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quarta-feira, 2 de maio de 2012

As FARCs e os Sequestros

No domingo fui entrevistado na Globo News sobre o uso dos sequestros pelas FARCs, por conta do jornalista francês capturado pela guerrilha. Este texto desenvolve alguns dos pontos que abordei na televisão.

As FARCs usam fartamente o sequestro. Às vezes, por razões puramente econômicas, para extorquir dinheiro de suas vítimas. Outras vezes, por motivos políticos, prendendo deputados, policiais, militares, a ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt. Em fevereiro, a guerrilha prometeu não mais sequestrar para cobrar resgates, e pouco depois libertou 10 prisioneiros, inclusive com mediação brasileira. Mas as FARCs mantiveram o silêncio com respeito aos sequestros políticos.

O governo colombiano estima que a guerrilha ainda tenha cerca de 100 prisioneiros, organizações da sociedade civil acreditam que o número possa ser bem maior, 450-600. As FARCs sequestraram jornalistas colombianos em algumas ocasiões, mas esta é a primeira vez que capturam um repórter estrangeiro. Rómeo Langlois é um correspondente veterano que está na Colômbia há mais de uma década e trabalha para empresas de prestígio como Le Figaro e France 24.

Langlois acompanhava o Exército colombiano numa incursão para combater o tráfico de drogas, quando a unidade em que estava foi atacada pelas FARCs, e ele foi ferido com um tiro no braço. Fez o procedimento padrão para jornalistas nesses casos: tirou capacete e colete para ser confundido com combatentes. Aparentemente, ele se entregou à gueriilha com medo de ser morto. Porta-vozes das FARCs confirmaram que estão com o jornalista, que classificaram como “prisioneiro de guerra”.

A guerrilha tem baixa credibilidade na Colômbia por uma longa história de promessas não-cumpridas e atitudes dúbias, de engajamentos em negociações ao mesmo tempo em que persistem em ataques e atentados. Sucessivas manifestações e protestos da população têm pressionado as FARCs a libertarem seus prisioneiros. Um jornalista que foi sequestrado pela guerrilha criou uma ONG, Voces del Secuestro, que organizou um mutirão de rádio – o único meio de comunicação acessível aos reféns na selva – com mensagems e palavras de apoio das famílias e amigos.

Há um alto custo político das FARCs em manter em seu poder Langlois, sobretudo por ele ser um jornalista francês, país que teve papel importante nas pressões para a libertação de Ingrid Betancourt. Difícil acreditar que possam aguentar serem colocadas na berlinda por muito tempo, em especial diante do enfraquecimento de seu poder militar.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

As FARCs e os Muitos Jogos na Cidade



Um amigo que trabalhou para a ONU na região andina em meados da década passada havia comentado comigo que as FARCs utilizavam o território do Equador e da Venezuela como “hotel, hospital e bordel”. A presença guerrilheira na área era ostensiva, bem como seus vínculos com o tráfico de drogas. Há dois anos as Forças Armadas da Colômbia bombardearam um acampamento das FARCs no Equador e mataram diversas pessoas, incluindo Raúl Reyes, responsável pelas relações internacionais do grupo. O ataque fez parte da estratégia colombiana em assassinar a cúpula das FARCs, que levou à morte mais da metade do scretariado da organização. Nele foram apreendidos computadores e documentos.

Dado o nível de polarização ideológica na região andina, o governo colombiano entregou o material ao Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, um centro de pesquisas britânico, para que analisasse sua autenticidade. O resultado foi divulgado na semana passada e confirma a importância de Venezuela e Equador como santuários para a guerrilha, além de mostrar que as FARCs doaram dinheiro à campanha presidencial de Rafael Corrêa. Também revela que o serviço secreto venezuelano conversou com os guerrilheiros sobre a possibilidade de que treinassem pistoleiros para assassinar oponentes de Hugo Chávez, no clima de tensão exarcebada que se seguiu à tentativa de golpe da oposição, em 2002. O “Sem Fronteiras”, da Globo News, cuja edição da semana passada examinou os documentos, apresentou ótimas análises.



No Brasil, a ação das FARCs era política, não militar. O governo brasileiro negou acesso dos guerrilheiros ao alto escalão oficial, mas autorizou a abertura de um escritório de representação para fins de propaganda e negociações. O representante das FARCs no país, o ex-padre Oliverio Medina, acabou preso pela Polícia Federal, mas depois foi considerado "refugiado político" e o pedido da extradição da Colômbia foi negado. Muitos líderes políticos do Brasil são oriundos da luta armada contra a ditadura e tendem a avaliar o conflito colombiano em ótica semelhante. Erro grave. A longa insurgência naquele país ocorreu quase toda contra regimes democráticos, por parte de grupos da extrema-esquerda que recusaram-se a aceitar as regras do jogo eleitoral, no pacto que encerrou a guerra civil entre conservadores e liberais, na década de 1950.

Trinta anos mais tarde as FARCs fizeram uma tentativa de lançar um partido, a União Patriótica, cujos candidatos e militantes foram massacrados. Outros grupos guerrilheiros, como o M-19, fizeram a transição com sucesso. Mas as FARCs nunca abriram mão das armas e a criação da UP fazia parte de sua estratégia de “combinação de todas as formas de luta”. O fracasso da via partidária apenas reforçou a lógica da violência como forma de obter ganhos políticos e econômicos.

A situação entre Venezuela e Colômbia mudou nos últimos meses, com a posse de Juan Manuel Santos na presidência colombiana. Os venezuelanos chegaram inclusive a extraditar guerrilheiros para os vizinhos. Não é uma guinada rumo à defesa dos direitos humanos, mas preocupações econômicas com a queda acentuada do importante comércio bilateral, depois de anos de tensões diplomáticas.

A democracia só se consolida quando vira o único jogo na cidade. A única maneira legítima de obter poder político no Estado. A persistência das FARCs e o apoio aberto ou velado que o grupo recebe de governos é um fator que debilita e mina os regimes democráticos não só nesses países, mas também nas demais nações andinas. O Peru, divivido entre a filha de um ex-ditador e um ex-golpista militar, exemplifica esse drama.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Uma Guerrilha sem Fins?



"As FARC - uma guerrilha sem fins?", do sociólogo francês Daniel Pecaut é uma pequena jóia que em 150 páginas, traça um panorama histórico competente do conflito colombiano e em seu terço final realiza uma estupenda análise de conjuntura dos anos de Uribe no poder, com um diagnóstico que desafia as concepções simplistas da Colômbia: a guerrilha está quase derrotada, mas o remédio amargo usado para isso, o concluio enfre Forças Armadas e paramilitares, pode ser um veneno ainda pior. E alerta que os efeitos trágicos do conflito armado resultaram em concentração de renda e aumento da pobreza, mesmo diante dos bons índices de crescimento econômico. É, em suma, a melhor obra em português sobre esse tema.

Embora o título do livro possa indicar um panfleto contra a guerrilha, a análise de Pecaut é matizada e bem embasada na história colombiana. Ele examina o surgimento das FARC a partir dos grupos de autodefesas camponeses durante La Violencia, a guerra civil entre conservadores e liberais nas décadas de 1940-50. Em 1958 os dois partidos fizeram um pacto de governabilidade, mas resolveram atacar os últimos bastiões de resistência rural, que haviam se radicalizado politicamente. Desse conflito nasceram as FARC.

Pecaut chama a atenção para o forte vínculo das FARC com o mundo camponês colombiano, e sua dificuldade para se articular politicamente nas cidades. Até a década de 1980 as FARC eram um pequeno grupo guerrilheiro operando na periferia do país, em disputa com diversos outros (ELN, EPL, M-19, Quintin Lame). Num dos processos de paz, tentaram criar um partido, a União Patriótica, que começou a despontar como opção de esquerda, e foi dizimado com o assassinato de cerca de três mil de seus militantes e dirigentes.



