sexta-feira, 7 de março de 2008

Zapatero prendeu minha estagiária



Entre os 30 brasileiros detidos no aeroporto de Madri estavam dois colegas de pós-graduação no IUPERJ, sendo que uma delas, a Patrícia, foi minha estagiária no IBASE. Ela ficou dez horas sem poder comer, beber água ou falar com a família: “Foi o pior dia da minha vida”, desabafou. A reação do instituto foi exemplar, mobilizando o Ministério das Relações Exteriores e a imprensa, e o caso teve ampla repercussão, com posições fortes dos diplomatas brasileiros em defesa dos cidadãos maltratados na Espanha. No entanto, não há muito o que comemorar: o que a Patrícia sofreu ocorreu também com 600 brasileiros na Espanha, somente em 2008.

Como em tantos outros países ricos, a imigração se tornou um problema político explosivo na Espanha e um dos temas mais sensíveis para as eleições deste domingo. O governo socialista está na berlinda e com parca vantagem diante da oposição de direita. Na sempre ótima análise do Valor (link só para assinantes):

Noutro tema importante para a Espanha, a imigração, o governo de Zapatero (que regularizou 700 mil estrangeiros em 2005) foi aos poucos endurecendo as regras e hoje adota posições bem parecidas com as do PP, que para muitos exalam algo de xenofobia. Algumas restrições a estrangeiros têm a ver com o momento econômico. Desde o ano passado, as taxas de desemprego vêm crescendo, e o setor imobiliário, perdendo fôlego. Em um ano, o número de espanhóis sem emprego aumentou em 240 mil, chegando a 2,3 milhões.

É compreensível, nesse cenário, que a Espanha resolva endurecer suas leis de imigração e restringir a entrada de pessoas que considera suspeitas de que permanecerão no país de forma ilegal. O problema é que a decisão vem sendo aplicada com base em critérios racistas e discriminatórios, atingindo em especial jovens latino-americanos, simplesmente por seu local de origem, e indepentemente de terem os papéis em ordem. Meus colegas detidos em Madri estavam na cidade apenas de passagem para um congresso acadêmico em Lisboa, com todos os documentos necessários. Caso parecido aconteceu com outra mestranda brasileira, da USP, Patrícia Magalhães, que narrou a história num email ao IUPERJ:

Finalmente (após quatro horas esperando sem saber o que poderia acontecer), um policial apareceu com um pilha de passaportes nas mãos e foi chamando os brasileiros que iam então sendo liberados. E então percebi que todos os homens tinham sido liberados e só restaram as mulheres, em sua maioria negras e mulatas. Quando, depois de 5 horas de espera, chegou um outro avião da Venezuela, muitas outras mulheres se juntaram a nós e fomos todas levadas para o outro aeroporto onde ficaríamos presas por 3 dias até sermos enviadas de volta, na manhã desta terça-feira (12) às 11h35, no vôo IB6821.

Acompanhei muitos casos de maus tratos aos brasileiros no exterior por minha participação no Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e Política Externa. Conversei com líderes das comunidades brasileiras nos EUA e na Europa Ocidental, bem como deputados que tratam do tema e todos foram muito críticos com relação às medidas adotadas por esses governos no âmbito dos medos ligados ao desemprego e ao terrorismo.

Infelizmente, a crítica se estende ao Ministério das Relações Exteriores. Para muitos de nossos diplomatas, atender a brasileiros com problemas é algo visto como incômodo, um desvio de suas funções. Um embaixador certa vez me disse, em conversa na Câmara dos Deputados, que para ele isso era “assistência social, e não diplomacia”. Por isso não estou surpreso com o que narra Patrícia Magalhães, a mestranda da USP: “O consulado brasileiro na Espanha foi acionado por nós e pelo Brasil, diversas vezes e por muitas pessoas diferentes, e nada fez frente ao nosso chamado de socorro. Nem ao menos respondeu nossas ligações. “

No caso atual a história foi outra, graças aos contatos políticos dos professores do IUPERJ. O Itamaraty reagiu bem e afirmou que o mau tratamento dado aos brasileiros na Espanha é incompatível com as boas relações entre os dois países. Não sou a favor da reciprocidade, ou seja, que passemos a expulsar os espanhóis (bem, talvez eu abra uma exceção para o Chico Recarey). O mundo precisa de menos nacionalismo e mais integração.
Me prontifiquei perante o IUPERJ de levar o tema para o Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e para o Conselho Nacional de Juventude – onde a cooperação com a Espanha é item importante da agenda internacional. Na segunda-feira faremos o coquetel de boas-vindas aos novos alunos e a direção aceitou minha sugestão de transformá-lo em festa de desagravo para os dois alunos detidos em Madri.

