em abril e maio. O total devido é de 300 bilhões de euros... As autoridades gregas já adotaram um severo pacote de corte de gastos, que inclui reduções de até 1/3 nos salários dos funcionários, aumento na idade mínima para aposentadoria e outras medidas drásticas. Mas elas não são suficientes: as finças públicas do país tem sido pessimamente administradas há vários anos.

A grande preocupação alemã é justamente não estabelecer um precedente de auxílio incondicional para membros da UE em dificuldades, que poderia estimular falta de cuidado com a administração desses Estados. Trata-se daquilo que no mercado de seguros é conhecido como "risco moral": o motorista passa a dirigir pior, porque sabe que em caso de acidente, a seguradora cobrirá os prejuízos. Berlim não quer arcar com a conta. Para que Atenas possa sacar o dinheiro, precisará obter o consenso de todos os países da eurozona, o que dá à Alemanha poder de veto.

Os demais países europeus, em particular a França, pressionavam por uma solução que envolvesse somente a UE, e deixasse de fora o FMI. O Fundo continua a ser visto como uma instituição que deve ser usada em casos que envolvam países na América Latina, África e Ásia. No máximo, nações na periferia da UE, como Hungria. Mas não um país da zona do euro. Pesam também fatores puramente domésticos: o FMI é comandado por um político socialista francês, rival do presidente Sarkozy, que acaba de perder as eleições regionais para a esquerda.

Não será fácil para os líderes da UE venderem o socorro à Grécia para seus eleitores, num momento de austeridade no continente. O governo britânico, por exemplo, anunciou nesta semana corte de 25% no orçamento, para se estenderem até 2017!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Euro e o Padrão Ouro



O economista Michael Pettis é uma referência quando se discute China, e seu blog traz nesta semana um artigo muito bom no qual ele se aventura a analisar a crise da União Européia, argumentando que a Grécia e outros países problemáticos não terão como continuar a manter-se no euro. Ele compara a moeda da Europa ao padrão ouro. O texto e a analogia são bons, mas merecem ser aprofundados.

Pelo padrão ouro, os países atrelavam suas moedas a um determinado peso desse metal precioso. O sistema teve seu auge entre a segunda metade do século XIX e a Primeira Guerra Mundial e oferecia uma barganha básica e sedutora: estabilidade monetária, em troca dos governos abrirem mão de desvalorizações. O regime funcionou bem com Grã-Bretanha, França, EUA e Alemanha, mas outras nações tiveram problemas sérios e adotaram o padrão ouro de forma parcial ou temporária, tentando equilibrá-lo com prata ou deixando parte das emissões de moeda não-atreladas a ele.

Uma das dificuldades mais complexas é que, devido à sua escassez, o ouro fortalecia pressões deflacionárias. No caso de crises de balança comercial, os países precisavam compensar de algum modo, isso em geral era feito com reduções de salários e/ou desemprego em massa, o que, nos lembra o economista Barry Eichengreen, ainda era possível polticamente antes da acensão dos grandes sindicatos e do sufrágio universal. Atualmente seria inviável e mesmo na época já foi difícil, com fortes movimentos sociais contra o padrão ouro eclodindo durante a depressão das décadas de 1870/1880, em especial entre os agricultores dos EUA.

As necessidades econômicas da Primeira Guerra Mundial destruíram o padrão ouro, na medida em que os beligerantes precisavam de dinheiro, e rápido. Após o conflito, houve tentativas de restaurar o sistema que era um símbolo de estabilidade, mas isso não era mais viável. O fracasso do esforço britânico, quando Churchill era ministro da Fazenda, foi o mais expressivo desse período.

A conferência de Bretton Woods criou um outro arranjo internacional, no qual as moedas dos países desenvolvidos tinham seu valor fixado ao dólar, que por sua vez estava lastreado no ouro. Esse esquema funcionou enquanto a economia dos EUA era muito forte, mas naufragou quando os americanos passaram a enfrentar a rivalidade das empresas européias e japonesas, além de lidar com a inflação provocada pela guerra do Vietnã e pelas políticas sociais domésticas. Nixon rompeu a vinculação do dólar com o ouro em 1971, e toda a história monetária de lá para cá tem sido a busca infrutífera de um ou mais sistemas que restaurem pelo menos um pouco da estabilidade de Bretton Woods.

Os europeus tentaram vários formatos. Primeiro, as principais economias do continente atrelaram suas moedas ao mega-confiável marco alemão. Não deu certo: os italianos nunca conseguiam cumprir as obrigações, e mesmo a libra britânica enfrentou problemas sérios. A criação de um banco central e de uma moeda única para a União Européia é uma nova tentativa de lidar com o tema, que esbarra nas seguintes dificuldades: como países pequenos podem se adequar à dura disciplina fiscal do bloco e enfrentar os desequilíbrios na balança comercial com os parceiros mais poderosos, como a Alemanha?

Pettis defende que Berlim ajude a UE a pagar a conta, estimulando os prósperos consumidores alemães a comprar mais dos países vizinhos. Tenho dúvidas sérias de que isso aconteça, tendo em vista a queda recente nas exportações da Alemanha – 2009 foi o pior ano em declínio desde a década de 1950! Além disso, a traumática história alemã com respeito à hiperinflação tornou o país extremamente conservador em questões fiscais, e esse conjunto de valores e práticas passou de seu Bundesbank para o Banco Central Europeu.

