quinta-feira, 14 de maio de 2009

Dez Filmes sobre Relações Internacionais



Há duas semanas há um debate nos sites das revistas Foreign Policy e Slate sobre filmes a respeito de relações internacionais. Começou com uma lista de produções que tratam do tema, preparada por Stephen Walt. Ela levou a reações de Fred Kaplan e Daniel Drezner, cada um com suas próprias sugestões. Amigos me encaminharam a discussão e pediram meus palpites.

Aí vão. Limitados a 10 filmes – poderiam ser 100. Meu critério é que a produção precisa estimular a reflexão e não ser simplesmente um enredo ambientado em determinado conflito/período histórico. Quem também quiser brincar, poste suas listas nos comentários. Se a conversa for boa, depois escrevo uma sobre obras literárias:

10. Jogos do Poder (Charlie´s Wilson War)

Aaron Sorkin, o criador da cultuada série de TV “The West Wing”, escreveu este pequeno e interessantíssimo filme sobre o deputado americano mulherengo e fanfarrão que foi um dos principais formuladores da guerra secreta que a CIA travou contra a URSS no Afeganistão. Bem-humorado e inteligente debate sobre como um tema de política externa entra e sai da agenda governamental.

9. O Americano Tranqüilo

Adaptação contemporânea, pós-11 de setembro, do romance que Graham Greene escreveu na década de 1950 sobre o início do envolvimento americano no Vietnã. A história corre como um triângulo amoroso entre uma dançarina vietnamita, um idealista funcionário da assistência humanitária e dos EUA e um veterano e desiludido jornalista inglês, que descobrirá que a ingenuidade pode ser mais perigosa do que a maldade, e que às vezes para se manter humano é preciso tomar partido.

8. A Batalha de Argel

O drama de Gillo Pontecorvo sobre a guerra de Independência da Argélia ganhou súbita relevância após o 11 de setembro, mostrando sua atualidade como um olhar sobre terrorismo, contra-insurgência, guerras assimétricas e outros temas da agenda contemporânea – mesmo que a visão política do diretor seja muito distante daquela de Washington.

7. Sob a Névoa da Guerra

Estupendo documentário-entrevista com o ex-secretário de Defesa dos EUA, Robert MacNamara, no qual ele rememora com notável autocrítica sua participação em grandes acontecimentos históricos, como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, a crise dos mísseis cubanos e o Vietnã. E alerta: a racionalidade, sozinha, não irá nos salvar.



6. Valsa com Bashir

Devo a vocês uma resenha (para breve) desta animação israelense sobre os traumas e esquecimentos de um homem que, quando jovem, participou da invasão de seu país ao Líbano e se esforçou para esquecer seu papel pouco heróico nos massacres daquele conflito.

5. O Leopardo


Luchino Visconti adapta o romance do príncipe de Lampedusa numa reflexão irônica sobre os impasses e contradições das guerras de unificação da Itália e da decadência da aristocracia num mundo em que algo precisa mudar para que tudo permaneça o mesmo. Vale complementar com outra maravilha do diretor, “Senso” (Sedução da Carne), que trata do mesmo tema pela ótica do amor de uma condessa italiana por um militar austríaco.

4. Diários de Motocicleta

Se você é um jovem latino-americano que acredita que as fronteiras do continente são uma mera artificialidade e que é preciso o esforço para superar as limitações de classe social e os preconceitos culturais... Este é seu filme. Esqueça o fato do protagonista ser um Che Guevara ainda imberbe, na verdade os personagens somos todos nós, ou pelo menos os nossos sonhos.



3. Apocalipse Now

Francis Ford Coppola adaptou para o contexto da Guerra do Vietnã a novela de Joseph Conrad sobre “O Coração das Trevas” do colonialismo europeu no Congo. O resultado é um filme assustador sobre a loucura bélica que habita o coração humano e os lugares escuros da História.

