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quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Sic Transit Gloria Mundi
I met a traveller from an antique land
Who said: "Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert.
Near them on the sand,
Half sunk, a shattered visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamped on these lifeless things,
The hand that mocked them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
`My name is Ozymandias, King of Kings:
Look on my works, ye mighty, and despair
Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away".
P.B. Shelley (1792-1822)
Minha análise da morte de Kadafi e as perspectivas para a transição líbia estão em minha entrevista ao portal Terra.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Poder, Fé e Fantasia: os EUA no Oriente Médio

História é quando tudo inesperado em seu próprio tempo é registrado na página como inevitável. A história oculta o terror do imprevisto, transformando um desastre num épico.
Phillip Roth, escritor americano
O Oriente Médio tem sido importante para os Estados Unidos desde a criação do país. Conflitos com a região foram fundamentais para a expansão do poder militar do país e inspiraram símbolos nacionais como o hino e a Estátua da Liberdade. O próprio termo “Oriente Médio” foi inventado por um almirante americano. No entanto, tais relações são permeadas por desconhecimento, preconceito e atitudes irracionais, baseadas em fantasias ideológicas ou religiosas, que dificultam a formulação de políticas coerentes. Esses são os principais argumentos do excelente “Power, Faith and Fantasy: America in the Middle East, 1776 to the present”, do historiador e diplomata israelense Michael Oren.
A maior parte das análises sobre os EUA e o Oriente Médio concentra-se no período iniciado com a Segunda Guerra Mundial e a questão do petróleo, mas Oren defende de forma convincente que é necessário olhar as épocas anteriores. Na realidade, dois terços de seu livro abarcam os anos entre 1776 e 1939, e suas reflexões sobre os tempos contemporâneos deixam a desejar, talvez pela sua falta de objetividade: Oren é o atual embaixador israelense em Washington.
Ele se sai bem melhor tratando do passado mais remoto. Oren mostra como o envolvimento militar americano no Oriente Médio começou com ainda no século XVIII, com as guerras contra os piratas do Mediterrâneo, que operavam sob a proteção de governantes no Norte da África. A jovem república americana chegou a pagar 20% do seu orçamento anual em tributo aos bandidos, até chegar à conclusão que era necessário ter uma Marinha de guerra para defender seus interesses na região. O hino dos fuzileiros navais dos EUA começa falando nas “praias de Tripoli”, onde eles lutaram um de seus primeiros conflitos. Até hoje jogam bombas por lá, mas a retórica de condenação dos piratas bárbaros ao “cachorro louco” Kadafi é muito semelhante. A melodia do hino americano foi composta para essas guerras, mas depois ganhou a letra atual quando do confronto de 1812 com a Grã-Bretanha.

Ao longo do século XIX, a região ganhou em importância comercial e como importante local de atuação dos missionários americanos, que construíram não só igrejas, mas muitas escolas, universidades e hospitais como parte de seu esforço de evangelização. Acabaram criando fortes laços com elites locais, sobretudo cristãos (maronitas, ortodoxos, armênios etc) que viam nos EUA um aliado em reformas modernizadoras e como proteção aos impérios coloniais europeus. Isso ocorreu em especial no Egito e no Líbano. A Estátua da Liberdade havia sido pensada inicialmente como um símbolo das reformas egípcias, com auxílio dos técnicos e militares americanas. Foi nesse período que começou a tradição de usar judeus americanos como representantes diplomáticos no Oriente Médio, por supostas afinidades deles com a região. Os Estados Unidos também foram, desde o início, apoiadores importantes do movimento sionista.
O próprio termo “Oriente Médio” foi inventado pelo almirante americano Alfred Mahan, no fim do século XIX, para delimitar a área que vai do Marrocos até o Irã. Os europeus se referiam à região como “o Leste” ou “o Oriente”. Mas o conceito é elástico, hoje em dia é aplicado com frequência também ao Afeganistão e ao Paquistão, que no entanto não estão cobertos pelo livro de Oren.
Em todo caso, a destruição do Império Otomano após a I Guerra Mundial marcou a divisão da área pela Grã-Bretanha e pela França. Já comentei no blog sobre a decepção árabe com o presidente Woodrow Wilson, em particular no Egito, quando os nacionalistas descobriram que os princípios de autodeterminação dos povos não seriam aplicados fora da Europa. Na luta contra o Eixo, os americanos ocuparam Marrocos, Argélia e Líbia, mas em geral não foram saudados como libertadores, e sim tratados com cautela e desconfiança.

