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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Isto não é um Filme

Confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

Na semana passada participei de dois debates sobre cinema e política no Oriente Médio. Na FGV, discuti com Monique Goldfeld o documentário israelense “Valsa com Bashir” (que resenhei neste blog), e no Cine Jóia, Thalita Bastos e eu falamos sobre o iraniano “Isto não é um Filme”. É uma excelente produção que nos diz muito sobre as novas possibilidades que a tecnologia dá aos artistas que precisam enfrentar ditaduras.

Jafar Panahi é um famoso cineasta iraniano que foi condenado pelas autoridades da República Islâmica a ficar 20 anos (!) sem dirigir ou escrever filmes. Ele também corre o risco de ir para a cadeia, onde esteve por um processo anterior. O governo o proibiu de deixar o país, pelo medo que se torne uma influência internacional importante contra o regime autoritário. No passado, Panahi estaria num beco sem saída, mas o avanço tecnológico o permitiu driblar a censura. Com a ajuda de um amigo, Mojtaba Mirtahmasb, uma câmera portátil, e um celular, ele realizou o documentário “Isto não é um Filme”.

As filmagens foram feitas no dia do ano novo iraniano, no elegante apartamento do cineasta, em Teerã e consistem basicamente de duas longas conversas. A primeira é entre os dois amigos. Panahi começa tentando narrar um filme que tem em mente, sobre uma moça do interior que vai à capital estudar Artes. Mas ele se emociona e desiste: “Para que contar um filme quando se pode filmá-lo”. Os dois então falam sobre o processo judicial que o cineasta enfrenta, revêm em DVD trechos de suas obras mais famosas e trocam lembranças e observações sobre a dependência dos diretores com o Estado islâmico.

A segunda conversa é entre Panahi e um rapaz pobre, o cunhado do porteiro de seu edifício, que está substituindo o parente naquele dia. Ele é do interior, vive de vários biscates e cursa o mestrado em Arte – uma trajetória bastante parecida com a da personagem do filme que o diretor queria rodar. Conta que não tem esperança de conseguir emprego fixo, mesmo quando terminar a pós-graduação e os dois lembram da noite em que o cineasta foi preso pela primeira vez.

“Isto não é um Filme” tem pontos em comum com outras belas produções iranianas, como “A Separação”, “A Onda Verde” ou “Persepolis”. É um retrato tocante das aspirações democráticas de boa parte da população do país, uma crônica das desigualdades sociais e das expectativas frustradas e uma obra de arte que emociona e faz pensar. A produção foi contrabandeada para fora do Irã em um pen drive escondido dentro de um bolo e fez sucesso internacional. O Festival de Cannes, que a exibiu pela primeira vez no exterior, abriu uma petição online pela libertação do cineasta.

A propósito: tivemos excelente debate no Cine Jóia e a gentilíssima direção local me ofereceu o espaço para outros eventos semelhantes. Penso em fazer uma seção sobre a brilhante nova geração de cineastas da Turquia, ainda pouco conhecida no Brasil. Sugestões de vocês são bem-vindas.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Uma Única Jogada dos Dados

A possibilidade de conflito militar entre Irã, Estados Unidos e Israel tem dominado os debates de política internacional por aqui e o melhor livro disponível sobre o assunto é “A Single Roll of the Dice – Obama´s Diplomacy with Iran”, do cientista político iraniano Trita Parsi. Baseado em entrevistas com líderes políticos de diversos países, seu argumento é que a tentativa de aproximação entre Washington e Teerã falhou por conta das objeções domésticas nos dois regimes, exacerbadas pelas tensões que envolvem os israelenses, e que os dois países estão presos numa situação de estagnação “sem guerra e sem paz”, marcadas por rodadas de sanções ineficazes.

Parsi é um analista excepcional e tem exercido importante papel político como líder do Conselho Nacional Iraniano-Americano, uma associação de oposição ao regime islâmico. Ele cresceu no exílio, acompanhando o pai, opositor dos aiatolás. Seu livro subiu para os 100 mais vendidos na Amazon, depois de ótima entrevista do autor no programa Daily Show, de Jon Stewart.

A história narrada por Parsi é fascinante: quando os Estados Unidos invadiram Afeganistão e Iraque – dois vizinhos do Irã – o presidente reformista iraniano Mohamed Khatami se apavorou e achou que seria o próximo. Seu governo apresentou uma proposta extraordinária a Washington, concordando com praticamente todas as exigências dos americanos, inclusive oferecendo a suspensão de ajuda aos aliados estrangeiros do regime islãmico, Hezbolá e Hamas. A Casa Branca se recusou a negociar – Bush e seus assessores achavam que poderiam conseguir o prêmio máximo, a derrubada da república islâmica, por meio da pressão militar e econômica.

Não foi isso o que ocorreu, evidentemente, e a situação dos Estados Unidos se complicou bastante com as crises no Afeganistão, Iraque e Paquistão, para não falar da crise econômica, ao passo que o Irã ascendeu como potência regional no Oriente Médio, sob a liderança radicalizada de Mahmoud Ahamadinejad. Obama ascendeu à presidência com a proposta de um “novo começo” nas relações entre os dois países. Sua disposição em conversar era sincera, mas foi recebida com ceticismo em Teerã e com indignação em Israel, onde o governo defendia que o programa nuclear iraniano era uma grave ameaça que tinha que ser eliminada, se necessário pela força.

Contudo, o que matou as negociações foi a eclosão da Revolução Verde no Irã, e a feroz repressão que se seguiu. Tornou-se impossível para Obama sustentar o diálogo em meio às pressões do Congresso para novas sanções contra a república islâmica. Em Teerã, as elites políticas chegaram à beira da guerra civil e mesmo a vitória (fraudada) de Ahamdinejad nas eleições não resolveu o jogo. Parsi afirma que os conflitos entre o presidente e os aiatolás refletem um amplo cisma geracional, do enfrentamento entre a velha guarda da Revolução de 1979 e os novos líderes, que foram ativistas de base na queda do xá e lutaram na guerra de 1980-1988 contra o Iraque.

Num cenário tão polarizado, é difícil ser mensageiro de soluções pacíficas e Parsi é um excelente cronista dos esforços do ex-presidente da Agência Internacional de Energia Atômica, o egípcio Mohammed El-Baradei (Nobel da Paz por essa tentativa) e dos governos do Brasil e da Turquia para encontrar uma saída para o labirinto iraniano.

Parsi tem brilhante análise do plano turco-brasileiro, pelo qual o Irã enviaria seu urânio ao exterior para ser enriquecido sob supervisão internacional. A proposta havia sido feita originalmente pelos Estados Unidos, mas quando foi aprovada pelo Irã, os americanos já haviam negociado secretamente com Rússia e China nova rodada de sanções e ficariam furiosos com a mediação do Brasil e da Turquia.

Atualmente, 57% dos republicanos acredita que haverá guerra contra o Irã em 2012, contra 22% dos democratas. É uma polarização partidária. O próximo passo é acompanhar o embargo dos EUA e da União Européia contra o petróleo iraniano, que entra em vigor em 1º de julho. A foto do meio do post foi tirada por mim na Times Square. O manifesto contra Ahmadinejad contrasta com anúncio de nova série de TV cujo slogan é “ame seu vizinho.”

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Separação

Há tempos não vejo um filme tão forte quanto “A Separação”, escrito e dirigido por Asghar Farhadi. É um drama familiar que nos diz muito sobre os conflitos políticos do Irã atual, mas acima de tudo é um exemplo de cinema humanista que transcende culturas e faz pensar nos trabalhos de velhos mestres como Roberto Rosselini ou Ingmar Bergman, pelo modo como apresenta dilemas individuais num mundo desordenado e injusto. Quase uma semana depois de vê-lo, me pego pensando em suas cenas e refletindo sobre seus diálogos.