2. Lawrence da Arábia

Inesquecível épico de David Lean sobre o oficial britânico que estimulou a rebelião dos árabes contra o Império Otomano, durante a I Guerra Mundial, lançando uma ousada guerrilha que mudou a região – mas viu seus ideais de liberdade naufragarem na realidade da partilha neo-colonial do Oriente Médio, quando Grã-Bretanha e França dividiram os espólios da potência derrotada.



1. A Grande Ilusão

Obra-prima pacifista de Jean Renoir, ambientada na I Guerra Mundial, na qual um grupo de aviadores franceses tenta escapar de uma prisão alemã. Belíssima discussão sobre nacionalismos, classes sociais, solidariedade e os outros fatores que levam à guerra e à paz.

terça-feira, 12 de maio de 2009

O Papa em Israel



A visita de Bento XVI ao Oriente Médio é uma bem-sucedida operação diplomática. Com sua condenação ao antissemitismo e defesa de um Estado palestino, o papa apaziguou ânimos que andavam agitados nos dois lados do conflito árabe-israelense, em razão de atos recentes da Igreja Católica.

A relação do Vaticano com Israel é bastante complexa, mas melhorou imensamente a partir da década de 1990, quando a Igreja finalmente reconheceu o Estado judeu. Até então, o gesto havia sido evitado pelo medo de represálias aos cristãos que vivem em países muçulmanos. A preocupação do Vaticano também se estende aos palestinos que seguem o cristianismo – cerca de 9% do total – e aos cristãos que vivem nos territórios ocupados por Israel na Cisjordânia. Muitos deles têm abandonado locais sagrados, como Belém, em função do recrudescimento da violência.

Outro tema tenso é a relação da Igreja com o Holocausto. Bento XVI defendeu a beatificação do papa Pio XII, cuja atuação diante do nazismo é frequentemente criticada como apática e frágil, e muitos em Israel se ressentem do prestígio do qual ele desfruta na Igreja. A situação só piorou quando o atual papa reinstalou um bispo que nega o genocídio e autorizou que um apelo em latim pela conversão dos judeus ao catolicismo voltasse a ser rezado como parte de uma oração de Páscoa.

Nesse aspecto, há um contraste marcante entre Bento XVI e seu predecessor. João Paulo II presenciou a brutalidade nazista na Polônia e fez muito pela aproximação entre católicos e judeus, incluindo uma pungente reflexão sobre o Holocausto.

Em meio aos problemas, surge a notícia de que Barack Obama deverá propor uma grande conferência de paz no Oriente Médio, provavelmente no discurso que fará no Egito no próximo dia 4. Será que teremos um acordo abrangente, nos moldes dos que Carter e Clinton intermediaram?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pós-Guerra



Quer saber o que François Mitterand dizia de Margareth Thatcher, com esse olhar de canastrão com péssimas intenções? Tem curiosidade em entender como a Alemanha lidou com o trauma do nazismo e de que modo foi capaz de empreender a impressionante modernização econômica a partir da década de 1950? Ou você busca compreender as razões que levaram diversos Estados do bloco soviético a entrar em conflito com a URSS? Por que a União Europeia despende tantos recursos numa ineficiente política agrícola comum? Como se deu a transição do autoritarismo para a democracia na Espanha, Grécia e Portugal? Então o livro que você procura é o monumental “Pós-Guerra: uma história da Europa desde 1945”, do historiador inglês Tony Judt.

Judt cumpre o que promete no título, com ênfase nas transformações políticas e sociais (o livro é um tanto menos abrangente no que toca à economia e à cultura), abarcando tanto os países ocidentais quanto o antigo bloco comunista – incluindo diversas análises de repúblicas soviéticas, como as nações bálticas, a Ucrânia e a Rússia. Seu trabalho é uma obra-prima escrita em linguagem clara, objetiva e elegante. A tese principal: o período 1945-1989 foi o longo epílogo à era da “guerra civil europeia” (1914-1945), o congelamento dos problemas criados por ela, que só caminharam para a resolução após a queda do Muro de Berlim.



