Mostrando postagens com marcador Inglaterra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inglaterra. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Reagan e Thatcher - uma relação difícil

Este livro do historiador britânico Richard Aldous, recém-publicado no Brasil, é um ótimo panorama de uma relação pessoal mais conflituosa e contraditória do que em geral se supõe. O autor argumenta que ela não atingiu a profundidade das ligações entre Roosevelt e Churchill e que os governos americanos e britânicos discordaram bastante durante o período de Ronald Reagan como presidente (1981-1989) e de Margaret Thatcher como primeira-ministra (1979-1990) em temas como a União Soviética, as guerras nas Malvinas e em Granada, o controle de armas nucleares e contratos de compra e venda de armamentos. Clique neste link para ver a entrevista do autor à Globo News.

Reagan e Thatcher eram ambos outsiders nos meios conservadores anglo-americanos, que custaram a ser levados a sério por seus pares devido às suas origens profissionais esociais (ator de filmes B, para Reagan; uma mulher da baixa classe média do interior para Thatcher). Uma vez no poder, levaram seus partidos a se afastarem do que havia sido o consenso keynesiano do pós-Segunda Guerra Mundal, em nome de uma reafirmação das práticas liberais. Curiosamente, ambos haviam identificado seu potencial mútuo de liderança ainda em meados da década de 1970, quando poucos acreditavam que um dia comandariam seus países.

Apesar da semelhança ideológica, as personalidades eram muito diferentes. Thatcher era cerebral e analítica, orgulhosa de sua formação acadêmica em química e direito, e cercada de intelectuais. Reagan, intuitivo e emocional, embora Aldous destaque algo que poucos observam: o presidente era um leitor compulsivo e profundo, em particular de história. desde seus dias como ator (Kissinger notou o mesmo). Contudo, as razões de suas fricções não foram tanto suas características individuais, mas os interesses nacionais distintos a as posições diversas de seus países na política internacional.

Na década de 1980, os Estados Unidos passavam por uma fase de prosperidade econômica e com uma política externa mais assertiva, aumentando os gastos militares para colocar a União Soviética na defensiva e voltando a intervir em pequenos países, de maneira direta (ilha de Granada, Líbia) ou financiando opositores armados locais (Nicarágua). O Reino Unido enfrentava uma situação econõmica mais difícil e as medidas de Thatcher eram impopulares, pelo menos até a vitória nas Malvinas. Os britânicos mostravam-se preocupados com as ações e a retórica de Reagan e queriam que os EUA agissem de modo mais discreto, preferencialmente em fóruns colegiados, como o G-7 e a OTAN.

Os dois governos encaravam Gorbachev como um líder soviético “com que é possível fazer negócios”, nas palavras de Thatcher, mas os britânicos se inquietavam com os discursos de Reagan, por vezes impetuosos (“império do mal”, “comunismo vai para a lata de lixo da história” “derrube esse muro, sr. Gorbachev”), por vezes descolados da realidade (eliminar todas as armas nucleares) e defendiam posições mais moderadas, amparadas por fortes aparatos de dissuação militar.

Curiosamente, os dois aliados resistiram às guerras promovidas pelo parceiro da “relação especial”. Os EUA não gostaram da disposição britânica em enfrentar os argentinos nas Malvinas, e propuseram soluções negociadas que envolveriam tropas da ONU nas ilhas. No Reino Unido, a decisão americana de invadir a ilha caribenha de Granada foi recebida com preocupação – temiam os efeitos no resto da América Latina – e Thatcher ficou enfurecida por ter sido apenas informada, e sequer consultada, sobre a guerra.

Outra razão de fricções entre os dois governos foram contratos militares. Para decepção britânica, empresas do país perderam vendas lucrativas para rivais franceses, que ofereciam preços mais baixos. Aliás, um dos elementos provocadores do livro é insinuar que em diversos momentos o presidente socialista da França, François Mitterand, teve relações mais próximas com os EUA do que sua contraparte conservadora no Reino Unido.

Para além do excelente estudo de caso, Aldous também mostra em detalhes como funciona a “relação especial” EUA-Reino Unido, com os fortes simbolismos envolvidos, da presidência à família real britânica, a ênfase em situações de intimidade, como visitas a casas de campo e passeios entre os chefes de Estado e o jogo de fascínio e estranhamento mútuo entre os dois países.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Malvinas, 30 Anos

Esta noite, somos uma nação.

Margaret Thatcher, 1982

Este é o dia que nossos pais e avós esperaram por 150 anos. Hoje somos uma nação!

Do filme argentino “Los Chicos de la Guerra

Hoje é um dia de luto e memória para argentinos e britânicos, com o aniversário de 30 anos da guerra das Malvinas. O impacto do conflito nas relações entre os dois países tem sido tema constante neste blog, como neste post sobre a nova rodada de confrontos entre Buenos Aires e Londres, ou na resenha do melhor livro acadêmico recente acerca do tema, Sal en las Heridas, do sociólogo argentino Vicente Palermo. De modo que este texto trata das consequências da guerra para ambas as nações: a democratização da Argentina e um enorme impulso na popularidade da primeira-ministra Margaret Thatcher, que muito contribuiu para que ela ficasse mais de uma década no poder.

A ditadura militar argentina se destaca entre os regimes autoritários no Cone Sul por uma série de características negativas: foi a mais violenta, a de pior desempenho econômico e, ainda por cima, perdeu a guerra de forma devastadora e humilhante para os britânicos – só se salvou a coragem da Força Aérea no confronto.

Tudo somado, a redemocratização do país foi mais rápida e profunda do que a de seus vizinhos, com presidente civil eleito diretamente já em 1983 e um expressivo julgamento contra suas juntas militares e oficiais envolvidos na repressão, que culminou nas primeiras condenações do tipo na América Latina. Foi o início de um longo processo que, entre avanços e retrocessos, tornou a Argentina um importante exemplo internacional em justiça transicional. É difícil imaginar esse resultado sem as Malvinas, pois as ditaduras no Brasil, Chile e Uruguai negociaram suas saídas em meio a pactos de impunidade e proteção. Thatcher foi uma inesperada madrinha para a democracia argentina – em contraste com seu apoio de toda a vida ao ditador chileno Augusto Pinochet.

As consequências da guerra para o Reino Unido foram bem mais ambíguas. A vitória foi, claro, um momento de exaltação patriótica e autoconfiança, após uma década bastante difícil do ponto de vista econômico. Mas as Malvinas eram então um conjunto de ilhas sem importância comercial, e assim permaneceriam até a década de 1990, quando houve um boom de pesca e a descoberta de petróleo e gás. Mesmo hoje é questionável se elas são lucrativas para o Estado britânico, em função do custo elevado de defendê-las e fornecer serviços públicos.

Mas o impacto principal para os britânicos foi, claro, a permanência de Thatcher como chefe de governo, até a década de 1990. Sem sua reação firme e a vitória na guerra, provavelmente ela teria perdido eleições bem antes, pois enfrentava uma enorme onda de impopularidade, em função de seus cortes no orçamento, do longo conflito com os mineiros em greve e de sua posição controversa inclusive dentro do Partido Conservador.

Enfim, a guerra foi uma tragédia, mas também propicia muitas soluções, pelo menos para alguns grupos. Sempre é.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

Este filme é sobretudo um ensaio sobre o envelhecimento, o luto e o vazio que fica após o exercício do Poder, centrado na figura da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Duplamente outsider – por ser mulher e por suas modestas origens sociais – ela ascendeu à liderança do Partido Conservador em momento de severa crise econômica, implementou reformas controversas no Reino Unido e foi decisiva para a opção britânica de retomar pela guerra as ilhas Malvinas, após a ocupação pela Argentina. Além de tudo, Meryl Strep nos brinda com um de seus melhores desempenhos como a protagonista, pelo qual foi indicada pela 17ª vez ao Oscar.

