sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Diálogo com a Índia


Entre as muitas ameaças à paz mundial, uma me preocupa em especial: a próxima novela de Glória Perez será sobre as relações entre Brasil e Índia, narrada a partir de uma história de amor bi-nacional. Sim, ela já fez isso em América, deixando traumas indeléveis entre as nações retratadas na trama. Enquanto as ogivas nucleares indianas não sobrevoam os oceanos rumo ao Projac, mergulho no estudo do país, que talvez seja o primeiro passo rumo a uma pesquisa mais ampla sobre estratégias de desenvolvimento na Ásia.

Quinta e sexta estive no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, para seminários sobre a Índia e a respeito do Diálogo que ela mantém com Brasil e África do Sul (Fórum IBAS). Acompanho o tema desde a criação da iniciativa e é impressionante a reação positiva da comunidade acadêmica brasileira, com a fundação de centros ou programas de estudos nas universidades de Brasília e Federal de Minas Gerais. Está em formação no país uma equipe de pesquisadores dedicados a entender a ascensão global indiana.

Grosso modo, a história econômica da Índia entre 1947 e 1991 é a de realizações modestas, simbolizadas no que ficou conhecido como “taxa de crescimento hindu”, de 3%ao ano. O modelo de substituição de importações era ainda mais fechado do que os implementados na América Latina - bem mais restritivo ao investimento externo, o país chegou a expulsar a Coca Cola! O sistema de permissões e autorizações, o Licence Raj (Raj era o domíno britânico na Índia) era um poço de ineficiência e corrupção.

A crise do modelo veio com a Guerra do Golfo, devido ao aumento nos preços do petróleo e a repatriação de centenas de milhares de indianos que trabalhavam nos países árabes, cujas remessas em dólares eram fundamentais para manter as contas nacionais equilibradas. Houve um movimento de liberalização, ainda que mais limitado do que na América Latina, e a ascensão de setores dinâmicos da economia, como a indústria de software e de telecomunicações – a Índia é talvez o principal centro de terceirização mundial de atividades como call centers e contabilidade empresarial.

A guinada econômica foi acompanhada por transformações na política externa, que abandonou a proximidade com a Rússia por uma semi-aliança com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que procura lidar com tensões mal-resolvidas com a China e as eternas disputas com o Paquistão, e agora ambos os países são potências nucleares. Além disso, a Índia iniciou a estratégia diplomática de “Olhar para o Leste”, reforçando vínculos com as potências econômicas da Ásia-Pacífico.

Natural que esta amplitude de horizontes signifique mirada mais profunda àquela outra grande democracia em desenvolvimento, o Brasil. Há intensa cooperação entre os dois governos na ONU e na OMC (embora o protecionismo agrícola indiano tenha atrapalhado bastante a Rodada Doha), comércio crescente e muitos projetos de cooperação. Me parece que agora as respectivas sociedades também começam a se examinar com atenção, em busca de possibilidades conjuntas de negócios, aprendizados e parcerias.

Mais do espectador, quero ser parte do processo. Tenho lido bastante sobre a Índia e há diversas obras sobre o país na minha lista. Um amigo que leciona na Inglaterra me convidou para enviar trabalhos para uma conferência que ele prepara a respeito do Fórum IBAS. A idéia é ótima, mas não sei se terei tempo de apresentar um trabalho no prazo. Gostaria de entender o aspecto econômico, diplomático e as mudanças políticas internas, como o fortalecimento do fundamentalismo religioso hindu.

Também planejo viajar à Índia em algum momento dos próximos anos e conhecer pelo menos a capital, Nova Délhi, e os centros financeiros e tecnológicos – respectivamente, Mumbai (Bombaim) e Bangalore. Quem sabe o interesse não se misture com algumas das tarefas que eu assuma na minha nova vida de tecnocrata?