Oxalá outros brasileiros submetidos a essas práticas racistas possam encontrar tanto apoio e solidariedade de instituições com força para defender seus direitos.

Se você passou por algo parecido, ou tem amigos que sofreram casos semelhantes, deixe seu recado por aqui ou me escreva em msantoro@iuperj.br.

Pós-Escrito: segue o link para o comunicado oficial do IUPERJ sobre o caso, com críticas ao embaixador espanhol no Brasil por suas evasivas diante da crise.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A Carta de Ingrid Betancourt


Durante muito tempo, fomos como os leprosos que estragam a festa. Os reféns não são um assunto “politicamente correto”, soa melhor dizer que é preciso ser forte diante da guerrilha, estar disposto a sacrificar algumas vidas humanas. Diante disso, silêncio.
Ingrid Betancourt

A Editora Agir publicou "Cartas à mãe - direto do inferno", da política colombiana Ingrid Betancourt, que se tornou sem dúvida o grande símbolo internacional das atrocidades cometidas pelas FARCs. Infelizmente para a senadora e ex-candidata à presidência, ela se tornou importante demais para seu próprio bem, e virou uma peça no jogo de xadrez entre a guerrilha, o governo colombiano e a opinião pública internacional.

Comecemos pelo livro. Ingrid foi seqüestrada em plena campanha presidencial, em 2002, e não dava notícias desde 2003. Com a retomada das negociações por sua libertação, foram exigidas provas de vida, divulgadas em outubro de 2007. Uma delas é a famosa foto que mostra a senadora abatida, em meio à selva, e que ilustra a capa. Outra foi a carta de 12 páginas que ela escreveu à mãe, e que é o principal documento publicado no livro. Ele também traz a resposta dos filhos da senadora e um pequeno posfácio do historiador brasileiro Francisco Carlos Teixeira sobre a situação política na Colômbia.

"A vida aqui não é a vida, é um lúgubre desperdício de tempo", escreve Ingrid Betancourt. Ela narra as agruras das péssimas condições de vida na selva, o constante movimento para escapar às perseguições das autoridades, o isolamento, o tédio, a solidão: "Estou cansada de sofrer, de carregar essa dor comigo todos os dias, de mentir para mim mesma achando que tudo vai terminar e constatar que cada dia equivale ao inferno do dia anterior."

As FARCs impõem um regime cruel aos seqüestrados. Além de privá-los da liberdade e do contato com a família e os amigos, com freqüência proibem que eles tenham livros, roupas confortáveis, etc: "Nesta selva, a única resposta para tudo é “Não”."



Ingrid Betancourt é o caso mais famoso entre os reféns, pela sua proeminência política e pelo fato de que, como cidadã francesa, virou o centro de ampla campanha internacional por sua libertação, sobretudo na Europa (França, Espanha, Itália). Me parece que, na América Latina, somos muito mais insensíveis à sua sorte. Foi preciso que Sarkozy colocasse a questão em debate, diante do silêncio dos presidentes da região, que não querem colocar a mão na casa de marimbondos do conflito colombiano, nem se indispor com as autoridades de um país que é um sócio econômico lucrativo e bastante promissor - só a Vale está investindo US$6 bilhões em mineração e geração de energia por lá.

Álvaro Uribe foi eleito em meio ao fracasso das negociações de paz promovidas pelo governo anterior, de Andrés Pastrana, e toda sua política para as FARCs é de buscar uma vitória militar (embora negocie com a guerrilha do ELN e com os paramilitares). Como vimos, o Exército colombiano está desenvolvendo tática semelhante ao de Israel com relação ao Hamas/Hezbolá: ações localizadas visando a assassinar as lideranças inimigas. Nesse cenário, negociar com as FARCs é algo que só faz contra a vontade, sob intensa pressão internacional. As famílias dos reféns são extremamente críticas à pouca disposição que Uribe tem em chegar a um acordo para a libertação dessas pessoas - a maioria, policiais e militares capturados em conflitos com a guerrilha.

