sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Europa na Encruzilhada



A Grécia em greve geral e com conflitos nas ruas. A Espanha com desemprego acima de 20% e pânico nos mercados financeiros. Portugal rebaixado pelas agências de risco. O Reino Unido numa reviravolta eleitoral, com a perspectiva de um governo minoritário para enfrentar a recessão e com projeções de dívida pública ainda piores que as gregas. A Alemanha falando na Europa em tempo de encruzilhadas, com o futuro em jogo. São dias sombrios para a União Européia.

O pacote de ajuda da UE e do FMI à Grécia é o maior da história, mas corresponde a apenas 1/3 da dívida do país, e há questionamentos sérios se a conjuntura econômica será boa o suficiente nos próximos anos para permitir a retomada do crescimento grego. Martin Wolf, colunista do Financial Times, aponta outras contradições:

"Está se pedindo à Grécia que faça o que fez a América Latina na década de 1980. Aquilo resultou numa década perdida, e os beneficiários foram os credores estrangeiros. Além disso, uma vez que os credores estão sendo pagos para escapar, quem irá substituí-los? Esse pacote certamente não conseguirá trazer a Grécia de volta ao mercado em condições administráveis em poucos anos. Mais dinheiro será necessário se a reestruturação da dívida for, imprudentemente, descartada."

Wolf tocou num ponto importante - a semelhança do ajuste estrutural imposto à América Latina na década de 1980 com o pacote atual aceito pelo governo da Grécia sob fortes pressões da Alemanha. A reação da população grega foi feroz, com a decretação de uma greve geral, enfrentamentos com a polícia nas ruas e cenas que lembram eventos parecidos na política latino-americana: o Caracazo na Venezuela, a marcha dos mineiros na Bolívia, o levantamento indígena no Equador.

As autoridades alemãs e do Banco Central Europeu têm insisto no risco de contágio, que a crise grega se espalhe rapidamente por outras combalidas economias européias. A figura abaixo ajuda a entender esses medos. Os países mais problemáticos devem muito não só às nações mais ricas, mas também entre si. Por exemplo, se Portugal entrar em moratória, o efeito sobre a Espanha seria terrível.




Sair de uma crise assim seria difícil em qualquer circunstância, mas é ainda mais em função da rigidez do sistema monetário europeu. A adesão ao euro significa ganhos em termos de estabilidade e confiança, porque os governos se comprometem a jogar de acordo com as regras severas do Banco Central Europeu. Mas em contrapartida, abrem mão de flexibilidade e de possibilidades de escolhas em políticas públicas. Não podem promover desvalorizar o câmbio, para tornar suas exportações mais competitivas, nem emitir moeda.

A Alemanha tem se mantido rigorosa em condicionar a ajuda à Grécia a um programa amplo de reformas fiscais que requer que o governo grego mude as práticas clientelistas e irresponsáveis que adota, bem, desde que Péricles ajudou seu sobrinho Alcebíades a comandar a desastrosa expedição à Sicília que selou a derrota de Atenas na guerra contra Esparta. Com o risco da disseminação da crise, mais e mais membros da UE questionam a rigidez germânica. O ex-ministro das Relações Exteriores Joschka Fischer declarou ao New York Times: "Recentemente conversei com um grupo dos chamados jovens líderes alemães. De um ponto de vista pessoal e político eles não são mais investidores na Europa. Seu envolvimento se limita a serem consumidores da Europa." Será que a zona do euro se manterá intacta? Ou veremos países se retirando dela?

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Revendo o TNP



A conferência de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) começou segunda-feira em Nova York, em meio a um atentado terrorista frustrado em Times Square e poucas expectativas que os Estados Unidos consigam avançar em seus principais objetivos: obter apoio ampliado ao Protocolo Adicional e deter o programa atômico do Irã.

Isso ocorre porque a última década foi marcada pela proliferação nuclear de países que não são signatários do TNP (Índia e Paquistão) ou que o abandonaram (Coréia do Norte). Os países do Oriente Médio estão descontentes com a estagnação do projeto de transformar a região numa zona livre de armas nucleares. Embora temam o Irã, ressentem-se da aliança americana com Israel, que continua a desfrutar de apoio apesar de ter a bomba atômica e nunca ter assinado o TNP.

