
Os atentados terroristas que mataram mais de 90 pessoas na Noruega tornaram o dia 22 de julho o mais violento na Escandinávia desde a Segunda Guerra Mundial. Anders Breivik, o réu confesso dos ataques é norueguês, cristão, vinculado a grupos de extrema-direita. Seus escritos o mostram como violentamente hostil à esquerda, aos muçulmanos aos imigrantes e como defensor de um nacionalismo que vê ameaçado pelo multiculturalismo contemporâneo. Uma década após o 11 de setembro, e depois dos atentados de Madri e Londres, o espectro do terrorismo abandonou o paradigma do “choque de civilizações” entre Islã e Cristandade e chegou ao âmago das tensões internas na região mais desenvolvida do planeta.
A extrema-direita cresceu bastante na Europa Ocidental nos últimos 20 anos, tornando-se parte da coalizão governamental na Áustria, Itália, Dinamarca, Finlândia e estabelecendo-se como força política relevante na França, Suécia, Suíça e Holanda. Sua base de apoio são os trabalhadores não-qualificados e a pequena classe média, os segmentos sociais mais prejudicados pela abertura econômica e aqueles mais temerosos da competição com os imigrantes. Tensões culturais, religiosas e étnicas contam, e muito, e a radicalização ideológica mundial após o 11 de setembro as agravaram, como é possível ver em leis que procuram limitar ou eliminar símbolos islâmicos, como véus e minaretes nas mesquitas.
Por ironia, a extrema-direita não era considerada ameaça séria na Noruega. Os grupos são relativamente pequenos e desorganizados, sobretudo em comparação à vizinha Suécia. O governo norueguês é uma coalizão entre três partidos de esquerda, do qual o mais importante é o Trabalhista. Os atentados tiveram um fortíssimo caráter partidário, danificando o escritório do primeiro-ministro por meio de uma bomba, que aparentemente cumpriu função de desviar a atenção das autoridades para o alvo principal, o campo da juventude trabalhista, onde o terrorista perpretou o massacre de mais de 80 adolescentes.

Ele afirma ter agido sozinho, mas ainda não está claro se isso de fato ocorreu e se houve algum tipo de apoio logístico por parte de grupos de extrema-direita. O terrorista havia pertencido ao Partido Progressista, que apesar do nome é conservador, mas deixou a organização porque acreditava que ela havia perdido o idealismo e eram necessários valores mais rigorosos para evitar o que ele via como a ameaça de destruição cultural da Noruega. Ele se apresentava na Internet como um empresário bem-sucedido, mas perseguido por marxistas. Na realidade pertence a uma classe média sólida e confortável, mas não teve bom desempenho em suas iniciativas empreendedoras.
A Noruega não faz parte da União Européia – a população rejeitou em referendo integrar o bloco, porque temia a queda de seu altíssimo patamar de vida – mas é membro da OTAN, a aliança militar ocidental. E possui uma economia bastante aberta e bem-integrada aos fluxos globais de comércio e finanças. Os atentados sem dúvida são o pior trauma nacional desde a ocupação nazista na década de 1940, mas não acredito que mudarão significativamente a estrutura política local. O provável é o aumento na cooperação em segurança internacional com a UE, para monitorar de modo mais cuidadoso os grupos de extrema-direita.
Na última década, muçulmanos morenos tem sido considerados os elementos suspeitos por excelência. Logo após os atentados, consultorias como a Stratfor e jornais como New York Times atribuíram a “extremistas islâmicos” os ataques na Noruega. Quem sabe agora os especialistas globais em terrorismo passem a temer também os cristãos louros. Já deveriam ter aprendido a lição com Oklahoma, nos Estados Unidos.