No caso de Ingrid Betancourt, pesa um sério problema político. Ela é uma líder do Partido Liberal, de oposição a Uribe. Caso fosse libertada, se tornaria imediatamente uma heroína nacional e o pólo de uma coalizão que quase com certeza inviabilizaria o sonho do presidente de mudar a Constituição e concorrer a um terceiro mandato. Temo que a senadora tenha o mesmo fim dos 11 deputados mantidos reféns pelas FARCs, mortos durante um ataque do Exército...

A Multilateralização da Crise Andina


A crise escapou dos Andes e alcançou a esfera das instituições multilaterais, com negociações muito tensas na Organização dos Estados Americanos (OEA) e a declaração de Uribe de que irá processar Chávez no Tribunal Penal Internacional. Nenhuma das duas iniciativas é boa notícia para a América do Sul.

A Colômbia está na berlinda na OEA, sob intensa pressão do Equador, da Venezuela e da Nicarágua (Cuba está suspensa da organização desde os anos 60). Contudo, a diplomacia colombiana se defendeu bem e conseguiu impedir uma resolução da organização condenando o país pela violação da fronteira equatoriana. Ainda não se chegou a um consenso na OEA, mas me parece que a tendência é pela aprovação da proposta lançada por Brasil e Chile, para se criar uma comissão de investigação – o típico instrumento do deixa-disso, para acalmar os ânimos até a poeira baixar.

Simultaneamente às negociações na OEA, Uribe anunciou que processaria Chávez no Tribunal Penal Internacional (TPI), por cumplicidade com genocídio. A acusação é confusa – o conflito armado na Colômbia é uma tragédia humanitária, mas de modo algum se encaixa na definição de genocídio, que implica a tentativa de eliminar um grupo étnico ou religioso. Depois da polêmica inicial, diplomatas colombianos afirmaram que o processo seria pelo apoio do presidente venezuelano aos grupos terroristas.

O TPI tem competência para julgar quatro tipos de casos: agressões entre Estados, genocídio, crimes de guerra e violações massivas de direitos humanos contra a população civil. Os especialistas estão divididos com relação à possibilidade de que Chávez possa ser processado pelo TPI, entre outras razões porque no que toca aos crimes de guerra, a Colômbia suspendeu sua participação no tribunal até 2009, para facilitar as negociações com a guerrilha e os paramilitares.

Contudo, o cerne da controvérsia é político. Os principais partidos de oposição a Uribe, o Pólo Democrático e o Partido Liberal, rechaçaram a idéia. Acreditam que só pioraria a já péssima situação entre Colômbia e Venezuela. Além disso, o próprio TPI precisa aceitar a denúncia, o que é um longo processo.

A decisão da Venezuela de fechar a fronteira com a Colômbia também é péssima notícia, porque o fluxo comercial entre os dois países é muito intenso – as importações colombianas são fundamentais para a indústria e a alimentação dos venezuelanos. É possível que isso resulte em mais compras dos produtos brasileiros, mas indústrias do Brasil instaladas na Colômbia, que exportam para o mercado da Venezuela, como a Marcopolo, já amargam prejuízos sérios (o link é só para assinantes do Valor).

terça-feira, 4 de março de 2008

O Lado Sombrio do Nacionalismo Sul-Americano


O nacionalismo tem papel importante na América do Sul, no sentido de promover o desenvolvimento econômico, construir sociedades um pouco mais coesas em meio às horrendas desigualdades sociais do continente e fortalecer um Estado capaz de defender os direitos da população. Infelizmente, há um lado sombrio no nacionalismo, que com freqüência se expressa em agressões estridentes, overdoses geopolíticas e a exacerbação de tudo que diz respeito às fronteiras.

Esse tipo de nacionalismo agressivo foi comum na América do Sul de meados do século XIX e ressurgiu nas décadas de 1930 e de 1970, numa série de disputas que envolveram Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru. A redemocratização do continente parecia ter encerrado o ciclo, com processos de integração regional e soluções pacíficas para contenciosos territoriais. Contudo, a retomada nacionalista deste início de século XXI trouxe novamente à tona o problema, com praticamente o mesmo elenco citado acima: a novidade é a saída do Brasil e a entrada da Venezuela, da Guiana e do Uruguai. Ou seja, de 12 países sul-americanos (mais a colônia da Guiana Francesa) 10 enfrentam disputas fronteiriças.