O governo Obama tem feito esforços significativos no campo do desarmamento. Conseguiu assinar o Novo START com a Rússia, o primeiro acordo do tipo em 20 anos, pelos quais os EUA reduzirão seu arsenal atômico de 5.100 para 1.500. Antes do TNP, o número chegara ao pico de cerca de 31.200. A conferência de segurança nuclear presidida por Obama implementou algumas medidas de controle de materiais sensíveis, basicamente para proteção contra terrorismo. Há possibilidades de que o Congresso dos Estados Unidos finalmente ratifique o tratado que proíbe testes nucleares (CTBT).



O Brasil tem se esforçado para que o Irã não seja submetido a sanções, e também se opõe ao Protocolo Adicional ao TNP. Esse instrumento, de caráter voluntário, foi criado em 1997 e estabelece inspeções bastante intrusivas, inclusive visitas sem aviso. Se aderissem a ele, as autoridades brasileiras teriam que ampliar o monitoramento de instalações como a Fábrica de Combustível Nuclear de Resende, centro da tecnologia própria de enriquecimento de urânio desenvolvida pelo país. A Agência Internacional de Energia Atômica tem acesso restrito ao local, para proteger os segredos industriais brasileiros.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Primeiro Camus



Dias atrás li “O Primeiro Homem”, de Albert Camus, o romance autobiográfico que conta a história de um bem-sucedido escritor, Jacques Cormery, que na meia idade relembra sua infância pobre na Argélia. O livro estava inacabado quando Camus morreu num acidente de automóvel, e foi publicado postumamente. Nem parece: é uma pequena jóia e um testemunho sobre um mundo há muito desaparecido, o dos colonos franceses no norte da África.

O romance começa com Cormery visitando o túmulo do pai, morto na França na Primeira Guerra Mundial, quando ele era apenas um bebê. O protagonista percebe que é mais velho do que o pai, quando partira para a batalha, e a desorientação o leva a relembrar sua infância. A pobreza era rigorosa, e aumentada por aflições familiares: a mãe e o tio eram quase surdos, e pouco falavam. A casa era dominada pela avó, analfabeta e autoritária.

Era um mundo fechado, quase tribal, pouco conectado com o que acontecia ao redor. Cormery descreve a reação da mãe à deflagração da I Guerra Mundial: “ela não sabia história da França, nem o que era história. Conhecia um pouco da sua, e mal conhecia a das pessoas que amava... Dentro da noite do mundo, que não era capaz de imaginar, e da história, que ignorava, uma noite mais escura simplesmente acabava de se instalar.”

O que salva Cormery – e Camus – é a educação pública de qualidade, a principal conquista da III República Francesa. O menino se destaca na escola primária e conquista a admiração e afeto do professor, que o recomenda a uma bolsa de estudos para o ginásio e convence seus parentes a apostar em sua educação, em vez de forçá-lo a trabalhar para ajudar no sustento da casa. Camus dedicou o Prêmio de Literatura a esse professor, e a edição do livro contém as cartas que os dois trocaram após o seu “querido menino” ter sido laureado pela Academia Sueca. Diz o narrador do velho mestre que ele “lançara Jacques no mundo, assumindo sozinho a responsabilidade de arrancá-lo de suas raízes para que fosse em busca de descobertas ainda maiores.”



A ascensão social tem um preço alto para Cormery, pois sua vida se divide entre duas existências que não se tocam – o mundo dos livros e das aspirações despertadas pela escola, e a rotina familiar. A avó, por exemplo, não consegue entender os meses de férias aos quais o rapaz tem direito, pois ela havia trabalhado sem trégua desde menina. Cormery ganha consciência de quão pobre é sua família ao preencher uma ficha escolar onde anota a profissão da mãe: “empregada doméstica”. Ele tem vergonha, e se sente mal pelo sentimento.