O flime começa com o divórcio de um casal que está junto há mais de uma década e tem uma filha no início da transição da infância para a adolescência. A causa da separação é que a esposa quer emigrar, pois não vê futuro no Irã para a família, diante das “atuais circunstâncias” – que ela não explica, apesar de questionada por um juiz, mas que todos sabemos quais são. Seu temperamento inquieto é visível nos cabelos pintados de vermelho, entrevistos por baixo do véu. O marido quer ficar. Não por lealdade à República Islâmica, mas porque deseja permanecer ao lado do pai idoso e doente, que sofre de Alzheimer.

A esposa se prepara para sair do Irã e o casal decide quem ficará com a filha. Enquanto isso, o homem contrata uma empregada para cuidar do pai doente, enquanto ele está no trabalho. O salário é baixo, mas a mulher é muito pobre e enfrenta dificuldades extras: está grávida do segundo filho e o marido está desempregado e ocasionalmente na prisão, por não pagar suas dívidas. Ela está sob intensa pressão e tem problemas de saúde, não consegue lidar com o árduo trabalho físico de cuidar de um idoso, e sofre também com a dor de romper tabus religiosos, tendo que tocar um homem estranho. Acaba cometendo erros sérios, que darão origem a uma confrontação violenta com o patrão, numa escalada de conflitos que opõe as duas famílias e na qual todos e ninguem estão com a razão.

Como em no filme anterior do diretor, “À Procura de Elly”, é um ato inesperado de violência que revela as fissuras de uma sociedade aparentemente civilizada e organizada. São muitos focos de tensão: o econômico, entre os patrões de classe média (e suas redes de parentes e amigos) e os empregados pobres. O religioso, entre uma família quase laica e outra para quem as regras do Islã estão muito presentes no cotidiano e constituem a referência ética fundamental. O político, na relação com as autoridades do Estado que podem ser bastante duras na aplicação da lei, e bastante falhas no fornecimento de uma rede de proteção social e solidariedade.

O excelente roteiro coloca em cena personagens muito humanos: ambíguos, contraditórios, capazes de atos mesquinhos, mentiras, traições e egoísmos, e de gestos de generosidade e dedicação. Impossível esquecer a filha quase adolescente, que fará seu doloroso aprendizado da vida madura e da liberdade, sendo chamada a tomar decisões difíceis num ambiente de adultos confusos e que não servem como referência moral. O diretor afirma que ela representa a geração de jovens iranianos que, quiçá, poderão ter que aprender a viver na democracia. Terão um belo exercício neste filme de tantas vozes e visões de mundo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Tour Latino de Ahmadinejad

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, está em meio a uma visita por quatro países da América Latina (Venezuela, Equador, Nicarágua e Cuba), lançada como um contraponto às pressões crescentes que sofre dos Estados Unidos, União Européia e Israel, e da perda de influência no Oriente Médio para a Turquia, em consequência da Primavera Árabe. Mas o tour mostra os problemas da diplomacia iraniana, pela exclusão das maiores economias do continente (Brasil, México e Argentina). É uma demonstração de fragilidade, não de força.

Irã e Argentina tem péssimas relações desde a década de 1990, quando houve dois atentados terroristas de grandes proporções em Buenos Aires, que detruíram a embaixada de Israel e a sede da AMIA, principal associação judaica do país – a Argentina tem a maior comunidade de judeus da América Latina. Investigações apontaram para o grupo libanês Hezbolá, com participação de autoridades iranianas – há mandados de prisão expedidos pela Interpol contra um ex-presidente e ex-ministros da República Islâmica, e contra o atual titular da pasta da Defesa, general Ahmed Vahidi.

As relações entre Irã e Brasil cresceram em importância no governo Lula, quando o mercado iraniano despontou como o 2º maior para as carnes brasileiras, atrás somente da Rússia. Brasil e Turquia tentaram mediar um acordo para maior supervisão internacional do programa nuclear iraniano. A iniciativa tinha falhas, mas era promissora. Foi, contudo, rejeitada pelos Estados Unidos, que lideraram a imposição de novas rodadas de sanções. Como argumenta o acadêmico iraniano Tita Parsi, exilado nos EUA: a diplomacia de Obama, que prometeu um “novo começo” com o Irã, falhou e os dois países continuam presos em impasses sem fim.

A presidente Dilma Rousseff tem se afastado do Irã. O Brasil passou a votar contra o país no Conselho de Direitos Humanos da ONU. As importações brasileiras do Irã caíram, embora as exportações tenham crescido 10%. Os bancos brasileiros têm se recusado a financiar operações no Irã, por temores de expansão das sanções contra o país, e pelo medo generalizado de nova guerra na região. Ahmadinejad entendeu o recado e desta vez excluiu o Brasil de seu itinerário latino-americano.

Há pouco que o Irã possa ganhar com os países visitados por seu presidente. Há parcerias significativas somente com a Venezuela (onde prevalecem indefinições quanto à saúde e o futuro de Hugo Chávez, que disputa reeleição em 2012) e projetos pontuais com as outras nações da viagem, em especial com o Equador.

A boa notícia para o Irã é que apesar das dificuldades, sua economia continua a crescer. Como se vê pelo gráfico acima, a chave são as exportações de petróleo para China, União Européia, Índia e Japão. Os chineses, seus maiores compradores, opõem-se à expansão das sanções para o setor petrolífero, de modo que esses instrumentos de pressão continuam a ser muito limitados no caso iraniano, voltados mais para instituições como a Guarda Revolucionária, do que para o país como um todo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Geopolítica de Ormuz

No dia 28 o Irã iniciou uma manobra naval no estreito de Ormuz, por onde passam 17% do petróleo global. O exercício é uma resposta à nova rodada de sanções prestes a ser adotada pelos Estados Unidos e mais um episódio das tensões políticas entre os dois países e Israel. Os mercados reagiram com tranquilidade e o preço do barril chegou até a cair. A serenidade vem do poderio marítimo que os EUA tem na região, pois o Bahrein sedia a V Frota da Marinha americana. Há também a percepção de que as ações iranianas se dão em grande medida para consumo interno, devido aos conflitos entre conservadores e extremistas que disputam o poder em Teerã – os moderados estão na oposição, na prisão, no exílio ou no cemitério.

Ainda assim, o governo do Irã marcou um ponto, relembrando que em caso de guerra a situação no estreito prejudicaria de imediato o abastecimento de petróleo mundial e no mínimo elevaria os preços por conta do medo e da especulação inerente a esse tipo de crise. Os interesses envolvidos são imensos: além do Irã, as exportações da Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Catar e Emirados Árabes passam por Ormuz.

Apesar das diversas rodadas de sanções, a economia iraniana vai bem. Cresceu 5,5% em 2011. O PIB é da ordem de US$400 bilhões e cerca de 25% dele vem do petróleo. Os preços aumentaram 10% neste ano, o que também reforça o caixa do governo, visto que as sanções não afetaram a indústria dos hidrocarbonetos, por pressão de parceiros importantes como China e Rússia.

No início do governo Obama houve uma tímida tentativa de reestabelecer o diálogo com o Irã, descrita como “uma única jogada de dados”. Ela falhou e foi enterrada de vez na oposição dos Estados Unidos ao acordo proposto por Brasil e Turquia com respeito ao programa nuclear iraniano. O cenário no próximo ano é bastante sombrio, com o que promete ser uma campanha presidencial americana bastante agressiva, em meio às dores da crise e os temores do declínio da influência dos EUA no Oriente Médio.

***

Este é meu último post do ano - movimentadíssimo, por sinal. Retomo o blog na segunda-feira e que 2012 seja pelo menos tão interessante quanto 2011. Me despeço com minha entrevista para a revista do Valor Econômico, na qual faço a retrospectiva dos últimos 12 meses e arrisco duas ou três previsões. Bom Ano Novo a todos!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Irã e Israel: cartas na mesa



As ameaças do governo de Israel ao Irã têm aumentado nas últimas semanas com a retórica de bombardeios aéreos caso a república islãmica continue com seu programa nuclear. Não está claro se haverá nova guerra no Oriente Médio e ao menos por enquanto o discurso israelense se encaixa numa estratégia mais ampla de pressões que envolvem também os Estados Unidos e a União Européia. Na terça-feira a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) divulgou relatório que reforça suas afirmações anteriores: o Irã avança em sua pesquisa tecnológica nuclear, inclusive na possibilidade de desenvolver bombas atômicas, mas não há indicações de que esteja empreendendo a construção dessas armas. A divulgação do relatório pela imprensa foi bem mais alarmista do que o documento em si. Para os interessados numa análise mais moderada, o melhor é ler o livro do ex-diretor da AIEA e Nobel da Paz, Mohamed El-Baradei (há edição brasileira).