A descoberta das grandes reservas de petróleo e a recriação da Israel tem marcado a diplomacia americana no Oriente Médio desde a década de 1940, com o frequente envolvimento dos EUA nas ferozes disputas locais e traumas históricos como o golpe contra os nacionalistas do Irã, em 1953, a ocupação da embaixada americana em Teerã, na revolução islâmica de 1979, os atentados terroristas e sequestros contra os americanos no Líbano, na década de 1980, as duas guerras contra o Iraque e os conflitos sem fim que culminaram nos atentados de 11 de setembro de 2001.
Essa história está longe de terminar. E nada indica que ela ficará pacífica.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Líbia: as divisões na coalizão

A primeira semana da guerra contra a Líbia foi marcada pelos impasses políticos na coalizão liderada por EUA, França e Reino Unido. A tensão mais significativa foi a decisão da Alemanha – maior e mais rico país da União Européia – em retirar suas tropas do Mediterrâneo, para que não se envolvam nos ataques. A OTAN, aliança militar ocidental, assumiu o controle das operações militares, a partir de uma sólida redes de bases na região (imagem acima) e a coalizão conseguiu a participação simbólica de alguns aviões de países árabes (Catar e Emirados Árabes) bem como apoio logístico da Turquia, Jordânia e outras nações muçulmanas. É um esforço para descaracterizar os ataques como uma “cruzada” cristã contra um Estado islâmico.
O cerne da discórdia é a discrepância entre o que a resolução do Conselho de Segurança autoriza (uso da força militar para proteger civis) e o modo como a guerra tem sido conduzida, com bombardeios contra grandes cidades, como Tripoli, destruição de infraestrutura e ações voltadas para derrubar o regime de Kadafi, o que não está previsto no documento aprovado pela ONU. Na prática, o objetivo é debilitar o ditador ao ponto de que ele seja derrotado pelos rebeldes, reununcie, seja deposto por um golpe ou aceite negociar sua saída do poder.
Kadafi tem poucos amigos, mas todos temem o que pode acontecer na Líbia caso a ditadura caia. O mais provável seria um ciclo violento e instável de acerto de contas entre as diversas tribos, num cenário que pode levar à guerra civil ou à anarquia, como ocorreu em anos recentes em países da África e do Oriente Médio com estrutura social semelhante, como Somália e Iêmen. Caso isso ocorra, seria necessária uma força de paz em terra, para executar a dificílima missão de estabilizar a Líbia ou ao menos impor limites à violência.
O debate internacional dividiu-se rapidamente. Os países desenvolvidos evocam a doutrina da responsabilidade em proteger para justificar a guerra na Líbia como uma intervenção humanitária. As nações em desenvolvimento, sobretudo na África, pedem pelo fim das hostilidades. A Liga Árabe havia criticado os bombardeios, depois voltou atrás. As potências emergentes procuram se colocar como mediadoras e embaixadores dos BRICs se reuniram com Kadaffi para tentar criar um diálogo com a oposição.
No campo militar, os rebeldes avançaram bastante, sobretudo no fim de semana e recuperaram as cidades que haviam perdido. A rapidez de sua marcha mostra que as tropas leais a Kadafi estão desertando ou recuando para Tripoli, abandonando muitas posições sem luta.
quarta-feira, 23 de março de 2011
No País dos Homens