A partir daí a guerrilha adotou o caminho sem volta da militarização, que encontrou terreno fértil para crescer nos anos 90, em meio à crise econômica e política, que incluiu o envolvimento de um presidente com o tráfico de drogas. Que, aliás, também teve importância crescente para as FARCs, em conjunto com a renda obtida por sequestros e pela extorsão de empresas que operam em zonas controladas pela guerrilha. Curiosamente, as FARC nunca tiveram grandes patrocinadores externos, ao contrário do ELN, muito próximo do regime cubano.

Uribe foi eleito presidente no clima de medo do auge do poder da guerrilha, e executou uma competente reestruturação das Forças Armadas, que pela primeira vez têm os recursos (financeiros, humanos e tecnológicos) necessários para combater as FARC. Mas a ação do Estado quase sempre ocorreu em parceria com os paramilitares, que fazem o trabalho de sujo de atuar como esquadrões da morte e ocupam as terras abandonadas pelos guerrilheiros, explorando-as economicamente. Os resultados têm sido extremamente nocivos para a Colômbia: uma "reforma agrária às avessas", que transformou os paras nos maiores proprietários rurais do país, a criação de levas de "desplazados", refugiados internos que fogem para as cidades ou nações vizinhas, e um enorme nível de corrupção na chamada "parapolítica", que envolve esses grupos e a elite colombiana.

A ofensiva (para)militar bem-sucedida contra as FARC fizeram com que a guerrilha adotasse duas estratégias para tentar sobreviver: a "troca humanitária" e a busca de apoio internacional, sobretudo por meio do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. A primeira diz respeito ao sequestro de reféns políticos (a senadora Ingrid Betancourt é a mais famosa, mas de modo algum a única) para uso nas barganhas com o governo. A segunda vem da estratégia "bolivariana" que a guerrilha adotou nos anos 90, apresentando um vago programa reformista na tentativa de obter ajuda externa que a ajudasse a legitimar-se como um ator no jogo político colombiano.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Uribe, Santos, Chávez



No fim de semana fui entrevistado pela Globonews a respeito da posse do novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e das implicações de seu governo para as relações com a Venezuela e o Brasil. Meu comentário foi que sua ascensão à presidência traz uma expectativa moderada de melhorias.

Santos foi ministro da Defesa de Álvaro Uribe, posto no qual, evidentemente, se destacou pela ação contra as guerrilhas. Contudo, suas posições anteriores de alto escalão foram todas nas áreas de comércio exterior e economia internacional. Nos anos 90, inclusive advogou negociações de paz com as FARCs. A família do novo presidente é de grandes empresários, por décadas foram os magnatas da mídia na Colômbia. A ênfase nos negócios pode ajudar bastante nas relações com Hugo Chávez: apesar de todas as turbulências entre seus presidentes, Colômbia e Venezuela seguem sendo as segundas maiores parceiras comerciais uma da outra, atrás somente dos Estados Unidos.

Outro sinal de boa vontade de Santos foi nomear como ministra das Relações Exteriores a diplomata Maria Angela Holguin, que havia sido embaixadora em Caracas e mantido ótimo diálogo com Chávez – embora, ironicamente, tenha tido alguns problemas com Uribe. Chávez respondeu ao gesto enviando seu chanceler, Nicolas Maduro, para a posse de Santos. Nada mal para países que passaram os últimos anos cortando relações e fechando embaixadas.

Algumas das perguntas da entrevista disseram respeito ao personalismo na política latino-americana, no sentido que a diplomacia – que deveria ser uma política de Estado,marcada mais por continuidade do que por mudanças bruscas – tornou-se muito dependente dos humores e caprichos dos governantes. Chamei a atenção para as semelhanças entre Colômbia e Venezuela. Até a década de 1990, ambos os países tinham sistemas partidários muito fortes, que entraram em colapso, simultaneamente, por conta de problemas diversos: crises econômicas, violência política etc. Dos escombros dessa ordem institucional ascenderam dois presidentes carismáticos e centralizadores: Uribe e Chávez. Parecidos, apesar de estarem em pólos ideológicos opostos.

A meu ver, o melhor remédio para tanto personalismo seria fortalecer as instituições regionais sul-americanas, de modo a consolidar fóruns que possam amortecer os impulsos mais destrutivos que vem dos Andes. Talvez o Conselho de Defesa da região possa desempenhar esse papel, caso reforce sua capacidade e seja percebido pelos principais atores políticos do continente como um órgão neutro e de confiança. Tarefa difícil, diante da ambigüidade com que muitos países sul-americanos tratam as guerrilhas colombianas.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

CSI: Caracas



Na América Latina se morre de muita morte morrida, e de alguma morte matada, mas ninguém perece por causa do tédio. A notícia mais pitoresca dos últimos dias foi a decisão do presidente da Venezuela em exumar os restos mortais de Simon Bolívar para comprovar uma hipótese lançada recentemente por cientistas da Universidade de Maryland, nos EUA: a de que o Libertador teria sido envenenado por arsênico, em vez de ter falecido em decorrência de tuberculose, como em geral se acredita.

A obsessão política de Chávez com Bolívar é bastante conhecida, mas não é tão difundida sua fixação com a morte. Segundo seus biógrafos, o presidente venezuelano acredita com fervor que será assassinado. Descobrir que seu maior ídolo teve um fim semelhante com certeza um impacto psicológico forte sobre Chávez, reforçando suas crenças com respeito a seu suposto destino trágico.

A vida de Bolívar parece uma transposição americana de um dos romances de capa e espada de Alexandre Dumas, e ele sobreviveu a uma série de conspirações, intrigas e tentativas de assassinato – a mais famosa foi um ataque noturno a sua casa, da qual ele escapou pulando pela janela, enquanto sua amante enganava os inimigos. É verossímil, embora não seja provável, que ao fim um adversário mais ardiloso o tenha envenenado.

Se isso for verdade, o impacto político é nulo. As disputas pelo poder na Grã-Colômbia das décadas de 1820 e 1830 podem ser leituras fascinantes, mas não impactam para o atual estado das relações entre Chávez e Uribe, para a agenda da ALBA ou para a próxima rodada de retórica entre a Venezuela e os EUA.

Curiosamente, não é a primeira vez que tiram Bolívar de seu descanso eterno. Na década de 1970, um grupo armado colombiano, o M-19, roubou a espada do Libertador de um museu e anunciou que “retomava sua luta” – pleito que terminou num trágico atentado terrorista, a tomada da Suprema Corte da Colômbia, com dezenas de mortos. Passou pelo traficante Pablo Escobar e pelo governo cubano. As FARCs agora alegam ter outra das espadas do líder.
Faltam boas biografias em português de Bolívar, mas para os que se interessam pelo personagem recomendo os trabalhos do historiador David Bushnell.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Azarão Colombiano



Nesta semana Antanas Mockus, ex-prefeito de Bogotá e candidato do Partido Verde à Presidência da Colômbia, passou para o primeiro lugar nas pesquisas à sucessão de Álvaro Uribe, desbancando o oficialista Juan Manuel Santos - ex-ministro da Defesa, primo do vice-presidente, sobrinho-neto de outro presidente e membro da família que é a maior empresária de mídia do país. Mockus é uma personalidade original e controversa que mostra que a alta popularidade de Uribe não significa a adesão da população à continuidade de seu projeto político.

Conheci Mockus há alguns anos, quando ele visitava o Brasil como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Na ocasião, conversamos bastante. Entrevistei-o sobre suas experiências como prefeito de Bogotá e fui o mediador num debate entre ele e estudantes brasileiros e colombianos. Saí bem impressionado do encontro e intrigado com vários aspectos de sua personalidade.