Um Irã com bombas nucleares estaria protegido de invasões e intervenções militares ocidentais, como as que sofreram Iraque e Líbia – o erro do qual Kadafi mais deve se arrepender foi ter desmantelado seu programa de armas de destruição em massa após o 11 de setembro. Isso provavelmente o tornaria mais ousado em suas ações no Oriente Médio, inclusive pelo apoio a aliados como Síria, Hezbolá e Hamas. O não-reconhecimento de Israel e a negação de que o Holocausto ocorreu tornam a república islâmica ainda mais perigosa aos olhos do governo israelense que traça analogias entre a situação atual e a Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

Em 1981 a força aérea de Israel realizou um bem-sucedido ataque cirúrgico contra as instalações nucleares de Osirak, que sediavam o programa atômico de Saddam Hussein. Em 2007, algo semelhante foi feito com a Síria. O Irã é um alvo bem mais difícil, pois os iranianos aprenderam com os erros dos outros e criaram um programa descentralizado, espalhado por seu país. A maior distância geográfica também dificulta a ação israelense. Mas o objetivo dos ataques não seria a destruição do programa, e simplemsente atrasá-lo em alguns anos. Isso é que tem sido feito com sucesso por operações de espionagem, como a implementação do vírus Stuxnet nos computadores iranianos e o assassinato de diversos cientistas.



O Irã é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que o proíbe de desenvolver armas atômicas. Israel nunca o assinou. A Coréia do Norte o fez, e depois se retirou do acordo. Ameaças de guerra e sanções econômicas não tem funcionado e há espaço para a retomada do diálogo diplomático, inclusive com propostas de relançar o acordo proposto por Brasil e Turquia, em 2010, pelo qual o governo iraniano mandaria seu urânio para ser enriquecido fora do país, a 20%, taxa suficiente para seu uso médico, mas não para a construção de bombas nucleares.

Soluções pacíficas têm sempre muitos inimigos, em particular no Oriente Médio, e as potências ocidentais e Israel rejeitaram rapidamente a proposta do Brasil e da Turquia. As pressões internacionais têm fortalecido a linha dura no Irã e há crise entre os aiatolás e o presidente Mahmoud Ahamadinejad, que corre risco de ser deposto. Por estranho que possa parecer, ele é a voz moderada nos debates. Pode-se imaginar o que viria em seu lugar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Jogos, Trapaças e Canos Fumegantes: Irã, Arábia Saudita e EUA



Na terça-feira o procurador-geral (ministro da Justiça) dos Estados Unidos acusou o Irã de planejar um atentado contra o embaixador da Arábia Saudita em Washington. A denúncia serviu para estimular a proposta de mais uma rodada de sanções dos EUA e da União Européia contra a República Islâmica. No entanto, a história tem diversos pontos soltos e não explicados e se parece bastante com o teatro armado para justificar a invasão do Iraque. É preciso cautela – e muita – para examiná-la, mas independemente de sua veracidade ilustra a rápida deterioração da situação internacional iraniana, provocada sobretudo pela revoltas democráticas nos países árabes.

Segundo o governo americano, a Guarda Revolucionária (unidade de elite do Irã) teria contratado um cartel do tráfico de drogas do México para assassinar o diplomata saudita. Um informante das autoridades entre os traficantes denunciou o suposto agente iraniano, Manssor Arbabsia, um vendedor de carros usados condenado no passado por fraude bancária. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos afirma ter gravações de conversas de Arbabsia com os criminosos mexicanos, e provas de que ele transferiu US$100 mil para os bandidos, como primeira parcela de um total de US$1,5 milhões cobrados para executar o embaixador.

O governo do Irã realizou diversos atentados terroristas no exterior – no Líbano, na Arábia Saudita e até na Argentina – mas o modus operandi denunciado pelos Estados Unidos é bastante estranho. Os iranianos têm serviços de inteligência extremamente eficazes e profissionais, além de contar com aliados experimentados como o Hezbolá. O tipo de erro primário cometido na suposta operação contra o diplomata saudita simplesmente não faz muito sentido. O historiador Juan Cole levanta a hipótese de que seja um projeto não-oficial, planejado por membros da Guarda Revolucionária envolvidos em disputas de tráfico de drogas com os sauditas. É uma sugestão verossímil, inclusive porque essa unidade é quase um Estado dentro do Estado, e sua atuação tem sido marcada por ferozes lutas por poder com autoridades civis e religiosas.

Talvez nunca saibamos ao certo o que aconteceu, mas há fatos que podemos analisar neste momento. O mais importante deles é que as revoltas da Primavera Árabe ameaçam a influência do Irã sobre dois de seus aliados-chave no Oriente Médio: o grupo radical palestino Hamas e o governo da Síria. O Hamas tem se aproximado cada vez mais do Egito, fez a trégua com a Autoridade Nacional Palestina e acordou uma importante libertação de mil prisioneiros com Israel. O regime sírio de Assad enfrenta um desafio grande por sua própria sobrevivência, contra a maioria sunita do país, apoiada pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita.

Sauditas e iranianos tem história de disputas que diz respeito, em última instância, a modelos distintos de fundamentalismo religioso, sunita e xiita, e formas de governo, monárquica e republicana. Ambos são ditaduras, mas a da Arábia é ainda mais fechada do que a iraniana, não realizando sequer as eleições limitadas desta, e com restrições piores aos direitos das mulheres. Esse conflito se tornou mais intenso após a Revolução Islâmica de 1979 e agravou-se após o 11 de setembro, quando o Irã se beneficiou do fortalecimento dos movimentos políticos xiitas no Iraque e no Líbano.

A Primavera Árabe também é uma ameaça para os sauditas, que inclusive intervieram militarmente no vizinho Bahrein, para ajudar a monarquia local (sunita) a debelar uma rebelião popular (xiita). Mas a condição de um dos principais fornecedores de petróleo aos Estados Unidos, e aliado fidelíssimo desde a Segunda Guerra Mundial tem poupado o rei saudita do tipo de crítica e sanções internacionais recebidos por tiranos semelhantes na Líbia, Síria e Egito.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Poder, Fé e Fantasia: os EUA no Oriente Médio



História é quando tudo inesperado em seu próprio tempo é registrado na página como inevitável. A história oculta o terror do imprevisto, transformando um desastre num épico.

Phillip Roth, escritor americano

O Oriente Médio tem sido importante para os Estados Unidos desde a criação do país. Conflitos com a região foram fundamentais para a expansão do poder militar do país e inspiraram símbolos nacionais como o hino e a Estátua da Liberdade. O próprio termo “Oriente Médio” foi inventado por um almirante americano. No entanto, tais relações são permeadas por desconhecimento, preconceito e atitudes irracionais, baseadas em fantasias ideológicas ou religiosas, que dificultam a formulação de políticas coerentes. Esses são os principais argumentos do excelente “Power, Faith and Fantasy: America in the Middle East, 1776 to the present”, do historiador e diplomata israelense Michael Oren.

A maior parte das análises sobre os EUA e o Oriente Médio concentra-se no período iniciado com a Segunda Guerra Mundial e a questão do petróleo, mas Oren defende de forma convincente que é necessário olhar as épocas anteriores. Na realidade, dois terços de seu livro abarcam os anos entre 1776 e 1939, e suas reflexões sobre os tempos contemporâneos deixam a desejar, talvez pela sua falta de objetividade: Oren é o atual embaixador israelense em Washington.

