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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mar de Papoulas

O escritor indiano Amitav Ghosh tem sido comparado a mestres do romance histórico como Walter Scott e Alexandre Dumas por conta de sua triologia épica sobre as guerras do ópio, centradas na tripulação do navio Ibis. “Mar de Papoulas” é o primeiro volume, e até agora o único publicado no Brasil, e fez pensar em outro clássico: o Melville de “Moby Dick”, ao reunir um elenco multicultural de personagens para narrar os conflitos entre os impérios britânico e chinês da perspectiva da Índia, então colônia da Grã-Bretanha.

“Mar de Papoulas” não tem um protagonista, a narrativa se reveza por um grupo de pessoas que de origens muito diversas formará a tripulação do Ibis e se manterá unida ao longo da triologia: um marinheiro americano, mulato, que descobre que os mares do Oriente lhe dão a oportunidade de passar por branco, abrindo inesperados caminhos de ascensão social; um casal de camponeses indianos em fuga por conta de um amor adúltero impossível por razões de casta e honra familiar; um aristocrata indiano falido e injustamente condenado por fraude, com um insperável amigo chinês que conheceu na cadeia; uma jovem órfã francesa que herdou do pai cientista um temperamento questionador e rebelde e um elenco fascinante de personagens secundários vindos de todas as partes do globo. Eles falam uma língua mágica, um amálgama de vários idiomas, incrivelmente rico e poético. Aviso – li o original em inglês e ignoro como ficou a tradução para o português, é uma tarefa dificílima adaptar a inventividade do autor.

O navio também é parte do elenco. O Ibis transportava escravos da África para as Américas, mas quando a Grã-Bretanha começou a combater esse comércio, ele foi adaptado para outros negócios, como levar ópio da Índia à China e carregar prisoneiros e trabalhadores que assinaram contratos de “servidão por dívidas” para colônias européias.

O romance começa com a chegada do Ibis à cidade indiana de Calcutá, depois de uma jornada tumultuada que começou na América do Norte e passou pelo Cabo da Boa Esperança e pelas Ilhas Maurício. O contexto histórico é o da década de 1830. Os britânicos dominam a Índia, sobretudo por meio da Companhia das índias Orientais, e estão em sérias tensões com a China. Importam de lá seda, porcelana e outros artigos caros, mas não conseguem fazer com que os chineses se interessem por suas manufaturas. Até que o ópio desponta como solução para o déficit comercial.

O ópio é uma droga poderosa fabricada a partir da papoula, cultivada na Ásia meridional. No tempo do império britânico, a Índia era o principal centro produtor (hoje em dia, é o Afeganistão, as receitas financiam os Talibãs). Os lucros eram tão fabulosos que as melhores terras viraram plantações monocultoras dedicadas às exportações para a China, com os grandes comerciantes tomando terras de camponeses e rivais mais fracos. Naturalmente, as autoridades chinesas se preocuparam com a situação e tentaram proibir o ópio, levando a uma série de guerras pelas quais os britânicos impuseram não só o produto, mas também sua dominação territorial sobre vários dos portos do país.

Os personagens de Ghosh são arrastados pelos acontecimentos e têm posições ambíguas com relação ao ópio, de fascínio, medo ou desprezo. Alguns são viciados na droga. Seu épico é uma visão pós-colonial da globalização, o que significa que ele é muito crítico dos britânicos e dos valores de seu império: todos os personagens cristãos e ingleses são maus e trapaceiros, bem como a maioria dos indianos associados a eles. Ghosh é mais simpático aos franceses e americanos, bem como a hindus e muçulmanos. Seus perfis psicológicos são simples, por vezes maniqueístas (não chega nem perto de um Joseph Conrad, por exemplo) seu ponto forte é a compreensão de várias culturas e o modo como narra de forma divertida e inteligente os desencontros entre elas, bem como as sínteses inesperadas.

“Mar de Papoulas” é apenas o primeiro volume da triologia, e basicamente conta a história de como a tripulação do Ibis se conheceu. O segundo livro da série, “River of Smoke”, já foi publicado, com muitos elogios. Há um quê de “Senhor dos Anéis” ou “Guerra nas Estrelas” no estilo e escala do trabalho de Ghosh, em seu entretenimento de alta qualidade.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Modelos de Desenvolvimento: China e Índia



China e Índia são potências ascendentes e duas das mais impressionantes histórias de sucesso do mundo pós-Guerra Fria. Ambas têm culturas milenares, mas sistemas políticos muito diferentes, com o contraste entre a ditadura chinesa e a democracia indiana quase sem interrupções desde a indpendência em 1947. Por isso é um deleite ler o artigo do economista Amartya Sen, na New York Review of Books, comparando a qualiade de vida nas duas nações. As estatísticas favorecem a China, mas ele afirma que elas não contam tudo e que é preciso olharmos para as questões políticas. Sen é indiano e recebeu o Nobel por seus estudos que destacam exatamente a importância dos fatores não-econômicos para o desenvolvimento.

Comecemos pelos dados básicos. A China tem um PIB maior e cresce mais rápido e seus indicadores para expectativa de vida, alfabetização, anos de educação, mortalidade infantil são bem melhores do que os da Índia. Na realidade, em alguns quesitos os indianos ficam atrás do vizinho Bangladesh, que é mais pobre, mas tem melhores políticas sociais e discrimina menos as mulheres.

O ponto forte da qualidade de vida na Índia é a existência das liberdades civis e políticas básicas. Democracia, livre opinião e associação. Os primeiros trabalhos de destaque de Sen como economista argumentavam que essas condições explicavam por que não houve fomes massivas com milhões de mortos no país após a independência, ao contrário das diversas mortandades que ocorreram no período colonial e de tragédias semelhantes na China comunista, em ocasiões como o “Grande Salto Adiante” de Mao Tse-Tung. Para Sen, governos autoritários não conseguem lidar com fome porque lhes faltam informações adequadas para mensurar o problema, seus funcionários mentem para os superiores e não há outros atores (imprensa, partidos de oposição, movimentos cidadãos) para fornecer dados que contrariem a versão oficial.

Ele leva o argumento mais longe, defendendo o primado da democracia como melhor instrumento de política social, por ser mais sensível às demandas populares. Faz sentido – basta olhar, por exemplo, a experiência da América Latina ou de países como a África do Sul - mas com cautelas. Como Sen mostra no artigo, a ditadura chinesa tem melhor saúde pública do que a democracia indiana, embora o primeiro país tenha medidas muito mais instáveis nesse campo, e o segundo apresente uma curva ascendente de acesso à medicina.

