
Há duas semanas há um debate nos sites das revistas Foreign Policy e Slate sobre filmes a respeito de relações internacionais. Começou com uma lista de produções que tratam do tema, preparada por Stephen Walt. Ela levou a reações de Fred Kaplan e Daniel Drezner, cada um com suas próprias sugestões. Amigos me encaminharam a discussão e pediram meus palpites.
Aí vão. Limitados a 10 filmes – poderiam ser 100. Meu critério é que a produção precisa estimular a reflexão e não ser simplesmente um enredo ambientado em determinado conflito/período histórico. Quem também quiser brincar, poste suas listas nos comentários. Se a conversa for boa, depois escrevo uma sobre obras literárias:
10. Jogos do Poder (Charlie´s Wilson War)
Aaron Sorkin, o criador da cultuada série de TV “The West Wing”, escreveu este pequeno e interessantíssimo filme sobre o deputado americano mulherengo e fanfarrão que foi um dos principais formuladores da guerra secreta que a CIA travou contra a URSS no Afeganistão. Bem-humorado e inteligente debate sobre como um tema de política externa entra e sai da agenda governamental.
9. O Americano Tranqüilo
Adaptação contemporânea, pós-11 de setembro, do romance que Graham Greene escreveu na década de 1950 sobre o início do envolvimento americano no Vietnã. A história corre como um triângulo amoroso entre uma dançarina vietnamita, um idealista funcionário da assistência humanitária e dos EUA e um veterano e desiludido jornalista inglês, que descobrirá que a ingenuidade pode ser mais perigosa do que a maldade, e que às vezes para se manter humano é preciso tomar partido.
8. A Batalha de Argel
O drama de Gillo Pontecorvo sobre a guerra de Independência da Argélia ganhou súbita relevância após o 11 de setembro, mostrando sua atualidade como um olhar sobre terrorismo, contra-insurgência, guerras assimétricas e outros temas da agenda contemporânea – mesmo que a visão política do diretor seja muito distante daquela de Washington.
7. Sob a Névoa da Guerra
Estupendo documentário-entrevista com o ex-secretário de Defesa dos EUA, Robert MacNamara, no qual ele rememora com notável autocrítica sua participação em grandes acontecimentos históricos, como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, a crise dos mísseis cubanos e o Vietnã. E alerta: a racionalidade, sozinha, não irá nos salvar.

6. Valsa com Bashir
Devo a vocês uma resenha (para breve) desta animação israelense sobre os traumas e esquecimentos de um homem que, quando jovem, participou da invasão de seu país ao Líbano e se esforçou para esquecer seu papel pouco heróico nos massacres daquele conflito.
5. O Leopardo
Luchino Visconti adapta o romance do príncipe de Lampedusa numa reflexão irônica sobre os impasses e contradições das guerras de unificação da Itália e da decadência da aristocracia num mundo em que algo precisa mudar para que tudo permaneça o mesmo. Vale complementar com outra maravilha do diretor, “Senso” (Sedução da Carne), que trata do mesmo tema pela ótica do amor de uma condessa italiana por um militar austríaco.
4. Diários de Motocicleta
Se você é um jovem latino-americano que acredita que as fronteiras do continente são uma mera artificialidade e que é preciso o esforço para superar as limitações de classe social e os preconceitos culturais... Este é seu filme. Esqueça o fato do protagonista ser um Che Guevara ainda imberbe, na verdade os personagens somos todos nós, ou pelo menos os nossos sonhos.

3. Apocalipse Now
Francis Ford Coppola adaptou para o contexto da Guerra do Vietnã a novela de Joseph Conrad sobre “O Coração das Trevas” do colonialismo europeu no Congo. O resultado é um filme assustador sobre a loucura bélica que habita o coração humano e os lugares escuros da História.
2. Lawrence da Arábia
Inesquecível épico de David Lean sobre o oficial britânico que estimulou a rebelião dos árabes contra o Império Otomano, durante a I Guerra Mundial, lançando uma ousada guerrilha que mudou a região – mas viu seus ideais de liberdade naufragarem na realidade da partilha neo-colonial do Oriente Médio, quando Grã-Bretanha e França dividiram os espólios da potência derrotada.

1. A Grande Ilusão
Obra-prima pacifista de Jean Renoir, ambientada na I Guerra Mundial, na qual um grupo de aviadores franceses tenta escapar de uma prisão alemã. Belíssima discussão sobre nacionalismos, classes sociais, solidariedade e os outros fatores que levam à guerra e à paz.