Ele se sai bem melhor tratando do passado mais remoto. Oren mostra como o envolvimento militar americano no Oriente Médio começou com ainda no século XVIII, com as guerras contra os piratas do Mediterrâneo, que operavam sob a proteção de governantes no Norte da África. A jovem república americana chegou a pagar 20% do seu orçamento anual em tributo aos bandidos, até chegar à conclusão que era necessário ter uma Marinha de guerra para defender seus interesses na região. O hino dos fuzileiros navais dos EUA começa falando nas “praias de Tripoli”, onde eles lutaram um de seus primeiros conflitos. Até hoje jogam bombas por lá, mas a retórica de condenação dos piratas bárbaros ao “cachorro louco” Kadafi é muito semelhante. A melodia do hino americano foi composta para essas guerras, mas depois ganhou a letra atual quando do confronto de 1812 com a Grã-Bretanha.



Ao longo do século XIX, a região ganhou em importância comercial e como importante local de atuação dos missionários americanos, que construíram não só igrejas, mas muitas escolas, universidades e hospitais como parte de seu esforço de evangelização. Acabaram criando fortes laços com elites locais, sobretudo cristãos (maronitas, ortodoxos, armênios etc) que viam nos EUA um aliado em reformas modernizadoras e como proteção aos impérios coloniais europeus. Isso ocorreu em especial no Egito e no Líbano. A Estátua da Liberdade havia sido pensada inicialmente como um símbolo das reformas egípcias, com auxílio dos técnicos e militares americanas. Foi nesse período que começou a tradição de usar judeus americanos como representantes diplomáticos no Oriente Médio, por supostas afinidades deles com a região. Os Estados Unidos também foram, desde o início, apoiadores importantes do movimento sionista.

O próprio termo “Oriente Médio” foi inventado pelo almirante americano Alfred Mahan, no fim do século XIX, para delimitar a área que vai do Marrocos até o Irã. Os europeus se referiam à região como “o Leste” ou “o Oriente”. Mas o conceito é elástico, hoje em dia é aplicado com frequência também ao Afeganistão e ao Paquistão, que no entanto não estão cobertos pelo livro de Oren.

Em todo caso, a destruição do Império Otomano após a I Guerra Mundial marcou a divisão da área pela Grã-Bretanha e pela França. Já comentei no blog sobre a decepção árabe com o presidente Woodrow Wilson, em particular no Egito, quando os nacionalistas descobriram que os princípios de autodeterminação dos povos não seriam aplicados fora da Europa. Na luta contra o Eixo, os americanos ocuparam Marrocos, Argélia e Líbia, mas em geral não foram saudados como libertadores, e sim tratados com cautela e desconfiança.



A descoberta das grandes reservas de petróleo e a recriação da Israel tem marcado a diplomacia americana no Oriente Médio desde a década de 1940, com o frequente envolvimento dos EUA nas ferozes disputas locais e traumas históricos como o golpe contra os nacionalistas do Irã, em 1953, a ocupação da embaixada americana em Teerã, na revolução islâmica de 1979, os atentados terroristas e sequestros contra os americanos no Líbano, na década de 1980, as duas guerras contra o Iraque e os conflitos sem fim que culminaram nos atentados de 11 de setembro de 2001.

Essa história está longe de terminar. E nada indica que ela ficará pacífica.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Políticas do Véu: Ataturk, Khomeini, Sarkozy



O corpo das mulheres com frequência é campo de batalha para disputas religiosas. No dia 11 a Assembléia Nacional da França aprovou lei banindo dos espaços públicos (inclusive ruas, praças e parques) véus que cobrem o rosto, como o niqab e a burca. A decisão se soma à legislação mais antiga, como a medida de 2004 que proíbe nas escolas os véus menores, que ocultam os cabelos. O presidente francês Nicholas Sarkozy se junta a Kemal Ataturk, fundador da República da Turquia, e ao aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica do Irã, como parte do rol de governantes que trataram a moda feminina como questão de Estado.

Ataturk expulsou os exércitos estrangeiros que haviam ocupado a Turquia nos anos caóticos do fim da Primeira Guerra Mundial. Depôs o sultão, aboliu o califado, mudou o alfabeto, mandou os homens trocarem o fez tradicional pelos chapéus ocidentais e proibiu as mulheres de usarem o véu em prédios governamentais. Mas desde 2002 o país é governado por um partido islâmico, e a esposa do primeiro-ministro ostente orgulhosa o véu que simboliza seu compromisso com a religião.

Khomeini viveu sob os regimes modernizantes xá no Irã, do partido Baath no Iraque por um certo tempo, na própria França. A Revolução de 1979 foi uma coalizão entre ativistas islâmicos, militantes da esquerda e liberais, mas logo ficou claro para onde pendia o pêndulo do poder. A imposição à força do véu foi um trauma para toda uma geração de mulheres que se julgava livre e até hoje seu uso é obrigatório, embora com menos exigências do que no período revolucionário mais violento.

A França tem cerca de 5 milhões de habitantes muçulmanos e o governo estima que entre 400 e 2 mil mulheres usem niqabs e burcas no país. O número não encheria nem um modesto estádio de futebol, mas nova lei se explica no contexto de um conflito cultural e político mais amplo. O partido de Sarkozy, a conservadora UMP, perde terreno para a Frente Nacional, de extrema-direita, que encontrou uma líder dinâmica em Marine Le Pen (filha de Jean-Marie, que foi o segundo colocado nas eleições presidenciais de 2002). As pesquisas lhe dão vitória sobre Sarkozy no primeiro turno das próximas disputas.

Como em toda a Europa, a conjugação de medos da crise econômica e do extremismo religioso é um chamariz para políticos que exploram a xenofobia. A Suíça, por exemplo, proibiu recentemente a construção de minaretes – as torres das quais se faz o chamado para orações nas mesquitas. Sarkozy expulsou os ciganos da França em 2010 e pouco depois seu partido realizou uma controversa conferência sobre “o papel do Islã na sociedade”. O presidente criticou o multiculturalismo como fracasso, afirmando que imigrantes devem se integrar à sociedade francesa. Ele próprio é filho de pai húngaro e casado com uma italiana.

Há duas objeções básicas à lei do véu. A primeira é aquela que, fundada nos princípios liberais, nega ao Estado o direito de intervir em decisões da vida íntima das pessoas, como a escolha da roupa. O que vestimos é uma forma de nos expressarmos, uma afirmação da identidade, tanto como aquilo que escrevemos ou que falamos. A segunda questiona se é possível implementá-la. Os sindicatos dos policiais dizem que não. Seus representantes afirmam que prender muitas mulheres em bairros muçulmanos provocaria enorme perturbação da ordem pública, e há problemas práticos de identificação – a legislação não autoriza a polícia a tirar os véus das mulheres, apenas a conduzi-las até uma delegacia e multá-las em 150 euros.

A opinião pública francesa aprova a nova lei por maioria esmagadora, entre 70% e 80% segundo as pesquisas. O governo a justifica com base no caráter laico da República. Esta, em suas muitas encarnações, foi marcada por conflitos com muçulmanos e budistas nas colônias afro-asiáticas, perseguições antissemitas e fortes movimentos políticos católicos, de direita e de esquerda. É um bocado de religião para um discurso de laicidade.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Caso Sakineh Ashtiani



Nesta semana tive tripla jornada de trabalho: como gestor de políticas públicas, como professor e como comentarista na imprensa. Além das análises sobre América Latina, já postadas no blog, também falei para rádios e jornais a respeito dos direitos humanos no Irã, em razão do caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani – a mulher condenada à morte por apedrejamento, a quem o Brasil ofereceu asilo.

Ashtiani foi condenada por adultério em 2006, mas após a pressão internacional por seu caso, o governo iraniano acrescentou há alguns dias a acusação de homicídio, afirmando que ela teria assassinado o ex-marido, com a cumplicidade do amante. As autoridades também modificaram o modo de execução da pena, trocando o apedrejamento pela forca, para ela e para outras mulheres na mesma situação.