Antes da eclosão da revolta líbia, muitas pessoas imaginavam Kadafi como uma figura cômica, por conta de suas roupas espalhafatosas e de seu discurso ideológico exaltado. A extensão da violência na guerra civil mostrou a verdadeira face do regime e se você quiser uma dimensão artística sobre os dramas daquela nação, a disca de leitura é o romance “No País dos Homens”, de Hisham Matar (foto), que conta a história de um menino que descobre o mundo quando seu pai se envolve na oposição à ditadura. Publicado em 2006, foi aclamado internacionalmente como uma das expressões mais destacadas da literatura árabe contemporânea.
Há toques autobiográficos na ficção de Matar, pois sua família também passou por dificuldades por conta da resistência a Kadafi. Tiveram que fugir para o Egito, onde viviam vigiados pela política política de Mubarak, até o dia em que os dois ditadores chegaram a um entendimento e os egípcios sequestraram o pai do escritor, entregando-o à repressão líbia. Nunca mais foi visto.
O romance é narrado em primeira pessoa por Suleiman, o filho único de um casal de alta classe média na Líbia da década de 1970. Seu pai é um empresário bem-sucedido que organiza um movimento político contra Kadafi, com a ajuda de amigos intelectuais, do meio universitário. A ditadura estava no poder há dez anos e ainda havia vestígios da monarquia líbia e da presença colonial dos italianos no país, ao mesmo tempo em que a violência e o medo do novo regime se espalhavam rapidamente.
Suleiman vê seu mundo começar a ruir quando o pai de seu melhor amigo é preso (“Sumiu feito um grão de sal na água”) e seu próprio pai se ausenta cada vez mais em misteriosas “viagens de negócios”. Homens do comitê revolucionário, a política política, rondam sua casa e às vezes lhe abordam com conversas insinuantes para que ele os ajude. Sua mãe cai em depressão e recorre à bebida. Os telefones emitem estranhos ecos, quando são grampeados.
“Quero olhar para baixo e ver meu país feito um mapa distante, reduzido a linhas, reduzido a uma idéia”, diz a mãe, que sofre com uma dupla opressão: a da ditadura e o papel submisso que se espera das mulheres líbias, um destino que ela sonhou romper quando jovem, quando frequentava cafés italianos e imagina uma vida à base de capuccinos. A família de Suleiman começa a pensar em emigrar, como fez um tio poeta que foi para os Estados Unidos, ou os amigos egípcios que seus parentes têm no Cairo.

À medida que o ciclo da repressão se aperta, a família precisa recorrer à ajuda de vizinhos influentes no regime autoritário (“Posso sentir as reverberações distantes daquele dia, foi minha estréia na arte escura da submissão”), com o pano de fundo das atrocidades de Kadafi: os enforcamentos de dissidentes transmitidos pela TV, a guerra contra o Chade, os confiscos econômicos para destruir a independência da classe média.
Todas as ditaduras se parecem e o romance de Matar tem enredo e detalhes facilmente adaptados para a realidade da América Latina – poderia dar um excelente filme argentino, nos moldes de “Kamchatka”, de Marcelo Piñeyro. A proeminência literária de Matar o tornou o maior símbolo da oposição líbia, de seu exílio em Londres. Ele tem sido bastante ativo na denúncia a Kadafi e seu novo livro, “Anatomia de um Desaparecimento”, será lançado em breve no Brasil. O tema é a investigação a respeito do sequestro de seu pai.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Até Paranóicos Têm Inimigos: a guerra contra Kadafi

Na imprensa internacional, a visita de Barack Obama ao Brasil foi posta de lado por conta do início da intervenção estrangeira na guerra civil da Líbia. Sem auxílio externo os rebeldes seriam derrotados, mas o ataque cria também problemas de difícil solução: é a terceira guerra simultânea de países ocidentais contra uma nação muçulmana, expõe as contradições dos EUA e da União Européia para o mundo árabe e reforça o discurso xenófobo dos ditadores que acusam as rebeliões democráticas de serem conspirações fomentadas do exterior.
O debate sobre a intervenção havia se concentrado na decretação de zona de exclusão aérea, mas a resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU vai além disso e abarca a autorização de uso da força para proteger os civis líbios em qualquer circunstância. Isso significou rodada inicial de bombardeios tendo como alvo o setor de controle-comunicação-comando das Forças Armadas e o sistema de defesa antiaérea. Muitos inocentes serão prejudicados, com a decisão de atacar com mísseis de cruzeiro Tripoli, uma cidade de um milhão de habitantes e a destruição de infraestrutura que também serve à população civil, como aeroportos.
A abrangência dos ataques levou a uma fratura na coalizão de apoio à guerra, com a declaração da Liga Árabe de que havia solicitado apenas a zona de exclusão aérea. Embora os líderes regionais tenham abandonado Kadafi à própria sorte, tampouco querem ser envolvidos numa intervenção estrangeira tão violenta. A relutância também foi expressada pelas potências emergentes: Brasil, Índia, China e Rússia abstiveram-se na votação do Conselho de Segurança. É tradição brasileira não apoiar ações militares contra outros governos, mas apenas forças de paz para mediar conflitos. A companhia dos membros dos BRICs tornou essa posição mais confortável, o Brasil a manteve mesmo diante dos esforços de reaproximação com os Estados Unidos.
China e Rússia têm poder de veto no Conselho de Segurança e poderiam ter proibido a intervenção da ONU, mas optaram por jogar sobre os ocidentais o fardo de lidar com Kadafi, e sofrer o desgaste junto à opinião pública árabe. Embora o ditador líbio seja de longe o mais feroz na repressão às rebeliões democráticas, regimes autoritários na Arábia Saudita, Bahrein e Iêmen (todos importantes aliados americanos no Golfo Pérsico) também atacam com selvageria manifestantes que revindicam liberdade.
Um caso curioso é o do Líbano, que votou a favor da intervenção. Kadafi é um inimigo histórico dos xiitas libaneses, pois há 30 anos prendeu e matou seu principal líder religioso, o imã Musa Sadr, com quem disputava influência junto aos palestinos. Sadr rompeu com o domínio das famílias tradicionais de proprietários de terras xiitas e criou importantes movimentos desse grupo, como a milícia Amal. Após a invasão israelense do Líbano, já depois da morte de Sadr, dissidentes da Amal fundaram o Hezbolá, que hoje é a mais influente força política do país.
As Forças Armadas da Líbia são frágeis e tiveram dificuldades mesmo em intervenções em países como o Chade. É difícil imaginar que Kadafi tenha como se opor à ação militar do Ocidente. Os riscos são políticos, o de que tropas da ONU acabem arrastadas para um conflito terrestre, tendo que mediar entre as tribos líbias. Emaranhados étnicos semelhantes, no Congo, Líbano e Somália, acabaram mal.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Violência em Manama, Medo em Benghazi

