
Há dez anos eu trabalhava na assessoria de imprensa da Editora Nova Fronteira – o equivalente funcional de colocar a raposa para tomar conta do galinheiro, ou por o viciado para gerenciar a boca de fumo – e uma das perólas que descobri na época foi um pequeno romance alemão, “O Leitor”, de Bernard Schlink. Fiquei satisfeito em vê-lo adaptado para o cinema, e um tanto surpreso que tenha demorado tanto, dada a força da história.
Schlink é jurista, professor universitário e também se dedica à ficção. Seus romances tratam de temas relacionados ao Direito. “O Leitor” é um conto de amor e tomada de consciência, tendo como pano de fundo os processos judiciais pelos quais a Alemanha tentou lidar com o passado nazista.
O personagem principal é Michael, um adolescente que na Alemanha da década de 1950 inicia um caso com Hannah, uma mulher mais velha. No ritual que desenvolvem, o rapaz lê para ela obras clássicas da literatura e do teatro, e depois fazem amor. Michael se intriga com a relutância de Hannah em falar sobre seu passado, e como ela parece carregar um pesado fardo. O romance dos dois dura apenas um verão, e a mulher desaparece sem avisar e sem deixar vestígios.
Oito anos depois, Michael estuda Direito e participa de um seminário especial sobre os crimes nazistas e nessa situação assiste ao julgamento de um grupo de mulheres que pertenceram às SS. Entre elas, está Hannah, acusada de um conjunto de atrocidades. E alguns detalhes do comportamento da ex-amante com as prisioneiras fará Michael rever de maneira dolorosa o caso de amor entre os dois.
Gostei da adaptação para o cinema, em particular pelo desempenho excepcional de Kate Winslet como Hannah – pelo qual ela está indicada ao Oscar. Infelizmente, o roteiro optou por ressaltar os aspectos mais melodramáticos da trama, incluindo um longo e desnecessário epílogo na época atual, com Michael interpretado no piloto automático por Ralph Fiennes (com a mesma expressão facial de seus últimos quatro ou cinco filmes).
A escolha do roteirista deixa de lado a possibilidade de desenvolver a relação de Michael com seu professor de Direito, vivido pelo sempre excelente Bruno Ganz. Os dois discutem a validade de julgar apenas alguns dos crimes cometidos durante o nazismo, e se as mulheres em julgamento não estariam sendo usadas como bodes expiatórios para aplacar a consciência culpada de milhões de outros alemães, que nada fizeram para impedir as atrocidades do período. Há um debate sobre as relações entre lei, justiça e moralidade, mas para Michael a questão é mais urgente e visceral: o que fazer quando ele descobre que a mulher que ama é culpada de coisas tão terríveis? Certamente uma pergunta que, em maior ou menor grau, atingiu a muitas pessoas na Velha Europa do pós-guerra.