Líderes e artistas dos Estados Unidos e da União Européia se manifestaram em defesa de Ashtiani, no que o governo do Irã alegou ser um pretexto para intervenção em seus assuntos internos. A oferta brasileira é incômoda para a República Islâmica, porque o Brasil é, afinal, um mediador importante para buscar uma solução dialogada em torno do programa nuclear iraniano.

As reações das autoridades do país foram desencontradas – o embaixador em Brasília afirma que o pedido de asilo sequer foi feito. A controvérsia demonstra um fato que é esquecido com freqüência nas análises da imprensa, mas ressaltado nos estudos acadêmicos: o governo do Irã é extremamente fragmentado, com disputas ferozes entre clérigos, políticos, militares.

O caso atual opõe o presidente Mahmoud Ahamadinejad ao chefe do Poder Judiciário, Sadeq Larijani, expoente das facções mais conservadoras e intransigentes na República Islâmica. E não que Ahamadinejad seja um moderado...

Nesta semana Ashtiani apareceu na televisão numa “confissão” que faz lembrar aquelas que ocorriam em outros regimes ditatoriais, do Brasil à China. Seu advogado fugiu do Irã após ter seu escritório saqueado e seus parentes agredidos pela polícia. A família de Ashtiani afirma que ela foi torturada, denúncia muito verossímil no país. Outra das 12 mulheres que também esperam no corredor da morte iraniana sofreu recentemente um aborto, após ser espancada na prisão.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Quarto Round



O Conselho de Segurança da ONU aprovou com 12 votos favoráveis a quarta rodada de sanções contra o Irã. Pela primeira vez houve países contrários: Brasil e Turquia. O Líbano se absteve. Há muitas divergências entre os vencedores, em particular pela oposição da China a medidas que atinjam duramente a República Islâmica. A Rússia também expressou sérias reservas. O resultado foi um pacote de sanções muito frágeis, sem condições para forçar mudanças de atitudes no governo iraniano.

O cerne da nova iniciativa é a Guarda Revolucionária, o corpo militar de elite que tem ganhado importância política como instrumento da repressão ao movimento democrático no Irã. A Guarda tem ampla rede de atividades econômicas e seu banco foi um dos alvos deste pacote.

O ponto com maior potencial de conflito é a inspeção de navios que sejam suspeitos de carregar material nuclear. Isso cria o risco de um enfrentamento com mortes, como o que ocorreu em Gaza na semana passada.

As sanções da ONU são consideradas o prelúdio para a imposição de novas medidas contrárias ao Irã por parte dos Estados Unidos e da União Européia. De 1979 em diante, Washington acumula longa lista de sanções contra Teerã.

O argumento dos países que apoiaram as sanções é que sua implementação mostraria a determinação da comunidade internacional em fazer com que o Irã cumpra o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, e que isso forçaria Teerã a negociar.

Dificilmente isso irá acontecer, uma vez que a economia iraniana não será muito atingida pelas novas medidas acordadas pelo Conselho de Segurança. O mais provável é que o Irã procure se apresentar como vítima da intransigência das grandes potências, talvez tentando algum gesto contra Israel (como enviar navios para tentar furar o bloqueio de Gaza) e levando adiante sua política de diversificação de alianças.

Afinal, em meio à pressão sobre seu programa nuclear, em maio o governo iraniano conseguiu ser eleito para a Comissão da ONU sobre o Status das Mulheres. Nada mal para um país onde elas desfrutam de tão poucos direitos. Em junho se completa um ano da “Revolução Verde”, pró-democracia, e de sua repressão pelas autoridades.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Sanções contra o Irã



Nesta semana fui entrevistado para o programa “Sem Fronteiras” da Globonews, que foi exibido ontem à noite. Conversei com o jornalista Tonico Ferreira sobre a situação no Oriente Médio. Meu amigo e chefe Matias Spektor participou de Washington, onde está como pesquisador no Council on Foreign Relations, falando a Jorge Pontual sobre o impacto do tema para as relações entre Brasil e Estados Unidos. Reproduzo neste post alguns dos pontos da entrevista e ascrescento comentários.

Os Estados Unidos reagiram ao acordo com o Irã orquestrado por Brasil e Turquia com a proposta de nova rodada de sanções da ONU contra o país. O projeto conta com o apoio dos outros membros permanentes do Conselho de Segurança e da Alemanha. Os seis países consideraram o entendimento com Teerã como manobra do regime iraniano para ganhar tempo e prosseguir com o programa nuclear. O acordo tem muitas falhas, mas poderia ser usado como primeiro passo para estabelecer confiança e clima favorável às negociações. Ao optar pela intransigência, o Grupo dos 6 fechou importantes possibilidades de diálogo com os países emergentes e criou uma situação de radicalismo que cada vez mais se parece com a controvérsia que precedeu a invasão do Iraque.

A proposta da nova rodada de sanções é a quarta apresentada na ONU. Ela se concentra na Guarda Revolucionária, a unidade militar de elite do Irã, que também possui muitas empresas e investimentos na economia. É o principal braço armado do regime, mas teve a lealdade de vários de seus comandantes questionada pelos recentes protestos pró-democracia.

As sanções são, em realidade, bastante moderadas e tímidas. Não tocam, por exemplo, na indústria do petróleo, o esteio da economia iraniana. A razão é simples: China e União Européia estão entre os principais parceiros comerciais do país.

As sanções têm como objetivo impor mais pressão sobre Teerã, para forçar as autoridades a negociar um acordo que seja mais abrangente do que aquele mediado por Brasil e Turquia. É duvidoso que funcione, como mostra a história em outros casos: Coréia do Norte, o Iraque de Saddam Hussein e o próprio Irã desde a Revolução Islâmica de 1979.

Os Estados Unidos pressionam por sanções mais duras e a resposta rápida do presidente Barack Obama foi muito influenciada pelos problemas do Partido Democrata, às voltas com eleições legislativas e precisando aparecer para a opinião pública como rigoroso em temas de segurança nacional. Por isso a secretária de Estado, Hilary Clinton, fez o anúncio da nova proposta em audiência no Senado.

Apesar do futuro incerto do acordo mediado por Brasil e Turquia, ele foi um ganho diplomático importante para ambos os países. Mostraram iniciativa, capacidade de articular coalizões, disposição para o diálogo. Qualidades fundamentais para evitar o agravamento de tensões no Oriente Médio.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Acordo em Teerã



Ele conseguiu. O presidente Lula mediou de forma bem-sucedida o acordo sobre o programa nuclear iraniano e o Irã enviará urânio à Turquia, para ser enriquecido a 20% com auxílio da Rússia e da França. O percentual insuficiente para armas, mas que garante aplicações para usos médicos. É uma extraordinária vitória diplomática para o Brasil, que coloca a política externa brasileira em outro patamar, e ilumina o potencial da aproximação com a Turquia, fundamental para este processo.

O acordo havia sido proposto pela primeira vez cerca de um ano atrás, mas o Irã havia desistido na última hora em aceitá-lo. Há uma série de indefinições quanto a ele, que inspiram certa cautela. A primeira é que devido ao aumento da produção de urânio iraniano, o percentual que será enviado à Turquia é de cerca da metade do estoque do país. Ou seja, muito poderia ser enriquecido em segredo, em instalações secretas como a que foi descoberta recentemente perto da cidade de Qom.

Para evitar que isso acontecesse, seria necessário um regime de inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, como a que garantiu o desarmamento do Iraque na década de 1990. O governo iraniano tem resistido a esse tipo de vistoria, e não assinou o Protocolo Adicional ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o instrumento que autoriza as inspeções mais abrangentes.

A mediação do Brasil e da Turquia colocou os Estados Unidos numa situação delicada, praticamente forçando o governo Obama a aceitar o acordo atual, apesar de suas deficiências. Naturalmente, isso dá tempo ao Irã – inclusive para levar adiante seu programa nuclear, quaisquer que sejam os objetivos do aiatolá Kamenei, do presidente Ahmadijenad e de outros líderes do país.