Filho de imigrantes da Lituânia, ele é matemático, e havia feito carreira como professor e administrador universitário antes de entrar na política. É um forasteiro na elite colombiana, onde as famílias tradicionais - Vargas Lleras, Restreppo, Uribe, Santos - costumam ocupar os principais cargos do Estado por gerações a fio. Não se encaixa facilmente nas classificações fáceis de esquerda x direita que em geral dominam as disputas eleitorais na Colômbia.

Suas duas gestôes à frente de Bogotá foram inovadoras, com a implementação de medidas inusitadas para combater a violência cotidiana - uso de mímicos para ridicularizar motoristas infratores das leis de trânsito, dias de "vacinação contra a violência", toque de recolher para homens em algumas noites de sexta-feira. Suas iniciativas de marketing pessoal foram mais controversas, como se fantasiar de super-herói e casar num circo - nem sua mãe compareceu à cerimônia. Promoveu uma dura repressão contra vendedores de rua, que também foram bastante criticadas. Mas o resultado geral foi admirável: a taxa de homicídio caiu para menos da metade.



Mockus é um homem de grande habilidade no trato com a mídia e se saiu muito bem nos debates de TV (assim como outro azarão, Nick Clegg, do Partido Liberal-Democrata britânico) e usa com maestria novas tecnologias, como redes sociais - sua página no Facebook tem mais de 400 mil seguidores. Isso ajuda a explicar seu acelerado e surpreendemente crescimento, em poucas semanas. Sua mensagem - continuar a luta com as guerrilhas, mas respeitar os países vizinhos e focar a ação do Estado em educação e cultura - encontrou eco entre os eleitores. Aparentemente, os colombianos admiram a restauração da segurança e do crescimento econômico por Uribe, mas estão cansados da violência oficial, dos escândalos de corrupção, dos vínculos das autoridades com os grupos paramilitares.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Gabriel García Márquez: uma vida



O escritor colombiano Gabriel García Márquez brincou que todo autor respeitável deveria ter um biógrafo inglês. O seu, Gerald Martin, cumpriu a tarefa com maestria. Após quase 20 anos de pesquisa, lançou um estupenda biografia, que examina a gênese do universo criativo de García Márquez e destrincha suas relações políticas com sua Colômbia natal e com a Revolução Cubana, de quem se tornou o principal defensor intelectual.

García Márquez passou a infância em pequenas cidades e vilarejos da costa caribenha da Colômbia. Sobretudo Arataca, cujas lendas ele imortalizaria na Macondo de “Cem Anos de Solidão”, sua obra-prima. Seu modelo era o avô materno, um coronel que lutou pelos liberais na Guerra dos Mil Dias, e em cuja casa o escritor viveu quando pequeno.

Na juventude, García Márquez foi estudar em Bogotá, mas nunca se sentiu à vontade na capital da Colômbia, situada nos Andes e de costumes bem mais conservadores do que a parcela tropical do país. Estudou Direito, sem se formar, se iniciou no jornalismo e assistiu ao terrível Bogotazo, a rebelião popular que marcou o início de La Violéncia, a guerra civil entre conservadores e liberais que se arrastou pela década de 1950.




Mas então García Márquez era menos interessado em política do que em literatura, cinema e jornalismo, e viveu aos trancos e barrancos como repórter por uma série de países: Colômbia, Venezuela, França, Estados Unidos e, finalmente, México, onde foi muito bem acolhido e desfrutou de um excelente ambiente cultural, no qual floresceu seu casamento com Mercedes e cresceram seus dois filhos, Rodrigo e Gonzalo.

Seus primeiros romances, como “La Hojarasca” e “Ninguém Escreve ao Coronel” começaram a torná-lo conhecido como escritor. A fama internacional veio com “Cem Anos de Solidão”, em 1967, saga familiar que mistura guerras civis, massacres de trabalhadores nas plantações de banana, ciganos, mitos e que se tornou um dos livros mais amados do século XX. García Márquez se tranformou numa celebridade global, íntimo de estadistas e artistas, e o Nobel conquistado em 1982 apenas reforçou seu status.

O escritor despontou no contexto do boom da literatura latino-americana, no qual também figuraram outros autores de primeiro quilate, como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes. Eram bastante amigos, mas García Márquez e Vargas Llosa terminaram adversários e protagonistas de uma célebre briga a socos, num coquetel explosivo que envolvia rivalidade pessoal, disputas amorosas e divergências políticas.

O cerne da polêmica foi Cuba. García Márquez fez parte da equipe da Prensa Latina, a tentativa da Revolução de 1959 de criar uma agência de notícias internacionais que desafiasse as grandes empresas ocidentais. O projeto fracassou em meio às disputas internas do próprio governo cubano, mas o escritor conseguiu aos poucos se aproximar de Fidel Castro e ambos se tornaram grandes amigos. García Márquez mediou alguns esforços humanitários – como libertar presos políticos cubanos – mas se calou diante do autoritarismo e das violações de direitos humanos do regime de Castro e com o tempo se transformou em algo muito próximo a seu propagandista, ao passo que outros intelectuais foram rompendo progressivamente com a Revolução cubana, criticando seu autoritarismo.



Aliás, García Márquez é fascinado pelo poder e pela proximidade com presidentes de diversos matizes, inclusive ditadores como Castro e como o general panamenho Omar Torrijos. Gerald Martin examina muito bem como isso reflete em sua obra, em particular nos romances “O Outono do Patriarca” e “O General em seu Labirinto”, que apesar de tratar de Bolívar, incorpora algo de Fidel.

García Márquez esposou outras causas políticas, como a condenação às ditaduras latino-americanas (em especial a de Pinochet) e o apoio à transição democrática na Espanha. Em sua Colômbia natal, seus esforços foram mais contraditórios e falhos. Seus projetos de revistas jornalísticas nunca prosperaram muito e sua relação com líderes políticos locais foram tensas. Ele oscilou da proximidade com os guerrilheiros do M-19 ao flerte com conservadores no contexto da ascensão do poder do narcotráfico. Na Venezuela, onde morou, García Márquez não gosta de Chávez, talvez porque seja amigo íntimo de seus adversários, como o ex-presidente Carlos Andrés Pérez (que Chávez tentou depor num golpe militar, em 1992) e do líder de esquerda Teodoro Petkoff.

Na maturidade, a obra literária de García Márquez passou a abordar principalmente o tema do amor, que parece coincidir com certo desencanto com o poder. Martin é entusiasta do romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, e mais crítico com respeito aos livros mais recentes do escritor (como “Memórias de Minhas Putas Tristes”). O biógrafo retrata o declínio da saúde de García Márquez, como sua luta contra o câncer e problemas neurológicos que o têm acometido com frequencia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Contando os Mortos



A Colômbia vive em conflito armado há mais de 60 anos, numa espiral sangrenta que envolveu os principais partidos políticos, guerrilhas, paramilitares, Forças Armadas, polícia e traficantes de drogas. Num contexto assim, quem topa ser um ativista de direitos humanos, com todos os riscos que a atividade implica? Que valores e hábitos influenciam as pessoas que escolhem esse campo? “Counting the dead: the politics and culture of human rights activism in Colombia”, da antropóloga americana Winifred Tate, é um belo mergulho nesse mundo.

A autora viveu vários anos em Bogotá, trabalhando em ONGs de direitos humanos, e exerceu as mesmas funções em Washington, em instituições que acompanham a situação colombiana. Não a conheço pessoalmente, mas é provável que tenhamos nos cruzado em algum congresso acadêmico ou evento social, porque ela trata de um ambiente que me é familiar.

