
No início do ano eu lecionava na Academia Militar sobre os conflitos envolvendo a comunidade de brasileiros no Suriname e comentei a respeito da grave crise que houve no país no início da década de 1980, quando um golpe colocou no poder uma ditadura pró-Cuba, e os Estados Unidos ameaçaram invadir o Suriname, e pediram a colaboração do Brasil. Quem desarmou a situação foi um jovem embaixador, Luiz Felipe Lampreia, que negociou um programa de ajuda e cooperação que esvaziou a influência dos cubanos. Os bastidores desta história – e de outras crises diplomáticas, sobretudo na América do Sul – são narrados em “O Brasil e os Ventos do Mundo”, as memórias de Lampreia.
Diplomata de carreira desde a década de 1960, Lampreia se destacou como colaborador próximo do chanceler do presidente Ernesto Geisel, Antônio Azeredo da Silveira, e foi ele mesmo ministro das Relações Exteriores no governo de Fernando Henrique Cardoso. Exerceu diversos postos no Itamaraty, com ênfase em temas ligados à economia internacional e ao comércio exterior. Exerceu funções de liderança em situações delicadas, como a rivalidade nuclear com a Argentina, as negociações para a exploração do gás na Bolívia e os conflitos envolvendo dentistas brasileiros em Portugal. A negociação no Suriname foi seu primeiro posto como embaixador, quando tinha pouco mais de 40 anos – extremamente jovem para os padrões de promoções lentas do serviço diplomático brasileiro.
Embora a maior parte da carreira de Lampreia tenha transcorrido na Europa e nos Estados Unidos, sua atuação como chanceler (1995-2001) foi marcada por uma grande atenção aos assuntos da América do Sul. Ele narra em detalhes a bem-sucedida mediação brasileira que encerrou o longo conflito entre Peru e Equador, os esforços para evitar golpes militares no Paraguai, as expectativas e decepções da formação do Mercosul, os desentendimentos com a Argentina de Carlos Menem (abaixo, Lampreia com Menem e Fernando Henrique) e sua perplexidade diante da ascensão de Hugo Chávez na Venezuela.

A análise acadêmica sobre a política externa de Fernando Henrique costuma destacar a estratégia da “autonomia pela integração”, baseada na adesão a regimes internacionais e acordos da ONU como um modo de amenizar os efeitos mais nocivos da ordem global no pós-Guerra Fria. Contudo, o enfoque das memórias de Lampreia é outro. O ex-chanceler mostra ceticismo diante da inoperância das Nações Unidas e reitera sua admiração pela doutrina do “pragmatismo ecumênico e responsável” de Azeredo da Silveira, que tradicionalmente é associada a um maior ativismo no Terceiro Mundo.