Margaret Thatcher era filha de um pequeno comerciante, dono de quitanda, e a relação com o pai está bem mostrada no filme, que o ilustra como a fonte dos ideais de autoconfiança, ética do trabalho e uma certa obstinação – para não dizer teimosia – em suas escolhas individuais. Ela conseguiu se formar em Oxford, em Química, numa época (anos 1940) no qual poucas mulheres chegavam lá e pouco depois se lançou na carreira política, como candidata ao parlamento, apesar de atitudes condenscendentes da cúpula dos Conservadores.

Ela se casou aos 24 anos, com Denis Thatcher, um industrial retratado no filme como um homem bem humorado, íntegro e apoio fundamental na carreira da esposa. Segundo a maioria dos relatos, ele era isso mesmo, mas também um milionário com visões extremistas, como querer proibir sindicatos no Reino Unido. Tiveram um casal de filhos, que aparecem no cinema como tendo uma relação algo fria e distante com a mãe – eles questionaram essa interpretação em entrevistas após o lançamento do filme. A narrativa se passa nos dias atuais, com uma Thatcher idosa e senil, com dificuldades de distinguir passado e presente, lembrando-se de sua vida à medida que prepara-se para doar as roupas que pertenceram ao marido, falecido há anos, mas a quem ela ainda vê em alucinações. É uma opção cinematográfica bastante questionável, e que poderia ter sido um desastre se não fosse pelo desempenho extraordinário de Streep.

A política é mais o pano de fundo do que o palco central nesta produção, mas os principais fatos da carreira de Thatcher estão em tela: a crise econômica e social britânica da década de 1970, com as greves do célebre “inverno do descontentamento”, a perda de competitividade internacional do país, os atentados terroristas dos grupos da Irlanda e as polêmicas medidas de austeridade adotadas pela primeira-ministra e seu longo conflito com os sindicatos. Há ótimo apanhado de sua atuação na guerra das Malvinas, e boas cenas que mostram seu ceticismo pela União Européia, em particular na decisão de que o Reino Unido não adotaria o euro.

A visão sobre a personalidade de Thatcher é bastante equilibrada e matizada, com o desempenho de Streep ressaltando suas características positivas, como a determinação e a coragem, mas mostrando também seu lado sombrio, como a dificuldade de ouvir os outros, de fazer barganhas e concessões e uma centralização extrema que às vezes a levava a humilhar até assessores próximos.

Thatcher foi a 1ª mulher a servir como primeira-ministra no Reino Unido, e até agora a única. Também foi quem mais exerceu o cargo no século XX, por 11 anos (1979-1990). Uma vida longa e controversa que com certeza ainda alimentará diversos filmes e livros.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Malvinas: a Guerra sem Fim

Em abril completam-se 30 anos da guerra das Malvinas e o aniversário é marcado por uma série de tensões entre Argentina e Reino Unido, sobretudo em termos da nova importância econômica das ilhas, e de como as disputas sobre esse território ajudam governos em dificuldades domésticas.

As Malvinas eram desabitadas quando foram descobertas pelo holandeses e nas lutas entre potências coloniais, acabaram com a Espanha, e depois com a Argentina. Em 1833 foram invadidas pelo império britânico, como parte de uma rede de apoio para rotas de navegação no Atlântico Sul. Os diversos governos argentinos nunca abandonaram a demanda pela soberania das Malvinas – no que, aliás, sempre contaram com as autoridades brasileiras, da Regência à presidente Dilma Rousseff. Mas era uma luta por nacionalismo e integridade do território, fortalecida a partir das décadas de 1930-1940, quando a aliança com britânicos começou a ser questionada com vigor na Argentina. À época da guerra, em 1982, a principal atividade das ilhas era a criação de carneiros.

Argentina e Reino Unido permaneceram de relações diplomáticas cortadas durante a década de 1980 (o famoso gol de mão de Maradona contra a seleção inglesa na Copa de 1986 se deu nesse contexto), e elas só foram retomadas sob a presidência de Carlos Menem. Sua política para as Malvinas foi o chamado “guarda-chuva da soberania”, pela qual esse tema não era discutido, mas se buscava cooperação em outros assuntos, como a permissão para veteranos de guerra e seus parentes poderem visitar as ilhas, chorar seus mortos nos campos de batalha e nos cemitérios militares. Situação belamente mostrada no filme argentino “Iluminados pelo Fogo” (abaixo). O chanceler de Menem, Guido de Tella, enviava anualmente presentes de Natal para os poucos milhares de habitantes das ilhas, conhecidos como kelpers, que apreciaram seu gesto.

A ascensão dos Kirchner na década de 2000 significou também o retorno de um intenso nacionalismo à vida política argentina, que encontrou nova expressão em conflitos por território e por exploração de recursos naturais. Isso significou o recrudescimento das disputas com relação às Malvinas, mas também explica muito dos choques com o Uruguai pela construção de fábricas de celulose à beira do rio que divide os dois países. A descoberta de reservas de petróleo e gás nas ilhas e a alta no preço dos hidrocarbonetos aguçaram ainda mais os embates com os britânicos, com frisei em artigo que escrevi no aniversário de 25 anos da guerra. Conta também a importância das Malvinas para a exploração da Antártida, tema que cresce em relevância.

Os britânicos reagiram com sua arma de mídia: enviaram o príncipe William, 2º na sucessão do trono, para passar algumas semanas nas ilhas (foto acima) e levar junto a atenção da imprensa. Algo parecido havia sido feito com seu irmão caçula no Afeganistão. O Reino Unido também despachou um navio de guerra e talvez tenha feito o mesmo com um submarino armado com mísseis nucleares. São gestos simbólicos que tentar demonstrar uma capacidade de poder global que dificilmente a combalida economia britância teria como sustentar, em particular depois dos enormes gastos da intervenção na Líbia.

A estratégia argentina tem sido a de criar obstáculos para os britânicos na ONU, denunciando a permanência de sua posse das Malvinas como uma situação colonial, e criticando o que chamam de militarização dos recursos naturais do Atlântico Sul. O Reino Unido afirma que não se pode abandonar o direito de autodeterminação dos kelpers e o primeiro-ministro David Cameron chegou a afirmar que colonialistas são os argentinos. Poderia ser pensada algum tipo de solução como a de Hong Kong, com a manutenção de grande autonomia para as ilhas, cidadania dupla aos kelpers ou saídas semelhantes, mas no momento não há disposição para diálogos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mar de Papoulas

O escritor indiano Amitav Ghosh tem sido comparado a mestres do romance histórico como Walter Scott e Alexandre Dumas por conta de sua triologia épica sobre as guerras do ópio, centradas na tripulação do navio Ibis. “Mar de Papoulas” é o primeiro volume, e até agora o único publicado no Brasil, e fez pensar em outro clássico: o Melville de “Moby Dick”, ao reunir um elenco multicultural de personagens para narrar os conflitos entre os impérios britânico e chinês da perspectiva da Índia, então colônia da Grã-Bretanha.

“Mar de Papoulas” não tem um protagonista, a narrativa se reveza por um grupo de pessoas que de origens muito diversas formará a tripulação do Ibis e se manterá unida ao longo da triologia: um marinheiro americano, mulato, que descobre que os mares do Oriente lhe dão a oportunidade de passar por branco, abrindo inesperados caminhos de ascensão social; um casal de camponeses indianos em fuga por conta de um amor adúltero impossível por razões de casta e honra familiar; um aristocrata indiano falido e injustamente condenado por fraude, com um insperável amigo chinês que conheceu na cadeia; uma jovem órfã francesa que herdou do pai cientista um temperamento questionador e rebelde e um elenco fascinante de personagens secundários vindos de todas as partes do globo. Eles falam uma língua mágica, um amálgama de vários idiomas, incrivelmente rico e poético. Aviso – li o original em inglês e ignoro como ficou a tradução para o português, é uma tarefa dificílima adaptar a inventividade do autor.