Tais dificuldades não eram pequenas. O que fazer com a Alemanha dividida, cujos esforços por hegemonia haviam provocado os dois conflitos mundiais anteriores? Como lidar com a área de influência que os soviéticos construíram no rastro da vitória contra o nazismo? Como recuperar um continente destruído, e que via sua influência internacional desmoronar diante do fim de seus impérios coloniais e da ascensão de duas superpotências?

Hoje sabemos quais foram as respostas: intenso processo de integração regional política e econômica, que vinculou a Alemanha Ocidental a seus vizinhos do Oeste, a proteção militar dos EUA, a aceitação, de facto, do direito de intervenção soviético em seus satélites da Europa Oriental e a construção de pactos políticos que criaram grande estabilidade por meio de Estados de Bem-Estar Social e mecanismos de divisão de poderes, recursos e cargos aos principais partidos e grupos políticos em cada país.

A perspectiva de Judt é a de um progressista sintonizado com a agenda de direitos individuais clássicos, talvez um tanto cético diante de novas demandas. Digamos que mais na linha de liberais como Raymond Aron e Isaiah Berlin do que as leituras de esquerda feitas por Eric Hobsbawm ou Mark Mazower. Por exemplo, sua análise dos movimentos sociais da década de 1960 é um pouco rabugenta e injusta e eu gostaria que ele tivesse se aprofundado na discussão sobre o terrorismo na Alemanha e na Itália (embora as escassas páginas que dedique ao tema sejam excelentes).



Como bom britânico, Judt é bastante crítico da União Europeia e de todo o processo, que merece um olhar mais afetuoso, e quem sabe uma organização diferente, com um capítulo só dedicado ao tema - no formato atual, a análise sobre integração está dispersa em vários trechos. Mas ele é preciso ao examinar como "a ideia de Europa" foi importante na transição democrática dos regimes autoritários do continente, de Portugal, Espanha e Grécia aos países do bloco soviético.

Em suma, grande livro. Vale muitas conversas em volta de um bom café.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A China Chegou



A China se tornou o principal comprador dos produtos brasileiros, superando os Estados Unidos e a Argentina. O crescimento do comércio com os chineses vinha crescendo há alguns anos, mas a crise econômica internacional deu um empurrão na tendência. Embora as exportações do Brasil tenham caído 19% (com decréscimo, em particular, nas vendas para a América Latina), seguem aumentando para o gigante asiático.

Naturalmente, a China também sofre com a crise e seu índice de crescimento do PIB caiu pela primeira vez em vários anos para um dígito, mas é uma excelente comparação com os EUA e os países da zona do euro, cujas economias estão despencando.

O governo chinês reagiu às dificuldades lançando um ambicioso pacote de aquecimento do consumo, que injetou US$600 bilhões na economia, com ênfase na construção civil e na agricultura. As medidas oficiais beneficiam o Brasil. A pauta de exportação para a China está concentrada em soja, celulose, minério de ferro e petróleo, produtos cujas vendem crescem – em contraste com os manufaturados, que têm diminuído em quase 30%, no caso brasileiro.

Naturalmente, a crise tem elementos passageiros, e este deve ser um deles. Minha dúvida é em que medida ela marcará a consolidação da China como principal destino das exportações brasileiras. Será que a posição irá se manter? Ou é temporária, em função das dificuldades nos mercados tradiconais nos EUA, Europa e América Latina?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Ahmadinejad e os Brasileiros



O cancelamento da visita ao Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, privou a sociedade de boa oportunidade para debater as possibilidades de política externa nas relações brasileiras com a República Islâmica e as objeções que distintos grupos políticos nacionais fazem ao regime instaurado pela Revolução de 1979.