Um ponto importante, que teve pouco destaque na imprensa brasileira, é a ofensiva diplomática da Rússia no Oriente Médio. Na última semana, o presidente russo Dmitiri Medvedev visitou Turquia e Síria, assinando diversos acordos de cooperação. No caso sírio, é a retomada da antiga aliança da Guerra Fria, junto a esforços russos para mediar as tensões do país árabe com Israel – que há poucos dias falou de um novo “eixo do Mal” envolvendo Irã, Síria e Coréia do Norte.

A aproximação Rússia e Turquia é inovadora. Os dois países tem uma longa história de guerras, rivalidades e desconfianças, que vem do século XIX e envolve disputas por territórios estratégicos: Bálcãs, Ásia Central, os estreitos ligando o Mar Negro ao Mediterrâneo. Mas descobriram interesses comuns: um intenso fluxo comercial, construção de oleodutos, mediação de conflitos locais. Os russos irão inclusive ajudar os turcos a instalar sua primeira usina nuclear.

Em outras palavras: o Oriente Médio deixou de ser a área de influência hegemônica dos Estados Unidos, como foi em grande medida nos últimos 20 anos, e se tornou o campo de provas para a nova ordem multilateral em gestação. Rússia, Turquia, Irã e mesmo o Brasil ganham possibilidades de ação internacional na região.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Debatendo o Irã



Ontem estive em Brasília. A Câmara dos Deputados me convidou para debater as relações entre Brasil e Irã e participei de um debate ao vivo no programa Expressão Nacional, da TV Câmara. Discuti o assunto com deputados do PT e do PSDB, e um com um diplomata que assessora o presidente Lula. O gancho da conversa foi, claro, a visita do chefe de Estado ao Oriente Médio e as controvérsias despertadas pela iniciativa brasileira de tentar o diálogo com o mandatário iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

(Em breve o vídeo do programa estará disponível no site da Câmara, e colocarei o link por aqui)

O argumento do governo é que o isolamento do Irã aumentaria os riscos à paz e que é preciso manter espaços abertos à negociação, para chegar a uma solução pacífica com respeito ao programa nuclear iraniano. As autoridades brasileiras avaliam experiências anteriores com sanções, como as adotadas contra Iraque e Cuba, não funcionam. Defendem a não-intervenção nos assuntos internos da República Islâmica, como a repressão aos movimentos democráticos, mas se dispuseram a intermediar diálogos entre Teerã e os bahai´s, uma minoria religiosa bastante perseguida, desde os tempos da monarquia. O governo brasileiro afirma que a tradição diplomática nacional, de defesa da paz e da conciliação, fornece ao país credenciais sólidas para mediar conflitos no Oriente Médio.

A oposição alega que a proximidade com o Irã desgasta a imagem internacional do Brasil, devido às polêmicas envolvendo o programa nuclear iraniano, o apoio de Teerã a grupos terroristas (Hamas, Hezbolá) e às repetidas manifestações de racismo e violações de direitos humanos pelo governo do país. Citam reportagens recentes publicadas no jornal The Washington Post e na revista Der Spiegel, que criticam o Brasil, respectivamente, como "idiota útil" e insinuam que o apoio ao Irã pode esconder objetivos bélicos, de desenvolver armas nucleares.

Boa parte do debate seguiu a linha de discutir as contradições na política de não-proliferação nuclear dos Estados Unidos, com a oposição ao Irã e à Coréia do Norte mas, apoio a Israel, Índia e Paquistão. Faltou tempo para que eu falasse um pouco sobre o panorama da política externa brasileira no Oriente Médio: a visita do presidente Lula a Israel, a ratificação do acordo de livre comércio entre esse país e o Mercosul, esforços por receber refugiados palestinos, resgate de brasileiros que vivem no Líbano (durante a invasão israelense) e conferências de cúpula entre a América do Sul e a Liga Árabe.

A Turquia desponta como uma parceira interessante, em particular neste momento das controvérsias sobre o Irã. Os dois países fazem fronteira, compartilham o problema da minoria curda, e mantém um intenso comércio. O governo turco também se opõe a novas sanções contra o Irã e assim como o Brasil, atualmente ocupa uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

A Ásia é o continente com o qual o Brasil tem o maior comércio. Em grande medida isso se deve à ascensão da China, mas o rápido crescimento do intercâmbio com os países do Oriente Médio também é importante. O Irã, por exemplo, já é o segundo maior comprador de carne brasileira. Acredito que a região continuará a ser bastante relevante para o Brasil, embora os próximos governos possam alterar vários pontos da agenda diplomática com os países locais, em especial as tentativas de negociação com o Irã e no conflito árabe-isralense.

No entanto, a sociedade brasileira conhece pouco a região. Faltam especialistas em todas as partes: no governo, na universidade, na imprensa. Mais do que em outros debates sobre política internacional, prevalecem opiniões simplistas e extremadas, que se destacam pelo parco conhecimento sobre a história e cultura dos povos e Estados do Oriente Médio.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Transformações no Irã



Hoje termino de lecionar o curso sobre Ditadores Contemporâneos na Casa do Saber, e o principal tema da aula será o Irã. Acabo de ler um excelente panorama sobre a história recente do país, “Iran´s Long Reach”, de Suzanne Maloney, uma ex-diplomata americana que agora é pesquisadora da Brookings Institution.

Seu livro se concentra nos desdobramentos das décadas de 1990 e 2000 e nos conflitos da estrutura dual de poder no Irã – representada acima, num infográfico do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos. Basicamente, trata-se das tensões entre as autoridades teocráticas (o Líder Supremo e o Conselho dos Guardiões) e da influência dos presidentes eleitos pelo voto popular, embora em contexto de censura e fortes restrições às liberdades de associação.

Após a longa guerra contra o Iraque (1980-1988), o governo iraniano iniciou um programa de ajuste econômico que resultou impopular e deu origem a um grupo de descontentes entre a elite política do país. Liderados por Mohammad Khatami, eleito presidente em 1997, os reformistas empreenderam diversas iniciativas de abertura política e cultural.

As mudanças na conjuntura internacional abortaram esse período promissor. Após o 11 de setembro de 2001, o Irã assistiu aos EUA e seus aliados invadirem dois de seus vizinhos, Afeganistão e Iraque, e intervirem militarmente num terceiro, o Paquistão. O sentimento de cerco e insegurança ajudou bastante a fomentar a reação conservadora, que culminou com a ascensão de Mahmoud Ahmadinejad à presidência, em 2005, e sua aceleração do programa nuclear, que começou ainda nos tempos do xá.



Ironicamente, os Estados Unidos derrubaram dois inimigos ferozes do Irã, as ditaduras sunitas de Saddam Hussein e dos Talibãs. E o crescimento da influência xiita no Líbano (Hezbolá) e na Palestina (Hamas) tornou o Irã a principal potência regional, o grande beneficiário da política externa de George Bush.

Ahmadinejad também deve sua proeminência aos fatores domésticos, em particular às dificuldades econômicas e à inquietação dos grupos conservadores com as reformas dos anos 90. Apesar da alta no preço do petróleo, a maioria dos iranianos é pobre e a história pessoal de Ahmadinejad, oriundo de uma família de poucos recursos, constrasta com a criação privilegiada de diversos de seus oponentes, inclusive os reformistas democráticos. A repressão cultural em seu governo aumentou bastante, sobretudo na vigilância às roupas usadas pelas mulheres e na interrupção policial do circuito de festas clandestinas que acontece em Teerã e outras grandes cidades.

O tamanho da cisão no país pode ser medido pela Revolução Verde que eclodiu em junho de 2009, durante a disputa presidencial. As acusações de fraude na reeleição de Ahmadinejad são muito fortes, assim como é inegável a virulência da repressão, com prisões ilegais, torturas e assassinatos. As divisões na própria elite chamam a atenção – infelizmente, tema não coberto pelo livro - como protestos de setores das Forças Armadas e dos clérigos da cidade sagrada de Qom.