O navio também é parte do elenco. O Ibis transportava escravos da África para as Américas, mas quando a Grã-Bretanha começou a combater esse comércio, ele foi adaptado para outros negócios, como levar ópio da Índia à China e carregar prisoneiros e trabalhadores que assinaram contratos de “servidão por dívidas” para colônias européias.

O romance começa com a chegada do Ibis à cidade indiana de Calcutá, depois de uma jornada tumultuada que começou na América do Norte e passou pelo Cabo da Boa Esperança e pelas Ilhas Maurício. O contexto histórico é o da década de 1830. Os britânicos dominam a Índia, sobretudo por meio da Companhia das índias Orientais, e estão em sérias tensões com a China. Importam de lá seda, porcelana e outros artigos caros, mas não conseguem fazer com que os chineses se interessem por suas manufaturas. Até que o ópio desponta como solução para o déficit comercial.

O ópio é uma droga poderosa fabricada a partir da papoula, cultivada na Ásia meridional. No tempo do império britânico, a Índia era o principal centro produtor (hoje em dia, é o Afeganistão, as receitas financiam os Talibãs). Os lucros eram tão fabulosos que as melhores terras viraram plantações monocultoras dedicadas às exportações para a China, com os grandes comerciantes tomando terras de camponeses e rivais mais fracos. Naturalmente, as autoridades chinesas se preocuparam com a situação e tentaram proibir o ópio, levando a uma série de guerras pelas quais os britânicos impuseram não só o produto, mas também sua dominação territorial sobre vários dos portos do país.

Os personagens de Ghosh são arrastados pelos acontecimentos e têm posições ambíguas com relação ao ópio, de fascínio, medo ou desprezo. Alguns são viciados na droga. Seu épico é uma visão pós-colonial da globalização, o que significa que ele é muito crítico dos britânicos e dos valores de seu império: todos os personagens cristãos e ingleses são maus e trapaceiros, bem como a maioria dos indianos associados a eles. Ghosh é mais simpático aos franceses e americanos, bem como a hindus e muçulmanos. Seus perfis psicológicos são simples, por vezes maniqueístas (não chega nem perto de um Joseph Conrad, por exemplo) seu ponto forte é a compreensão de várias culturas e o modo como narra de forma divertida e inteligente os desencontros entre elas, bem como as sínteses inesperadas.

“Mar de Papoulas” é apenas o primeiro volume da triologia, e basicamente conta a história de como a tripulação do Ibis se conheceu. O segundo livro da série, “River of Smoke”, já foi publicado, com muitos elogios. Há um quê de “Senhor dos Anéis” ou “Guerra nas Estrelas” no estilo e escala do trabalho de Ghosh, em seu entretenimento de alta qualidade.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Os Distúrbios em Londres: um depoimento pessoal



Por Nicole Mezzasalma
Jornalista - Blogueira Convidada

Moro em Londres há oito anos e sempre me senti segura na cidade; mesmo quando a capital inglesa foi alvo de ataques terroristas em 2005, ainda assim havia uma sensação de união, de comunidade, de resistência a tudo e todos que pudessem ameaçar nosso estilo de vida.

Ontem, pela primeira vez, fiquei preocupada. Saindo do trabalho, em Croydon, ao sul de Londres, eu vi os carros de polícia e dezenas (quiçá centenas) de jovens que se aglomeravam nas ruas se preparando para alguma coisa, por volta das seis da tarde. Horas depois, acompanhando o noticiário na TV, vi uma loja de móveis por onde passo todos os dias – e, ironicamente, de onde sou “prefeita” no jogo social Foursquare – ardendo depois de ser incendiada.

A confusão na cidade começou no sábado à noite, após um protesto pacífico em frente a uma delegacia no norte de Londres pela morte de um residente local. Mark Duggan morreu após ser atingido por um tiro de um policial, mas o contexto em que isso aconteceu ainda não está claro. A família de Duggan diz que ele era um pai de família pacífico, mas outras fontes comentam que ele estava armado e atirou na polícia primeiro.

Independentemente da causa, as consequências da morte de Duggan estão sendo sentidas até agora. Começando em Tottenham, onde ele faleceu, grupos de arruaceiros se aproveitaram do momento para saquear lojas de rua, tendo como alvo primário aquelas oferecendo celulares, productos eletrônicos, roupas e tênis.

O que teve início como um evento isolado rapidamente se espalhou pelo norte da cidade. Grandes áreas comerciais tornaram-se o objetivo, e saqueadores vieram de carro de outras partes da cidade para encher suas malas de produtos “adquiridos” no processo.

A situação piorou um pouco no domingo, quando novas áreas no norte e leste de Londres foram atacadas por grupos de jovens organizados e prontos para brigar com a polícia e saquear lojas, e atingiu ponto de ebulição na noite de segunda-feira. Ontem, o caos tornou-se generalizado e atingiu áreas diametralmente opostas da capital. Além das lojas de eletrônicos e celulares, os baderneiros pareciam atacar indiscriminidamente todo e qualquer estabelecimento comercial, desde charity shops (lojas que vendem produtos usados para arrecadar dinheiro para caridade) até cafeterias e restaurantes locais. Em Croydon, a loja por onde passo todo dia – há cinco gerações um negócio de família, que sobreviveu a duas guerras mundiais – ardia em chamas, e em Ealing jovens invadiram uma loja de roupas de criança, que foram prontamente espalhadas pela praça do outro lado da rua e penduradas nas árvores como troféus.

Os eventos das últimas noites podem ser racionalizados política e socialmente: o desemprego em Londres é alto, o mais alto dos últimos 30 anos; as comunidades onde a confusão começou são pobres e marginalizadas, além de sofrer constante repressão policial por causa de brigas de gangues e armas de fogo; os jovens sentem que não têm perspectivas, e quem não acha que tem um futuro não tem nada a perder; e com estruturas familiares pulverizadas, não há disciplina em casa ou nas ruas.

Ainda que eu compreenda as razões sociais e políticas por trás da frustração destes jovens, nada justifica a violência sem freios que mutilou Londres e outras cidades da Inglaterra (a confusão se espalhou para Bristol, Liverpool, Birmingham, Leeds e Nottingham ontem). Policiais reportaram ver mães com crianças entrando em lojas e usando seus filhos para carregar os produtos roubados, e muitos dos jovens envolvidos nem sabem qual partido político está no poder no país – eles viram uma oportunidade de ter um Xbox, o último modelo de tênis ou uma TV de 42 polegadas e aproveitaram a sua chance. Os seis mil policiais que patrulhavam as ruas da cidade ontem à noite não tinham equipamento ou preparo para lidar com a bagunça, e na maioria dos casos havia entre cinco e dez arruaceiros pra cada policial.




No bairro onde eu moro, o centro comercial local foi atacado por grupos de jovens, que brigavam entre si pelos objetos saqueados e riam enquanto empurravam carrinhos de bebê recheados de brinquedos roubados de uma loja de produtos para bebês. Ao mesmo tempo, hoje a cidade está usando redes sociais como Facebook e Twitter para organizar operações de limpeza nas áreas afetadas. Enquanto alguns têm a mentalidade de “nós contra eles” (isto é, pessoas de bem contra vândalos), outros vêem os eventos das últimas noites como algo inevitável e até esperado – o jornal The Guardian publicou há algumas semanas como os cortes que levaram ao fechamento de alguns clubes sociais para jovens nas áreas mais carentes da cidade poderiam levar a surtos de violência, e o que estamos vendo agora parece ser a materizaliação da profecia anunciada.