Ao mesmo tempo, se os países mais fracos da UE se retirassem do euro, isso seria um duro golpe para o projeto de integração que tem sido o pilar da política externa da Alemanha e da França desde o pós-Segunda Guerra Mundial. É um dilema e tanto. Como os europeus lidarão com ele?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Grécia e a Crise da UE



Num primeiro momento, a crise econômica internacional atingiu as empresas européias, agora a turbulência chegou aos governos. A Grécia está à beira de decretar moratória de sua dívida pública e há riscos de que a situação se espalhe para os outros “PIIGS” (Portugal, Itália, Irlanda e Espanha). Ontem a União Européia anunciou o compromisso retórico de ajudar os gregos, mas sem medidas concretas. O mercado financeiro reagiu mal e o euro caiu.

PIIGS é uma brincadeira, talvez de mau gosto, com a palavra inglesa para “porcos”, e a sigla designa os países europeus cujo desempenho econômico tem se destacado por problemas crônicos, particularmente no que diz respeito ao equilíbrio fiscal. São, por assim dizer, uma espécie de anti-BRICs. A crise na Grécia vem de longe e foi exacerbada pela conjunção dos problemas internacionais com o aumento descontrolado dos gastos públicos – o Parlamento grego, por exemplo, dobrou o número de funcionários nos últimos anos, no que foi provavelmente o maior trem da alegria no país desde os tempos de Sócrates e Platão.



A Grécia representa apenas 3% do PIB da União Européia, mas seu caso está sendo examinado como um laboratório sobre como o bloco lidará com crises semelhantes, que provavelmente ocorrerão no futuro próximo. Além dos PIIGS, os combalidos países bálticos são fortes candidatos à falência. Dada a enorme fragmentação institucional da Europa, a maioria dos observadores está cética quanto à possibilidade de uma ação rápida e coordenada que ofereça uma saída aos problemas atuais.

Há relutância do bloco em intervir com muito dinheiro, pelo chamado problema do “risco moral”. A expressão vem do mercado de seguros e descreve o incentivo não-intencional a um comportamento irresponsável. Em bom português: se a União Européia socorrer a Grécia de maneira muito fácil, estimulará outros países a agir de modo descuidado com as finanças públicas, na expectativa de que serão resgatados da mesma maneira. Mas se a UE não intervir, os riscos de disseminação da crise e desvalorização expressiva do euro são grandes.

Alguns comentaristas acreditam que o pacote de ajuda à Grécia deveria vir do FMI. O problema é que o Fundo é comandado por Dominique Strauss-Kahn, o principal rival do presidente francês Sarkozy. A declaração da cúpula da UE anuncia um “papel consultivo” para o FMI, o que na prática deve signficar pouca participação.



A União Européia não é, evidentemente, a única região do mundo desenvolvido a passar por problemas fiscais, como mostra o gráfico acima. Nos EUA, a crise já atingiu os governos subnacionais: 43 dos 50 estados enfrentam problemas desse tipo. A piada corrente é que como a Califórnia é governada por um austríaco, poderia se candidatar ao auxílio da UE...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Kaká Derrotou Berlusconi



A política européia neste ano tem sido uma sucessão de escândalos em meio ao agravamento da crise econômica. As eleições ao parlamento europeu registraram grau recorde de abstenção, que já vinha em queda nos últimos anos. Pouco mais de 40% dos eleitores votaram. Os resultados favoreceram os partidos de direita e, mais do que isso, marcaram derrotas históricas para a esquerda, em diversos países.

O governo britânico está ameaçado de cair, devido ao desvio de recursos públicos pelos parlamentares do país. Mas é na Itália – como sempre – que os conflitos atingem o paroxismo da farsa. O primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, declarou que o desempenho abaixo do esperado de seu partido nas eleições européias foi culpa do ruidoso divórcio com sua ex-mulher, da modelo menor de idade com quem que ele teve uma, digamos, amizade festiva, e do jogador de futebol Kaká, que acabou de trocar o Milan pelo Real Madri. Um elenco e tanto.

Contudo, os movimentos conservadores que venceram as eleições o fizeram sem triunfalismo, com muitas divisões, em particular entre a direita liberal e os partidos extremistas que têm expandido sua força.

Na Itália isso ficou muito evidente. O PDL de Berlusconi é uma fusão de seu antigo Forza Itália com a Aliança Nacional (uma dissidência dos neofascistas do Movimento Social Italiano). A sigla teve 35% dos votos para o Parlamento Europeu, cerca de 10 pontos abaixo do que era esperado. Quem se beneficiou não foi a oposição de esquerda, que continua desorientada diante do inimitável primeiro-ministro, e sim os adversários ainda mais à direita – a Liga Norte, que dobrou sua votação com uma campanha anti-imigração.

Em parte isso se deve às particularidades regionais da Itália. A abstenção foi mais alta no sul e nas ilhas, onde Berlusconi tem sua base de apoio. A Liga Norte bateu forte na política externa do primeiro-ministro, criticando a proposta de que a Turquia se torne membro da União Européia. Os temas diplomáticos ainda devem render mais polêmicas na Itália, agora que Berlusconi recebeu o ditador líbio Kadaffi, que tem se reaproximado da antiga metrópole por razões econômicas.

E, claro, o Milan perdeu Kaká. Talvez seja mesmo o começo do fim de Berlusconi.