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Para (Tentar) Entender o Desenvolvimento


O debate teórico sobre desenvolvimento começa a se renovar. A ascensão da China, Índia e outras economias emergentes, a crise nos EUA e a estagnação na Europa têm levado a questionamentos e visões críticas sobre as reformas adotadas na década de 1990. Eu andava à busca de um livro que pudesse me dar o panorama das principais correntes em debate e gostei muito do que encontrei em “Understanding Development: theory and pratice in the third world”, de John Rapley.

Numa obra pequena, elegante e de clareza didática exemplar, Rapley conta o nascimento e apogeu dos estudos sobre desenvolvimento, a partir da Segunda Guerra Mundial, e examina suas principais linhas de reflexão: as vertentes keynesianas, o estruturalismo da CEPAL, a teoria da dependência etc. A partir da crise dos anos 70 e da guinada liberal que seguiu a ela, muitos acreditavam que essas teorias estariam mortas, sobrepujadas pela crítica da economia neoclássica. Rapley analisa as objeções liberais em detalhe, mas chama a atenção para a retomada dos teóricos desenvolvimentistas a partir dos pesquisadores dos modelos do Leste da Ásia e mesmo dos enfoques pós-modernos, que negam a validade de muitos dos pressupostos das abordagens anteriores, mas chamam a atenção para temas antes menosprezados como questões de gênero e preservação ambiental.

No início dos anos 70 Nixon disse que todos eram keynesianos, no Brasil talvez pudesse ter observado que todos eram e são desenvolvimentistas, tamanha a força que essas idéias alcançaram por aqui. Depois da “década perdida” de 1980 muita gente boa escreveu balanços tentando aprender com os erros do passado, como o protecionismo excessivo que favoreceu a corrupção e a ineficiência. Parte desse debate é visível na nova política industrial (ou de desenvolvimento produtivo, como é oficialmente batizada) com sua ênfase em utilizar as exportações como medida do sucesso empresarial e do acesso a benefícios.

Claro que muito da mea culpa brasileira veio do contraste entre os problemas das experiências na América Latina com os modelos bem-sucedidos no Leste Asiático. Num primeiro momento o Japão, depois a Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan, Cingapura. Atualmente, Índia e China, mas também merecem atenção os casos do Vietnã, Indonésia e Malásia. Penso mesmo em montar um grupo de estudos sobre o desenvolvimentismo asiático junto com os colegas da minha futura turma na Escola Nacional de Administração, porque acredito que há lições importantes a aprender no estudo do continente, e provavelmente teremos um módulo sobre economia e desenvolvimento no curso de formação.

Mais ou menos por coincidência, conversei por estes dias com uma amiga que quer cursar mestrado em administração pública e estivemos olhando, embasbacados, os programas da London School of Economics and Political Science e de Harvard. Esta última dá ênfase ao estudos em desenvolvimento internacional.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Serviço da República


"Queríamos treinar profissionais que fossem céticos, mas não cínicos: isto é, sempre questionando a sabedoria convencional, mas sem a atitude derrotista que diz que nada funciona e que a ação pública não consegue alcançar seus objetivos." (Dani Rodrik)


Há poucos dias foi divulgado o resultado final do concurso para Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, e fui um dos aprovados. Daqui a algumas semanas me mudarei para Brasília e iniciarei o curso de formação da carreira, na Escola Nacional de Administração Pública.

Há cerca de dois ou três anos eu pensava seriamente em ingressar no serviço federal, para obter experiência prática com temas ligados às políticas públicas. No entanto, tinha decidido priorizar a formação acadêmica e só prestar concurso após concluir o doutorado. Por coincidência, a seleção foi marcada justamente para uma semana depois da minha defesa de tese.

Fiz provas de direito administrativo e constitucional, economia, ciência política, políticas públicas, gestão governamental, administração, idiomas (português e inglês) e raciocínio lógico-quantitativo. Tive muitas dificuldades na preparação e não acreditava que fosse passar. Meu plano era usar o concurso para ganhar experiência, e depois tentar outras oportunidades, como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. De fato, fui apenas razoável na múltipla escolha, embora excelente na discursiva.

