
A Grécia em greve geral e com conflitos nas ruas. A Espanha com desemprego acima de 20% e pânico nos mercados financeiros. Portugal rebaixado pelas agências de risco. O Reino Unido numa reviravolta eleitoral, com a perspectiva de um governo minoritário para enfrentar a recessão e com projeções de dívida pública ainda piores que as gregas. A Alemanha falando na Europa em tempo de encruzilhadas, com o futuro em jogo. São dias sombrios para a União Européia.
O pacote de ajuda da UE e do FMI à Grécia é o maior da história, mas corresponde a apenas 1/3 da dívida do país, e há questionamentos sérios se a conjuntura econômica será boa o suficiente nos próximos anos para permitir a retomada do crescimento grego. Martin Wolf, colunista do Financial Times, aponta outras contradições:
"Está se pedindo à Grécia que faça o que fez a América Latina na década de 1980. Aquilo resultou numa década perdida, e os beneficiários foram os credores estrangeiros. Além disso, uma vez que os credores estão sendo pagos para escapar, quem irá substituí-los? Esse pacote certamente não conseguirá trazer a Grécia de volta ao mercado em condições administráveis em poucos anos. Mais dinheiro será necessário se a reestruturação da dívida for, imprudentemente, descartada."
Wolf tocou num ponto importante - a semelhança do ajuste estrutural imposto à América Latina na década de 1980 com o pacote atual aceito pelo governo da Grécia sob fortes pressões da Alemanha. A reação da população grega foi feroz, com a decretação de uma greve geral, enfrentamentos com a polícia nas ruas e cenas que lembram eventos parecidos na política latino-americana: o Caracazo na Venezuela, a marcha dos mineiros na Bolívia, o levantamento indígena no Equador.
As autoridades alemãs e do Banco Central Europeu têm insisto no risco de contágio, que a crise grega se espalhe rapidamente por outras combalidas economias européias. A figura abaixo ajuda a entender esses medos. Os países mais problemáticos devem muito não só às nações mais ricas, mas também entre si. Por exemplo, se Portugal entrar em moratória, o efeito sobre a Espanha seria terrível.

Sair de uma crise assim seria difícil em qualquer circunstância, mas é ainda mais em função da rigidez do sistema monetário europeu. A adesão ao euro significa ganhos em termos de estabilidade e confiança, porque os governos se comprometem a jogar de acordo com as regras severas do Banco Central Europeu. Mas em contrapartida, abrem mão de flexibilidade e de possibilidades de escolhas em políticas públicas. Não podem promover desvalorizar o câmbio, para tornar suas exportações mais competitivas, nem emitir moeda.
A Alemanha tem se mantido rigorosa em condicionar a ajuda à Grécia a um programa amplo de reformas fiscais que requer que o governo grego mude as práticas clientelistas e irresponsáveis que adota, bem, desde que Péricles ajudou seu sobrinho Alcebíades a comandar a desastrosa expedição à Sicília que selou a derrota de Atenas na guerra contra Esparta. Com o risco da disseminação da crise, mais e mais membros da UE questionam a rigidez germânica. O ex-ministro das Relações Exteriores Joschka Fischer declarou ao New York Times: "Recentemente conversei com um grupo dos chamados jovens líderes alemães. De um ponto de vista pessoal e político eles não são mais investidores na Europa. Seu envolvimento se limita a serem consumidores da Europa." Será que a zona do euro se manterá intacta? Ou veremos países se retirando dela?