O primeiro-ministro David Cameron e o prefeito Boris Johnson voltaram à cidade hoje, adiantando forçadamente o fim de suas férias, e o Parlamento britânico foi chamado do recesso para discutir os problemas na quinta-feira. A preocupação agora é evitar que a noite de hoje seja um repeteco de ontem e, quando a paz voltar a reinar, atacar as causas do problema. Uma coisa é certa: o que está acontecendo em Londres não é uma revolução, e as pessoas envolvidas não estão lutando pelo que acreditam – elas estão demonstrando que podem fazer o que querem, quando querem, impunemente. E se você não acredita em mim, escute essa gravação de uma repórter da BBC entrevistando garotas de Croydon envolvidas na confusão de ontem.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Por que Orwell Importa



Devo ao amigo Gabriel um excelente presente: o livro "Why Orwell Matters", de Cristopher Hitchens, que acaba de ser lançado em português comm o título "A Vitória de Orwell". Ambos compartilhamos a admiração pelo estilo literário de Hitchens e por sua verve de polemista franco-atirador, absolutamente imprevisível em suas contendas, que abarcam de Madre Teresa de Calcutá (!) a Henry Kissinger e incluem pérolas do jornalismo como seu artigo "Belive me, it´s torture", no qual descreve de forma impagável como mudou de idéia a respeito dos métodos de interrogatório usados para combater o terrorismo.

Hitchens naturalmente se identifica com George Orwell, o escritor e jornalista britânico de vida breve mas com uma obra rica em romances e ensaios, que tratam de temas como o imperialismo europeu na Ásia, o totalitarismo soviético, a guerra civil espanhola e os dilemas liberais e progressistas em meio à crise da democracia na década de 1930 e no alvorecer da Guerra Fria.

O livro não é uma biografia tradicional, e sim um perfil intelectual, no qual as idéias de Orwell são apresentadas em capítulos que sintetizam suas posições - e oposições - em relação ao imperialismo, à direita, à esquerda, ao feminismo, aos Estados Unidos e à Inglaterra, com seções um pouco menores abordando seus romances e sua recepção pelos críticos culturais contemporâneos.

Hitchens só é Hitchens se estiver defendendo ou criticando uma causa, e ele assume a defesa de Orwell com relação a seus opositores ideológicos mais ferozes, em todos os espectros políticos. É preciso ao mostrar como muitas vezes as idéias de Orwell foram deturpadas por seus críticos, mas admite que o escritor mantinha certos preconceitos com relação aos homossexuais e às mulheres emancipadas.

Naturalmente, todos temos nossas limitações, mas o que impressiona em Orwell é como ele foi capaz de superar várias delas. Criado numa família de elite, optou por não cursar a universidade e serviu como policial na então colônia britânica da Birmânia, experiência que o deixou enjoado com o imperialismo. Pediu demissão e viveu frugalmente como escritor e jornalista. Lutou na Espanha com uma milícia anarquista e foi testemunha - e quase vítima - do autoritarismo dos comunistas locais.

A rejeição ao totalitarismo se manteve mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, quando a URSS era fundamental para a derrota da Alemanha nazista, mas ao contrário de muitos, Orwell nunca embarcou na ilusão de acreditar que o regime stalinista era algo mais do que uma máquina terrivelmente repressora. Daí surgiram seus romances mais famosos, "Revolução dos Bichos" e "1984".

Intelectuais independentes e críticos costumam ser leitura bem mais interessante do que aqueles que jogam as cartas marcadas das quase sempre tediosas contendas das igrejinhas partidárias. Por isso Orwell importa e os pontos que Hitchens levanta são de suma importância para manter acesa a chama da inquietação. Sempre

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Império



O império britânico começou pilhando o ouro e a prata dos espanhóis, desenvolveu-se copiando as instituições financeiras dos holandeses e consolidou seu poder derrotando militarmente franceses e indianos. No percurso, governou 25% da Terra e lançou as bases para a globalização econômica contemporânea. Estas são as teses do historiador Niall Ferguson, em seu livro “Império – como os britânicos fizeram o mundo moderno”. Adaptado de uma série de TV apresentada por ele, cada capítulo é como um episódio, abordando mercadorias, migrações populacionais, idéias e guerra (clique aqui para baixar o primeiro capítulo).

A Inglaterra era a prima pobre no início da colonização européia das Américas e até o século XVII seus domínios não se estendiam muito além de algumas plantações de tabaco e cana de açúcar no Caribe e no atual sul dos Estados Unidos e de um punhado de vilas fundados por dissidentes religiosos que fugiam de guerras e perseguições na Europa. Aos poucos os lucros obtidos pelos produtos americanos impulsionaram um amplo movimento colonizador – a maior migração de pessoas da história, diz Ferguson.



No século XVIII, a Inglaterra já consolidara sua hegemonia sob as Ilhas Britânicas – Escócia, País de Gales, Irlanda - e desenvolveu um engenhoso sistema de financiamento para suas guerras e empreendimentos coloniais, baseado na venda de títulos da dívida pública. Uma bem organizada máquina militar, amparada na maior e mais eficaz marinha do mundo, permitiu aos britânicos derrotaram os franceses na Guerra dos Sete Anos, um conflito que se estendeu pelas Américas, Europa e Ásia, e culminou na supremacia britânica nas disputas imperiais globais.

O Império perdeu os Estados Unidos em 1783, mas conquistou algo mais importante – a Índia. Ferguson traça excelente síntese das diversas etapas da colonização, desde o início com a “parceria público privada” representada pela Companhia das Índias Orientais, passando pelas guerras contra os soberanos mogóis indianos até o sangrento conflito de 1857 – a “Primeira Guerra de Independência”, como dizem os nacionalistas na Índia, ou o Grande Motim, como preferem os britânicos.



A maior novidade do livro, para mim, foi a análise dos “domínios brancos” do Canadá e da Austrália. Conheço pouco da história de ambos. Aprendi com Ferguson que os dois foram beneficiados por importantes reformas no século XIX, que lhes concederam ampla autonomia doméstica. Basicamente, uma reação da elite imperial britânica aos erros cometidos com os inquietos e rebeldes colonos nos Estados Unidos.

Ferguson não aborda a África em muitos detalhes, a não ser para tratar do trauma da guerra dos bôeres na África do Sul – um longo conflito de guerrilhas no qual o Império quase foi derrotado, e que levou a terríveis violações de direitos humanos, como a construção de campos de concentração para os descendentes de holandeses em guerra contra os britânicos. Em suma, o Vietnã do Reino Unido.

Ferguson não nega as atrocidades cometidas pelo Império, mas coloca-se explicitamente contra aqueles que o consideravam imoral e injusto, atribuindo à colonização britânica muitas virtudes, em especial quando em contraste contra outros impérios, como o francês e o russo. É um hobby tradicional dos acadêmicos oriundos de grandes potências (Ferguson é escocês) mas me sinto mais à vontade na tradição autonomista dos países em desenvolvimento, em busca de seus próprios caminhos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Escritor Fantasma



O cineasta polonês Roman Polanski está preso por ter estuprado uma adolescente na década de 1970. Sua história de vida trágica incluiu a perda de sua ex-esposa (então grávida do primeiro filho do casal), a atriz Sharon Tate, que foi assassinada por um psicopata. É incrível que Polanski tenha o mínimo de equilíbrio emocional necessário para dirigir um filme e quase inacreditável que ele o faça com extraordinária competência. Seu último lançamento, “O Escritor Fantasma”, mistura política, espionagem, direitos humanos e política internacional.