Tate começa o livro com um excelente capítulo-resumo sobre a história do conflito colombiano (clique aqui para um texto semelhante, de Catherine LeGrand). Até a década de 1970 o conflito armado era relativamente restrito a áreas isoladas no interior, mas dali em diante a brutalidade se generalizou numa escala que só encontra paralelos com o Peru do Sendero Luminoso e com as guerras na América Central. A estratégia de sobrevivência encontrada pelos ativistas de direitos humanos foi intensificar seus vínculos internacionais e apostar na qualificação profissional como um escudo contra represálias. De fato, sempre admirei o trabalho dos colegas do país (por exemplo, a Fundação Viva La Ciudadanía), por sua alta capacidade técnica e um nível quase inacreditável de coragem.



É claro que só se entra numa vida tão arriscada por valores que estão além do cálculo utilitário imediato, de custos e benefícios. Tate identifica com precisão a influência da Igreja Católica e dos movimentos da esquerda universitária, mas talvez subestime o espírito de comunidade, o sentir-se parte de um grupo, que motiva tantos militantes. Afinal, as lembranças mais agradáveis que tenho do convívio com os amigos colombianos não são conversas sobre mortos e massacres, mas os papos sobre literatura latino-americana, regados a caipirinha e boas risadas.

Tate descreve com bons detalhes as frustrações dos trabalhos em redes internacionais de direitos humanos e como as atividades da ONU muitas vezes parecem fúteis e vazias diante do sofrimento com o qual procuram lidar. Chequem, por exemplo, os casos que Igor Pessoa conta de Genebra em seu excelente e recém-criado blog.

Ao mesmo tempo, ela mostra como as Nações Unidas se tornaram um ator importante no conflito colombiano, com a abertura pioneira do escritório do Alto Comissário de Direitos Humanos em Bogotá. A análise política é muito boa e me fez lembrar as histórias de um amigo que trabalhou nele, e terminou almoçando numa prisão de segurança máxima com o líder do grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional (“Foi a melhor lasanha que comi na vida”).

O governo de Álvaro Uribe tem sido duro com os ativistas de direitos humanos, frequentemente acusando-os de ajudar as guerrilhas e grampeando seus telefones e emails. O livro de Tate tem um final um tanto sombrio, talvez excessivamente. Afinal, há processos importantes em curso na Colômbia, como a desmobilização dos paramilitares, as sucessivas derrotas das FARCs e a renovação partidária do Pólo Democrático.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Colômbia e Venezuela



Tratar con Chávez no es fácil. Es impredecible, radical, emotivo e impulsivo. Sus actitudes cambian y sus discursos suelen ser más amenazantes que sus acciones. La respuesta tranquila no es la más obvia frente a la opinión pública pero puede ser la más aconsejable a la larga. "Debemos manejar la situación con mucho tino para no retar al presidente Chávez, pues ya conocemos que su reacción iría en contra del empleo de muchos colombianos que producen para exportar artículos a Venezuela", dice el senador Manuel Ramiro Velásquez...

Da revista colombiana “Cambio

Colômbia e Venezuela têm relação marcada por bem-humorada rivalidade que lembra, por exemplo, a existente entre São Paulo e Rio de Janeiro. As duas maiores partes do que foi o Estado criado por Bolívar também mantém forte fluxo comercial, que tem sobrevivido aos conflitos entre Uribe e Chávez. Não é pouca coisa visto que o presidente venezuelano rompeu o acordo de livre comércio entre os dois países e estabeleceu medidas protecionistas, como controles cambiais.

E, claro, existem as controvérsias sobre as relações de Chávez com as FARCs. O round dos últimos dias foi a apreensão junto a guerrilheiros colombianos de armas fabricadas na Suécia, de propriedade das Forças Armadas da Venezuela. Uribe acusou Chávez de fornecer o armamento aos insurgentes, os dois países romperam relações diplomáticas e o clima político na região ficou ainda mais acirrado com o anúncio da ampliação da presença militar dos EUA na Colômbia, com a cessão de quatro bases aéreas.

Há anos existem rumores de auxílio dos governos venezuelanos às FARCs. Isso teria começado com os conservadores da década de 1990, que ajudariam a guerrilha com dinheiro e armas, e em troca o grupo não atacaria alvos na Venezuela. A mudança com Chávez é que ele se refere em termos elogiosos aos guerrilheiros, tratando-os como atores políticos legítimos, e critica tanto Uribe quanto os paramilitares.

As armas suecas podem ter chegado aos guerrilheiros por contrabando, traficadas por militares corruptos. Mas o fato foi lido no contexto de radicalização, desconfiança e tensões que envolvem os dois governos. Episódios desse tipo têm se repetido – podemos pensar no bombardeio colombiano ao acampamento das FARCs no Equador, ou ao seqüestro de um importante líder guerrilheiro em Caracas. A mediação internacional tem sido importante para impedir um desfecho violento e a próxima rodada multilateral será a cúpula da Unasul, no próximo dia 10.

Os conflitos são ruins para a região, mas ironicamente criam boas oportunidades comerciais para o Brasil. Chávez se esforça para diminuir a dependência das importações da Colômbia e tem se voltado para a indústria e a agricultura brasileira em busca de opções. As exportações brasileiras para a Venezuela cresceram tanto que aquele mercado é hoje o principal superávit na balança comercial do Brasil. Nada mal para estes tempos de crise e para um país de médio porte, com pouco mais de 25 milhões de habitantes. Além disso, a boa relação entre Chávez e Lula imunizou as empresas brasileiras que operam na Venezuela dos riscos políticos, como nacionalização, como aconteceu com tantas outras, inclusive de oriundas de nações cujos governos são simpáticos ao chavismo, como a Argentina.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Veneno e Antídoto


Na ONG em que trabalho costumamos exibir filmes sobre temas sociais e em seguida realizarmos debates com alguém envolvido em sua produção. Ontem foi a vez do excelente documentário “O Veneno e o Antídoto – uma visão da violência na Colômbia”, dirigido por Estevão Ciavatta.

O filme nasceu de um convite recebido pelo Afroreggae para visitar a Colômbia e o grupo resolveu aproveitar a visita para filmar as maneiras pelas quais as pessoas lidam com a resolução de conflitos violentos. Tudo a ver com uma organização que nasceu como reação da sociedade às chacinas que ocorreram nas favelas do Rio de Janeiro no início da década de 1990. O documentário mostra iniciativas em três locais: Bogotá, Medellín e o povoado de San José del Apartadó, próximo à fronteira entre Colômbia e Panamá.

Em Bogotá e Medellín, o filme entrevista políticos, ativistas comunitários, ex-paramilitares em reabilitação, vítimas da violência e artistas. Impressiona a gama de políticas públicas bem-sucedidas implementadas nas duas cidades, como a instalação de centros de conciliação, espécie de juizados de pequenas causas dedicados a resolver conflitos entre moradores de favelas e áreas pobres. Os próprios habitantes locais são treinados para mediar nas disputas, com resultados excelentes. De fato, analistas do confronto armado colombiano apontam que a violência política acabou por contaminar as relações pessoais cotidianas, se espalhando para brigas banais de trânsito ou entre vizinhos.



Outro elemento importante é a reforma urbana empreendida com o propósito de valorizar os espaços públicos, tais como praças e parques. Um componente foi o de melhorar o acesso às favelas, como os teleféricos de Medellín (foto acima), além de ruas mais amplas. A idéia é que as pessoas passem a valorizar mais a cidade e que os laços sociais entre os moradores se tornem mais fortes.

Também houve incentivos culturais, dos quais o mais impressionante é a extraordinária rede de bilbliotecas públicas, sem paralelo na América do Sul. Na foto abaixo – uma delas, em Bogotá. Aliás, nunca canso de me maravilhar com o altíssimo nível cultural colombiano, algo que também chamou a atenção dos espectadores, porque as pessoas entrevistadas no filme eram muito articuladas e precisas ao narrar suas histórias.