Minha nova carreira existe há 20 anos, ainda que só tenha se consolidado a partir de 1995. Sua história é narrada assim no site de sua Associação:

A idéia de constituir um quadro de profissionais com perfil generalista e alta qualificação para a Administração Federal surgiu a partir de um estudo realizado pelo Embaixador Sérgio Paulo Rouanet (...) Para tanto, recomendava a criação de uma instituição encarregada da formação de quadros dirigentes no Brasil, e a constituição de uma carreira para os seus egressos, a fim de que se viabilizasse a sua absorção pela máquina administrativa, à semelhança dos "grands corps" franceses, mas sem sua heterogeneidade. Essa carreira teria atribuições generalistas (à semelhança dos administradores civis da França), a garantia legal do exercício de atribuições de direção e assessoramento e inserção em todos os ministérios.

Vem aí grandes mudanças na minha vida. Passei os últimos cinco anos como pesquisador numa organização não-governamental, lidando com cooperação internacional, direitos humanos e políticas públicas, enquanto cursava o doutorado em ciência política e lecionava em duas universidades. Antes disso, trabalhei como jornalista em editora, site e jornais. De quando em quando gosto de trocar os chápeus e assumir uma nova identidade. Neste caso, ainda haverá a ida para Brasília, a terceira cidade na qual viverei, depois do Rio de Janeiro e Buenos Aires.

As reações dos meus amigos e colegas de trabalho têm sido bastante diversificadas. Em geral positivas, mas houve vários que se queixaram por eu deixar o Rio e outros, sobretudo acadêmicos, verdadeiramente enfurecidos com minha decisão de me tornar funcionário público. Meus amigos tecnocratas são os mais entusiasmados e curiosamente os que mais destacam a importância pública do trabalho – a tendência dos colegas na iniciativa privada é ressaltar os beneficios da burocracia federal, como salários, estabilidade, aposentadoria especial etc.

Como será trabalhar para a República? Em que ministério serei lotado? Quais funções assumirei?

Aguardem os próximos capítulos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Um Teólogo na Presidência



A teologia da libertação foi a origem de muitos religiosos latino-americanos que se tornaram políticos: ministros na Nicarágua, líderes guerrilheiros na Colômbia, assessores presidenciais no Brasil. Agora o ex-bispo Fernando Lugo chega à presidência do Paraguai. Curiosamente, em momento em que a esquerda católica está em declinio profundo, assolada por movimentos rivais dentro da Igreja, como a Renovação Carismática, e pelos evangélicos.

Quando leciono sobre o Paraguai, os alunos costumam perguntar se a influência dos jesuítas ainda é forte no país, ou se Lugo é um caso isolado. Respondo com algumas histórias ouvidas e vividas na nação guarani. A América Latina é hoje um continente bastante urbanizado, mas no Paraguai cerca de 40% da população mora na zona rural, em geral como micro-proprietários, trabalhando à base da mão-de-obra familiar (a foto abaixo mostra uma casa de camponeses na província do Alto Paraná, tirei durante uma pesquisa em 2007). No contexto de um Estado frágil e pouco presente, a Igreja continua a ser uma referência importante e uma influência política progressista fundamental, por vezes até contra sua vontade.



Explico: o Paraguai não foi alheio às mudanças conservadoras na Igreja latino-americana, à medida em que João Paulo II e Bento XVI afastaram expoentes da teologia da libertação e promoveram sacerdotes mais afinados às suas concepções. Nas regiões produtoras de soja que visitei, era muito comum que os principais auxílios financeiros para os padres locais viessem das empresas agrícolas e dos grandes comerciantes da área. Meus amigos comentaram que com freqüência o sacerdote, ao se instalar numa comunidade, ganha de presente uma caminhonete.

No entanto, a participação em grupos religiosos é um dos poucos instrumentos à disposição dos jovens interessados em conhecer um pouco mais além de seu próprio vilarejo. Através da Igreja eles viajam para cidades, fazem amigos, vivenciam novas realidades, eventualmente entram em contato com pessoas com experiência política. Mesmo dentro da mesma província paraguaia há discrepâncias grandes no padrão de cada comunidade camponesa. A maioria é muito pobre, mas algumas se desenolveram, outras fazem experimentos à base de agroecologia. Abaixo, a vila de Minga Porã (em português significa algo como “Mutirão Bonito”), formada por antigos sem-terra que ocuparam a área no fim da ditadura Stroessner. Fica a menos de uma hora de carro da casa mostrada acima.