A questão é que democracias e ditaduras têm muitas maneiras de se manifestarem, um amplo conjunto de instituições, práticas e modos de organização do Estado. O regime político indiano é permeado por muito autoritarismo, nos preconceitos de casta, violência religiosa e na longa insurreição maoísta dos naxalitas. Os efeitos do Estado chinês também variam bastante entre cidade e campo, entre a etnia han e as miorias no Tibete e Xinjiang, ou na ação dos governos subnacionais, com as administrações mais competentes no sul.

Sen foi um dos criadores do Índice de Desenvolvimento Humano, que além de levar em conta a renda, aborda temas sociais como educação e expectativa de vida. Muitos novos indicadores procuram mensurar outros aspectos fundamentais, como meio ambiente saudável e há até o esforço para tentar medir a felicidade. Este é um debate importante não apenas para China e Índia, mas também para o Brasil, pela busca de modelo de desenvolvimento sintonizado com o século XXI, porque a importância crescente da exportação de commodities na economia brasileira conduz a discussões que são regressivas em termos dos direitos existentes hoje no país.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Cartada Indiana dos EUA



Nesta semana, Barack Obama declarou em discurso no parlamento indiano que a Índia deveria fazer parte do Conselho de Segurança da ONU e que o país não era mais uma “potência emergente”, porque já havia emergido. O afago de Obama tem pouca conseqüência prática, mas importa como símbolo. O apoio dos Estados Unidos à Índia é uma guinada relativamente recente na política internacional, da década de 1990 para cá. As duas nações superaram a desconfiança mútua da época da Guerra Fria, basicamente por três razões: o medo da ascensão da China, interesses econômicos e a preocupação com a influência dos fundamentalistas no Paquistão após os atentados de 11 de setembro e a longa guerra no Afeganistão.

Indianos e americanos têm fortes afinidades – democracias multiculturais e a coexistência de um Estado laico com intensos sentimentos religiosos – mas durante muito tempo tiveram relações diplomáticas ruins. A Índia se tornou independente com a agenda externa voltada para o “não-alinhamento”, mas na prática foi bastante próxima à União Soviética e a diversos regimes marxistas no mundo em desenvolvimento. Os Estados Unidos, por sua vez, se tornaram aliados de dois rivais indianos – primeiro, do Paquistão, e na década de 1970, da China.



Índia e China foram à guerra nos anos 60, por uma fronteira mal definida no Himalaia (os chineses venceram, mas a área continua em disputa) e persistem tensões pela repressão comunista aos budistas no Tibete – muitos se exilaram junto aos indianos. As relações econômicas estão excelentes e o amplo fluxo de comércio e investimentos fez com que Pequim e Nova Délhi mantivessem os conflitos em segundo plano. Mas estão lá.

O dinamismo econômico indiano, a partir da década de 1990, também tornou o país importante para os EUA. Muitas empresas americanas terceirizam serviços de tecnologia da informação para firmas na Índia, há uma grande e influente comunidade indiana nos Estados Unidos e um país de um bilhão de habitantes superando a pobreza e ingressando na classe média é um paraíso para comerciantes e investidores.

O elemento mais relevante da aproximação entre os dois países foi a assinatura de um acordo de cooperação nuclear entre ambos, apesar da Índia nunca ter se submetido aos regimes de controle de armas atômicas.

O Paquistão é oficialmente aliado dos Estados Unidos, mas o controle do Estado paquistanês sobre seus territórios montanhosos de fronteira, e sobre parcelas importantes de seus próprios serviços de inteligência e Forças Armadas é tênue. As redes terroristas (Al Qaeda, Talibãs) continuavam ativas no país e realizando ataques contra a OTAN no Afeganistão e atentados de grande porte, como os que atingiram a cidade de Mumbai, o centro da economia indiana. Além da persistência da questão da Cachemira. Com aliados desse tipo, não estranha que o governo americano procure relações mais sólidas com a Índia.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os BRICs e o Câmbio Chinês



Dias atrás os BRICs fizeram sua segunda reunião de cúpula, em Brasília. O bom desempenho dos países do grupo (com exceção da Rússia) em meio à crise econômica global os tornaram estrelas em rápida ascensão também na política internacional. Contudo, muitos analistas mantém-se céticos quanto à capacidade de constituírem uma aliança coerente, devido à diversidade dos perfis comerciais, dos regimes de governo e do longo histórico de rivalidades entre os membros asiáticos da sigla. Os debates sobre o câmbio chinês são um teste importante para a possibilidade dos BRICs se tornarem uma coalizão coesa. Tema, aliás, de excelente artigo publicado nesta semana na Economist.

A China tem mantido sua moeda subvalorizada em relação ao dólar, o que a deixa ainda mais competitiva no comércio internacional. O lado ruim, para o governo chinês, é que isso cria pressões inflacionárias, que até aqui tem sido mantidas razoavelmente sob controle. O problema pode ficar mais sério: a inflação de grande porte ao fim do período nacionalista (décadas de 1910-1940) é um trauma nacional, e o surto de menor escala ocorrido nos anos 80 contribuiu bastante para a eclosão dos protestos da Praça da Paz Celestial.



Os Estados Unidos têm pressionado a China para que mudem sua taxa de câmbio e diminuam um pouco a pressão sobre os mercados americanos. Os chineses têm se recusado de maneira resoluta. O Brasil tem uma moeda sobrevalorizada com relação ao dólar, e portanto ainda mais no que diz respeito ao yuan chinês. Resultado: a política cambial de Pequim prejudica bastante o comércio exterior brasileiro com a China, principal destino das exportações do país. A novidade é que agora Brasil e Índia se uniram para solicitar ao governo chinês que valorize sua moeda. Será que os pedidos dos amigos em Brasília e Nova Délhi serão ouvidos com mais simpatia do que as demandas de Washington?




À primeira vista, a resposta seria "não", dada a rigidez com a qual a China defende seus interesses econômicos. Mas Pequim tem buscado, de modo muito consistente, apresentar uma face suave para os parceiros no mundo em desenvolvimento, participando de todas as principais coalizões desses países (acima). Não é impossível que as concessões pudessem abarcar também aspectos econômicos significativos, em especial pela mensagem que passaria à comunidade internacional: a de que os BRICs virariam interlocutores essenciais para as grandes questões globais, inclusive as que lidam com assuntos duros, como economia.