Camus escrevia em meio à sangrenta guerra de independência da Argélia. Os rascunhos do romance contém apontamentos que indicam que ele abordaria o tema, por meio da amizade do Cormery de meia idade com ativistas favoráveis ao rompimento com a França. Mas esses trechos não chegaram a ser escritos, e o que ficou foi a prosa – magnífica – descritiva dos bairros populares de Argel, do anoitecer na África, das manhãs de sol à beira do Mediterrâneo, do prazer do futebol e das leituras. E também certa nostalgia pelo universo de sua infância, na qual brancos pobres conviviam de forma razoavelmente harmoniosa com os árabes, quase irmanados por suas posições subordinadas na sociedade colonial.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Azarão Colombiano



Nesta semana Antanas Mockus, ex-prefeito de Bogotá e candidato do Partido Verde à Presidência da Colômbia, passou para o primeiro lugar nas pesquisas à sucessão de Álvaro Uribe, desbancando o oficialista Juan Manuel Santos - ex-ministro da Defesa, primo do vice-presidente, sobrinho-neto de outro presidente e membro da família que é a maior empresária de mídia do país. Mockus é uma personalidade original e controversa que mostra que a alta popularidade de Uribe não significa a adesão da população à continuidade de seu projeto político.

Conheci Mockus há alguns anos, quando ele visitava o Brasil como consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Na ocasião, conversamos bastante. Entrevistei-o sobre suas experiências como prefeito de Bogotá e fui o mediador num debate entre ele e estudantes brasileiros e colombianos. Saí bem impressionado do encontro e intrigado com vários aspectos de sua personalidade.

Filho de imigrantes da Lituânia, ele é matemático, e havia feito carreira como professor e administrador universitário antes de entrar na política. É um forasteiro na elite colombiana, onde as famílias tradicionais - Vargas Lleras, Restreppo, Uribe, Santos - costumam ocupar os principais cargos do Estado por gerações a fio. Não se encaixa facilmente nas classificações fáceis de esquerda x direita que em geral dominam as disputas eleitorais na Colômbia.

Suas duas gestôes à frente de Bogotá foram inovadoras, com a implementação de medidas inusitadas para combater a violência cotidiana - uso de mímicos para ridicularizar motoristas infratores das leis de trânsito, dias de "vacinação contra a violência", toque de recolher para homens em algumas noites de sexta-feira. Suas iniciativas de marketing pessoal foram mais controversas, como se fantasiar de super-herói e casar num circo - nem sua mãe compareceu à cerimônia. Promoveu uma dura repressão contra vendedores de rua, que também foram bastante criticadas. Mas o resultado geral foi admirável: a taxa de homicídio caiu para menos da metade.



Mockus é um homem de grande habilidade no trato com a mídia e se saiu muito bem nos debates de TV (assim como outro azarão, Nick Clegg, do Partido Liberal-Democrata britânico) e usa com maestria novas tecnologias, como redes sociais - sua página no Facebook tem mais de 400 mil seguidores. Isso ajuda a explicar seu acelerado e surpreendemente crescimento, em poucas semanas. Sua mensagem - continuar a luta com as guerrilhas, mas respeitar os países vizinhos e focar a ação do Estado em educação e cultura - encontrou eco entre os eleitores. Aparentemente, os colombianos admiram a restauração da segurança e do crescimento econômico por Uribe, mas estão cansados da violência oficial, dos escândalos de corrupção, dos vínculos das autoridades com os grupos paramilitares.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Tempos Interessantes



Ontem abrimos os trabalhos da turma 2010 do MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, onde leciono, e realizamos um encontro com as turmas dos dois anos anteriores. Cada professor fez uma pequena palestra sobre os temas de sua especialização e abordei os acontecimentos na América Latina na primeira década do século XXI, no que chamei de "Tempos Interessantes" para a região.

Comecei contando uma história. Dez anos atrás, eu era repórter de um grande jornal, quando houve a insurreição indígena no Equador. O acontecimento foi recebido com deboche na redação, com alguns colegas tratando o fato como uma espécie de comédia esdrúxula. Usei o caso como exemplo das atitudes de preconceito e incompreensão do Brasil com o resto do continente, e chamei a atenção para como isso dificulta as análises das transformações regionais.

Ao mesmo tempo, há no Brasil demanda crescente por informações especializadas sobre a região. Me pergunto se o tipo de carreira que tenho - com contribuições para a imprensa, universidades, movimentos sociais, órgãos governamentais - seria possível em outra época.

Do ponto de vista econômico, abordei o modo como as relações econômicas entre os países da América Latina se tornaram mais intensas. O comércio entre eles aumentou e o continente conquistou espaço como local para a ação internacional das empresas brasileiras. Simultaneamente, a dependência energética brasileira com respeito aos vizinhos ficou clara nas crises envolvendo o gás natural da Bolívia e a eletricidade do Paraguai.