O protagonista é um homem cujo nome nunca é dito, interpretado por Ewan McGregor. Ele trabalha como ghost writer para celebridades – seu último caso foi a autobiografia de um mágico – e acaba sendo designado para escrever as memórias de Adam Lang (Pierce Brosnan), um carismático ex-primeiro-ministro britânico. O redator anterior apareceu morto em circunstâncias misteriosas e a conjuntura é dramática: Lang está sob investigação do Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra. Ele é acusado de ter cedido suspeitos de terrorismo para o programa secreto da CIA que os torturava em ditaduras aliadas.

O escritor é confinado numa ilha na Costa Leste dos EUA, onde Lang se refugiou com a esposa, Ruth (Olivia Williams) e alguns assessores. À medida que começa o trabalho, surgem dúvidas, peças que não se encaixam. Lang é um mulherengo boa-vida, e sua decisão de entrar para a carreira política não faz sentido. Sua esposa parece muito mais inteligente e dedicada, mas a relação dos dois é péssima. Diversos dados biográficos do ex-primeiro-ministro são confusos e de algum modo essa indefinição parece relacionada ao desaparecimento do outro ghost writer. Simultaneamente, o crescimento dos protestos sociais contra Lang colocam o personagem de McGregor numa situação ética bastante incômoda.

Num clima de paranóia que vai se tornando cada vez mais asfixiante, o escritor fantasma se envolve numa trama de espionagem que aborda as guerras no Oriente Médio, os conflitos em torno do terrorismo e a responsabilidade moral dos governantes. Tudo isso com uma interpretação muito, muito interessante do atual estágio das “relações especiais” entre EUA e Reino Unido.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Rock and Roll




Passei o último fim de semana no Rio de Janeiro e, entre outras atividades, fui ao teatro assistir a “Rock and Roll”, do dramaturgo tcheco (naturalizado inglês) Tom Stoppard. É uma peça fascinante que usa a música para debater os principais eventos relacionados aos conflitos e queda do comunismo, de 1968 aos tempos atuais, numa trama que oscila entre as duas pátrias do autor.

A ação é estimulada pelo embate entre os dois protagonistas, ambos acadêmicos. Jan é um jovem um tanto rebelde, que larga o doutorado em Cambridge para retornar à sua Tchecoslováquia natal e participar das reformas da Primavera de Praga, tragicamente abortadas pela invasão soviética. Max é seu antigo mentor, um professor universitário que se mantém leal ao partido comunista por seu papel em enfrentar os horrores da Segunda Guerra Mundial e do nazismo.

Embora gostem um do outro e se admirem mutuamente, Jan e Max se afastam em função das disputas políticas. Jan abandona a universidade, flerta com o jornalismo mas vive para a música, que idolatra. Ele se torna parte do grupo que gravita em torno da banda The Plastic People of the Universe e rejeita tanto a adesão ao comunismo quanto o que chama de “oposição oficial”, os dissidentes que criticam o partido-Estado.

À medida que a situação do país se agrava, Jan vê suas perspectivas profissionais se fecharem e acaba se aproximando dos ativistas de direitos humanos, como Václav Havel (amigo e guru do autor), fazendo parte do movimento da Carta 77. A aliança não se dá sem disputas entre os colegas de viagem: qual a natureza da liberdade, e dos direitos? Exigir do Estado a não-interferência em hábitos privados, como o estilo do cabelo ou o tipo de música que se escuta, é mais ou menos progressista do que escrever petições aos líderes políticos?





Enquanto isso, Max se torna uma espécie de curiosidade histórica – um dos últimos intelectuais que continuam filiados ao partido comunista – e lamenta o caminho escolhido por Jan. Mas o professor também se torna crítico do governo e dos oportunistas que constroem carreiras a partir da repressão política. As trajetórias dos dois amigos voltam a se encontrar após a Revolução de Veludo, que derruba o comunismo na Tchecoslováquia, e ambos conversam sobre as desilusões com o comunismo, os significados de 1968 e também com a democracia apática que parece predominar hoje em dia. E fica no ar a sugestão de que a amizade talvez seja a primeira utopia para ajudar a construir o século XXI...

Como era de se esperar pelo título da peça, a música tem destaque na narrativa, com canções e clipes ilustrando a passagem do tempo e os estados emocionais dos personagens. Dos Rolling Stones ao U2, passando pelos Beatles, é uma trilha sonora de impacto.

Max é um papel difícil – pode resvalar no clichê do comunista velha guarda – interpretado por maestria por Otávio Augusto. Thiago Fragoso, que eu só conhecia de atuações como galã na TV, também está ótimo como Jan, assim como Gisele Fróes, que interpreta a esposa de Max (e mais tarde faz o papel de sua filha, na maturidade). Foi um prazer assistir aos diálogos inteligentes, irônicos e emocionados da peça. E uma oportunidade – infelizmente, ainda rara – de presenciar os grandes temas políticos contemporâneos discutidos em português.

Se houver algum produtor teatral a ler este blog, minha sugestão (súplica?): por favor, monte “Democracia”, de Michael Frayn!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

John Lennon


John Lennon: a vida”, é uma ótima biografia escrita pelo jornalista inglês Philip Norman, autor também de uma história dos Beatles. Conhecedor profundo da música das décadas de 1960/70, sua pesquisa dá voz a muitas pessoas que conviveram com Lennon, em particular sua família. O ponto forte do livro é mostrar como o cantor e compositor estava em sintonia com as mudanças que aconteciam no mundo - a liberação da sexualidade, as posturas mais relaxadas com relação às classes sociais, a ascensão da juventude como protagonista social e política. O fraco, a tomada de partido de Norman com relação a Yoko Ono, que recebe uma apologia mais adequada a um advogado de defesa do que a um biógrafo.

Norman é cronista atento e sensível da adolescência dos Beatles em Liverpool – incrível pensar que os quatro rapazes cresceram a poucos quarteirões uns dos outros, no que era então uma cidade ainda marcada pela guerra (Lennon nasceu na noite de um intenso bombardeio nazista) e pelo austero cotidiano britânico após o conflito. Ao contrário do que o próprio Lennon apregoava, sua condição não era a de operário, sua família era da baixa classe média, ansiosa por status e respeitabilidade, mas de modo algum em dificuldades financeiras.

Seus pais tiveram um casamento turbulento, e as constantes brigas e infidelidades culminaram no menino sendo abandonado por ambos, e criado por uma tia materna, uma mulher que lhe deu segurança e apoio, mas não calor afetivo. No fim da adolescência, John se aproximou da mãe, mas ela morreu atropelada quando o rapaz tinha apenas 17 anos. O pai sumiu de sua vida na infância e só reapareceu quando o filho se tornou um astro do rock.

Lennon cresceu rebelde, desconfiado, irônico, às vezes mascarando a timidez numa camada de agressividade e sarcasmo. Mas também inteligente, sensível e com grande capacidade criativa – na música, literatura, desenho e pintura, o que o levou até a cursar a faculdade de artes. Ponto curioso: mesmo antes da parceria com McCartney, John precisava ter sempre um cúmplice à mão, alguém que compensasse suas inseguranças e lhe estimulasse a criar. Nos anos universitários, a pessoa foi seu colega de turma Stuart Sutcliffe, que chegou a tocar brevemente com os Beatles, mas morreu muito jovem – talvez em decorrência de uma surra que levou de Lennon, durante uma bebedeira.



A trajetória dos Beatles é bastante conhecida, e está toda no livro. Os primeiros shows no circuito alternativo de Liverpool, a temporada passada na zona de Hamburgo (bem mais selvagens do que no visual arrumadinho com que estouraram na mídia) e o crucial encontro com Brian Epstein, que transformou o grupo numa equipe profissional e os catapultou para o mundo. Mais do que empresário, foi amigo e pai substituto que os protegeu de muitos percalços da fama meteórica. Sua morte precoce em 1967 os lançou em tantos problemas que chego a pensar que se tivesse permanecido vivo, a história poderia ser outra. Claro, havia também George Martin e seu talento como produtor musical.