Ainda sobre os BRICs: não deixem de ler o perfil de Jim O´Neill, o executivo do banco de investimentos Goldman Sachs que criou a sigla num estudo sobre perspectivas da economia internacional. O texto foi publicado pelo Financial Times e é uma jóia do jornalismo de política e de negócios.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A Terceira Margem



Neste dia em que tudo indica que a Cúpula de Copenhage irá terminar frustrando as esperanças sobre um acordo global a respeito da mudança climática, uma excelente leitura é o recém-lançado “A Terceira Margem: em busca do ecodesenvolvimento”, as memórias do economista polonês Ignacy Sachs. O livro é um ótimo apanhado das discussões sobre desenvolvimento no pós Segunda Guerra Mundial, enriquecido pela experiência de vida do autor nos “três mundos”: França (nações ricas), Polônia (socialismo real), Brasil e Índia (países em desenvolvimento) e com interlocutores extraordinários como Michal Kalecki, Amarthya Sen, Maurice Strong, Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso.

Sachs nasceu numa rica família de banqueiros e morou em Varsóvia até a adolescência. Teve que fugir do país às pressas, quando a Alemanha nazista o invadiu em 1939, pois era judeu. Terminou no Brasil, onde se formou em economia e morou até meados dos anos 50, trabalhando principalmente para a representação diplomática da Polônia já ocupada pela URSS. Sachs havia se casado no Brasil com uma refugiada polonesa e o jovem casal resolveu embarcar na aposta de construir um “socialismo com face humana”, o que parecia uma boa chance na época do reformista governo Gomulka e do degelo pós-Stalin.

Por conta da temporada brasileira, Sachs foi se tornando um especialista no Terceiro Mundo, e suas análises da economia e dos problemas desses países eram um terreno relativamente seguro para a ortodoxia comunista, não despertavam muitos medos. Em Varsóvia, ele se tornou assistente de Michal Kalecki, genial economista que foi um dos inventores da macroeconomia e inclusive antecipou várias idéias de Keynes.



As portas se abriram rapidamente e Sachs passou uma instrutiva temporada na Índia, como adido na embaixada polonesa. Lá cursou o doutorado num período em que Nova Délhi era parada obrigatória da maioria dos intelectuais de destaque, interessados em conhecer o governo de Nehru e a tentativa indiana de construir uma posição não-alinhada na Guerra Fria. Os capítulos sobre a Índia são muito bons, em particular a narrativa dos encontros do autor com Amartya Sen e suas tentativas de compreender a mensagem de Gandhi.

Mas o retorno à Polônia foi dificil, pois o país já começava a passar pela crise que culminou na queda de Gomulka, e os judeus foram particularmente visados. Como Sachs já era uma figura respeitada no circuito internacional, conseguiu se estabelecer na França, como professor universitário em Paris, e iniciou uma longa carreira de consultor para diversas agências da ONU e muitos governos estrangeiros, inclusive o do Brasil.

Sachs se dedicou a diversos temas desde então, mas sem dúvida o mais singnificativo para sua obra foi incorporar as preocupações sobre Meio Ambiente à agenda do desenvolvimento, algo que começou por sua amizade com o milionário canadense Maurice Strong e participação destacada em todas as grandes conferências da ONU sobre o tema – Estocolmo, Rio, Johannesburgo. Seu relato mostra como o assunto foi aos poucos conquistando parcelas crescentes da opinião pública e dos próprios governos, embora os impasses em Copenhage sejam ilustrativos dos muitos problemas da área.

Infelizmente, Sachs não escreve muito sobre a França no livro, seria interessante saber como ele observa as várias transformações pelas quais a sociedade francesa passou desde 1968, quando ele se estabeleceu em Paris. Mas o Brasil recebe bastante espaço em suas memórias, permanecendo um dos seus principais temas de pesquisa – ele dirige o Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. O próprio título de suas memórias vem, claro, do belo conto de Guimarães Rosa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A Internacionalização dos BRICs



Nesta semana fui a Minas Gerais e participei de um congresso acadêmico sobre internacionalização das empresas dos BRICs, realizado na Fundação Dom Cabral. É o tipo de evento que ilustra bem as novas tendências das relações internacionais. Os países do bloco somam ¼ do PIB global e são responsáveis por mais de 40% do crescimento econômico mundial. Com exceção da Rússia, têm demonstrado dinamismo e capacidade de recuperação frente à crise atual, o que os coloca no centro da estratégia de muitas empresas para voltar a crescer.

Além disso, ao longo desta década os BRICs lograram criar suas próprias transnacionais. Os chineses estão muito presentes na área de infraestrutura e energia, e começaram a adquirir marcas globais (como a Lenovo fez com a IBM). Os indianos se destacaram em tecnologia da informação e em aço, os russos em petróleo e gás.

Na conferência da Dom Cabral acompanhei as palestras de executivos das principais empresas brasileiras e gostei muito do que ouvi, inclusive pela percepção generalizada de que não existe um modelo único para as firmas do país. Muita coisa ainda ocorre por tentativa-e-erro e permanecem vários desafios, em particular na China.

As multinacionais brasileiras começaram a atuar na década de 1970 e se ampliaram nos anos seguintes com firmas de construção civil que buscaram nos mercados externos o dinamismo perdido quando o governo suspendeu os grandes projetos de infraestrutura, após a crise da dívida. Mas foi só nos anos 2000 que a tendência se tornou forte, em grande medida pelos impactos combinados da estabilização e da abertura da economia, que facilitaram condições para a ação internacional, ao mesmo tempo em que intensificaram a competição com as firmas estrangeiras.

Setores inteiros da economia brasileira, como eletrônicos e autopeças, não conseguiram enfrentar a situação e passaram para o controle de empresas de outros países. Mas houve muitas firmas nacionais que floresceram no novo ambiente, como Vale e Embraer. Também há perspectivas interessantes na internacionalização de serviços, como automação bancária e software.

Em geral, as multinacionais brasileiras começam suas operações no exterior pela América Latina, por acreditarem que é mais fácil trabalhar nos países vizinhos, pela proximidade cultural. Daí partem para outras regiões, principalmente América do Norte e Europa.

A contribuição dos acadêmicos indianos também foi muito interessante, sobretudo na ênfase que deram para a busca de modelos de negócios adaptados à realidade dos países em desenvolvimento. Por exemplo, empresas que se especializem em vender à população de baixa renda, ou a classe média que ascende em todos esses países.

