sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O Futebol Explica a China


O desempenho da China nas Olimpíadas de Pequim está excelente, mas há um esporte onde a China não consegue se destacar positivamente: o futebol. A frustração com a pífia atuação da seleção masculina nos diz muito sobre o estado atual do país.

A política internacional da China expressa um desejo intenso de aceitação, de ser considerada parte do clube seleto das grandes potências. Algo bastante lógico se olharmos para os últimos 150 anos de humilhação nacional, desde as guerras do Ópio e a fragmentação territorial do império. Ora, nenhum esporte é tão amado como o futebol. É uma verdadeira cultura global, que atravessa os continentes. Ser bem-sucedido no futebol rende uma imagem internacional difícil de ser igualada por outras conquistas esportivas, como nós, brasileiros, bem sabemos.

No entanto, a seleção masculina chinesa de futebol é um desastre. A piada no país é que merecem apenas medalhas por artes marciais, devido ao hábito de bater no adversários vitoriosos. Se você acha curioso que em meio a mais de 1 bilhão de chineses não se consigam reunir 11 que saibam jogar, saiba que a população do país já desenvolveu suas teorias para explicar o fracasso. Algumas delas:

- Os salários dos jogadores são tão altos que eles perdem a disciplina e a austeridade, dedicando-se a uma vida desregrada de prostitutas, drogas e festas (pois é, a China ainda tem muito do puritanismo comunista).

- O mundo do futebol na China é muito corrupto e isso impede o desenvolvimento do esporte.

- O Estado chinês é muito bom em financiar atletas que se destacam em esportes individuais, mas é muito caro treinar equipes numerosas, como no futebol.

Os brasileiros olhamos essas teorias com um certo ceticismo, em particular as duas primeiras, mas o debate político corre a sério no país. Por exemplo, as autoridades chinesas permitem a expressão de críticas aos desmandos da lideranaça futebolística chinesa, algo que raramente ocorre em outras áreas da vida pública da China. Já apareceram até pessoas dizendo que essa válvula de escape pode se tornar a oportunidade para se discutir a sério a democratização do país e o estabelecimento de um Estado de Direito, onde "a regra é clara", como diria um célebre comentarista brasileiro.

Dica do Bruno Borges

5 comentários:

Pedro disse...

Olhamos com ceticismo as razões acima apresentadas porque no Brasil é do mesmo jeito e a seleção é ótima, né?

Mauricio Santoro disse...

Exatamente, Pedro. Imagine, se costumes devassos rendessem mau futebol, só sobraria o Kaká no Brasil...

Abraço

Sergio Leo disse...

Rapaz, tenho uma tese, sobre o futebol como válvula de escape para o anseio de participação política inerente a todo ser humano; um dia desenvolvo, nem que seja numa crônica. Esse seu belo post sofistica o negócio. Futebol como ponta de lança para o ativismo político. Não é à toa que oIdelber anda fazendo propaganda deste blogue!

abração, mestre, e avise quando for nos visitar aqui na capital.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Sergio.

O mérito é do Bruno, que me enviou o artigo delicioso do New York Times falando do tema.

É a primeira vez que vejo a discussão sobre futebol e política na China, mas está virando um tema de pesquisa razoavelmente levado a sério na academia, em especial pelos elos entre futebol/nacionalismo/identidade nacional.

Um jornalista dos EUA, Franklin Foer, escreveu um livro estupendo e bem-humorado chamado "Como o Futebol Explica o Mundo" em que cada capítulo se dedica a um tema e um país. O do Brasil, por exemplo, fala de corrupção.

Também há o caso do Irã, que merece um post à parte. Para a semana, escrevo.

Abraço

Maurício Tombini disse...

Alô, Sérgio, faça logo esse artigo, porque compartilho da tese, mas me falta a verve e o tempo!! Brincadeira, mas o pedido é sério. Saudações.