Nas cidades colombianas a taxa de homicídios caiu para 10% do que foi no auge do conflito, mas a zona rural continua muito violenta. O documentário mostra a situação do norte do país, uma região disputada por diversos grupos armados por sua importância na rota para escoar drogas. Uma das mulheres entrevistadas no filme conta que perdeu filhos para cada um dos atores da guerra: Exército, paramilitares, guerrilhas.

Sendo assim, não é de espantar que muitos fujam do interior rumo às cidades, migrantes que na Colômbia são conhecidos como “desplazados” - na realidade, refugiados de guerra em seu próprio país.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Governo Brasileiro e as FARCs


A revista colombiana "Cambio" saiu nesta quinta com matéria de capa acusando altos funcionários do governo brasileiro de manter relações com as FARCs. Segundo a publicação, emails encontrados no laptop de Raúl Reyes, o líder guerrilheiro morto no ataque ao Equador, mostram o envolvimento com o grupo de "cinco ministros, un procurador general, un asesor especial del Presidente, un viceministro, cinco diputados, un concejal [vereador] y un juez superior [desembargador]". A informação teria sido mantida em segredo pelas autoridades da Colômbia para não prejudicar os excelentes laços comerciais entre os dois países.

A denúncia é menos bombástica do que parece à primeira vista. O material divulgado pela revista mostra apenas diálogos e conversas entre líderes da guerrilha e autoridades brasileiras, alguns tragicômicos como o pedido de um desembargador gaúcho para visitar um acampamento das FARCs - presumo que os vôos para a Disneylândia estivessem lotados naquele verão... Não há denúncias de ajuda financeira ou militar do governo do Brasil à guerrilha colombiana. Pelo contrário, o ataque ao Equador foi executado com aviões da Embraer...

Por que a imprensa colombiana divulgou as acusações neste momento? Meu palpite é que as informações foram vazadas pelo governo Uribe no contexto mais amplo do início da campanha diplomática para desmantelar a rede internacional de apoio às FARCs, sobretudo na Europa. O objetivo é aproveitar as vitórias contra a guerrilha no plano interno para isolá-las externamente.

Neste cenário, as posições moderadas do governo brasileiro com relação às FARCs são incômodas para Uribe. É constrangedor que funcionários do Estado se reunam com membros de uma organização ilegal que diversos países próximos ao Brasil classificam como "terrorista". A Constituição elenca o repúdio ao terrorismo como um dos pilares da política externa brasileira, embora a realidade das disputas de poder muitas vezes obrigue à manutenção de diálogos com grupos como o Hezbolá - que atua como partido político no Líbano, com deputados e ministros - e à tentativa de encontrar um modus vivendi com as FARCs, para evitar conflitos na turbulenta zona de fronteira entre Brasil e Colômbia e garantir proteção ao número crescente de empresas brasileiras que operam em território controlado por guerrilheiros.

Em certos círculos da direita brasileira ganhou força a teoria conspiratória que transforma o governo Lula no principal sustentáculo da guerrilha colombiana (ou vice-versa, dependendo do entusiasmo do analista). O veículo para essa influência seria o Foro de São Paulo, a rede de partidos e movimentos da esquerda latino-americana. Em minha perspectiva, o Foro foi criado como uma tentativa desses grupos em redefinir seu lugar no mundo após a queda do Muro de Berlim e o colapso dos regimes comunistas na URSS e na Europa.

A idéia era boa, mas foi absurdo ter incluído movimentos armados na iniciativa. O Fórum Social Mundial, por exemplo, exclui tais grupos. Muito sofrimento ocorreu na América Latina em função de violência política. Não faria mal algum declarações de líderes de peso no continente, como o presidente Lula, repudiando com veemência essas estratégias criminosas. Como diz o cientista político Juan Linz, a democracia só se consolida quando vira "the only game in town", isto é, a única via legítima para chegar ao poder.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A Libertação de Ingrid Betancourt


Ontem passei a tarde na TV PUC, gravando um programa sobre África. Ao sair do estúdio, uma rádio paulista me ligou no celular, pedindo meus comentários sobre a libertação de Ingrid Betancourt. Contudo, o repórter me havia dito que as FARCs é quem tinham soltado a refém. Somente ao ler os jornais desta quinta é que soube que na realidade a ex-candidata à presidência foi libertada em conjunto com outras 14 pessoas numa brilhante operação de inteligência do Exército colombiano.

Os militares se passaram por guerrilheiros e convenceram um comandante das FARCs de que iriam levar a ele e os reféns para um encontro com a cúpula da organização. Só quando embarcaram na aeronave é que descobriram que estavam nas mãos das autoridades. Foi um resgate extraordinário, muito bem-executado e sem disparar um só tiro. Além de demonstrar a perícia das unidades de elite da inteligência colombiana, é uma prova clara do estágio de desestruturação e falta de comunicação em que caíram as FARCs.

A popularidade de Uribe já batia recordes antes da libertação, e agora deve crescer ainda mais. Difícil imaginar que, diante de um presidente tão admirado, a justiça colombiana anule sua reeleição - há um processo em curso, devido a acusações de compra de votos no Congresso para aprovar a emenda que permitiu a Uribe se candidatar a um segundo mandato.

O mais interessante, no entanto, será observar qual o papel que Ingrid Betancourt irá desempenhar na política colombiana. Ela é uma estrela do Partido Liberal, de oposição a Uribe. Naturalmente, passou por uma tragédia pessoal, de 6 anos de cativeiro, e há rumores de sua saúde está muito ruim. Ainda assim, a Colômbia tem outros exemplos de políticos que escaparam das FARCs e reassumiram posições de liderança (como o atual chanceler de Uribe, Fernando Araújo). A própria entrada de Ingrid na política foi uma espécie de acerto de contas com a decisão de seu pai de se retirar da promissora carreira pública - foi embaixador, ministro e chegou a ser cogitado para a presidência. Não me parece o perfil de uma mulher que se contentaria em se retirar para a vida privada.

É muito provável que ela se torne uma líder de relevo nas negociações para o desmantelamento das FARCs, e, naturalmente, esvaziará bastante as iniciativas que Hugo Chávez possa empreender, até porque o presidente da Venezuela está atarefado com suas próprias crises internas.

domingo, 25 de maio de 2008

A Morte de Tirofijo


O governo colombiano anunciou ontem a morte de Tirofijo, também conhecido por Manuel Marulanda, nome de batismo Pedro Antonio Marin, o fundador e líder das FARCs. Ele teria falecido de causas naturais, provavelmente infarto, há dois meses. É o golpe mais duro na sucessão de derrotas que a guerrilha tem sofrido em 2008, e que já resultaram na eliminação de metade de seu secretariado-geral.

Ainda não há confirmação para a morte de Tirofijo, mas rumores quanto a ela já corriam há bastante tempo, devido à ausência de aparições públicas do líder das FARCs. Era quase certo de que ele estava muito doente e de que não mais exercia papel relevante na liderança prática da guerrilha, permanecendo muito mais como uma figura simbólica.

A vida de Tirofijo ilustra os momentos mais dramáticos da convulsionada Colômbia. Ele começou na luta armada nas guerrilhas ligadas ao Partido Liberal, em 1948, após o assassinato de Gaitán e a eclosão do Bogotazo. Radicalizou-se ao longo dos anos e se tornou comunista, menos influenciado por Marx e Lênin e mais pela situação de miséria e violência endêmica da zona rural colombiana.

O guerrilheiro foi um dos principais articuladores do envolvimento das FARCs com o narcotráfico e da estratégia de seqüestros políticos promovidos pela organização. Sua atuação nos processos de paz sempre foi controversa e as conseqüências de sua morte dividem os analistas: um grupo acredita que facilitará o desmonte da guerrilha, outra corrente afirma que não irá interferir muito.