Em suma, o tema é interessante. Vou ler com calma os livros e artigos que recebi na conferência, mas já penso em dar um pequeno curso sobre o assunto.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As Letras que Formam os BRICs



No fim de maio o Sergio Leo lançou em seu blog uma discussão sobre a política externa brasileira no que diz respeito aos BRICs. Os textos citados pelo Sergio, e os comentários dos leitores, basicamente apontavam para duas vertentes: aqueles que vêem a aproximação entre Brasil, Índia, Rússia e China como o embrião de uma aliança de potências emergentes e os que consideram que os interesses entre esses países são muito divergentes e que sigla pouco mais significa do que uma etiqueta de firmas de consultoria para designar nações de grande potencial econômico.

Proponho uma terceira interpretação, baseada em alguns debates dos quais tenho participado no Estado: a idéia de que os BRICs se tornaram uma importante referência internacional para a formulação de políticas públicas, e que a tendência é que seus membros passem a olhar com mais atenção uns para os outros, em busca de lições para seus processos de desenvolvimento. De modo crescente, é também nesse grupo que os EUA e a União Européia têm classificado o Brasil.

Talvez quem mais tenha dado voz a essas inquietações dentro do governo seja o ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, que tem destacado em diversas entrevistas as possibilidades da maior aproximação entre os BRICs. O Instituto de Pesquisa Econômicas Aplicadas (IPEA), vinculado à pasta de Mangabeira, também tem feito uma série de levantamentos sobre as transformações recentes desses países.

Um exemplo é o estudo recém-publicado sobre a internacionalização das empresas chinesas, e das políticas de apoio governamental a esse movimento. Pouco antes de me tornar funcionário federal tive a oportunidade de participar de um debate com o presidente do IPEA, o economista Marcio Pochmann, e fiquei impressionado com a atenção que ele tem dado às mudanças nas relações internacionais. Sua ênfase me surpreendeu, já que sua especialização era em outros temas, mais ligados a mercado de trabalho e combate ao desemprego.

Variação sobre o tema dos países emergentes é usar outras combinações de países que não as dos BRICs, e no governo brasileiro há iniciativas interessantes envolvendo outra sigla, o IBAS – Índia, Brasil e África do Sul. Três democracias com graves problemas de inclusão social, mas também de experiências para tentar superar esses problemas. A Escola Nacional de Administração Pública criou um fórum de intercâmbio com suas congêneres nesses países, e o Ministério das Relações Exteriores inaugurou uma divisão para cuidar das relações entre as três nações.

No momento atual, me parece que o desafio para o governo brasileiro é coordenar e sistematizar diversas iniciativas dispersas pelos vários órgãos públicos, ou mesmo as ações individuais, como pesquisas apresentadas nas escolas militares e diplomáticas. É preciso fazer o levantamento do que se procura em cada país e de como seus programas podem contribuir para as políticas públicas brasileiras. Há candidatos óbvios, como as ações chinesas de estímulos às exportações, ou os projetos indianos de incentivo às indústrias de software e tecnologia da informação.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Elegia para Mumbai



Entre os dias 26 e 28 de novembro, um pequeno grupo de talvez 10 terroristas atacou a capital financeira da Índia, Mumbai (Bombaim), matando cerca de 200 pessoas numa série de atentados contra restaurantes, praias, estações de trens, hospitais e centros culturais judaicos, culminando com a tomada do Taj Mahal Palace, o hotel mais luxuoso da cidade (mapa acima). As atrocidades foram atribuídas ao Lashkar-e-Taiba, um grupo terrorista com raízes no Afeganistão e no Paquistão, muito ativo na Cachemira. Como as outras organizações extremistas da região, tem vinculos profundos com os serviços de inteligência paquistaneses, e os ataques podem ter sido uma tentativa de inviabilizar a recente tentativa da aproximação entre Índia e Paquistão.

A Índia sofre com terrorismo religioso desde sua independência, ocorrida em meio a confrontos genocidas entre a maioria hindu e a minoria muçulmana que resultaram em um milhão de mortos. Nas décadas seguintes houve diversos atentados comentados por grupos fundamentalistas das duas crenças, ataques lançados por sikhs e tamils, com os assassinatos dos primeiros-ministros Indira e Rajiv Gandhi, e a longa ameaça da guerrilha comunista dos Naxalitas. Após o 11 de setembro, os choques entre hindus e muçulmanos se intensificaram, com os piores momentos acontecendo nos massacres cometidos em nome do hinduísmo em Gujarat e nos atentados perpretados a pretexto do Islã contra o parlamento indiano, que quase levaram a outra guerra entre Índia e Paquistão. O ano de 2008 tem sido particularmente violento.

Mumbai é a cidade mais cosmpolita da Índia, um emaranhado de povos, religiões, culturas e estilos de vida que formam a área mais dinâmica, caótica e fascinante do país. Por seu papel econômico, também é a porta de entrada para os estrangeiros, e não por acaso os terroristas tiveram como alvo exatamente os locais mais freqüentados por pessoas de outros países, em particular dos Estados Unidos e da Europa.

A persistência e aprofundamento da democracia indiana em meio a essa história sangrenta é um milagre, totalmente inesperado diante das previsões das teorias tradicionais da ciência política. Mesmo em constraste com as atrocidades do passado, os ataques dos últimos dias em Mumbai foram chocantes e diversos altos funcionários indianos da área de segurança renunciaram a seus postos, embora ainda não esteja claro se a decisão é definitiva.

O Partido do Congresso, atualmente no poder, enfrenta uma feroz oposição dos nacionalistas hindus do BJP, e precisa lidar também com a fúria e a indignação da população, que se sente desprotegida e acusa o governo de negligência diante do terrorismo. É provável que nas próximas semanas sejam apresentadas novas leis de combate ao terror, e algum tipo de reorganização administrativa, com reforma ou criação de órgãos públicos para enfrentar a ameaça.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

À Procura de Gandhi



Ontem assisti a mais um excelente documentário da série “Por que democracia?” - espero que as produções sejam lançadas em conjunto, numa caixa de DVDs ou algo assim. Desta vez o tema foram as desigualdades sociais na Índia, no filme “À Procura de Gandhi”, do cineasta Lalit Vachani.

O diretor refez o percurso de mais de trezentos quilômetros da “Marcha do Sal”, que Gandhi havia conduzido em 1930 para protestar contra o monopólio sobre o produto exercido pela Coroa britânica. A manifestação foi um marco do movimento pela independência da Índia. Vachani percorre o caminho e vai conversando com as pessoas sobre Gandhi, constatando que as idéias de tolerância e não-violência do líder foram esquecidas, ou passaram a ser consideradas incômodas, e em seu lugar surgiu um amálgama de consumismo, individualismo exacerbado (com profunda desconfiança do Estado e dos outros cidadãos) e fundamentalismo religioso hindu e muçulmano. Mas também afloraram novas mobilizações sociais, em particular entre os mais pobres.