Para onde vai o Irã?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Lendo Lolita em Teerã



No próximo mês darei um curso sobre o Irã e aproveito para ler alguns livros sobre a história recente do país. O mais interessante, sem dúvida, foi “Lendo Lolita em Teerã: memórias de uma resistência literária”, de Azar Nafisi. A autora é professora de literatura e atualmente vive nos Estados Unidos. Seu relato autobiográfico é focado em dois momentos: a situação explosiva nas universidades logo após a Revolução Islâmica e o fechamento do país nos anos posteriores, quando teve que abandonar seu cargo e passou a lecionar em sua casa, para um grupo restrito de estudantes.

Nafisi é especialista em literatura inglesa e americana, o que por si só a tornava suspeita no Irã pós-revolucionário. Descende de uma família de intelectuais e politicos: durante a monarquia, o pai fora prefeito de Teerã, e a mãe, deputada. Teve uma educação refinida e cosmopolita, curiosamente marcada pela cultura de esquerda dos anos 60 – o tema de sua tese de doutorado foram os escritores radicais nos EUA durante a Grande Depressão.

A jovem acadêmica caiu direto dos campi americanos para as salas de aula de Teerã logo após a queda do Xá. O caráter da Revolução estava então em disputa, e clérigos e militantes de esquerda lutavam pelo controle do país. Ambos os grupos eram muito fortes na universidade, e os cursos sobre literatura americana ministrados por Nafisi foram rapidamente taxados de “contrarevolucionários”, fosse em nome dos aiatolás, fosse em razão do comunismo. Ambas as correntes convergiam no ódio intenso aos Estados Unidos.



Nafisi estrutura seu livro a partir de quatro partes que prestam homenagem a grandes escritores: Vladimir Nabokov, Scott Fizgerald, Jane Austen e Henry James. Os leitores que os conhecem sabem de suas posições extremamente críticas às sociedades em que viveram. Essse é o ponto de Nafisi para seus jovens estudantes, às vezes com sucesso, às vezes com fracasso. Um dos melhores pontos da narrativa é o julgamento (literalmente, com juiz, promotor, defensor) do romance “O Grande Gatsby”, de Fitzgerald, que muitos fundamentalistas (com ou sem turbantes) consideravam típico da decadência moral americana.

Na visão de Nafisi, da qual compartilho, se trata de um retrato irônico de como o Sonho Americano pode ser fútil, vazio e enganador. E Lolita, de Nabokov, não é só sobre pedofilia, mas uma interpretação de como podemos destruir um ser humano ao tentar transformá-lo em marionete de nossos sonhos e fantasias. Exatamente como os aiatolás fazem com os iranianos, provoca Nafisi.

Ela adota uma posição que já havia lido em Vargas Llosa, a de que boa literatura é, em si mesma, contestadora, subversiva e rebelde, mesmo quando os escritores são conservadores. Mais do que isso, diz Nafisi:

Um bom romance é aquele que mostra a complexibilidade dos indivíduos; e que cria espaço suficiente para que todos esses personagens tenham uma voz; por isso um romance é chamado de democrático – não porque defenda a democracia, mas porque esta é sua natureza. A empatia está no cerne da questão, no centro de O Grande Gatsby, como em tantos outros grandes romances – o maior pecado é ficar cego dinte dos problemas e dos sofrimentos das outras pessoas.

A segunda parte do livro, a dos grupos de estudo, é menos interessante. O tema é de grande relevância: a opressão feminina que se dá no cotidiano do Irã. A dificuldade para Nafisi é que essa história foi contada de maneira muito mais saborosa em “Persépolis”, de Marjane Satrapi.

E enquanto isso, no Irã: o funeral do aiatolá mais crítico ao regime se tornou palco de outra grande manifestação contra o governo. E numa decisão surpreendente, a justiça iraniana reconheceu que houve tortura na repressão aos protestos durante as eleições.

O blog dá uma parada para o Natal e retorna na próxima semana. A todos, uma excelente festa.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Brasil e Irã



O Irã é uma potência regional no Oriente Médio e um ator de destaque em vários conflitos locais, no Líbano, Palestina e Afeganistão. É um mercado promissor para o agronegócio. As duas características, somadas, o tornam um interlocutor importante para o Brasil, nesta conjuntura em que o país almeja maior presença no Oriente Médio e que, numa impressionante demonstração de prestígio internacional, recebe em poucos dias três chefes de Estado da região. Contudo, a visita do mandatário iraniano ao Brasil ocorre em péssimo momento: em meio à crescente pressão diplomática contra seu programa nuclear, e logo depois de uma violenta onda repressiva contra seu movimento democrático.

Ao longo do século XX, o Irã sofreu diversas invasões: da Gra-Bretanha, da União Soviética, do Iraque. Os Estados Unidos intervieram de forma brutal em sua política, em particular no golpe de Estado da década de 1950 contra o regime nacionalista que asssumiu o controle da indústria do petróleo. Desde a Revolução Islâmica de 1979, os dois países vivem em conflito. Nos primeiros anos do século XXI, o Irã viu seu vizinho mais importante ser ocupado por exércitos estrangeiros, liderados pelos EUA e pelo Reino Unido. Além disso, o país se envolveu em guerras religiosas, apoiando grupos xiitas no Líbano e na Palestina, e enfrentando Israel em batalhas clandestinas que chegaram até a Argentina. Nesse contexto, não causa espanto que Teerã busque armas nucleares.

Tampouco provoca surpresa que as grandes potências – inclusive Rússia e China - rejeitem esse pleito. O Irã é uma força desestabilizadora numa região turbulenta, seu xiismo militante apavora os Estados sunitas, numa mistura de milenares rivalidades religiosas, culturais e étnicas (árabes contra persas). Seu virulento antissemitismo é recente, em parte fruto da rejeição da Revolução Islâmica aos entendimentos entre Israel e o xá Reza Pahlevi contra inimigos comuns, como o nacionalismo árabe.

O presidente Lula foi cauteloso ao afirmar que o apoio brasileiro ao programa nuclear iraniano está condicionado ao caráter pacífico dessa iniciativa, e ao respeito às normas internacionais. Contudo, nas condições atuais, receber Ahamadinejad significa ajudá-lo a romper o cordão de isolamento que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU tentam construir a seu redor. Indispor-se com os integrantes desse clube seleto não é a melhor maneira de candidatar-se a fazer parte do grupo.



Além do programa nuclear, há a questão das violações de direitos humanos perpretadas pelo governo iraniano, em particular a repressão aos protestos contra a reeleição de Ahamadinejad em 2009. Mesmo que aceitemos as alegações de Teerã de que não houve fraudes na votação, nada justifica as prisões arbitrárias e torturas cometidas pelo regime. A violência foi tão grande que provocou uma cisão na elite do país, com os clérigos da cidade sagrada de Qom lançando uma inédita manifestação contra o governo.

Naturalmente, o Irã não está sozinho em seu autoritarismo. Podemos fazer uma analogia, por exemplo, com o massacre da praça da Paz Celestial na China, em 1989. A diferença é que no caso chinês se trata de uma grande potência, cujo enorme poder dá pouco espaço para questionamentos e negociações. Mas uma relação política intensa com o Irã é uma opção, não uma necessidade. Uma escolha que precisa levar em conta os impactos para um momento em que a política externa brasileira frisa a importância da preservação da democracia em Honduras, onde há o risco de criar um precedente para o retorno do golpismo na América Latina.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Qual Democracia?



No mesmo dia em que discursou na ONU exigindo a volta da democracia em Honduras, o presidente Lula se reuniu com seu homólogo Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, que se mantém no poder após eleição marcada por acusações de fraudes, violência, prisões e torturas. Lula creditou as denúncias sobre irregularidades no voto a maus perdedores, e renovou o convite para que Ahmadinejad visite o Brasil.

Com freqüência meus amigos na Argentina e no Chile questionam a política externa brasileira no que toca à promoção da democracia e à defesa dos direitos humanos. Fazem o contraste entre a participação intensa de seus países nos fóruns internacionais com as posições de obstrução a investigações e sanções, adotadas pela diplomacia do Brasil, que afirma preferir o “engajamento construtivo”.