Segundo o governo colombiano, as FARCs nomearam Alfono Cano sucessor de Tirofijo. O outro líder de destaque da guerrilha é Jorge Briceño, mais conhecido como Mono Jojoy. Nenhum deles tem o prestígio e o poder do falecido comandante e é bastante provável que, no curto prazo, as FARCs se tornem ainda mais fragmentadas, quem sabe até com a divisão em grupos rivais.

Enquanto isso, ganha força a campanha pelo terceiro mandato de Uribe, e o governo colombiano acusa parlamentares da oposição de ligações com as FARCs.

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Última Trincheira


Até onde sei, “A Última Trincheira” é o único livro de um autor brasileiro sobre as FARCs. O autor é o jornalista Fábio Pannunzio, que foi à Colômbia em 1999 para realizar uma série de reportagens para a TV Bandeirantes. Escreveu um misto de romance com relato de não-ficção que é um testemunho importante das fracassadas negociações de paz entre a guerrilha e o governo Andrés Pastrana (1998-2002).

Pannunzio chamou seu livro de romance, mas me parece que uns 80% são jornalismo. A narrativa segue duas paralelas. A primeira é a história dele mesmo, e de seu cinegrafista, indo à Colômbia e tentando entrevistar comandantes das FARCs, estabelecendo-se em San Vicente del Caguán, “a capital da guerrilha”, cidade que foi escolhida para sediar a zona desmilitarizada durante as negociações. A segunda é a de uma família de camponeses que se vê envolvida no fogo cruzado entre FARCs, Exército e paramilitares.

O livro foi publicado em 2001 e a rápida progressão dos acontecimentos na Colômbia fez com que ele já adquirisse o sabor de um relato histórico – no caso, do tenso contexto em que se deram as negociações de paz. Pannunzio descreve uma Bogotá apavorada e perigosa, que contrasta com a segurança que a capital adquiriu recentemente, ao se tornar o que um amigo colombiano chama de “ilha de legitimidade” em meio a um mar ainda turbulento. Há uma passagem tragicômica na qual o autor-narrador é assaltado em meio a um bem executado conto do vigário, em pleno centro de Bogotá.



O cerne do livro é são as duas semanas que Pannunzio passa na zona desmilitarizada e que lhe faz ver outra Colômbia. Uma de camponeses pobres, de origem indígena, que são a base de recrutamento da guerrilha. Ele descreve o alívio de San Vicente del Caguán com a interrupção dos combates, ainda que matizado pelo medo de que a guerra retornasse. Narra também os esforços da guerrilha em administrar a área.

Pannunzio traça um retrato em geral simpático das FARCs, descrevendo seus integrantes e líderes como pessoas comprometidas com um ideal de transformação social ampla. Contudo, seu livro fornece informações e detalhes que permitem interpretações mais críticas da guerrilha: o poder de vida e morte exercido sobre camponeses, o recrutamento de adolescentes (alguns de até 12 anos), ilegal pelas leis da guerra, os seqüestros e a extorsão praticados para financiar a luta armada e o desconhecimento da realidade colombiana mais ampla, fora do meio rural limitado em que se dão os combates.

Dois pontos me chamam a atenção no retrato que Pannunzio pinta da guerrilha: sua fortíssima vinculação com o meio rural e modo como a sociabilidade cotidiana no campo se impregnou da violência que consome o país sem tréguas há 60 anos.

O que faz falta no livro é a busca de informações sócio-econômicas e históricas mais amplas, que pudessem iluminar a breve experiência pessoal do autor no país. Pannunzio ouviu as FARCs e os moradores de San Vicente del Caguán, mas não há relatos de entrevistas com autoridades, com acadêmicos ou com paramilitares, nem a busca de entender melhor as transformações pelas quais a guerrilha passou em seus mais de 40 anos – por exemplo, a tentativa frustrada de se estabelecer como partido político (a União Patriótica) na década de 1980.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Colômbia: aniversário sem festa



“Cuando fue que el Perú se jodió?”, pergunta Vargas Llosa na abertura de um de seus melhores romances. Podemos repetir a indagação com relação à Colômbia e arriscar uma data precisa: 9 de abril de 1948, o dia em que o líder liberal Jorge Gaitán foi assassinado, detonando um período de conflito político armado que mesmo hoje, 60 anos depois, ainda não terminou. O link leva para excelente especial do jornal colombiano El Tiempo.

A Colômbia compartilha com os demais países latino-americanos história de desigualdades, pobreza e Estado frágil, embora esteja longe de ser a pior colocada nessas categorias. Há muitas discussões sobre por que a violência floresce com tanta força entre os colombianos e não, por exemplo, no Paraguai ou na Bolívia. Uma das respostas diz respeito ao tipo de estrutura política se gerou por lá, com intensa polarização entre dois partidos muito fortes e enraizados na sociedade, Liberal e Conservador. Leia os romances de García Márquez (em especial “Cem Anos de Solidão” e “Ninguém Escreve ao Coronel”) e você verá a longa história de guerras civis entre ambos.

No Brasil, o suicídio de Vargas levou a algumas horas de tumulto e quebra-quebra. Na Colômbia, o assassinato de Gaitán resultou numa rebelião popular, o Bogotazo, que praticamente destruiu a capital. Os distúrbios se espalharam rapidamente à zona rural e se tornaram guerra civil de dez anos que matou cerca de 200 mil pessoas, período conhecido como La Violencia.



A época deixou sementes de ódio e feridas não-curadas que se estenderam no tempo. Após a Revolução Cubana, a cultura do conflito radical que se solidificou no campo se transformou numa série de guerrilhas – FARCs, ELN, EPL – e em movimentos sociais armados, como os indígenas do Quintin Lame. Fora grupos urbanos, como o M-19. Aliás, um dos efeitos inesperados do Bogotazo foi a influência que teve sobre Fidel Castro, então líder estudantil. Ele estava na Colômbia para a cúpula da OEA e se juntou aos distúrbios saindo de lá bastante entusiasmado com a excitação da luta armada.

Não há muito o que comemorar na Colômbia de hoje, na guerrilha sem fim das FARCs e nos escândalos de corrupção envolvendo os paramilitares e o Congresso. O aniversário da morte de Gaitán e do Bogotazo será sem festa.

Pós-escrito: dica do Márcio Pimenta. Nesta quarta, às 21h, o History Channel exibirá um documentário sobre o Bogotazo. O canal tem tradição de ótimos programas sobre a Colômbia, portanto, vale a pena conferir!

quarta-feira, 12 de março de 2008

A Caçada às FARCs



A crise sul-americana terminou com abraços meio constrangidos na Cúpula do Grupo do Rio. No fim das contas, o resultado foi a vitória política de Uribe, que mostrou ser capaz de atacar as FARCs nos países vizinhos, matar um dos principais líderes da guerrilha e manobrar com habilidade em meio à tempestade regional que se seguiu. Outra boa notícia para Uribe ocorreu poucos dias depois: a morte de mais um líder das FARCs, Ivan Ríos (foto), responsável pelas finanças da guerrilha. Ríos foi assassinado por um de seus subordinados, motivado pela recompensa de 5 milhões de pesos. Para comprovar a morte do chefe, entregou às autoridades a mão de Ríos, que decepara por garantia. A Colômbia não é para amadores.

Quando uso a expressão "líder", me refiro aos membros dos secretariado-geral das FARCs, a cúpula da organização. Até o dia 1 de março, nenhum integrante do secretariado havia sido morto em combate, em mais de 40 anos de conflito armado. Em uma semana, foram dois. Além disso, o Exército matou comandantes de "Frentes" (unidades das FARCs que variam de algumas dezenas a centenas de tropas). Claro que isso fortalece muito a popularidade de Uribe, que está altíssima, e reforça seu argumento de que é possível derrotar militarmente a guerrilha.