As guerras no Iraque, no Líbano e no Afeganistão transformaram o Irã na principal potência regional do Oriente Médio. Estados Unidos e União Européia têm cortejado Teerã para diversas tarefas cruciais, como checar a acordos com os Talibãs e oferecer fonte de gás natural alternativa à Rússia. A maior parte dos analistas da política internacional destaca o Irã como um Estado-pivô no mundo muçulmano. Na América Latina, o Irã estabeleceu acordos comerciais e energéticos com os países andinos, sobretudo Venezuela e Equador.

Isso não significa, necessariamente, o relaxamento das tensões internacionais com o país. As monarquias conservadoras do Golfo temem a exportação do radicalismo xiita iraniano, bem como a ação do Hamas e do Hezbolá. Israel e os EUA preocupam-se com a iminente capacidade nuclear de Teerã. E grupos de direitos humanos por toda parte – inclusive no Brasil - criticam o governo iraniano por sua repressão a dissidentes, homossexuais, feministas. Há suas declarações sobre o Holocausto, é certo e também a perseguição à minoria religiosa dos Bahá´í.

Não são questões pequenas e a ascensão de Ahmadinejad reforçou as controvérsias em torno delas. Em excelente ensaio para a New Yorker, John Lee Anderson traça um perfil aprofundado do presidente iraniano, mostrando como ele cresceu em poder como um outsider à elite do país, forjando uma aliança com os aiatolás conservadores contra os tecnocratas que implementaram as limitadas reformas da década de 1990. Evidentemente, o clima polarizador da guerra e do terrorismo após 2001 não contribuiu para o sucesso das posições moderadas.

Ahmadinejad está em plena campanha presidencial – as eleições serão em junho – e é provável que vença a disputa.

Os interesses econômicos e políticos do Brasil cada vez mais se direcionam para a Ásia, nesse sentido é fundamental estabelecer diálogos de alto nível com um país tão importante na região como o Irã. Ao mesmo tempo, a política externa brasileira precisa responder aos anseios de setores sociais importantes da população, e defender princípios caros à atuação diplomática nacional. Dialogar também significa dizer “não” aos parceiros, quando os interesses e valores são divergentes. A controversa participação de Ahmadinejad na revisão da conferência de Durban, sobre racismo, intolerância e xenofobia, é um exemplo de temas onde os dois países se distanciam.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Obama e Cuba: um novo começo?


Há algumas semanas o IBASE me convidou para escrever uma coluna sobre temas ligados à América Latina. O primeiro texto da série é este, que trata das relações entre Estados Unidos e Cuba.

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Barack Obama venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos com promessas de mudança e, na política externa, com o compromisso de retomar o diálogo com inimigos históricos como Irã e Cuba.

No que diz respeito à ilha caribenha, tais expectativas tiveram suas primeiras expressões no discurso em que Obama propôs “um novo começo” na relação diplomática, em conjunto com a implementação de medidas que facilitam às famílias cubanas residentes em território estadunidense visitar Cuba e enviar dinheiro para seus parentes que vivem por lá. Apesar do início promissor, permanecem dúvidas sobre se haverá disposição ou condições para terminar com o embargo econômico à ilha e reintegrar Cuba à Organização dos Estados Americanos, da qual está suspensa desde 1962.

Para além das novas ideias trazidas por Obama, as mudanças na diplomacia estadunidense são explicadas por diversas razões: as transformações recentes na economia cubana, a vitória da esquerda em diversos países da América Latina e as mudanças na própria comunidade cubano-americana. Esse conjunto de fatores têm tornado as posições dos Estados Unidos em relação à ilha cada vez mais isoladas e de difícil permanência diante de atores internacionais mais ágeis, como União Europeia, China e Canadá.

O “Período Especial” do Pós-Guerra Fria

Quando a União Soviética e os regime socialistas da Europa Oriental entraram em colapso, entre 1989 e 1991, muitas pessoas acreditaram que o mesmo aconteceria em Cuba. Afinal, o país dependia desses aliados para vender sua produção de açúcar e tabaco a preços mais elevados do que os do mercado, e para importar produtos industriais e combustível a custo reduzido.