Terremoto, tsunami e catástrofe nuclear no Japão deslocaram as crises árabes do centro do noticiário internacional, mas os acontecimentos seguem a grande velocidade. Os fatos mais importantes dos últimos dias foram a intervenção militar da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes no Bahrein (foto acima, monarquias sunitas ajudando seus aliados da família al-Khalifa a conter a revolta dos xiitas) e o avanço da contra-ofensiva de Kadafi no leste da Líbia, que chegou às portas da capital rebelde, Benghazi. A Liga Árabe abandonou o ditador e pediu ao Conselho de Segurança da ONU a decretação de zona de exclusão aérea, para ajudar a oposição - algo que pode ocorrer em breve, talvez nesta quarta.
O Bahrein é uma pequena ilha com cerca de 700 mil habitantes, mas sua importância política é grande: rico em petróleo, localizado estrategicamente no Golfo Pérsico, maior base naval dos Estados Unidos e uma bomba-relógio de violência sectária, com 70% da população formado por xiitas, discriminados pela aristocracia sunita e proibidos de assumir cargos importantes no Estado.
As conservadoras monarquias da região entendem a ameaça que uma rebelião que misture democracia e xiismo representa para seus regimes, por isso enviaram dois mil militares para auxiliar os Al-Khalifa a reprimir os revoltosos. O caso é particularmente grave para a Arábia Saudita, que tem expressiva minoria xiita nas províncias petrolíferas à beira do Golfo, e que enfrenta ela mesma protestos dos clérigos locais contra a dinastia Saud. Os Estados Unidos pressionam o rei do Bahrein para iniciar reformas políticas, até agora sem sucesso. Em reação à intervenção militar estrangeira, os manifestantes intensificaram suas ações, reprimidas com extrema violência pelo governo. Há chances de um banho de sangue na capital, Manama.
Kadafi continua sua contra-ofensiva no leste da Líbia, com mais vitórias militares. Está agora bastante próximo da capital rebelde em Benghazi. Os revoltosos pedem ajuda do Ocidente e a Liga Árabe faz o mesmo. Não é a primeira vez que a organização abandona um governante da região: isso aconteceu nas duas guerras dos EUA contra Saddam Hussein, quando a Liga autorizou a intervenção da Síria no Líbano (mascarada de operação multinacional pela presença minoritária de tropas de outros países) e até certo ponto pela missão da ONU no Sudão, que culmina atualmente com a secessão do sul do país.