A viagem começa em Gujarat, a província natal de Gandhi. A região é governada por Narendra Modi, que incorporou o discurso da modernização e de transformar Ahmedabad, a capital provincial, numa “cidade global”. Ao mesmo tempo estimula o fundamentalismo hindu como maneira de se manter popular. Em sua administração a economia cresceu, mas também ocorreram uma terrível onda de violência religiosa, na qual pelo menos mil muçulmanos foram assassinados e vários outros tiveram suas casas destruídas. A polícia ficou de braços cruzados, enquanto as atrocidades aconteciam.

O cineasta visita alguns pontos célebres da marcha, como a ponte Ellis, onde Gandhi fez um famoso discurso. Agora existe uma favela embaixo da ponte, que está ameaçada de ser despejada pelo governador Modi.

As contradições da democracia indiana também estão presentes na zona rural – não poderia ser de outro modo num país em que mais de 2/3 da população depende do campo para sobreviver. Vachani atravessa as pequenas aldeias por onde Gandhi passou e descobre que os locais onde ele se hospedou foram abandonados ou destruídos, e que muitas de suas estátuas estão trancadas ou escondidas. O momento mais impressionante é a conversa que ele tem com um homem muito idoso, que participou da marcha do sal. Embora ele fale com respeito dos ideais de pacificismo, também mergulha numa diatribe violenta contra os muçulmanos.

Contudo, Vachani encontra igualmente sinais de progresso e melhoria na Índia. A nova riqueza material é palpável, com uma ampla classe média aproveitando os frutos da tecnologia e as maravilhas do consumo.

Ele também se impressiona com a força do movimento dos Dalits, as pessoas que estão de fora do sistema de castas e ocupam a posição social mais baixa na sociedade indiana. Gandhi os chamava de Harijan, os Filhos de Deus, e condenava a discriminação contra eles – posição endossada na Constituição da Índia, que criou programas de ação afirmativa. Hoje o termo Harijan é considerado paternalista e pejorativo, assim como o mais conhecido “intocáveis” e a expressão mais usada é “dalit”, que significa algo como “oprimido”. O cineasta conversa com os ativistas, inclusive um que foi eleito prefeito de seu vilarejo. Naturalmente, o racismo persiste e o ódio é bastante explícito nas entrevistas do filme.

Dica para quem se interessa por Índia e quer conferir uma perspectiva brasileira sobre o país: visitem o sítio do Sergio Leo, que começou a postar sobre sua recentíssima viagem por essa nação.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Mundo Pós-Americano



Há poucos dias mencionei de passagem o livro “The Post American World”, do cientista político Fareed Zakaria. A obra me chegou pelo correio num pacote da Amazon, junto com uma série de estudos sobre a Índia, e foi minha leitura do fim de semana.

Primeiro, algumas palavras sobre o autor: Zakaria é indiano. Seu pai foi vice-presidente do poderoso Partido do Congresso, sua mãe editou um dos principais jornais do país. O rapaz cresceu numa mansão do aristocrático bairro de Malabar Hills, em Mumbai (Bombaim) e optou por cursar a universidade Yale nos Estados Unidos, em formação acadêmica que culminou com o doutorado em Harvard. Foi o editor mais jovem da revista Foreign Affairs, apresenta um programa sobre política internacional na CNN e coordena as edições internacionais da Newsweek. Escreveu três livros, incluindo uma obra-prima (“From Wealth to Power: the unusual origins of America´s World Role”). Vem sendo apontado como um novo Kissinger ou Brzezinski, um imigrante capaz de ascender aos mais altos cargos da diplomacia americana.

Passemos às idéias. O argumento central do livro é que a ordem internacional dos próximos anos será marcada pela ascensão de potências fora do eixo tradicional EUA-Europa, em virtude da difusão do desenvolvimento econômico e da integração bem-sucedida de Estados periféricos à economia global. Embora Zakaria afirme que os astros emergentes estão em toda parte, inclusive América Latina e África, os países que ele realmente destaca são todos asiáticos: China e Índia. Com menções mais do que ocasionais, e sempre elogiosas, ao Brasil.



Zakaria chama a China de “o desafiante” e a Índia de “a aliada”. Obviamente, as duas classificações dizem respeito à posição desses países diante dos Estados Unidos. Apesar de indiano de nascimento e criação, o autor usa a expressão “nós, os americanos”, ainda que fale do desenvolvimento de seu país natal com grande admiração. Ele não compra a tese do “choque de civilizações”. Seu argumento é que o melhor caminho para os Estados Unidos prosperarem no mundo pós-americano é buscar a parceria com a Índia, em função de seus valores e interesses comuns (democracia, contenção da China) e reforçar/reformar as instituições multilaterais, para dar mais espaço à participação dos países em desenvolvimento. É quase uma plataforma para se candidatar a Secretário de Estado ou Conselheiro de Segurança Nacional.

O ponto forte do livro, sem dúvida, são as análises sobre a Índia. Zakaria conhece profundamente o país e tem uma visão ampla e crítica dos erros e problemas nacionais, em particular em suas estratégias de desenvolvimento econômico e política externa. Gostaria no entanto que ele abordasse mais a questão dos papéis que a Índia pode desempenhar na Ásia, porque a discussão se concentra muito na relação com os Estados Unidos e nas fascinantes semelhanças entre os dois países. Talvez de modo inevitável, dada a biografia do autor.

As análises sobre a China não são tão ricas, mas o grande “senão” do livro é ausência de discussão profunda a respeito da Rússia. O que fazer com o poderio ressurgente de Moscou? A pergunta tem ressoado entre os EUA e as capitais da União Européia, sem que se tenha conseguido formular uma resposta unificada ou coerente, diante das tensões que envolvem a guerra no Cáucaso, corrida armamentista e cooperação/conflito em programas de energia e de cooperação tecnológica espacial.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O Descongelamento do Poder Mundial



Noves fora a crise econômica dos Estados Unidos, dois acontecimentos recentes mostram que estamos caminhando para algo como “o mundo pós-americano”, para citar o título do livro de Fareed Zakaria. Os chineses realizaram sua primeira caminhada no espaço, e ontem o Senado dos Estados Unidos ratificou o acordo nuclear com a Índia.

Há quarenta anos entrou em vigor o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), memoravelmente descrito pelo diplomata brasileiro Araújo Castro como um acordo que visava ao “congelamento do poder mundial”. Proibia o desenvolvimento de armas atômicas pelos países que não as tivessem. Estabelecia vagas, muito vagas, promessas de que EUA, URSS, França, Reino Unido e China um dia se desarmariam e seriam felizes para sempre.