O fim do bloco soviético lançou a economia cubana numa séria crise, conhecida como “período especial em tempos de paz”, que durou, oficialmente, de 1991 a 2005. Durante essa época, o PIB da ilha caiu 36%, as exportações, 47% e as importações, 70%. Pobreza e desemprego, de taxas irrisórias, saltaram para 20% e 10%, respectivamente.

O governo reagiu com um pacote de austeridade, racionando gêneros básicos e abrindo a economia à iniciativa privada, tanto cubana quanto estrangeira. Contudo, a liderança da ilha havia aprendido com os erros da União Soviética e optou por reformas mais moderadas e controladas, à semelhança daquelas implementadas pela China e pelo Vietnã. As empresas estrangeiras foram convidadas a se instalar em Cuba, mas sempre em joint-ventures com o Estado – cada sócio responsável por 50% do empreendimento. As autoridades também decidiram abandonar setores em que não era mais possível competir com os rivais estrangeiros, como na tradicional indústria do açúcar, que havia ficado defasada diante das inovações tecnológicas do agronegócio brasileiro e fora prejudicada pelo protecionismo agrícola da União Europeia.

As medidas do governo cubano foram bem recebidas internacionalmente e diversas firmas se interessaram em fazer negócios na ilha. Os conglomerados turísticos espanhóis investiram em hotéis de luxo, as mineradoras canadenses, na extração de níquel, as estatais chinesas multiplicaram por seis a produção de petróleo cubano. A economia voltou a crescer, com o turismo superando o setor açucareiro como o mais importante. Novos segmentos, como a biotecnologia, também prosperaram.

Os Estados Unidos perderam a oportunidade de dialogar com as mudanças. A comunidade cubano-americana se negou a entrar em entendimentos com Fidel Castro e suas pressões foram ouvidas em Washington. Esse importante segmento populacional está concentrado na Flórida – um dos maiores colégios eleitorais estadunidenses, e ainda por cima um “swing state”, isto é, estado que ora vota com republicanos, ora com democratas, sendo cortejado por ambos os partidos.

Tal atenção resultou nas leis Torricelli e Helms-Burton, ainda mais duras e restritivas para regular as relações com Cuba. O caso Elián, no qual um menino sequestrado pela mãe cubana (que tentou emigrar para os EUA e morreu na travessia) foi devolvido ao pai, que vive na ilha, tensionou ainda mais a agenda entre os dois países.

Cuba no novo cenário latino-americano

A partir do fim da década de 1990, partidos e movimentos de esquerda começaram a vencer as eleições em diversos países da América Latina. O resultado foi uma onda eleitoral progressista que deu a Cuba o cenário regional mais favorável desde a Revolução. A relação mais importante é com a Venezuela de Hugo Chávez, com a qual a ilha estabeleceu acordos que garantem segurança energética em troca de serviços sociais, sobretudo ajuda médica.

Melhor disposição política favoreceu os negócios e, atualmente, cerca de 40% do comércio exterior cubano se dá com os demais países latino-americanos, recorde histórico e ruptura para um país cujas exportações tradicionalmente se destinavam aos mercados de fora do hemisfério. Os novos aliados e clientes regionais querem Cuba de volta à Organização dos Estados Americanos, ao Grupo do Rio, à Cúpula das Américas e às outras instituições do sistema interamericano.

Enfim, as mudanças também chegaram à Flórida. Está em curso uma alteração geracional na liderança da comunidade cubano-americana. Os homens e mulheres mais velhos, que haviam vivido na Cuba pré-revolucionária, morreram ou se afastaram da política, sendo substituídos por uma ala jovem mais pragmática, sem memórias diretas da ilha antes de Fidel, de agenda focada nas oportunidades de negócios perdidas para a União Europeia, China e América Latina por conta do anacrônico embargo econômico que herdaram da Guerra Fria. Eis a base eleitoral que impulsiona o discurso renovador de Obama.