A Liga suspendeu o governo Kadafi da organização, mas não reconheceu oficialmente os rebeldes como representantes do governo da Líbia. A situação do país continua instável, pendente do xadrez tribal que o ditador maneja com habilidade. Ele tem conseguido manter fora da rebelião a maior tribo nacional, os Warfala, que sozinhos são quase 20% dos líbios. O grupo tentou um golpe contra Kadafi em 1993 e foi duramente reprimido, seus líderes pensaram duas vezes antes de embarcar em outro ataque contra o regime autoritário.
Um cerco a Benghazi é iminente. Nas condições atuais, é improvável que os rebeldes consigam derrotar Kadafi sem ajuda estrangeira e a captura de Benghazi detonaria uma crise humanitária, com os opositores líbios fugindo do país para escapar da vingança do ditador.
sexta-feira, 11 de março de 2011
A Guinada da França e a Guerra Líbia

A guerra civil na Líbia fez baixas na França: o presidente Nicholas Sarkozy iniciou uma guinada em sua política externa, exonerando a chanceler Michèle Alliot-Marie (que tinha amplas ligações com o ditador deposto da Tunísia), nomeando para seu lugar o veterano Alain Juppé (ex-premiê, chanceler e breve titular da pasta da Defesa, na foto acima, ao lado de Sarkozy) e fortalecendo o Ministério das Relações Exteriores, inclusive com o afastamento de diversos assessores internacionais presidenciais no Palácio do Eliseu, que foram remanejados para outras funções. As mudanças refletem a crise diplomática francesa diante das revoltas árabes. Juppé mostrou a que veio fazendo a França reconhecer os rebeldes líbios como o governo do país, e anunciando o translado da embaixada de Tripoli para Benghazi.
Kadafi reagiu ameaçando revelar um “grave segredo” de Sarkozy, insinuando que seria algo sobre financiamento de campanha e que levaria à queda do presidente francês. Bravatas à parte, os dois chefes de Estado tiveram relações próximas até a eclosão da guerra civil. Sarkozy teve como um de seus principais objetivos de política externa a consolidação da “União do Mediterrâneo”, organização internacional lançada em 2008, que reune países europeus, africanos e do Oriente Médio. Na formação de alianças de apoio ao projeto, Sarkozy cortejou alguns dos piores ditadores da região, inclusive Kadafi, que ele chegou a afirmar que não era considerado um líder autoritário na África.

Ironias da política, pois Sarkozy fez campanha eleitoral falando contra a “Françafrique”, o lobby que mistura interesses empresariais franceses e africanos, e que tem sido uma influência poderosa na política externa do país. No poder, Sarkozy centralizou muitas decisões diplomáticas em sua assessoria no Eliseu. No entanto, aumentaram as críticas a seu personalismo e erros e o presidente voltou atrás decidiu fortalecer novamente os diplomatas de carreira, no Quai d´Orsay.
Sarkozy foi o principal defensor de uma Cúpula de emergência da União Européia, para tratar das revoltas no norte da África, que começa hoje em Bruxelas. A UE planeja mudar sua política de auxílio ao desenvolvimento e pensa em modos de ajudar na consolidação dos novos regimes democráticos que se anunciam na região. É um campo difícil, pois há muitos conflitos não-resolvidos, em particular a guerra civil na Líbia.
A última semana foi de vitórias militares para Kadafi, que conseguiu retomar o controle de cidades, como Bin Jawwad, Ras Lanuf e Zawyia. O ditador mostrou que suas forças especiais e mercenários são eficazes contra os rebeldes pouco organizados. Apesar das sanções econômicas internacionais em vigor, Kadafi tem à sua disposição uma quantia estimada em dezenas de bilhões dólares, armazenada em bancos e instituições governamentais líbias.
É improvável que outros países ocidentais sigam o curso da França. O cenário até agora é que a União Européia e os Estados Unidos buscam maneiras de ajudar os rebeldes e dificultar a vida de Kadafi, sem contudo anunciar explicitamente o engajamento na guerra civil. A hipótese de intervenção militar não foi descartada, mas é vista com temor e cautela, em particular diante da demonstração de força do regime autoritário.
Ainda sobre o tema: entrou no ar a entrevista que dei ao jornalista Fred Furtado, do podcast da revista "Ciência Hoje". Comento a revolta árabe e a persistência dos regimes autoritários em países como China e Irã, à luz do que escrevi no meu livro "Ditaduras Contemporâneas". Falo do impacto das novas tecnologias, das condições econômicas, do papel da juventude e de temas semelhantes.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Panorama da Guerra Civil