Lugo era bispo de San Pedro, das dioceses mais pobres da América Latina, fora da área relativamente mais próspera do cultivo da soja e do algodão do Paraguai. A marca do convívio nessa zona difícil é visível em seus gestos e atos, como na maneira simples de se vestir, que o diplomata indiano Rengaraj Viswanathan chama de “revolução das sandálias” e compara ao simbolismo de Gandhi. Também é forte no uso de expressões na língua guarani e em seu vínculo com movimentos camponeses.

Os primeiros dias de governo de Lugo foram marcados por uma ofensiva anti-corrupção e pela defesa que o novo presidente faz de um estilo de vida austero, chegando mesmo a renunciar a seu salário. Isso me assusta um pouco: não gosto da ênfase da Igreja em rejeitar o conforto material. As pessoas querem uma vida melhor, querem dinheiro para comprar uma camisa bonita e levar a namorada ao cinema. Não vejo sentido em pregar um comportamento de santo eremita no deserto. Esse tipo de exigência moralista é tão inatingível que acaba levando inevitavelmente à frustração e à decepção, quando não ao cinismo.

Querelas teológicas à parte, Lugo tem grandes desafios: lidar com a maioria do Partido Colorado no Congresso, nos governos provinciais e no funcionalismo civil e militar, gerir sua própria coalizão, bastante heterogênea, negociar com Brasil e Argentina e dialogar com as enormes expectativas que sua presidência desperta.

No circuito dos movimentos sociais, há um desejo intenso de que Lugo seja bem-sucedido. Colegas que conheceram seus novos ministros ficaram muito bem impressionados com a alta qualificação técnica. Há inclusive a idéia de realizar eventos e reuniões em Assunção, para valorizar este momento tão importante na região.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Uma Conversa com Samantha Power



Na manhã desta quarta estive numa palestra da jornalista americana Samantha Power, que veio ao Rio de Janeiro lançar “O Homem que Queria Salvar o Mundo – uma biografia de Sérgio Vieira de Mello”. Já resenhei aqui a edição original do livro (que em inglês tem título mais bonito, “Chasing the Flame – Sergio Vieira de Mello and the Fight to Save the World”), portanto hoje escrevo somente sobre a personalidade da autora.

Em cerca de seis anos Samantha Power se tornou uma celebridade no campo das relações internacionais: escreveu dois livros primorosos (o outro é “Genocídio: a retórica americana em questão”, mais uma má tradução para um original que se chamou “A Problem from Hell: America in the age of Genocide”), fundou um centro de direitos humanos em Harvard, destacou-se como correspondente de guerra e foi assessora de Barack Obama – a quem ela se referiu, num delicioso ato falho, como presidente Obama. Com todo esse currículo, ela é de simplicidade encantadora, com um entusiasmo juvenil pelos temas sobre os quais escreve.

Enquanto autoridades da ONU faziam a apresentação formal da palestrante, Samantha levantou-se de sua cadeira para oferecer o lugar a uma mulher idosa que chegou quando a platéia já estava lotada. A conferencista se sentou no chão, já que nenhum dos diplomatas e militares brasileiros que ocupavam as fileiras da frente teve um mínimo de presença de espírito ou cavalheirismo para oferecer-lhe a cadeira. Quando foi para a tribuna, Samantha esperou que dona Gilda, a mãe de Vieira de Mello, colocasse os fones de ouvido para que iniciasse sua palestra, na qual destacou por diversas vezes como o apoio dela e dos demais parentes de Sérgio foi essencial para o livro. Por diversos momentos Samantha esteve tão emocionada que pensei que não fosse capaz de continuar. Um rapaz da organização foi ajustar o microfone e ela lhe disse: “Não adianta, o problema é com a palestrante”.