É um padrão que desafia cientistas políticos, e estou com muita vontade de escrever algo a respeito. Antes de teorizar, vamos à análise da conjuntura. Em meio à troca de acusações entre Colômbia, Equador e Venezuela, surgiram informações razoavelmente sólidas que nos ajudam a entender o conflito.

1) A inteligência militar colombiana atacou o destacamento das FARCs no Equador porque constatou a presença da cúpula da guerrilha na localidade. Raúl Reyes é o primeiro integrante da elite das FARCs a morrer em conflito com o Exército colombiano, num duro golpe para o prestígio militar do grupo. Há notícias não-confirmadas de que o lendário Manuel Marulanda, o líder das FARCs, teria sido ferido no ataque.

2) O ataque à cúpula das FARCs foi precedido de uma série de golpes (prisão ou morte) aos chamados "coronéis" da guerrilha, líderes como o Negro Acácio e Simón Trinidad.

3) A ofensiva militar do governo Uribe ocorre em paralelo às negociações por libertação de reféns, o que pode significar uma tentativa das autoridades de negociar a partir de uma posição de força ou simplesmente de inviabilizar o processo de paz, provocando a ala mais radical das FARCs. A morte de Reyes, expoente dos moderados, alimenta tal opção.

4) Há um enorme risco de que as FARCs lancem algum tipo de contra-ofensiva extremamente violenta em represália à morte de Reyes.

5) A reação internacional foi bastante negativa à Colômbia, com os países sul-americanos e europeus condenando a violação da soberania do Equador e pedindo calma e moderação aos envolvidos. Como sempre nesses casos, a mediação se dará sob liderança do Brasil (o chanceler Celso Amorim está em ótimo momento) e da OEA.

Cumpre lembrar o importante papel moderador que está sendo desempenhado não só pelo Brasil, mas também por Chile e Peru - algo notável porque este país tem longo conflito com o Equador, além de tensões com a Venezuela, e poderia ser tentado a uma aliança com a Colômbia.

Na foto, soldados do Equador marcham rumo à fronteira com a Colômbia. Imagem sombria, que não pensava em ver em nossa América.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Trombetas



No fim de semana tropas colombianas atacaram um destacamento das FARCs refugiado em território equatoriano e mataram um dos principais líderes de guerrilha, Raul Reyes. Os governos do Equador e da Venezuela reagiram enviando tropas à fronteira com a Colômbia e está em curso uma sucessão de expulsões de diplomatas e fechamentos de embaixadas entre os três países, no que é a pior crise política em dez anos entre nações da América do Sul.

Um amigo que trabalhou para a ONU na fronteira do Equador com a Colômbia me descreveu a região como a “loja, bordel e hotel das FARCs”. Os vínculos entre as autoridades equatorianas e a guerrilha não são surpresa para ninguém. A polícia colombiana (na foto, seu comandante, o general Naranjo) afirma que os computadores apreendidos com Reyes comprovam que ministros equatorianos pediam às FARCs a libertação de reféns, num processo a ser mediado pelo presidente Correa, visando ao aumento de seu prestígio internacional.

O Equador protestou contra a invasão de seu território, expulsou o embaixador colombiano, mandou tropas à fronteira e pediu ajuda à OEA, ao Mercosul e à Comunidade Andina. A Colômbia alegou que agiu de acordo com o princípio de legítima defesa, pois as FARCs usavam o refúgio equatoriano para lançar ataques, e pediu desculpas ao governo equatoriano.

A Venezuela fechou sua embaixada em Bogotá, mandou blindados para a fronteira da Colômbia e decretou minuto de silêncio em homenagem a um “revolucionário covardemente assassinado”. O gesto tem sido interpretado como recado de Chávez a Uribe: não se meta a tentar aqui o que você fez no Equador.

Demais respostas internacionais: Argentina, Chile, França, Itália e Alemanha condenaram a violação da soberania do Equador e aconselharam cautela aos países envolvidos na crise. As declarações mais forte foram as do chanceler francês, que ressaltou que a morte de Reyes “não é boa notícia”, destacando o importante papel que ele tem nas negociações para a libertação dos reféns.