A guerra civil na Líbia prossegue com vitórias importantes para os rebeldes, tanto nos campos de batalhas quanto na frente diplomática. No entanto, começam a ficar claras as fissuras políticas que apontam para uma complexa transição após Kadafi.
O fato militar mais significativo da semana foi a derrota da ofensiva das tropas leais a Kadafi para tentar reconquistar a cidade de Brega, na rota dos poços de petróleo. Há relatos da fragilidade das Forças Armadas da Líbia, com informações sobre caças sem condições de voar e estimativas que os soldados de Kadafi talvez sejam apenas 10 mil. São rumores verossímeis que explicariam por que o ditador tem recorrido a mercenários de outros países africanos.
No front diplomático, os rebeldes conseguiram apoios importantes dos aliados internacionais. A ONU iniciou distribuição de ajuda humanitária, congelou ativos financeiros de Kadafi e de figuras-chave do regime e o Tribunal Penal Internacional iniciou os procedimentos para levar o ditador ao banco dos réus por crimes contra a humanidade. O cerco aperta contra ele.
Kadafi sentiu o golpe e reagiu agarrando a oportunidade que o presidente venezuelano lhe ofereceu, de uma comissão para dialogar com a oposição. A proposta foi rejeitada pela União Européia e mesmo a Liga Árabe se mostrou bastante receosa. Não está clara se ela será implementada. Chávez e Kadafi tem longa relação, o venezuelano recebeu inclusive o Prêmio Kadafi de Direitos Humanos (sim, existe um) e há alguns meses denuncia um suposto plano ocidental para tomar o controle do petróleo líbio.

Atualmente, a Líbia produz apenas 1% do petróleo mundial e a Arábia Saudita anunciou o aumento de sua própria produção para tentar conter a especulação que levava ao aumento dos preços. Desde que as revoltas democráticas no mundo árabe começaram, o preço do barril subiu cerca de 20% e fechou em US$116 na quinta-feira à noite. Naturalmente, pode disparar caso os distúrbios chegem à Arábia Saudita, onde um importante clerigo xiita foi preso nesta semana, e correm rumores de protestos sendo organizados pela Internet.
Se os rebeldes líbios avançam contra Kadafi, deparam-se também com o acirramento de suas divisões internas. Por enquanto, seu principal porta-voz é o ex-ministro da Justiça de Kadafi, Mustafa Abdel Jalil, um idoso líder tribal respeitado por manifestar discordâncias com relação ao ditador. Mas os jovens que formam parte importante dos revoltosos se insurgiram contra ele e nomearam seus próprios representantes. Também há uma reorganização dos grupos islâmicos, que no entanto permanecem minoritários.
O xadrez tribal da Líbia apresenta suas próprias dificuldades. Kadafi mantém o controle de apenas duas cidades importantes: a capital, Tripoli, e Sirte, bastião de sua própria tribo. Ele também possui clãs aliados no interior, entre os grupos beduínos, mas até o momento seu maior trunfo tem sido a abstenção dos Wafala, a maior tribo do país - um milhão de membros, para uma população de cerca de 6,5 milhões de líbio. Esse grupo tentou um golpe contra Kadafi em 1993 e foi selvagemente reprimido quando ele falhou. É compreensível que estejam cautelosos em se lançar numa nova aventura política.
quarta-feira, 2 de março de 2011
A Marcha da Intervenção