Na semana passada houve manifestações importantes na Colômbia, teoricamente em defesa das vítimas de toda a violência política, embora na prática tenha sido algo mais voltado à oposição aos grupos paramilitares. Foi uma reação aos protestos de fevereiro, que tinham sido dirigidos exclusivamente contra as FARCs. A questão é delicada porque os paras envolvem a cumplicidade de policiais, militares e políticos - sim, se você é do Rio de Janeiro, o paralelo com nossas milícias é assustador e evidente.

Surgiram informações interessantes sobre a tecnologia avançada usada pelo Exército colombiano para o ataque ao destacamento das FARCs no Equador. Tropas colombianas teriam se infiltrado próximo à base e instalado localizadores de fabricação israelense, que foram utilizados para guiar as bombas lançadas pelos aviões - Super Tucanos da brasileira Embraer, escolhidos para a missão porque "podrían pasar por inocuas avionetas turísticas, cuentan con avanzados sistemas de visión nocturna y alta tecnología para visión térmica y guía de bombas y misiles."

Outra curiosidade: as bombas utilizadas foram do tipo cluster, que explodem a alguns metros do solo, e espalham explosivos por grande área. São perfeitas para o ataque a alvos difusos, como bases guerrilheiras, mas muitos problemas têm sido observados em sua aplicação, em particular a permanência de munição não-detonada que pode atingir civis, à semelhança de minas. Por isso, esse tipo de armamento enfrenta resistências internacionais e sua proibição é discutida em fóruns multilaterais. O Brasil defende as bombas cluster e tem várias em estoque.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A Carta de Ingrid Betancourt


Durante muito tempo, fomos como os leprosos que estragam a festa. Os reféns não são um assunto “politicamente correto”, soa melhor dizer que é preciso ser forte diante da guerrilha, estar disposto a sacrificar algumas vidas humanas. Diante disso, silêncio.
Ingrid Betancourt

A Editora Agir publicou "Cartas à mãe - direto do inferno", da política colombiana Ingrid Betancourt, que se tornou sem dúvida o grande símbolo internacional das atrocidades cometidas pelas FARCs. Infelizmente para a senadora e ex-candidata à presidência, ela se tornou importante demais para seu próprio bem, e virou uma peça no jogo de xadrez entre a guerrilha, o governo colombiano e a opinião pública internacional.

Comecemos pelo livro. Ingrid foi seqüestrada em plena campanha presidencial, em 2002, e não dava notícias desde 2003. Com a retomada das negociações por sua libertação, foram exigidas provas de vida, divulgadas em outubro de 2007. Uma delas é a famosa foto que mostra a senadora abatida, em meio à selva, e que ilustra a capa. Outra foi a carta de 12 páginas que ela escreveu à mãe, e que é o principal documento publicado no livro. Ele também traz a resposta dos filhos da senadora e um pequeno posfácio do historiador brasileiro Francisco Carlos Teixeira sobre a situação política na Colômbia.

"A vida aqui não é a vida, é um lúgubre desperdício de tempo", escreve Ingrid Betancourt. Ela narra as agruras das péssimas condições de vida na selva, o constante movimento para escapar às perseguições das autoridades, o isolamento, o tédio, a solidão: "Estou cansada de sofrer, de carregar essa dor comigo todos os dias, de mentir para mim mesma achando que tudo vai terminar e constatar que cada dia equivale ao inferno do dia anterior."

As FARCs impõem um regime cruel aos seqüestrados. Além de privá-los da liberdade e do contato com a família e os amigos, com freqüência proibem que eles tenham livros, roupas confortáveis, etc: "Nesta selva, a única resposta para tudo é “Não”."



Ingrid Betancourt é o caso mais famoso entre os reféns, pela sua proeminência política e pelo fato de que, como cidadã francesa, virou o centro de ampla campanha internacional por sua libertação, sobretudo na Europa (França, Espanha, Itália). Me parece que, na América Latina, somos muito mais insensíveis à sua sorte. Foi preciso que Sarkozy colocasse a questão em debate, diante do silêncio dos presidentes da região, que não querem colocar a mão na casa de marimbondos do conflito colombiano, nem se indispor com as autoridades de um país que é um sócio econômico lucrativo e bastante promissor - só a Vale está investindo US$6 bilhões em mineração e geração de energia por lá.

Álvaro Uribe foi eleito em meio ao fracasso das negociações de paz promovidas pelo governo anterior, de Andrés Pastrana, e toda sua política para as FARCs é de buscar uma vitória militar (embora negocie com a guerrilha do ELN e com os paramilitares). Como vimos, o Exército colombiano está desenvolvendo tática semelhante ao de Israel com relação ao Hamas/Hezbolá: ações localizadas visando a assassinar as lideranças inimigas. Nesse cenário, negociar com as FARCs é algo que só faz contra a vontade, sob intensa pressão internacional. As famílias dos reféns são extremamente críticas à pouca disposição que Uribe tem em chegar a um acordo para a libertação dessas pessoas - a maioria, policiais e militares capturados em conflitos com a guerrilha.

No caso de Ingrid Betancourt, pesa um sério problema político. Ela é uma líder do Partido Liberal, de oposição a Uribe. Caso fosse libertada, se tornaria imediatamente uma heroína nacional e o pólo de uma coalizão que quase com certeza inviabilizaria o sonho do presidente de mudar a Constituição e concorrer a um terceiro mandato. Temo que a senadora tenha o mesmo fim dos 11 deputados mantidos reféns pelas FARCs, mortos durante um ataque do Exército...

A Multilateralização da Crise Andina


A crise escapou dos Andes e alcançou a esfera das instituições multilaterais, com negociações muito tensas na Organização dos Estados Americanos (OEA) e a declaração de Uribe de que irá processar Chávez no Tribunal Penal Internacional. Nenhuma das duas iniciativas é boa notícia para a América do Sul.

A Colômbia está na berlinda na OEA, sob intensa pressão do Equador, da Venezuela e da Nicarágua (Cuba está suspensa da organização desde os anos 60). Contudo, a diplomacia colombiana se defendeu bem e conseguiu impedir uma resolução da organização condenando o país pela violação da fronteira equatoriana. Ainda não se chegou a um consenso na OEA, mas me parece que a tendência é pela aprovação da proposta lançada por Brasil e Chile, para se criar uma comissão de investigação – o típico instrumento do deixa-disso, para acalmar os ânimos até a poeira baixar.

Simultaneamente às negociações na OEA, Uribe anunciou que processaria Chávez no Tribunal Penal Internacional (TPI), por cumplicidade com genocídio. A acusação é confusa – o conflito armado na Colômbia é uma tragédia humanitária, mas de modo algum se encaixa na definição de genocídio, que implica a tentativa de eliminar um grupo étnico ou religioso. Depois da polêmica inicial, diplomatas colombianos afirmaram que o processo seria pelo apoio do presidente venezuelano aos grupos terroristas.

O TPI tem competência para julgar quatro tipos de casos: agressões entre Estados, genocídio, crimes de guerra e violações massivas de direitos humanos contra a população civil. Os especialistas estão divididos com relação à possibilidade de que Chávez possa ser processado pelo TPI, entre outras razões porque no que toca aos crimes de guerra, a Colômbia suspendeu sua participação no tribunal até 2009, para facilitar as negociações com a guerrilha e os paramilitares.

Contudo, o cerne da controvérsia é político. Os principais partidos de oposição a Uribe, o Pólo Democrático e o Partido Liberal, rechaçaram a idéia. Acreditam que só pioraria a já péssima situação entre Colômbia e Venezuela. Além disso, o próprio TPI precisa aceitar a denúncia, o que é um longo processo.