Os Estados que aderiam ao TNP recebiam vantagens na forma de cooperação científica e tecnológica, os que se recusavam a assiná-lo eram pressionados a fazê-lo, através de sanções e embargos. Brasil e Índia estiveram entre os principais opositores do acordo. O governo brasileiro mudou de idéia e o ratificou em 1998. No mesmo ano, as autoridades indianas explodiram sua bomba nuclear, durante o governo do partido nacionalista hindu, o Bharatiya Janata. Enfrentaram os Estados Unidos, mas se beneficiaram da ajuda da França e Rússia. O vento acabou mudando em Washington, já no fim da presidência de Clinton. Em grande medida porque a Índia nuclear é boa aposta para se contrapor à China e ao Paquistão, caso este último país desmorone.



Contudo, não basta ter ogivas atômicas, é preciso ter também vetores para lançá-las sobre os inimigos. Bombardeios de longo alcance, submarinos e mísseis. Os indianos têm se dedicado em especial a estes últimos apesar de sofrerem restrições tecnológicas, por não terem aderido a acordos de controles dessa tecnologia. Ainda assim, desenvolveram mísseis sofisticados, como o Agni III (acima), a nova estrela de suas paradas militares.

A China possui armas nucleares desde 1964. Sua maior novidade militar é a expansão de ambicioso programa espacial, que deve levar chineses à Lua em 2020 e construir uma estação espacial. O país já havia colocado um astronauta em órbita e há poucos dias realizou sua primeira caminhada espacial. O coronel que a executou é filho de uma camponesa que vendia sementes de girassol – outra ilustração da incrível mobilidade social do país.



Tais pesquisas têm muitas aplicações civis, mas os recados militares são claros: os foguetes usados nos programas também demonstram a capacidade balística para fins bélicos. Por exemplo, os chineses derrubaram um de seus velhos satélites com um míssil.

Os americanos entendem perfeitamente o risco que esse poder significa, em especial num momento ruim para seu próprio programa. A NASA pode se deparar com a situação humilhante de depender da Rússia para levar astronautas americanos à Estação Internacional – os ônibus espaciais estão para ser aposentados em função do alto custo e da falta de segurança (Challenger, Columbia) e os substitutos só devem operar a partir de 2015.

Como se pode ver pelas menções aos países deste post, o mundo pós-americano é sobretudo um cenário asiático, mas não está claro para mim quais as dinâmicas regionais que se estabelecerão entre os principais atores. China e Índia são rivais há tempos, a Rússia atualmente tem boas relações com os dois. E Japão? Coréia do Sul? Os novos tigres, como Indonésia, Tailândia, Malásia?

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Diálogo com a Índia


Entre as muitas ameaças à paz mundial, uma me preocupa em especial: a próxima novela de Glória Perez será sobre as relações entre Brasil e Índia, narrada a partir de uma história de amor bi-nacional. Sim, ela já fez isso em América, deixando traumas indeléveis entre as nações retratadas na trama. Enquanto as ogivas nucleares indianas não sobrevoam os oceanos rumo ao Projac, mergulho no estudo do país, que talvez seja o primeiro passo rumo a uma pesquisa mais ampla sobre estratégias de desenvolvimento na Ásia.

Quinta e sexta estive no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, para seminários sobre a Índia e a respeito do Diálogo que ela mantém com Brasil e África do Sul (Fórum IBAS). Acompanho o tema desde a criação da iniciativa e é impressionante a reação positiva da comunidade acadêmica brasileira, com a fundação de centros ou programas de estudos nas universidades de Brasília e Federal de Minas Gerais. Está em formação no país uma equipe de pesquisadores dedicados a entender a ascensão global indiana.

Grosso modo, a história econômica da Índia entre 1947 e 1991 é a de realizações modestas, simbolizadas no que ficou conhecido como “taxa de crescimento hindu”, de 3%ao ano. O modelo de substituição de importações era ainda mais fechado do que os implementados na América Latina - bem mais restritivo ao investimento externo, o país chegou a expulsar a Coca Cola! O sistema de permissões e autorizações, o Licence Raj (Raj era o domíno britânico na Índia) era um poço de ineficiência e corrupção.

A crise do modelo veio com a Guerra do Golfo, devido ao aumento nos preços do petróleo e a repatriação de centenas de milhares de indianos que trabalhavam nos países árabes, cujas remessas em dólares eram fundamentais para manter as contas nacionais equilibradas. Houve um movimento de liberalização, ainda que mais limitado do que na América Latina, e a ascensão de setores dinâmicos da economia, como a indústria de software e de telecomunicações – a Índia é talvez o principal centro de terceirização mundial de atividades como call centers e contabilidade empresarial.

A guinada econômica foi acompanhada por transformações na política externa, que abandonou a proximidade com a Rússia por uma semi-aliança com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que procura lidar com tensões mal-resolvidas com a China e as eternas disputas com o Paquistão, e agora ambos os países são potências nucleares. Além disso, a Índia iniciou a estratégia diplomática de “Olhar para o Leste”, reforçando vínculos com as potências econômicas da Ásia-Pacífico.

Natural que esta amplitude de horizontes signifique mirada mais profunda àquela outra grande democracia em desenvolvimento, o Brasil. Há intensa cooperação entre os dois governos na ONU e na OMC (embora o protecionismo agrícola indiano tenha atrapalhado bastante a Rodada Doha), comércio crescente e muitos projetos de cooperação. Me parece que agora as respectivas sociedades também começam a se examinar com atenção, em busca de possibilidades conjuntas de negócios, aprendizados e parcerias.

Mais do espectador, quero ser parte do processo. Tenho lido bastante sobre a Índia e há diversas obras sobre o país na minha lista. Um amigo que leciona na Inglaterra me convidou para enviar trabalhos para uma conferência que ele prepara a respeito do Fórum IBAS. A idéia é ótima, mas não sei se terei tempo de apresentar um trabalho no prazo. Gostaria de entender o aspecto econômico, diplomático e as mudanças políticas internas, como o fortalecimento do fundamentalismo religioso hindu.

Também planejo viajar à Índia em algum momento dos próximos anos e conhecer pelo menos a capital, Nova Délhi, e os centros financeiros e tecnológicos – respectivamente, Mumbai (Bombaim) e Bangalore. Quem sabe o interesse não se misture com algumas das tarefas que eu assuma na minha nova vida de tecnocrata?