Sua apresentação foi basicamente o resumo da carreira de Vieira de Mello na ONU, na perspectiva de que lições sua vida oferece para a resolução dos conflitos contemporâneos. Algumas de suas observações certamente serão controversas – como a necessidade de negociar com os bad guys, sejam eles terroristas ou genocidas, como Sérgio fez no Camboja do Khmer Vermelho ou na Bósnia dos paramilitares sérvios. Outras são politicamente difícies, senão inviáveis, com a ênfase de Vieira de Mello para que organizações internacionais compartilhem poder com grupos locais quando operam em países estrangeiros, tarefa que ele desempenhou com brilhantismo em Timor Leste, mas que tentou inutilmente no Iraque.

O evento estava lotado, mas senti falta de maior presença de jovens, de estudantes e pesquisadores. A maioria das pessoas era bem mais velha, talvez amigos da família Vieira de Mello, e as perguntas formuladas foram bastante convencionais, do tipo “Como foi que você se interessou pela vida de Sérgio?”. Aliás, sempre me irritou a falta de interesse que nós, brasileiros, demonstramos por ele. Acredito mesmo que uma biografia excelente como a de Samantha Power não conseguiria ser escrita aqui, porque exige conhecimentos especializados sobre crises internacionais na Ásia, África, Oriente Médio e Bálcãs, além de dados precisos sobre a intricada burocracia das Nações Unidas, onde Sérgio fez carreira. Será que algum dia conseguiremos escapar desse provincianismo sufocante?

Naturalmente, Samantha aproveitou a ocasião para autografar o livro e levei meu exemplar. Brinquei com ela que comprei a edição americana porque não pude esperar a publicação da obra no Brasil. Ela gostou de saber que sou professor de relações internacionais e que falo bastante de Vieira de Mello em minhas aulas, o resultado foi uma dedicatória simpaticíssima que guardarei com afeto, e que me faz sentir parte de uma conspiração do bem, nestes tempos em que não faltam confrarias do mal.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Fora de Jogo



Um pouco mais sobre o futebol como maneira de driblar os obstáculos à participação na política. Já falei da China, agora é a vez do Irã.

Entre as vantagens de ser professor está o convívio com alunos inteligentes, que muito me ensinam. Tem sido constante nas turmas de relações internacionais a demanda de estudantes que querem discutir a situação das mulheres nos países muçulmanos. Uma das melhores monografias apresentadas neste ano tratou justamente de como o cinema iraniano aborda os direitos femininos. Minha aluna me presenteou com os DVDs das produções que analisou, como Persépolis e Fora de Jogo.

(Clique no link para ver o trailer de Fora de Jogo).

O segundo filme é uma ficção bem-humorada sobre um grupo de mulheres que tentam entrar num jogo importante para a seleção iraniana de futebol, as eliminatórias para a Copa do Mundo. Como a presença feminina é proibida nos estádios, elas se disfarçam de homens, mas são capturadas pela polícia e mantidas em detenção, fora de campo, enquanto ocorre a partida. Quase toda a trama se desenrola no cercadinho onde estão confinadas, nas conversas que mantêm entre si e com os guardas.

O filme é inspirado em fatos dolorosamente reais. Em 1997, o Irã voltou à Copa, pela primeira vez após a Revolução Islâmica. As ruas de Teerã foram tomadas por multidões que celebraram a conquista e em algumas áreas, em particular nas de classe média e alta, mulheres também comemoraram, com a cabeça descoberta, sem véus. Para horror total dos clérigos, a polícia se juntou à festa, em vez de reprimi-la. A revolta continuou dias depois, quando um grupo de mulheres rompeu as barreiras policiais e entrou à força no estádio nacional (ironicamente batizado de “Liberdade”), onde a seleção era recebida em glória. Temerosas de um conflito, as autoridades cederam, mas mantiveram as manifestantes numa área separada.