A decisão da Venezuela de fechar a fronteira com a Colômbia também é péssima notícia, porque o fluxo comercial entre os dois países é muito intenso – as importações colombianas são fundamentais para a indústria e a alimentação dos venezuelanos. É possível que isso resulte em mais compras dos produtos brasileiros, mas indústrias do Brasil instaladas na Colômbia, que exportam para o mercado da Venezuela, como a Marcopolo, já amargam prejuízos sérios (o link é só para assinantes do Valor).

segunda-feira, 3 de março de 2008

Trombetas



No fim de semana tropas colombianas atacaram um destacamento das FARCs refugiado em território equatoriano e mataram um dos principais líderes de guerrilha, Raul Reyes. Os governos do Equador e da Venezuela reagiram enviando tropas à fronteira com a Colômbia e está em curso uma sucessão de expulsões de diplomatas e fechamentos de embaixadas entre os três países, no que é a pior crise política em dez anos entre nações da América do Sul.

Um amigo que trabalhou para a ONU na fronteira do Equador com a Colômbia me descreveu a região como a “loja, bordel e hotel das FARCs”. Os vínculos entre as autoridades equatorianas e a guerrilha não são surpresa para ninguém. A polícia colombiana (na foto, seu comandante, o general Naranjo) afirma que os computadores apreendidos com Reyes comprovam que ministros equatorianos pediam às FARCs a libertação de reféns, num processo a ser mediado pelo presidente Correa, visando ao aumento de seu prestígio internacional.

O Equador protestou contra a invasão de seu território, expulsou o embaixador colombiano, mandou tropas à fronteira e pediu ajuda à OEA, ao Mercosul e à Comunidade Andina. A Colômbia alegou que agiu de acordo com o princípio de legítima defesa, pois as FARCs usavam o refúgio equatoriano para lançar ataques, e pediu desculpas ao governo equatoriano.

A Venezuela fechou sua embaixada em Bogotá, mandou blindados para a fronteira da Colômbia e decretou minuto de silêncio em homenagem a um “revolucionário covardemente assassinado”. O gesto tem sido interpretado como recado de Chávez a Uribe: não se meta a tentar aqui o que você fez no Equador.

Demais respostas internacionais: Argentina, Chile, França, Itália e Alemanha condenaram a violação da soberania do Equador e aconselharam cautela aos países envolvidos na crise. As declarações mais forte foram as do chanceler francês, que ressaltou que a morte de Reyes “não é boa notícia”, destacando o importante papel que ele tem nas negociações para a libertação dos reféns.

Fidel Castro, aproveitando o tempo livre, disse que soam as trombetas da guerra na América do Sul, e que a culpa de tudo é do “império ianque”.

Ainda não consegui encontrar qualquer declaração do governo brasileiro, mas pela nossa tradição diplomática o Brasil irá se apresentar como moderador do conflito em curso, da mesma maneira que realizou em crises anteriores na América do Sul, como Peru x Equador e Venezuela x Colômbia.

Embora a Colômbia tenha agido em legítima defesa contra as FARCs, será difícil encontrar algum governo disposto a defender o ataque ao território de outro Estado (talvez os EUA). Bogotá foi longe demais, e sua incursão matou o principal expoente dos moderados dentro da guerrilha. Nenhuma nação sul-americana deseja dar a Colômbia carta branca para lançar outras incursões desse tipo, pelos efeitos imprevisíveis que teriam, por exemplo, na Venezuela. E o que fazer com relação aos ataques das FARCs contra a Colômbia? Penso que a melhor resposta veio do editorial do jornal colombiano El Tiempo: regionalizar as discussões:

Habrá que ver qué pasos se dan, pero, por lo pronto, entramos en un tenso período de confrontación, ojalá solo verbal y diplomática, entre Colombia y Venezuela. Al prudente silencio con el que se ha respondido hasta ahora, y sin dar pie a provocación alguna, quizá sea hora de añadir una mediación internacional, o de buscar que el sistema interamericano comience a jugar un papel activo en una crisis que puede desestabilizar a toda la región. Las cosas con Venezuela están pasando de castaño oscuro y eso no es bueno para nadie.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A Fragmentação das FARCs


O Correio Braziliense publicou há alguns dias reportagem muito boa a respeito da luta pelo poder dentro das FARCs. O líder histórico da guerrilha, Manuel Marulanda, estaria moribundo, com câncer. De fato, há cinco anos não se divulgam fotos suas, correm até rumores de que já teria morrido. Segundo o jornal, o grupo se dividiu entre diversas correntes, umas mais radicais, favoráveis à intensificação do conflito armado com o governo colombiano, e outras que defendem negociações – o rosto mais visível destas é Raúl Reyes (foto), um dos porta-vozes das FARCs para a comunidade internacional.

As disputas internas na guerrilha estariam dificultando ainda mais as negociações, uma vez que as facções em conflito com freqüência sabotariam as ações de suas rivais. Isso explicaria fiascos como o do menino Emmanuel e tragédias como o assassinato de 11 ex-deputados colombianos.

Em meio às lutas políticas, a retórica de Chávez contra Uribe atingiu níveis ainda mais elevados de estridência. Sergio Leo chama a atenção para um artigo precioso de Alfredo Rangel, ex-Conselheiro de Segurança Nacional da Colômbia, que minimiza os arroubos oratórios do presidente da Venezuela:

Pero, a pesar de su incontinencia verbal, Chávez es un político perspicaz, sabe para dónde va, cuáles son sus intereses y sus posibilidades, y no tiene vocación de perdedor. Chávez no va a amarrar su destino a las Farc. No va a arriesgar la estabilidad de Venezuela, ni el futuro de su proyecto bolivariano, ni las relaciones con otros gobiernos reconociendo a las Farc como beligerantes, recibiendo sus embajadores, dándoles apoyo militar masivo y enfrentándose a Colombia por cuenta de la guerrilla.

Os motivos apontados por Rangel dizem respeito, basicamente, aos custos internos que Chávez enfrentaria na Venezuela, caso se aproximasse ainda mais das guerrilhas e as considerasse como “beligerantes”. Ele calcula, a meu ver acertadamente, que um gesto desse nível causaria imensos problemas com o Exército, de cujo apoio o presidente depende para se manter no poder.

Quem se interessa pelo processo de paz colombiano precisa acompanhar também as negociações com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Esse grupo guerrilheiro é menor do que as FARCs e mais concentrado na questão da nacionalização do petróleo. Em 2004-2005 houve uma tentativa de acordo com o governo colombiano. O embaixador mexicano Andrés Valencia, que liderou os esforços de mediação internacional, faz relato exaustivo, mas muito rico, sobre as dificuldades que enfrentou.

O diplomata afirma que o ELN enfrentava "un creciente debilitamiento militar que obligaba al grupo insurgente a privilegiar la lucha política en aras de mantener un identidad propia frente a las FARCs" e que os guerrilheiros acreditavam que Uribe "requería de un proceso de diálogo con el ELN a fin de compensar ante la opinión pública nacional e internacional los Acuerdos de Santa Fé de Ralito" (isto é, com os paramilitares). Trata-se de um quadro complexo, em que Uribe, FARCs, ELN e os paramilitares avançam e recuam conforme a escalada de violência, derrotas ou vitórias bélicas, golpes de opinião pública e mudanças na conjuntura diplomática - a guerrilha rompeu o diálogo, entre outras razões, porque o México criticou a situação dos direitos humanos em Cuba.

Há esperança para a Colômbia? Penso que sim. Qualquer um que conviva com as pessoas daquele país fica impressionado com sua inteligência, dedicação, bom humor e capacidade de superar adversidades. Um colega colombiana do IUPERJ me convida a participar da mobilização mundial contra as FARCs, no próximo dia 4 de fevereiro. Serão protestos em várias cidades, que esperam reunir 1 milhão de pessoas. O movimento começou com um boca a boca pela Internet (Facebook) e tem conquistado adeptos muito rapidamente.