Fidel Castro, aproveitando o tempo livre, disse que soam as trombetas da guerra na América do Sul, e que a culpa de tudo é do “império ianque”.

Ainda não consegui encontrar qualquer declaração do governo brasileiro, mas pela nossa tradição diplomática o Brasil irá se apresentar como moderador do conflito em curso, da mesma maneira que realizou em crises anteriores na América do Sul, como Peru x Equador e Venezuela x Colômbia.

Embora a Colômbia tenha agido em legítima defesa contra as FARCs, será difícil encontrar algum governo disposto a defender o ataque ao território de outro Estado (talvez os EUA). Bogotá foi longe demais, e sua incursão matou o principal expoente dos moderados dentro da guerrilha. Nenhuma nação sul-americana deseja dar a Colômbia carta branca para lançar outras incursões desse tipo, pelos efeitos imprevisíveis que teriam, por exemplo, na Venezuela. E o que fazer com relação aos ataques das FARCs contra a Colômbia? Penso que a melhor resposta veio do editorial do jornal colombiano El Tiempo: regionalizar as discussões:

Habrá que ver qué pasos se dan, pero, por lo pronto, entramos en un tenso período de confrontación, ojalá solo verbal y diplomática, entre Colombia y Venezuela. Al prudente silencio con el que se ha respondido hasta ahora, y sin dar pie a provocación alguna, quizá sea hora de añadir una mediación internacional, o de buscar que el sistema interamericano comience a jugar un papel activo en una crisis que puede desestabilizar a toda la región. Las cosas con Venezuela están pasando de castaño oscuro y eso no es bueno para nadie.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Onde os Velhos Não Têm Vez



Atirador, quando compra vingança alheia
Tem que ter veneno na veia
Tem que saber andar num chão de navalha
Atirador tarda mas não falha
Atirador não tem dó quando atira
Atirador é o dublê da ira
Ele só sabe o nome, só viu o retrato
Alma sebosa é mais barato
.

Lenine, O Atirador

"No Country for Old Men", dos irmãos Coen, talvez tenha sido mesmo a melhor escolha para campeão do Oscar 2008, mas não estou entre aqueles que o consideram uma obra-prima. Em linhas gerais, acho que é um excelente faroeste-noir, mas que muitas vezes sucumbe à violência gratuita e niilista que supostamente critica.

Alfred Hitchcock cunhou a expressão “McGuffin” para definir o elemento misterioso que impulsiona a trama, mas que afora isso tem pouco valor em si mesmo. O McGuffin de No Country for Old Men é uma mala com US$2 milhões encontrada por um homem no cenário de uma chacina entre duas quadrilhas de criminosos, no meio do deserto do Texas. Ele passa o resto do filme sendo perseguido por um matador de aluguel (Javier Bardem, excelente) que quer reavê-la. Mas o bangue-bangue é mero pretexto para o que realmente importa: a reflexão sobre a violência sem sentido que tomou conta dos Estados Unidos.

Nesse sentido, o personagem-chave do filme não é o assassino interpretado por Bardem, mas o idoso e sábio xerife vivido por Tommy Lee Jones. Último de uma dinastia de homens da lei, ele se confessa impotente diante dos crimes cada vez mais brutais e despropositados que passou a testemunhar. Não consegue mais compreender o mundo em que vive. Por isso o título do filme em português deveria ser “Onde os velhos não têm vez”, como aliás foi o caso com o romance em que está baseado. Só Deus sabe porque os tradutores preferiram “Onde os fracos não têm vez”, e Ele não me explicou a razão.



O personagem de Bardem é uma espécie de Anjo da Morte, com um código de conduta bastante próprio, e critérios para matar ou deixar viver que às vezes dependem da virada aleatória de uma moeda. Contudo, acho que os irmãos Coen o trataram com fascinação respeitosa. Ele é o personagem mais esperto de todo o filme e não duvido que muitos espectadores tenham torcido para o sucesso de sua missão.

