
De uns poucos anos para cá, quando convivi de maneira mais próxima com militares, tenho observado uma aproximação excelente entre as Forças Armadas e a comunidade acadêmica. Um excelente exemplo é o lançamento de “Guerra no Mar – batalhas e campanhas navais que mudaram a história”, organizado pelo almirante Armando Vidigal e pelo comandante Francisco Eduardo Alves de Almeida. A coletânea reúne 15 artigos escritos por oficiais da Marinha e por professores universitários (sobretudo das instituições do Rio de Janeiro) que abarcam da Grécia Antiga ao conflito pelas ilhas Malvinas.
Independente da formação profissional dos autores, todos os textos dão grande atenção ao contexto político no qual se desdobram os combates navais. Parece ser uma constante história que uma potência em ascensão ambiciona a construção de uma marinha de guerra, para garantir o domínio de rotas comerciais, acesso a matérias-primas ou negar o espaço marítimo a adversários. Isso vale mesmo para poderes tradicionalmente lembrados por suas conquistas terrestres, como a República Romana, a França Napoleônica e a Alemanha de Bismarck e Guilherme II. A cronologia dos artigos é um “quem é quem” das disputas entre diversos impérios: gregos e persas, romanos e cartagineses, espanhóis e turcos, espanhóis, ingleses e holandeses, ingleses e franceses. Faltou um ensaio dedicado a Portugal, omissão bastante curiosa em livro preparado por brasileiros!
Grosso modo, a tática naval permaneceu muito próxima à terrestre da Antiguidade até a batalha de Lepanto, no século XVI, na qual o expansionismo turco no Mediterrâneo foi detido por uma aliança complexa entre espanhóis e cidades-estado italianas. Nesse tipo de confronto, a embarcação primordial era a galera, movida a remo, que levava tropas de infantaria para abordar os barcos inimigos. Inovações tecnológicas como velas mais eficientes e a energia a vapor revolucionariam a maneira de lutar no mar, com a formação de grandes linhas de batalha, como as que se enfrentaram em Trafalgar, túmulo das ambições oceânicas napoleônicas.

Dos países não-ocidentais, o Japão é aquele examinado com mais detalhes no livro. Diversos artigos mapeiam a ascensão do poder naval nipônico, em suas bem-sucedidas guerras contra China e Rússia, e no esforço hercúleo, mas fracassado, de derrotar os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.
Dois ensaios tratam da história militar sul-americana. Um deles aborda a batalha do Riachuelo, na qual a Marinha brasileira praticamente destruiu a paraguaia, em momento decisivo da Guerra da Tríplice Aliança. O segundo analisa a Guerra das Malvinas sob o prisma naval e é um testemunho eloquente das lições que a Marinha brasileira tomou daquele conflito, em particular a importância do submarino nuclear. O afundamento do cruzador General Belgrano (foto que abre o post) por uma dessas embarcações foi um dos instantes cruciais que selou a sorte das tropas argentinas.
Aliás, a universidade na qual estudei em Buenos Aires fica no bairro de Belgrano e na estação de metrô onde eu saltava havia uma maquete do cruzador tragicamente afundado nas Malvinas, com relatos de sobreviventes. Para quem se interessa pela história desse conflito, vale ler o relato do emocionante encontro entre um tripulante britânico do submarino e marinheiros do Belgrano. Às vezes as pessoas conseguem se elevar além da estupidez das nações.






