
Entre os 30 brasileiros detidos no aeroporto de Madri estavam dois colegas de pós-graduação no IUPERJ, sendo que uma delas, a Patrícia, foi minha estagiária no IBASE. Ela ficou dez horas sem poder comer, beber água ou falar com a família: “Foi o pior dia da minha vida”, desabafou. A reação do instituto foi exemplar, mobilizando o Ministério das Relações Exteriores e a imprensa, e o caso teve ampla repercussão, com posições fortes dos diplomatas brasileiros em defesa dos cidadãos maltratados na Espanha. No entanto, não há muito o que comemorar: o que a Patrícia sofreu ocorreu também com 600 brasileiros na Espanha, somente em 2008.
Como em tantos outros países ricos, a imigração se tornou um problema político explosivo na Espanha e um dos temas mais sensíveis para as eleições deste domingo. O governo socialista está na berlinda e com parca vantagem diante da oposição de direita. Na sempre ótima análise do Valor (link só para assinantes):
Noutro tema importante para a Espanha, a imigração, o governo de Zapatero (que regularizou 700 mil estrangeiros em 2005) foi aos poucos endurecendo as regras e hoje adota posições bem parecidas com as do PP, que para muitos exalam algo de xenofobia. Algumas restrições a estrangeiros têm a ver com o momento econômico. Desde o ano passado, as taxas de desemprego vêm crescendo, e o setor imobiliário, perdendo fôlego. Em um ano, o número de espanhóis sem emprego aumentou em 240 mil, chegando a 2,3 milhões.
É compreensível, nesse cenário, que a Espanha resolva endurecer suas leis de imigração e restringir a entrada de pessoas que considera suspeitas de que permanecerão no país de forma ilegal. O problema é que a decisão vem sendo aplicada com base em critérios racistas e discriminatórios, atingindo em especial jovens latino-americanos, simplesmente por seu local de origem, e indepentemente de terem os papéis em ordem. Meus colegas detidos em Madri estavam na cidade apenas de passagem para um congresso acadêmico em Lisboa, com todos os documentos necessários. Caso parecido aconteceu com outra mestranda brasileira, da USP, Patrícia Magalhães, que narrou a história num email ao IUPERJ:
Finalmente (após quatro horas esperando sem saber o que poderia acontecer), um policial apareceu com um pilha de passaportes nas mãos e foi chamando os brasileiros que iam então sendo liberados. E então percebi que todos os homens tinham sido liberados e só restaram as mulheres, em sua maioria negras e mulatas. Quando, depois de 5 horas de espera, chegou um outro avião da Venezuela, muitas outras mulheres se juntaram a nós e fomos todas levadas para o outro aeroporto onde ficaríamos presas por 3 dias até sermos enviadas de volta, na manhã desta terça-feira (12) às 11h35, no vôo IB6821.
Acompanhei muitos casos de maus tratos aos brasileiros no exterior por minha participação no Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e Política Externa. Conversei com líderes das comunidades brasileiras nos EUA e na Europa Ocidental, bem como deputados que tratam do tema e todos foram muito críticos com relação às medidas adotadas por esses governos no âmbito dos medos ligados ao desemprego e ao terrorismo.
Infelizmente, a crítica se estende ao Ministério das Relações Exteriores. Para muitos de nossos diplomatas, atender a brasileiros com problemas é algo visto como incômodo, um desvio de suas funções. Um embaixador certa vez me disse, em conversa na Câmara dos Deputados, que para ele isso era “assistência social, e não diplomacia”. Por isso não estou surpreso com o que narra Patrícia Magalhães, a mestranda da USP: “O consulado brasileiro na Espanha foi acionado por nós e pelo Brasil, diversas vezes e por muitas pessoas diferentes, e nada fez frente ao nosso chamado de socorro. Nem ao menos respondeu nossas ligações. “
No caso atual a história foi outra, graças aos contatos políticos dos professores do IUPERJ. O Itamaraty reagiu bem e afirmou que o mau tratamento dado aos brasileiros na Espanha é incompatível com as boas relações entre os dois países. Não sou a favor da reciprocidade, ou seja, que passemos a expulsar os espanhóis (bem, talvez eu abra uma exceção para o Chico Recarey). O mundo precisa de menos nacionalismo e mais integração.
Me prontifiquei perante o IUPERJ de levar o tema para o Comitê Brasileiro de Direitos Humanos e para o Conselho Nacional de Juventude – onde a cooperação com a Espanha é item importante da agenda internacional. Na segunda-feira faremos o coquetel de boas-vindas aos novos alunos e a direção aceitou minha sugestão de transformá-lo em festa de desagravo para os dois alunos detidos em Madri.
Oxalá outros brasileiros submetidos a essas práticas racistas possam encontrar tanto apoio e solidariedade de instituições com força para defender seus direitos.
Se você passou por algo parecido, ou tem amigos que sofreram casos semelhantes, deixe seu recado por aqui ou me escreva em msantoro@iuperj.br.
Pós-Escrito: segue o link para o comunicado oficial do IUPERJ sobre o caso, com críticas ao embaixador espanhol no Brasil por suas evasivas diante da crise.