A revolta na Líbia é sem dúvida a mais violenta vivida até o momento na primavera dos povos árabes e a relutância de Kadafi em abandonar o poder provocou dois problemas que incentivam uma intervenção militar estrangeira: a queda de 50% na produção de petróleo e o êxodo de dezenas de milhares de refugiados, rumo aos países vizinhos e à Europa. Contudo, uma ação de forças armadas ocidentais na região despertará intensa reação na opinião pública árabe, despertando os fantasmas de guerras anteriores e alimentando a retórica dos ditadores que identificam em agentes externos a explosão das rebeliões democráticas.
O Conselho de Segurança da ONU tomou diversas medidas importantes nos últimos dias, como o maior congelamento de ativos financeiros da história, voltado contra a família Kadafi e contra líderes da ditadura líbia. As Nações Unidas debatem possibilidades de intervenção militar, como a decretação de zona de exclusão aérea (como foi feito no norte do Iraque após a Guerra do Golfo, em 1991, para impedir que Saddam Hussein massacrasse os curdos) e a entrega de Kadafi e seus asseclas ao Tribunal Penal Internacional, para serem processados por violações de direitos humanos.
Há um histórico trágico de intervenções militares em países árabes, com ou sem chancela multilateral, como no ataque tripartite de Israel, França e Reino Unido contra o Egito, quando Nasser nacionalizou o Canal de Suez (1956), as duas guerras do Iraque (1991 e 2003, sendo que a primeira também resultou em tropas ocidentais na Arábia Saudita e no Kuwait) e a missão da ONU no Sudão (2005 em diante) para mediar os conflitos internos que culminam agora com a secessão do sul país. Com exceção do Egito, todos as outras nações onde houve presença militar estrangeira são ricas em petróleo, o que naturalmente enfraquece muito aos olhos árabes os argumentos humanitários evocados pelos governos ocidentais apra justificar tais intervenções. Será ainda pior se a medida for tomada fora do âmbito da ONU.
Uma ação restrita na Líbia, como a zona de exclusão aérea, pode ser bem-sucedida em acelerar o fim do regime de Kadafi, mas uma eventual presença militar em terra seria um pesadelo, pois a força de ocupação teria que mediar os conflitos entre as tribos líbias. Isso foi tentado pelas tropas de paz da ONU na Somália, com péssimos resultados, que culminaram no massacre de Mogadício, em 1993.
Para o Brasil, uma intervenção das Nações Unidas causaria constrangimento extra: como o país preside atualmente o Conselho de Segurança, teria que aprovar tal medida (no contexto dos esforços em acalmar os ânimos com os Estados Unidos, após a discordância com relação ao Irã, em 2010) muito embora ela contrarie a tradição diplomática brasileira de buscar soluções pacíficas para os conflitos internacionais e observar com cautela a aplicação de coerção militar contra países em desenvolvimento.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
A Revolta na Líbia

Cientistas politicos somos treinados para analisar instituições formais como partidos, sindicatos e ministérios, mas o caos na Líbia no que parecem ser os últimos dias do regime de Kadafi exige um outro tipo de interpretação, que leve em conta as tradições tribais do país. A longa ditadura proibiu partidos e associações cívicas, de modo que os vínculos da família estendida são o que restaram como contrapeso ao autoritarismo do Estado.
Relatos afirmam que 90% da Líbia já estaria sob controle dos diversos grupos rebeldes, incluindo duas das três maiores cidades do país, Benghazi e Misurata. Kadafi estaria isolado na capital, Tripoli, mas com problemas crescentes por lá, pois a tribo Tarhun, a qual pertencem um terço dos moradores da cidade, abandonou o ditador.
Robert Fisk, o lendário correspondente internacional do Independent, conseguiu chegar a Tripoli e envia reportagens sobre o estado fantasmagórico da capital líbia. Segundo ele, predomina o sentimento de que Kadafi está acabado.
As Forças Armadas estão divididas e marcadas por deserções, motins e estagnação. Muitos oficiais se recusam a cumprir as ordens de Kadafi em atacar a população civil. Para além das considerações éticas dos militares, a relutância vem do fato de que essas instituições foram formadas a partir do recrutamento de líderes tribais. Em momentos de crise aguda como este, as lealdades familiares falam muito alto. Não é a primeira vez, na década de 1990 a tribo Warfala tentou um golpe militar contra Kadafi.
Ao contrário de Mubarak (Egito) ou Ben Ali (Tunísia), Kadafi nunca foi homem da confiança do Ocidente e nas décadas de 1970-90 era um adversário odiado por seu apoio a grupos radicais. Tentou se reinventar nos últimos anos, oferecendo a isca de lucrativos contratos econômicos, mas as boas relações foram temporárias. As declarações das autoridades dos Estados Unidos e da União Européia estão um nível acima na crítica a Kadafi do que foram com seus colegas ditadores.
A rejeição internacional se intensificou com a deserção de vários diplomatas líbios na ONU, EUA e Europa, que pedem intervenções do Conselho de Segurança, com a decretação de uma zona de exclusão aérea que proíba os bombardeios contra a população civil. Isso foi feito no Iraque de Saddam Hussein, para proteger os curdos no norte do país. Tenho dúvidas se é boa idéia na Libia, pois uma ação estrangeira contra Kadafi poderia detonar uma onda de nacionalismo xenófobo na região, com consequências imprevisíveis nestes meses de revoltas.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O Último Coronel