Há boas informações na biografia sobre a gênese das canções, e emociona ler como cenas e personagens cotidianos de Liverpool renderam pérolas como Penny Lane, In My Life, Strawberry Fields Forever, Eleanor Rigby. Curiosamente, a música mais executada dos Beatles (e de todos os tempos), Yesterday, é de autoria somente de McCartney, embora Lennon também a tenha assinado.

A vida pós-Beatles de Lennon é marcada por seu relacionamento com Yoko Ono, e não gostei do modo como Norman a retratou na biografia. Por ironia, ela desaprovou o livro. Em todo caso, mesmo discordando da interpretação que Norman dá ao relacionamento do casal, é possível fazer outras leituras, em que se destaca à descida de Lennon a um inferno pessoal marcado por drogas, mas o período de crises também resultou no enfrentamento de seus demônios e em canções magistrais que passam a limpo a complicada história com a família e com os Beatles, como “God”, “Mother” e “How?”.

A estupidez de seu assassinato é ainda mais ressaltada por ter ocorrido na época em que parecia, finalmente, ter encontrado a paz, curtindo cuidar do segundo filho, Sean. Felizmente, ele continua a inspirar.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A Canção de Le Carré



Tenho uma queda por romances de espionagem e no gênero meu autor favorito é John Le Carré, que escreveu o melhor do estilo (“O Espião que Saiu do Frio”), uma das mais interessantes variantes sobre o tema da traição (“Tinker Tailor Solider Spy”, ou, como foi batizado no Brasil, “O Espião que Sabia Demais”) e tem produzido ótimos livros sobre o mundo da inteligência no pós-Guerra Fria, no quais se destaca a visão cética de uma era sem ideais, ameaçada por paranóia, ganância e cinismo (“O Jardineiro Fiel”, “Amigos Absolutos”). Seu mais recente livro acabou de ser publicado na Europa: A Most Wanted Man, crítica às torturas e ao programa de “rendições” da CIA, a Operação Condor destes tempos de 11 de setembro. Enquanto o romance não chega ao Brasil, fico com seu penúltimo, recém-lançado por aqui: “O Canto da Missão”, sobre a guerra na Repúplica Democrática do Congo.

Os fãs de Le Carré encontramos nesse livro suas marcas características: a extrema ambigüidade do herói, uma mistura de idealismo, ingenuidade e excitação do protagonista ao se envolver com o mundo do serviço secreto, uma sexualidade conflituosa, que encontra sua redenção no relacionamento com uma mulher de classe social mais baixa do que a do herói, e que o arrasta para o compromisso com uma causa social, ou simplesmente para reavaliar suas atitudes diante da vida.



O romance é narrado por Bruno Salvador, o filho bastardo de um missionário irlandês no Congo, que se tornou um renomado intérprete nas diversas línguas faladas no leste daquele imenso país. Seus talentos raros o tornaram muito requisitado pelas grandes empresas mineradoras que operam na região e ele acaba recrutado pelo serviço secreto britânico para um trabalho numa conferência de delicadas negociações entre chefes da guerra congoleses e um conglomerado empresarial, interessados num acordo político que permita a exploração dos recursos naturais da área e elimine concorrentes indesejados da jogada. À medida que prosseguem os diálogos, Bruno começa a questionar a moralidade da trama.

Não conto mais para não estragar as surpresas de eventuais leitores, adianto apenas que Le Carré construiu personagens extremamente verossímeis para retratar a pior tragédia humanitária do nosso tempo. Esqueça Iraque, Afeganistão ou mesmo Darfur. A guerra no Congo matou talvez quatro milhões de pessoas, em cerca de 15 anos. A maioria morreu de fome ou de doenças. Por coincidência, o conflito está novamente nas manchetes, agora que o líder rebelde Laurent Nkunda ameaça a cidade de Goma, principal abrigo dos refugiados dos massacres congoleses.



O conflito no Congo começou em função do genocídio na vizinha Ruanda. Os líderes hutus que haviam perpretado aquela atrocidade fugiram para as terras congolesas e seus inimigos tutsis levaram a guerra até eles. As batalhas se juntaram ao contexto mais amplo de colapso da ditadura de Mobutu, que governava o país desde a década de 1960. O poder central se fragmentou em dezenas de etnias rivais e os países vizinhos – Ruanda, Uganda, Angola e Zimbábue – intervieram militarmente a pretexto de manter a paz, mas na prática saqueando os recursos naturais congoleses. Não é à toa que o conflito vem sendo chamado de “a primeira guerra mundial da África”.

O Congo tem a maior missão de paz da ONU em campo atualmente, com cerca de 16 mil soldados. O número pode parecer impressionante, mas é irrisório diante de um território do tamanho da Europa Ocidental. Os capacetes azuis recebem um tratamento bastante hostil no romance de Le Carré, seu consolo é que o mesmo retrato é aplicado pelo escritor a todos os protagonistas desta guerra sem heróis. Ainda assim, Le Carré consegue encontrar esperança, a partir das expectativas e ações das pessoas comuns. Ao fim das contas, um olhar mais ameno que em seus últimos livros.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Os Tudors


Tema: Governo de Henrique VIII

Contém: Relação Sexual, Assassinato, Nudez, Suicídio e Masturbação.



Essa é a etiqueta do DVD e pelo aviso já se entende parte do sucesso da série de TV "Os Tudors". De fato, a história da dinastia é um prato cheio para tablóides de qualquer época e o programa dosa em boas medidas as intrigas sexuais e políticas de um dos momentos mais conturbados da história britânica. No Brasil, a série passa no canal People + Arts, às 22h de quinta-feira.

Os excelentes roteiros são escritos por Michael Hirst, que se baseou nos agéis diálogos de Aaron Sorkin da Casa Branca de The West Wing, e em seu próprio filme sobre a rainha Elizabeth. A imagem clichê de Henrique VIII é a do gordo barbudo, com seus divórcios movidos à decapitação. A série brinca com essas expectativas, mostrando o monarca como um popstar do Renascimento, inteligente, belo e dinâmico. Ele é interpretado pelo galã Jonathan Rhys Meyers, que está muito bem no papel. O problema é sua idade. Supostamente começa a saga com vinte e poucos anos, mas alguns personagens envelhecem à sua volta, enquanto ele se conserva jovem.

Contudo, isso não chega a ser um problema na primeira temporada, que acabou de sair em DVD. Os dez episódios são conduzidos por duas tramas que se intercalam: Henrique VIII se apaixona por Ana Bolena e tenta se divorciar da rainha para se casar com ela; e o cardeal Wolsey - na prática, o primeiro-ministro do rei - arquiteta maquinações para dar um pouco de estabilidade à Inglaterra, numa Europa em chamas pela Reforma protestante e pelas rivalidades entre a França, o Império Hapsburgo e o Papado.

Ana Bolena é um dos papéis mais difíceis que posso imaginar. Como personagem histórica, ela era uma nobre menor, educada nas Cortes dos Valois franceses e dos Habpsburgo austríacos, acompanhando seu pai diplomata. Deve ter sido uma mulher extremamente sofisticada e inteligente, além de bonita. Uma flor exótica que enfeitiçou o rei ao ponto de fazê-lo romper com a Igreja. Na série, ela é vivida pela estreante Natalie Dormer, que tem beleza mas não consegue impor a dimensão do que deve ter sido Ana e a retrata como uma patricinha agitada.