O futebol foi muito promovido no Irã do velho xá Reza Pahlevi, como símbolo de modernidade e adaptação do país às tradições européias, e até como um instrumento de socialização para os migrantes rurais que se mudavam para Teerã e outras grandes cidades, à medida que progredia a industrialização. A paixão pelo esporte permaneceu após a queda da monarquia, ainda que seu caráter cada vez mais globalizado cause embaraços aos aiatolás. Muitas estrelas da seleção jogaram em times internacionais, na Europa e na Ásia e o regime permitiu até a um estrangeiro treinar a equipe iraniana. Claro que foi um brasileiro: Valdeir Vieira, que comandou a campanha vitoriosa que culminou na participação na Copa.

Do outro lado da fronteira, também coube a um brasileiro, Jorvan Vieira, a a missão quase impossível de treinar a seleção iraquiana de futebol, no que sobrou do país após a guerra de 2003. O resultado foi uma conquista espetacular, a vitória na Copa da Ásia, superando obstáculos sérios – por exemplo, os sunitas não passavam a bola para os xiitas – e dando àquela sofrida nação um de seus poucos momentos de felicidade e união em anos recentes. Infelizmente, a equipe foi desmantelada pouco depois e não disputará o mundial de 2010.

As meninas de Fora de Jogo encontraram no futebol uma maneira de expressar seu desejo de ser aceitas como parte integral de sua sociedade, de ter direito a se divertir ao lado de seus amigos, namorados, parentes, maridos e filhos. Os membros da seleção do Iraque descobriram no esporte uma celebração que lançou pontes sobre anos de lutas fratricidas e lhes deu novo propósito comum. O futebol é tudo isso, uma maneira de passar uma tarde divertida e de aproveitar o que vida tem de bom. Também pode ser um modo de manipular paixões populares para fins espúrios, como sabem demagogos de sobra na Argentina, Brasil e Itália, ou mesmo de canalizar ódios raciais, sociais e religiosos na forma de torcidas organizadas.

Em 2010, a Copa será na África do Sul, democracia multiracial que simboliza a esperança africana em superar os problemas de sua trágica história colonial. Os jogos acontecerão num momento difícil para o país, em que ataques xenófobos contra imigrantes de outras nações africanas deixaram muitos mortos. Vai ser um mundial e tanto.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A Quarta Espada



A guerra entre o Sendero Luminoso e o Estado peruano durou, em seu auge, 12 anos e matou cerca de 70 mil pessoas. Mais do que assassinaram, em conjunto, as ditaduras da Argentina, Bolívia, Brasil e Chile. O Sendero era de personalismo extremo, de culto a seu fundado e líder, Abimael Guzmán. Que tipo de homem ele é? O jornalista peruano Santiago Roncagliolo avança bastante em responder à indagação em sua reportagem-biografia, “A Quarta Espada”.

Roncagliolo escreveu o livro na Espanha, depois dos atentados da Al-Qaeda em Madri. Filho de intelectuais, passara a infância acompanhando os pais em exílio mexicano, a família voltou ao Peru com a redemocratização da década de 1980, o momento em que o Sendero despontou. De certa forma, “A Quarta Espada” é o ajuste de contas do escritor com a pátria que pouco conhece e que claramente lhe causa espanto e repulsa.

A biografia de Guzmán mostra história de abandonos, fragilidade emocional e social. Bastardo de um comerciante próspero, foi abandonado pela mãe, mas acolhido pela madrasta. Cresceu em Arequipa, cidade provinciana com expressiva vida cultural. Tímido e introspectivo, Guzmán tornou-se professor universitário como quase todos os irmãos. Mas não conseguiu se firmar na carreira, devido a intrigas acadêmicas – seu mentor deixou a cidade após brigar com colegas. Guzmán passou também por um trauma amoroso pouco claro, um namoro interrompido por pressão da família da moça, que pode ter incluído uma filha natimorta, ou dada em adoção sem seu consentimento. Ele não teve outros filhos.