As ditaduras árabes aprenderam com o sucesso das revoltas na Tunísia e no Egito e apertaram o cerco da repressão, desde o início. Em países como Bahrein e Líbia, o Exército aceitou fazer o trabalho sujo de atirar nos manifestantes, ao contrário do que ocorreu nas duas outras nações. O caso líbio é bastante particular. No poder desde 1969, o coronel Muhamar Kadafi é o último representante da geração de militares que depôs as monarquias árabes nas décadas de 1950-60 (Egito, 1952, e Iraque, 1958, foram os demais exemplos) e defenderam um projeto modernizador liderado pelas Forças Armadas. Kaddafi foi um expoente do terceiro-mundismo nos anos 70, foi bombardeado pelos EUA nos anos 80 e no pós-11 de setembro fez um notável esforço de se reaproximar dos europeus, sobretudo da Itália, França e Reino Unido.
As ambições internacionalistas de Kadafi foram alimentadas pelo boom dos choques petrolíferos, pois a Líbia é rica em hidrocarbonetos. Expulsou do país os italianos, ex-colonizadores. Ele interveio em diversos conflitos internos africanos, no Chade, Serra Leoa, Libéria, Marrocos. Financiou o Setembro Negro, o grupo terrorista palestino que assassinou atletas isralenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. No início, sua ideologia estava mais próxima ao socialismo árabe de Nasser, mas com o correr do tempo foi virando uma mistura que incluía em doses crescentes traços do Islã e o apelo às crenças tradicionais africanas. Ele chegou mesmo a se coroar "rei dos reis" da África.
O patrocínio de Kadafi ao terrorismo lhe trouxe sanções econômicas internacionais e até um ataque aéreo dos EUA, em 1986, que matou uma de suas filhas. O caso de maior repercussão internacional foi sua decisão de abrigar os terroristas que explodiram um avião comercial na Escócia. Em outro incidente, Kadafi aprisionou enfermeiras da Bulgária que faziam trabalhos de caridade na Líbia, acusando-as de injetar o vírus HIV em crianças do país.
Neste novo século, Kadafi tem se aproximado da União Européia, basicamente motivado pelo péssimo estado da economia líbia, fora do setor de hidrocarbonetos, e pelo medo ser incluído nos Eixos do Mal pós-11 de setembro. Abriu seus programas militares às inspeções internacionais (eram consideráveis nas áreas química e biológica). Assinou um importante acordo com a Itália, pelo qual o governo Silvio Berlusconi lhe paga uma indenização por ter colonizado o país, e em troca a Líbia se compromete a controlar a imigração para a Europa - o problema tem se agravado após a revolta na Tunísia, com muitos jovens chegando ao sul italiano. Os franceses também estão presentes no país e o presidente Nicholas Sarkozy afirmou que na África Kadafi não era visto como um ditador, firmando com ele um tratado de cooperação nuclear. Os negócios para as petrolíferas britânicas são tão promissores que elas até conseguiram fazer o governo libertar o único terrorista preso no caso do avião escocês, enviando-o em liberdade para a Líbia. As empreiteiras brasileiras também desfrutam das benesses do regime, construindo o aeroporto da capital e um anel rodoviário em torno da cidade.
Kadafi sendo Kadafi, sua abertura ao ocidente nunca foi ortodoxa. Em visitas à Europa, conclamou os habitantes locais a se converterem ao Islã. Ensinou a Berlusconi técnicas de dança executadas por seu harém, reproduzidas com sucesso nas festas do premiê italiano. E, como todo ditador contemporãneo que se preze, procurou reproduzir a fórmula de chinesa de reforma econômica com fechamento político. Falou até em legar o poder para seu filho, mantendo o trono na família como na Síria e como Mubarak tentou fazer no Egito. O rapaz discursou na TV estatal líbia no domingo, elaborando uma teoria da conspiração que culpava estrangeiros e mídia pela revolta.
As manifestações anti-Kaddafi explodiram na cidade de Benghazi, na qual os laços de solidariedade tribais são muito fortes e funcionam como contraponto à pressão do Estado autoritário. A capital, Tripoli, tem se mantido fiel ao regime e houve mesmo desfiles de homenagem a Kadafi, nos quais o próprio participou. A sociedade líbia é uma das mais fechadas do mundo e o ditador proibiu a presença da imprensa internacional, derrubou a Internet e baniu a Al-Jazeera. Os movimentos de oposição líbia, ainda assim, têm conseguido usar a rede para divulgar sua revolta contra o regime, mas a repressão tem sido muito violenta, com uso de armamento pesado.
Pós-escrito: estive à tarde no Jornal da Globo News, falando sobre a crise na Líbia, com o bombardeio à cidade de Tripoli, e abordando também a situação no Bahrein e no Iêmen.
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