A ironia da história é que Cuba nunca precisou tão pouco dos Estados Unidos. Com suas reformas econômicas e novos aliados internacionais, a ilha recuperou a prosperidade. Raúl Castro afastou a assessoria tecnocrática que havia realizado as mudanças para o irmão, e colocou em seu lugar oficiais militares mais confiáveis politicamente, embora menos propensos a transformações ousadas. É questionável que essa liderança política mostre entusiasmo por negociações arriscadas com os Estados Unidos, contra o qual pesam longas décadas de desconfianças e inimizades.

sábado, 2 de maio de 2009

Anna Akhmátova


Há algum tempo venho fuçando histórias culturais da Rússia e foi por meio delas que me interessei pel poesia de Anna Akhmátova, certamente uma das mais talentosas artistas do século XX, e das mais importantes testemunhas dos horrores do totalitarismo soviético. Foi então uma bela supresa descobrir, por acaso, uma Antologia Poética de sua obra, publicada em edição de bolso pela L&PM. O organizador, Lauro Machado Coelho, também escreveu uma elogiada biografia da poeta.

Akhmátova começou a escrever na década de 1910, às vésperas da Primeira Guerra Mundial e da Revolução que destruíram a velha Rússia. Ela foi uma destacada representante da geração conhecida como Idade de Prata, a excelente vanguarda artística daqueles anos turbulentos. Sua própria obra poética é marcada pela busca de linguagem cotidiana, da clareza da expressão e de uma riqueza psicológica nos personagens de seus versos que muitos críticos relacionam à tradição literária da prosa russa do século XIX. ´

Como tantos de seus contemporâneos, Akhmátova sofreu com a perseguição do período soviético, em particular sob Stálin: um de seus maridos foi executado e seu filho ficou anos preso. A poeta, embora admiradíssima pela população e pelos seus colegas, foi com frequencia desprezada pela crítica oficial, por não se enquadrar na camisa-de-força do realismo socialista.

Seus dois livros mais importantes são “Réquiem: um ciclo de poemas” e “Poema Sem Herói”. O primeiro trata do terror stalinista, e Akhmátova descreve as mulheres que esperam na porta das prisões de Leningrado por notícias de seus maridos e filhos. Uma, ao reconhecê-la, pergunta se ela é capaz de descrever a cena. Ao ouvir a resposta afirmativa, “uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que um dia tinha sido seu rosto”. E, de fato, os versos são de arrepiar, fazendo analogias entre a tragédia da década de 1930 e outros períodos de perseguição política na sombria história russa. Mas os sentimentos que expressa são universais, como os da Pietà, da mãe que sofre pelo filho:

Há dezessete meses choro
chamando-te de volta para casa.
Já me atirei aos pés de teu carrasco.
És meu filho e meu terror.
As coisas se confundem para sempre
E não consigo mais distinguir, agora,
Quem a fera, quem o homem,
e quanto terei que esperar até sua execução
Só o que me resta são flores empoeiradas.


Já “Poema Sem Herói” é um panorama histórico abrangente, que começa nos salões literários da São Petersburgo em 1913 (“e o tempo da loucura se aproxima... enquanto pelos legendários cais/o autêntico – não o do calendário/Século XX avança) e atravessa o terror stalinista e o terrível cerco da cidade – já rebatizada de Leningrado – pelo exército nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.

Pergunte a meus contemporâneos -
condenados, cento-e-vinte-cinco, prisioneiros -
e te contaremos como vivíamos
cheias de medo inconsciente,
como criávamos os nossos filhos para o carrasco,
Para a prisão e a câmara de tortura.


Akhmátova sobreviveu a tudo, embora muitos de seus poemas só fossem publicados na Rússia com as reformas de Mikhail Gorbatchev.