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A Distância entre Nós



Ontem à tarde tivemos uma reunião de planejamento aqui no trabalho e disse que gostaria que discutíssemos mais a fundo o tema da desigualdade, para examinar as transformações que estão em curso no Brasil (como a ascensão da classe C). Afirmei também que estávamos muito presos ao formato acadêmico tradicional, de leitura de artigos especializados, e que deveríamos buscar inspiração em outras fontes, sobretudo na arte. Muito da minha opinião veio da leitura do romance “A Distância entre Nós”, da escritora indiana Thrity Umrigar.

O enredo soa dolorosamente familiar para qualquer brasileiro e não por acaso o livro chegou a ser best seller por aqui: é a narrativa da relação entre duas mulheres, uma dona de casa de classe média alta e sua empregada doméstica. Ambas convivem diariamente há mais de 20 anos e desenvolveram uma intensa confiança e admiração mútua. Mas o abismo da desigualdade que as separa está sempre presente e traz conseqüências trágicas para ambas.

A narrativa se divide entre as famílias das duas mulheres, tendo como pano de fundo a turbulenta, multicultural e caótica cidade de Mumbai (a tradução brasileira optou pelo nome antigo de Bombaim, que não é mais usado na Índia). Sera é a filha de cientistas que se casou com um executivo do Grupo Tata, o mais poderoso império industrial do país. Eles tiveram uma vida confortável financeiramente, mas marcada pelas difíceis relações de Sera com a sogra, e por violência conjugal mais do que ocasional por parte do marido. Quando o romance começa, Sera ficou viúva há poucos anos, e se divide entre alívio e saudades de seu falecido esposo. O que realmente a deixa feliz é o convívio com a filha, grávida do primeiro filho, e o genro. Os dois jovens representam a nova geração, bem educada, com experiência no exterior, próspera e moderna.

A contraparte de Sera é Bhima, sua empregada de muitos anos. Ela teve uma vida razoavelmente estável até a maturidade, com um casamento feliz e dois filhos. A guinada negativa aconteceu quando seu marido sofreu grave acidente de trabalho, que resultou em desemprego, alcoolismo e numa intensa decadência econômica, que levou à fragmentação da família e à mudança de um apartamento modesto para uma favela. A esperança de Bhima é sua jovem neta, Maya, adolescente brilhante que conseguiu entrar na universidade, mas corre o risco de perder tudo por uma gravidez indesejada. O contraste entre sua situação e a da filha de Sera é a tensão que move o romance.

Sera e Bhima se apoiaram mutuamente em muitos momentos difíceis, superando juntas situações de violência, doença e problemas econômicos. Como empregada fiel de muitos anos, Bhima é “quase da família” - uma amiga americana que estuda relações raciais no Brasil certa vez me disse que quando ouve essa expressão, tem certeza de que a pessoa à qual ela se refere não é branca... É o caso do romance. A distância que separa as duas mulheres é social, de casta e até religiosa – Sera é uma parse, seguidora de Zoroastro, e Bhima é hindu. Embora a família de Sere se orgulhe de seus hábitos modernos e cosmopolitas, mantém várias tradições arcaicas relacionadas a tabus sociais que impedem contato físico e compartilhar talheres e móveis.

“A Distância entre Nós” me lembrou muito “O Deus das Pequenas Coisas”, de Arundhati Roy, que também se concentra nas desigualdades sociais, tendo como pano de fundo um amor trágico entre uma mulher da elite e um homem pobre, no estado de Kerala, talvez o mais progressista da Índia e um bastião histórico tanto dos cristãos quanto do Partido Comunista. Curiosamente, Roy e Umrigar têm a mesma mensagem pessimista: a de que modernização do país não eliminou os entraves mais profundos à liberdade e à dignidade humana, em particular das mulheres.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Índia: a aventura da descoberta


Terminei de ler meu pacote de livros da Amazon com a estupenda, “India after Gandhi: the history of the world´s largest democracy”, de Ramachandra Guha. Leitura importante para a reformulação do meu programa no Curso Clio, que inclui aulas sobre o Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul.

A Índia está se consolidando como um poder global, com o boom econômico do setor de serviços, a intensificação de seus laços comerciais com a China (apesar de conflitos sérios de fronteira e de disputas sobre o Tibete), aproximação aos Estados Unidos (negociação de acordo nuclear) e a permanência de tensões com o Paquistão, em época de fundamentalismo religioso crescente nos dois lados da fronteira. Notável que a Índia tenha mantido e desenvolvido sua democracia em meio a tantos problemas e imensa fragmentação cultural, talvez maior do que a existente em continentes inteiros como África e Europa.

Guha é ótimo narrador da história recente do seu país com foco na ascensão e queda dos líderes políticos: o primeiro-ministro Nehru e a filha e neto que o sucederam no cargo, Indira e Rajiv Gandhi (apesar do sobrenome, não são exatamente parentes do Mahatma, ele adotou o marido de Indira para que ele pudesse mudar de casta e se casar com ela). Descreve as lutas importantes nos estados, como a ascensão dos comunistas em Kerala e Bengala Ocidental, em plena Guerra Fria, o crescimento do fundamentalismo – sobretudo hindu e sikh – e os conflitos que dividem o Partido do Congresso, como o desgaste causado pela corrupção e por sua longa permanência no poder. Há capítulo curto, mas interessantíssmo, sobre a indústria de cinema indiana, onde aprendi que a minoria muçulmana prospera nela à semelhança dos judeus em Hollyowood.

Guha dá o contexto social e político para que eu entenda muito do tenho ouvido dos amigos e colegas indianos com quem convivi nos últimos anos. Até recentemente, as únicas pessoas que conhecia interessadas na Índia eram as que se encantavam com os aspectos místicos e religiosos. Isso começou a mudar a partir do momento que o país se tornou parceiro importante do Brasil, e se criaram também laços entre as comunidades acadêmicas e os movimentos sociais destas duas democracias que tem tantos problemas comuns.



Experiência marcante foi visita que recebemos no instituto de trabalhadores sociais indianos que encerravam longo projeto de cooperação com os chamados “povos tribais” no estado de Uttar Pradesh, próximo ao Nepal (foto acima). Foi fascinante ouvi-los falar sobre o processo de aprendizado das línguas locais, das adaptações culturais. É outra postura diante do tempo, com planejamento de longo prazo que parece inacreditável para as organizações brasileiras.