O melhor ator da temporada é Sam Neill, que interpreta Wolsey astuto como um cardeal Richelieu, mas ao mesmo tempo dolorosamente humano e frágil. Consciente de suas fraquezas e frustrado diante do fracasso em seus planos em se tornar papa e da dificuldade de lidar com a demanda de Henrique VIII para casar com Ana. Ele gosta do rei e lhe é fiel até certo ponto - já que cede à corrupção dos franceses, por seu amor ao luxo e aos confortos materiais. A Corte britânica é mostrada como um imenso Big Brother, marcado por disputas constantes, onde todos se vigiam, e qualquer simbolismo ganha força extraordinária, caso mostre proximidade com o rei.

Infelizmente Wolsey sai da série na segunda temporada, mas a excelência na atuação continua com a Igreja: Peter O´Toole dá o show habitual, desta vez como o papa Paulo III.

A série é bem mais centrada nos dramas dos personagens do que no contexto histórico e imagino que alguns espectadores fiquem um tanto perdidos em meio à citação rápida de fatos e personagens cruciais, como os escritos de Lutero e Erasmo, o saque de Roma pelas tropas do imperador Hapsburgo e mesmo Michelangelo que aparece aqui e ali trabalhando nas obras da Basílica de São Pedro.



Em linhas gerais: os Tudor foram a dinastia que governou a Inglaterra entre 1485 e 1603. Sua escalada ao poder começou com Henrique VII, que matou Ricardo III em batalha e se apoderou da coroa. A vitória pôs fim a uma guerra civil de 30 anos, entre as casas de York e Lancaster. Henrique VII pertencia à segunda, mas se casou com uma princesa da primeira.

Seu filho, Henrique VIII, chegou ao trono consciente da fragilidade de sua dinastia e apavorado com a possibilidade de retorno à guerra civil, em particular porque havia nobres com pretensões bem mais legítimas à coroa do que aquelas de sua família. Para garantir a estabilidade ele precisava de filhos homens, legítimos, que pudessem ser seus sucessores. A rainha só conseguiu lhe dar uma menina. Ele teve bastardos com outras mulheres, inclusive com Mary Bolena, irmã de Ana. Mas o imponderável que ronda as paixões humanas mudou o curso da história.

Claro, havia a Reforma. A Igreja da época era um amontoado de corrupção e desordem. A série não foca esse aspecto: os personagens católicos são modelos de virtude, como a rainha Catarina e o filósofo e conselheiro real Sir Thomas More. E os protestantes são retratados de modo ambíguo, mais como oportunistas a serviço do Estado absolutista nascente. Como a série é co-produzida por irlandeses, acho que está aí a explicação...

No fim, Henrique VIII conseguiu um herdeiro legítimo, mas não de Ana. Contudo, foi sua filha com ela - Elizabeth - que logrou a tão sonhada estabilidade e prosperidade à Inglaterra. Nenhum dos descendentes de Henrique VIII teve filhos, o que talvez não seja de espantar, dada a história da família. Mestre Machado de Assis diria que optaram por não transmitir a outros seres o legado de nossa miséria.

terça-feira, 17 de junho de 2008

A Outra Bolena



A Outra” (The Other Boleyn Girl) poderia ter sido um grande filme sobre paixões intensas numa época em que a fronteira entre sentimentos privados e assuntos de Estado era pouco clara. Falta fôlego ao roteiro para isso, mas ainda assim a história da relação das irmãs Ana e Maria Bolena com o rei da Inglaterra, Henrique VIII, vale a matinê.

Ana, claro, é a mais conhecida das duas. A narrativa de como seduziu Henrique VIII e o levou a se divorciar da rainha Catarina, rompendo com a Igreja Católica, inspirou vários artistas, bem como as desventuras de seu curto reinado de mil dias. A nova versão coloca em primeiro plano sua irmã caçula, Maria, que também foi amante do monarca e teve um filho com ele. As duas são interpretadas, respectivamente, por Natalie Portman e Scarlett Joahnsson, com Eric Bana como o rei.

O trio está aquém da tarefa e às vezes o filme passa perigosamente perto de um programa de TV de disputas familiares, só que com figurino espetacular. Aqui e ali, aparecem questões de fundo interessantes. Henrique VIII foi o segundo monarca da dinastia Tudor, que encerrou longo ciclo de guerras civis na Inglaterra. Seu maior temor era o retorno da violência entre seus súditos, e para isso ele precisava de um herdeiro masculino, legítimo, que o substituísse. Sua esposa já entrara na menopausa e não havia conseguido.

O soberano reinava num período conturbado, em que o Estado absolutista estava em pleno processo de consolidação e a Inglaterra enfrentava rivais mais poderosos, como França e Espanha, temerosa dos conflitos religiosos que dilaceravam o continente. Casamentos reais eram assuntos de Estado, claro, mas a escolha de uma amante também impactavam politicamente, porque representavam a ascensão de grupos familiares, distribuição de favores e a escolha de determinados rumos diplomáticos. Ana Bolena, por exemplo, foi bastante influente nas relações entre Inglaterra e França , embora isso não apareça no filme.

O ponto forte de “A Outra” é a descrição da sociedade de Corte, onde tudo depende da proximidade do rei e os sentimentos pessoais são moeda de troca nas intrigas em busca de poder e privilégio. Maria é contraposta a Ana como a representante de um modo de vida mais simples, nostálgico da paz rural. Sua irmã mais velha e mais famosa é retratada como bastante à vontade nos conflitos do Palácio.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Elizabeth – A Era de Ouro



Dez anos atrás o filme “Elizabeth” contou os anos iniciais do reinado da monarca inglesa, numa excelente atuação da australiana Cate Blanchett. Vimos como a soberana superava sua timidez e fraqueza inicial para consolidar seu poder, mas também como sua ascensão ao trono cobrou um terrível preço pessoal, no afastamento de seu grande amor, o conde de Leicester. Minha seqüência favorita era a última: a rainha entrando na Corte com uma pesada maquiagem e um visual impressionante, causando devoção aos súditos. Como trilha sonora, o Réquiem de Mozart: a pessoa íntima havia morrido, a pessoa pública nascia. Na ocasião, fiquei desapontado com a falta dos grandes temas de seu reinado, como a guerra contra a Espanha. Agora meu desejo foi atendido, com o lançamento de “Elizabeth – a Era de Ouro”, que narra o apogeu de seu domínio.

Quando o filme começa, Elizabeth já tem mais de 50 anos e é uma soberana solidamente estabelecida, embora governe numa Europa convulsionada pela guerra religiosa que o rei espanhol, Felipe II, trava contra os protestantes. Nas ilhas britânicas, Elizabeth tem que se proteger do risco de um golpe católico e manter um olho sobre sua prima, a rainha da Escócia, Mary Stuart, que ela aprisionou.

Em meio às tensões crescentes com a Espanha, Elizabeth conhece o aventureiro Walter Raleigh, um misto de pirata, explorado e colonizador do Novo Mundo, que impressiona a rainha com as novidades que traz das Américas, onde fundou uma colônia em sua homenagem – a Vírgina. Ela flerta com Raleigh e lhe concede favores, mas sabe que a distância social entre os dois é um fosso intransponível. Clive Owen faz o de sempre: o tipo meio cafajeste e canastrão, mas no fundo com um coração nobre e leal.




A paixão pelo pirata lhe desperta a consciência do envelhecimento e de suas inseguranças, e isso no momento terrível em que Felipe II constrói uma gigantesca frota para invadir a Inglaterra, e surgem indícios que Mary Stuart planeja assassinar sua prima e sublevar os católicos ingleses.

Como no primeiro filme da série, o centro da narrativa é o crescimento de Elizabeth como líder política, superando aos poucos seus defeitos e suas fragilidades. Novamente, o poder cobra um preço – a ascensão da Inglaterra como grande potência também significará o isolamento de sua rainha diante dos prazeres simples da vida, que ela confessa invejar em seus súditos.