Os interesses políticos e econômicos na África e na Ásia levam o Brasil a colocar os assuntos humanitários em segundo plano, para não melindrar os aliados que busca nas rodadas da OMC ou na campanha pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Essa postura vem desde a ditadura militar, foi menos acentuada sob Collor e Fernando Henrique Cardoso, mas voltou à tona com a ênfase de Lula nas relações sul-sul.



Mas os tempos mudaram. General Geisel, saia deste corpo, que ele não te pertence: a democratização da sociedade brasileira, a abertura econômica e a expansão das telecomunicações ampliaram o número de atores sociais envolvidos com a política externa, e muitos deles valorizam temas de direitos humanos, opondo-se às posturas do governo. O Itamaraty optou por não incomodar a ditadura de Robert Mugabe no Zimbábue, mas os sindicalistas pressionam em solidariedade a seus colegas perseguidos no país. Lula trata Ahmadinejad com honras, mas sua visita ao Brasil enfrenta resistência de grupos (judeus, baha´i, homossexuais) que condenam as violações de direitos humanos no Irã.

A política externa brasileira precisa estar conectada aos anseios e valores da sociedade. O Brasil não é a China ou a Rússia, que podem prescindir de considerar importantes os assuntos humanitários. Infelizmente, a democracia brasileira ainda não se encontra tão consolidada quanto as da Europa Ocidental ou as de algumas nações de sua vizinhança continental (Argentina, Chile, Costa Rica, Uruguai).

Mesmo nessa escala imperfeita e intermediária, o país pode ter uma diplomacia mais afinada com ideais progressistas, que priorize a estabilidade democrática na América Latina, com a exclusão de apoios a grupos armados e caudilhos autoritários. E adote equilíbrio nas alianças na África, priorizando relações com Estados moderados (África do Sul, Benin, Gana, Libéria) e mantendo distâncias de regimes asquerosos (Gabão, Líbia, Sudão, Zimbábue). A recente visita de Obama à região foi exemplar nesse aspecto.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Ahmadinejad e os Brasileiros



O cancelamento da visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, privou a sociedade de boa oportunidade para debater as possibilidades de política externa nas relações brasileiras com a República Islâmica e as objeções que distintos grupos políticos nacionais fazem ao regime instaurado pela Revolução de 1979.

As guerras no Iraque, no Líbano e no Afeganistão transformaram o Irã na principal potência regional do Oriente Médio. Estados Unidos e União Européia têm cortejado Teerã para diversas tarefas cruciais, como checar a acordos com os Talibãs e oferecer fonte de gás natural alternativa à Rússia. A maior parte dos analistas da política internacional destaca o Irã como um Estado-pivô no mundo muçulmano. Na América Latina, o Irã estabeleceu acordos comerciais e energéticos com os países andinos, sobretudo Venezuela e Equador.

Isso não significa, necessariamente, o relaxamento das tensões internacionais com o país. As monarquias conservadoras do Golfo temem a exportação do radicalismo xiita iraniano, bem como a ação do Hamas e do Hezbolá. Israel e os EUA preocupam-se com a iminente capacidade nuclear de Teerã. E grupos de direitos humanos por toda parte – inclusive no Brasil - criticam o governo iraniano por sua repressão a dissidentes, homossexuais, feministas. Há suas declarações sobre o Holocausto, é certo e também a perseguição à minoria religiosa dos Bahá´í.

Não são questões pequenas e a ascensão de Ahmadinejad reforçou as controvérsias em torno delas. Em excelente ensaio para a New Yorker, John Lee Anderson traça um perfil aprofundado do presidente iraniano, mostrando como ele cresceu em poder como um outsider à elite do país, forjando uma aliança com os aiatolás conservadores contra os tecnocratas que implementaram as limitadas reformas da década de 1990. Evidentemente, o clima polarizador da guerra e do terrorismo após 2001 não contribuiu para o sucesso das posições moderadas.

Ahmadinejad está em plena campanha presidencial – as eleições serão em junho – e é provável que vença a disputa.

Os interesses econômicos e políticos do Brasil cada vez mais se direcionam para a Ásia, nesse sentido é fundamental estabelecer diálogos de alto nível com um país tão importante na região como o Irã. Ao mesmo tempo, a política externa brasileira precisa responder aos anseios de setores sociais importantes da população, e defender princípios caros à atuação diplomática nacional. Dialogar também significa dizer “não” aos parceiros, quando os interesses e valores são divergentes. A controversa participação de Ahmadinejad na revisão da conferência de Durban, sobre racismo, intolerância e xenofobia, é um exemplo de temas onde os dois países se distanciam.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O Racismo dos Outros



Certa vez trabalhei numa campanha contra o racismo cujo ponto de partida foi uma pesquisa de opinião pública na qual quase 90% dos entrevistados admitia a existência da prática no país, mas menos de 5% se consideravam racistas. A lembrança veio à tona diante do discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na conferência de revisão de Durban – que, de outro modo, talvez nem fosse destacada na imprensa.

Durban é o mais recente esforço da ONU em combater o racismo e demais formas de discriminação. Embora as Nações Unidas tenham se dedicado ao tema desde sua fundação e elaborado importantes tratados a respeito na década de 1960, o processo ainda é bastante frágil. A própria conferência de Durban terminou em fracasso com a retirada conjunta de Israel e dos EUA, em função das críticas dos países muçulmanos à situação na Palestina. Isso aconteceu em setembro de 2001, alguns dias antes dos atentados terroristas contra Nova York e Washington.

O mundo não ficou mais tolerante de lá para cá. As implicações raciais, religiosas e culturais da “guerra contra o terror” são bastante conhecidas, e a eclosão da crise econômica global provavelmente piorará o quadro, com imigrantes pobres (regulares ou não) tornando-se alvo de grupos xenófobos. Há muita gente assutada, com raiva, e à procura de um bode expiatório para seus demônios.

No Oriente Médio o racismo é uma moeda de grande legitimidade política, tanto para as relações internacionais quanto para a (quase sempre precária) estabilidade doméstica dos governos. A situação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia é uma bomba relógio de ódio étnico e religoso insustentável até mesmo no médio prazo, mas as nações da região também caminham no fio da navalha de tensões semelhantes – sunitas, xiitas (Iraque, Líbano), curdos (Iraque, Turquia), cristãos, muçulmanos (Líbano) e as profundas divisões culturais e religiosas dentro de Israel, em particular a dificuldade de absorver cerca de um milhão de imigrantes da antiga União Soviética.

O Irã ocupa uma situação especial. É herdeiro de um grande império da Antiguidade, que passou por humilhações profundas no século XX, como ocupação estrangeira e uma dinastia cossaca que tentou modernizar o país à força, com a consequencia de deflagrar a Revolução Islâmica de 1979. Os aiatolás expulsaram boa parte da velha e próspera comunidade judaica, mas surpreendemente persiste boa parcela desse grupo no país.

O discurso de Ahmadinejad acusando Israel de explorar a memória do Holocausto para justificar uma política externa agressiva, é amplamente consensual no mundo muçulmano. Curioso apenas que ele tenha reconhecido a existência do genocídio, já que até há pouco o negava e um jornal de seu país chegou a organizar umbizarro concurso de charges ironizando o tema. Ao abordar o assunto com tanta fanfarra, o presidente iraniano está tentando lançar credenciais de liderança regional, com base na oposição a Israel.

A ambição é compreensível diante do colapso do principal rival do Irã, o Iraque, e do papel internacional crescente de Teerã como mediadora de conflitos, inclusive no Afeganistão. Mas sua base é frágil, pois tradicionalmente os países árabes tiveram no império persa seu grande inimigo. E a revolução xiita dos aiatolás é profundamente perturbadora tanto para as conservadoras monarquias do Golfo (Arábia Saudita, Iêmen, Emirados Árabes Unidos) quanto para os regimes autoritários mais seculares, como a Síria. O discurso de Ahmadinejad provocou a saída de delegados de diversos países ocidentais. Resta saber o que terão a oferecer às populações muçulmanas, na próxima crise, seja ela onde for.