O filme dividiu opiniões entre meus amigos. Entre os que não gostaram, a principal razão foi dúvidas com relação ao modo como a trama termina. Não me pareceu que ela fosse confusa, mas de fato algumas cenas se prestam a várias interpretações. Ainda assim, o essencial não é o destino da mala de dinheiro, puro McGuffin. O destaque da história é a lamentação por um mundo desencantado e seco como a poeira do deserto.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

A Polêmica sobre as Políticas Sociais de Chávez


A Foreign Affairs – a mais importante revista mundial de relações internacionais – traz em sua edição deste bimestre o artigo “An Empty Revolution: The Unfulfilled Promises of Hugo Chávez”, do economista venezuelano Francisco Rodríguez. O título dá o tom do texto, crítica feroz das políticas sociais de Chávez, no tom polarizado de sempre. Inusitado é o posto que o autor ocupou: chefiou o setor econômico do parlamento da Venezuela entre 2000 e 2004. Afirma que tinha opinião inicial positiva sobre o presidente, mas que mudou de idéia por suas experiências desagradáveis com o governo.

O centro do argumento de Rodríguez é que as políticas sociais de Chávez não teriam reduzido a pobreza na Venezuela, e que portanto o projeto de transformação do presidente seria vazio. Pena que o autor tenha optado por uma linha “tudo ou nada”, porque seu texto traz dados importantes para o debate, embora tenha optado por ignorar uma série de fatos fundamentais para entender porque tais políticas sociais (com todas as suas falhas) foram bem-sucedidas em construir ampla base de apoio para Chávez.

A agenda social do presidente venezuelano consiste numa série de ações que batizou de “missões” e que cobrem áreas como atendimento médico para comunidades pobres, bolsas de estudo para completar o ensino médio e a universidade, alimentos da cesta básica a preços subsidiados pelo governo e uma campanha para eliminar o analfabetismo. Reformas sociais moderadas, aplicadas por governos de diferentes matizes ideológicos. Em termos gerais, podem ser classificadas sob o rótulo de “políticas sociais focalizadas”, voltadas para a parcela mais pobre da população, que disseminaram-se na América Latina a partir das experiências mexicanas da década de 1980.

Embora pareça lógico priorizar a população mais pobre, muitos especialistas discordam da abordagem e preconizam o que se chama no jargão, de “políticas universais”. A crítica é centrada na percepção de que os serviços públicos dedicados exclusivamente aos pobres acabam tendo qualidade inferior aos que beneficiam também a classe média e a elite, pois o poder de pressão e fiscalização destes grupos é maior. No caso da Venezuela, há objeções ao modo clientelista e partidário através do qual Chávez canaliza esses benefícios. Os dados oficiais sobre o impacto das ações governamentais também são questionados e é quase certo de que estejam inflados.

Contudo, o que críticos como Rodríguez ignoram é o peso do contexto social da Venezuela, marcado por enorme desigualdade social e violência política contra os pobres, como na repressão policial e militar à rebelião das favelas de Caracas, o "Caracazo", de 1989. O presidente é hábil em explorar o sentimento de “nós contra eles” e se posicionar como um campeão da parcela mais pobre da população. Há inclusive forte componente racial na história e os opositores de Chávez com freqüência se referem a ele em termos pejorativos de sua ascendência indígena/negra, ainda que para os padrões brasileiros seja o típico moreno, tão comum em nosso país.

Quando estive na Venezuela, conversei com grupos de jovens locais que eram tão dedicados ao presidente que chegavam a chorar quando mencionavam seu nome. Colegas do Nós do Morro me contaram experiências semelhantes com a população das favelas de Caracas. Diziam-me que as casas de alvenaria que eu via nos morros haviam sido construídas ao longo do governo Chávez, porque antes as pessoas não queriam investir na melhora de suas moradias, pois tinham medo de ser despejadas pela polícia. Também falei com um rapaz que me narrou, emocionado, como sua mãe tinha sido operada de catarata em Cuba, graças aos acordos de cooperação assinados pelo presidente.

É evidente que para essas pessoas Chávez teve um impacto transformador, talvez não tanto em termos de aumento de renda, mas no sentimento de conquistas sociais, de novas possibilidades de vida, e mesmo de mobilização política e de valorização de sua identidade de classe. As massas que desceram dos morros e reverteram o golpe de 2002 não foram vistas em momentos parecidos da história latino-americana, como a derrubada de Vargas (1945), Perón (1955) ou João Goulart (1964).

Rodríguez defende a tese que a frustração com as políticas de Chávez foi a responsável pela derrota no referendo sobre a reforma constitucional. Não creio. Me parece que questões como a rejeição do autoritarismo crescente foram muito mais relevantes.