Como costuma acontecer nos filmes de época britânicos, a produção é esmerosa e bem-cuidada e Cate Blanchett merece plenamente a segunda indicação ao Oscar – a primeira foi justamente por seu papel como Elizabeth, na produção anterior. A ação talvez seja um pouco lenta, mas o visual é deslumbrante e algumas cenas realmente impressionam, como a rainha contemplando de um penhasco a Armada espanhola.

Para quem se interessa pelo tema, há um excelente seriado de TV sobre o mesmo período, chamado “Elizabeth I”. A monarca é interpretada por Helen Mirren, que foi vista recentemente como Elizabeth II no filme “A Rainha”. O seriado foca em sua relação amorosa com outro de seus favoritos, o conde de Leicester, interpretado com a verve habitual por Jeremy Irons.

domingo, 19 de agosto de 2007

Letra e Música




"A melodia é a atração física, a letra é a intimidade, à medida que o casal vai se conhecendo". O roteirista e diretor Marc Lawrence é americano, mas "Letra e Música" tem o charme das comédias românticas britâncias da produtora Working Title. Em grande parte pelos diálogos espertos, mas também pela presença do ator Hugh Grant, que está excelente como Alex, um músico que fez muito sucesso nos anos 80 com as baladas-chiclete da banda PoP, mas que caiu no ostracismo quando o vocalista largou o conjunto e voou numa bem-sucedida carreira solo.

Alex vive de animar festas de reunião do ensino médio ou tocar em "noites dos anos 80". Sua chance de um retorno triunfal ao showbusiness aparece quando a estrela do momento, a cantora Cora, lhe encomenda uma canção, mas que precisa ficar pronta em apenas alguns dias. Alex descobre que a moça que cuida suas plantas, Sophie (Drew Barrymore) é na verdade uma poeta de mão cheia e a convida para ser sua parceira. Claro que eles se apaixonam, mas os clichês são temperados por bom humor e inteligência.

O mais divertido do filme é a gozação com os anos 80, com direito a um clipe hilariante da banda PoP, com câmara lenta, cortes de cabelo da época (meu Deus, as pessoas realmente usavam coisas assim!) e atuações inesquecíveis, para usar um adjetivo ambíguo. Mas a ironia é amorosa, reconhece o quanto essa cultura pop é importante na vida das pessoas, ainda que nos estimule a não levá-la tão a sério. Não à toa, o "vilão" do filme é o escritor pretencioso que esnoba o universo das canções e dos músicos.



Embora a trama romântica não seja tão boa como em "Simplesmente Amor" ou "Um Grande Garoto", para ficar em sucessos anteriores de Grant, ainda assim há boas seqüências, de uma leveza muito simpática, como os shows meio mambembes que seu personagem faz para sobreviver, ou o jantar na casa da irmã de Sophie. O epílogo é sensacional, narrado na forma dos balõezinhos dos programas de clipe e as músicas do filme são bem legais, funcionam melhor do que muita balada por aí.

Aliás, vale elogiar a disposição de Hugh Grant para rir de si mesmo e topar um papel do sujeito que já está envelhecendo. "Mas o público ainda sente seu calor!", diz seu agente, ao que ele responde: "Sim, mas é porque muitas das mulheres da platéia já entraram na menopausa".

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Na Praia


A literatura do escritor britânico Ian McEwan é uma descoberta recente para mim. Só li um livro seu, o ótimo “Sábado”, no ano passado. Gostei ainda mais de “Na Praia”, pequeno romance sobre um casal cuja inexperiência sexual e dificuldade de comunicação afloram em sua noite de núpcias, em 1962.

A data é chave para entender o drama de Edward e Florence. Eles estão às portas da Revolução Sexual dos anos 60, mas não têm como saber disso e ainda pautam seu comportamento por padrões repressivos que não diferem muito da Era Vitoriana. Evidentemente havia muita gente se divertindo em qualquer época, mas os dois jovens têm histórias familiares difíceis e problemas sérios em se relacionar afetivamente com outras pessoas. Florence encontra consolo no Quarteto de Cordas no qual desponta como uma promissora artista, Edward vive as alegrias da descoberta de um mundo mais amplo, ao trocar o vilarejo rural onde cresceu pela universidade numa Londres que começa a ferver.

A narrativa da trama é primorosa, tanto pela maneira como McEwan entra nos sentimentos de cada personagem como no modo pelo qual retrata a época. Assim, os clubes de blues que Edward freqüenta são o contraponto ao Mozart que Florence tanto adora e um prelúdio ao rock and roll que conquistará o mundo e o próprio protagonista. As conversas com o pai da moça, um empresário conservador, dão o tom de uma sociedade que enfrenta a duras penas a perda do Império colonial e a busca de um lugar ao sol numa Europa que se integra rapidamente.

Mas o melhor é que o narrador conta a história a partir do ponto de vista deste início de século XXI, o que o permite comentários irônicos sobre as crenças dos personagens. McEwan nos mostra como o tempo dissolveu aquelas certezas morais que traziam tantos sofrimentos aos protagonistas do romance, e como o que parecia eterno era muitas vezes tão fugaz como uma noite de amor mal-vivido numa praia britânica.

A maior parte do romance se passa em 1961 e 1962, na medida em que o autor conta em flashback como o casal conheceu e se apaixonou, além de dar pinceladas sobre sua infância e adolescência. Contudo, nas últimas páginas o livro dá um salto que atravessa décadas para contar o que Edward fez de si mesmo após a noite fatídica. O truque é antigo – Flaubert e Eça o utilizaram no século XIX na Educação Sentimental e n´Os Maias. Mas McEwan dá um show. Poucas vezes vi tantos sentimentos condensados em tão pouco espaço, alegria, tristeza, esperanças frustradas e liberdades conquistadas, com o sabor agridoce da “vida que poderia ter sido e não foi”, como no verso de Manuel Bandeira. Escrita de mestre.

sábado, 14 de abril de 2007

Notas sobre um Escândalo



Grande filme na praça, e que corre o risco de passar desapercebido: "Notas sobre um Escândalo". Dirigido por Richard Eyre e estrelado por duas feras, dame Judi Dench e Cate Blanchett. O roteiro trabalha a partir do tipo de situação "inspirada em fato reais": uma professora de artes tem um caso um aluno adolescente e a história vaza para a imprensa sensacionalista, arruinando a vida dos envolvidos. Desse fiapo de enredo, sai uma trama espetacular, balizada pelo desempenho das duas atrizes.

Sheba Hart, a personagem de Blanchett, é a jovem professora de artes numa escola da periferia londrina. Os alunos, como observa sua idosa colega Barbara (Judi Dench) serão os futuros encanadores, operários e eventuais terroristas da sociedade britânica. O ambiente do colégio é ninguém-dá-muita-bola-para-nada. A direção tem uma postura politicamente correta na qual todos fingem acreditar.

Menos Barbara. Solitária e amarga, ela descarrega suas frustrações num diário, até que vê em Sheba a possibilidade de uma amiga que lhe dê companhia na velhice. Ela acompanha enciumada o frisson que a jovem e bela colega desperta nos professores e alunos, mas acabam se tornando íntimas e Sheba lhe faz confidente de suas muitas decepções com a família: a péssima relação com a mãe, um filho deficiente, um marido muito mais velho.

O envolvimento de Sheba com um de seus alunos é apenas o estopim que detona o barril de pólvora e faz vir à tona todos os ressentimentos, mesquinharias e raivas latentes, tanto na escola quanto na família de Sheba e na rotina de Barbara. Incrível como o filme constrói o clima de suspense: pela atuação das duas protagonistas, por vários pequenos detalhes no roteiro, pela trilha sonora, etc. Trabalho primoroso.