Jovens de classe média com muita educação formal e poucas oportunidades sociais, com raízes frágeis, são bons candidatos a revolucionários. Guzmán encontrou seu lugar ao ir lecionar na recém-recriada Universidade de San Cristobal, em Ayacucho, uma das cidades mais pobres do Peru. As salas de aula eram o único lugar em que os jovens filhos de camponeses podiam conviver com aqueles oriundos das classes médias e da elite, no ambiente carregado da década de 60. Guzmán mergulhou no universo da extrema-esquerda, que então era formada por cerca de 70 micro-grupos. Fundou o seu próprio, o Partido Comunista Peruano pelo Caminho Luminoso de Mariátegui, em 1969. Começou com 12 membros.



Passou os dez anos seguintes em brigas fratricidas, afastando rivais e consolidando sua influência no movimento estudantil e camponês de Ayacucho. À época, parecia apenas mais um radical, que considerava a Revolução Cubana de direita e criticava a URSS e a China de Deng Xiaoping. Roncagliolo observa que em seus textos de doutrinação “o valor quase místico atribuido à ideologia faz lembrar a Força de Luke Skywalker, uma ferramenta espiritual e transcedente que dá poder ilimitado ao seu usuário.” Há controvérsias sobre a capacidade intelectual de Guzmán, alguns observadores lhe consideram brilhante, mas a maioria afirma que era mediano, dado a repetir clichês.

Ninguém esperava que o Sendero fosse à ação, mas isso aconteceu, ironicamente quando o Peru voltou a ser uma democracia. O grupo começou a atacar alvos governamentais e pessoas ricas em Ayacucho Sempre estranhei o timing, mas Roncagliolo explica a decisão citando o próprio Guzmán:

“Em 1980 o governo tinha que ser substituído através de eleições, seriam necessários um ano e meio ou dois anos para o novo governo poder armar o manejo do Estado. Os militares estavam saindo depois de 12 anos e não poderiam assumir facilmente uma luta imediata contra nós, nem poderiam de imediato tomar o timão do Estado, porque estavam desgastados politicamente e desprestigiados.”

O livro conta rapidamente os principais lances da guerra – se você quiser os detalhes, recomendo a obra do jornalista peruano Gustavo Gorriti – tais como a declaração do Estado de emergência em Ayacucho, a intervenção das Forças Armadas em 1982, os massacres mais chocantes, como o assasssinato de jornalistas no povoado de Uchuruccay (os camponeses nunca tinham visto câmeras e microfones e as tomaram por armas, confundindo os repórteres com membros do Sendero), os massacres nas prisões e banho de sangue que matou sobretudo pessoas pobres, da região rural e indígena nos Andes.

Um coronel brasileiro que foi adido militar em Lima me disse que a opinião pública só levou o Sendero a sério quando a guerra chegou à capital. Roncagliolo narra os atentados em Lima, como a inflitração do Sendero nas favelas, o assassinato de líderes comunitários que se opunham ao grupo, os apagões promovidos ao dinamitar torres de transmissão e o carro-bomba na principal rua do bairro de elite, Miraflores, “o momento em que os limenhos, em particular as classes médias e altas, sentíamos que também podíamos morrer”

Guzmán foi preso sem que fosse disparado um único tiro, em excepcional trabalho investigativo da unidade anti-terrorismo da polícia peruana. Na prisão, entrou em polêmico acordo com a ditadura de Fujimori, negociando com seu braço direito, o sombrio Montesinos, que hoje divide o mesmo presídio com Guzmán. A maior parte do Sendero foi desmantelada, seus líderes condenados à prisão perpétua, embora militantes remanescentes ainda atuem no vale do Apurímac – na visão cínica de alguns entrevistados no livro, uma reserva que os políticos podem usar em caso de emergência, para unir o país em torno de um inimigo.

Guzmán deu apenas duas entrevistas em toda sua vida, e não falou com Roncagliolo, mas o autor conversou com muitos líderes do Sendero, inclusive a esposa de Guzmán. Os presos viraram um trama semi-esquecido, “perguntam o que se pensa deles na Espanha, com a esperança de que alguém pense neles em algum lugar.”