Para mim, tem sido um processo de aprendizado e descobertas marcado por fascinação. Penso, por exemplo, na entrevista que fiz com Meena Menon, ativista sindical indiana que foi das principais organizadoras do Fórum Social Mundial naquele país. Meena nos contou sobre sua militância de juventude no partido comunista, das perseguições políticas à época do “Estado de Emergência” (1975-1977) da primeira-ministra Indira Gandhi e das transformações sociais que a indústria têxtil, a mais importante em termos de emprego, passa com a abertura do mercado mundial.

Uma das perguntas que fiz a Meena foi como os movimentos sociais indianos faziam para se comunicar em meio às dezenas de línguas faladas no país. Ela me respondeu que na realidade a questão não foi solucionada, e os encontros políticos duram muito mais tempo do que no ocidente, por causa da necessidade de tradução.



Meus colegas que foram à Índia maravilharam-se sobretudo com os movimentos sociais dos dalits (palavra que significa “oprimidos”, na foto, algumas crianças dalits), que costumavam ser chamados de “intocáveis” e estavam fora do sistema de castas. Gandhi os batizou de harijan, os filhos de Deus. A constituição indiana criou programas de ação afirmativa para ajudá-los e foi em grande medida fruto do trabalho de um dalit, o jurista B. R. Ambekar.

Também me impressiona a seriedade e dedicação dos acadêmicos indianos que conheci – Celso Furtado os considerava os mais qualificados, no campo da economia. Lido mais com sociólogos, mas é igualmente notável seu esforço para compreender a realidade brasileira. Diga-se de passagem, não conheço casos semelhantes no Brasil. Nossa cultura intelectual continua muito fechada, com dificuldade de se abrir ao mundo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Filhos da Meia-Noite



Há cerca de um mês dei aulas sobre a ascensão da Índia na política internacional e falei um pouco sobre as transformações no país desde sua independência em 1947. Dias depois uma aluna (obrigado, Débora!) me mostrou reportagem do Le Monde Diplomatique sobre a (re)descoberta da literatura indiana, mencionando os diversos movimentos artísticos que afloraram naquela imensa nação no período pós-colonial. Os deuses benevolentes fizeram que eu encontrasse dois dos principais romances citados no texto à venda na feira do livro do Largo da Carioca, num esquema R$10 por três livros.

Comecei por Midnight´s Children, de Salman Rushdie, considerado o maior clássico contemporâneo da Índia. Eu o conhecia somente pelas ameaças de morte que sofreu por parte dos aiatolás iranianos e da Al-Qaeda, e fiquei maravilhado pelo livro: é um épico irônico e trágico sobre os destinos do subcontinente indiano após a independência.

O narrador-protagonista do romance é Saleem Sinai, o filho de uma família muçulmana de alta classe média. Os avós são originários da Cachemira e nunca se sentiram muito à vontade nem na Índia, nem no Paquistão – sua região natal era administrada como um principado semi-autônomo durante a colonização britânica e tem sido brutalmente disputada pelos dois países desde 1947. A ação do romance acompanha a família Sinai e atravessa Índia, Paquistão e Bangladesh durante seis décadas.

Saleem nasceu junto com a independência da Índia, à meia-noite do dia 15 de agosto de 1947, e desde cedo viu sua vida como interligada ao destino do seu país. Egocêntrico, mentiroso, trapaceiro e incrivelmente irônico, ele vai manipulando todos à sua volta, mas também sendo vítima de atos irracionais e loucos que abarcam das excentricidades de seus parentes às guerras fratricidas entre Índia e Paquistão.

O estilo de Rushdie é um fantástico amálgama de praticamente todas as formas de ficção que se possa imaginar, de paródias de relatos religiosos aos cinemas de Hollywood e de Bollywood (o coração da indústria de filmes indiana, a maior do planeta, onde trabalham os tios do protagonista), passando por homenagens às lendas das mil e uma noites e até ensaios de ficção científica. É preciso um mestre da arte de contar histórias para lidar com tantos estilos, e Rushdie tece essa trama de narrativas com um talento que encontra poucas comparações. Entre os latino-americanos, se parece mais a Gabriel García Márquez, embora Cem Anos de Solidão tenha sido publicado depois de Midnight´s Children.

O subcontinente indiano tem mais povos do que todos os episódios de Jornada nas Estrelas e estão todos no romance de Rushdie: os dilemas dos muçulmanos em permanecer na Índia ou migrar para o Paquistão, as perseguições religiosas, os conflitos entre as diversas línguas, o cotidiano nos vales da Cachemira e nas cidades de Agra, Mumbai, Karachi, a morte de Gandhi, as maquinações de Nehru e sua dinastia, as guerras da Índia contra Paquistão e China, a ocupação de Goa... Ufa! Está tudo lá! Um liquidificador em alta velocidade de uma época extraordinária.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Feliz Aniversário, Índia!


Nesta quarta a Índia celebra seus 60 anos de vida independente em grande estilo, plenamente consolidada como uma das grandes potências em ascensão na política internacional. Por coincidência, hoje o país foi o tema da minha aula. Disse aos alunos que os indianos estão muito atentos ao que se passa no mundo e estudando com afinco a América Latina, ao passo que nós permanecemos ignorantes a respeito daquele imenso país.

A imprensa britânica está repleta de boas reportagens sobre o aniversário, com destaque, claro, para o Especial da BBC que traz inclusive vídeos e discursos da época da independência e debates sobre o novo status global da Índia.

A proeminência internacional do país foi conquistada graças ao desenvolvimento do setor de serviços, em particular na área de tecnologia da informação, com um expressivo pólo de informática em torno de Bangalore, conhecido como o "Vale do Silício Asiático". A ciência, tecnologia e pensamento também crescem de maneira impressionante: a Índia já dispõe de tecnologia de ponta nos setores da energia nuclear, foguetes e pensadores fundamentais em economia política (em particular comércio internacional), que ocupam cargos de chefia nas principais organizações multilaterais.

A preservação da democracia indiana é outra grande conquista. O sistema foi mantido de maneira quase ininterrupta desde 1947, lidando com pobreza extrema, enormes desigualdades sociais, diversos idiomas (hindi, urdu, inglês etc), conflito étnico e religioso. A violência sectária é um problema sério e preocupante no país, inclusive com atentados terroristas freqüentes, mas os sucessos indianos não são poucos.

A Índia também se tornou uma importante parceira política do Brasil, articuladora de coalizões como o G-20 da Organização Mundial do Comércio e do G-4 para a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Junto com a África do Sul, formaram o Fórum IBAS, iniciativa importante de cooperação sul-sul que tem sido muito mais valorizada lá fora do que no Brasil - outra manifestação da nossa provinciana cultura política.