Na política, entre tantas abordagens possíveis, frisei o caráter incompleto da transição democrática na América Latina. A democracia ainda não se tornou o "único jogo na cidade", com golpes ocorrendo na Venezuela e em Honduras, violência política na Colômbia. Citei também a ameaça do crime organizado em boa parte do continente, do México ao Brasil. Quando quadrilhas de bandidos controlam pedaços consideráveis do território, discussões sobre democracia se transformam em exercícios metafísicos.

Mas é claro que essa transição incompleta convive com um processo rico e dinâmico, repleto de acertos e de erros, de experiências democráticas no continente. As parcelas mais pobres da população vivem uma mobilização política expressiva, e o crescimento econômico acentuado da última década resultou em avanços significativos no combate à pobreza, com o surgimento de uma nova classe média. Porém, persistem desigualdades sociais muito sérias, mesmo em países que passam por grandes aumentos no PIB, como Argentina e Venezuela - o Brasil tem se saído melhor, apesar de crescimento mais moderado.

Por fim, tratei da nova "identidade BRIC" do Brasil, perguntando se o aspecto latino-americano da política externa brasileira não acabaria em segundo plano.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Curso de Colisão



No princípio era o Ford Modelo T. Para fabricá-lo, o velho Henry inventou a linha de produção em massa (inspirado nos processos de trabalho dos matadouros de Chicago) e o salário de US$5 por dia, muito alto para os padrões da época, que permitia aos operários se tornarem consumidores das mercadorias que eles mesmos fabricavam. Era o início de um sonho, e ele era tão americano quanto a torta de maçã.

Paul Ingrassia é um jornalista que ganhou o Pulitzer cobrindo a crise da indústria automobilística americana para o Wall Street Journal. Seu recém-lançado livro "Crash Course: the American automobile industry´s road from glory to disaster" é um belo presente para quem quer entender que as turbulências econômicas pelas quais passam os EUA têm raízes antigas.

Para Ingrassia, o modelo da indústria automobilística americana era baseado na combinação do oligopólio da produção, concentrado nas Três Grandes de Detroit (Ford, GM e Chrysler) e no monopólio da força de trabalho, controlado pelo poderoso sindicato United Auto Workers (UAW), consolidado após greves históricas durante o New Deal. Essa mistura foi altamente inovadora e eficiente entre as décadas de 1930-1960, mas não conseguiu competir a contento com o novo mundo pós-choques do petróleo e com rivais internacionais mais ágeis, como os japoneses.

Detroit já foi um centro de inovação tão fascinante quanto o Vale do Silício. Se a Ford inventou a produção em massa, a GM criou o modelo da moderna empresa: marketing amplo, operações descentralizadas com controle unificado das finanças. As linhas de montagem ofereceram oportunidades de ascensão social para gerações de trabalhadores. O automóvel se tornou parte essencial do estilo de vida dos EUA, mudando a estrutura das cidades e a cultura popular. Modelos como Cadillac e Mustang se transformaram em ícones de épocas inteiras.



O que é bom para a GM é bom para os Estados Unidos, dizia Charles Wilson, presidente da empresa, que serviu como Secretário da Defesa de Eisenhower. Robert McNamara, da Ford, o sucedeu no cargo, sob Kennedy. A indústria sofreu seus primeiros baques com movimentos sociais como a cruzada por segurança nos automóveis, lançada por Ralph Nader, e pressões de ambientalistas para regular emissão de poluição e consumo de combustível. Também houve escândalos financeiros envolvendo executivos das Três Grandes.

Foi por essas rachaduras que os japoneses entraram com força no mercado americano, oferecendo carros menores e mais eficientes, com processos produtivos muito mais modernos do que os modelos já ultrapassados usados em Detroit. Os generosos acordos trabalhistas com a UAW, símbolos da era da afluência, não ajudaram as empresas a competir.

O declínio americano era inevitável? Não, afirma Ingrassia. Ele cita a surpreendente guinada da Chrysler sob Lee Iaccoca, que durante alguns anos foi o executivo mais famoso do mundo. Ou como as Três Grandes prosperaram na década de 1990 produzindo grandes veículos utilitários esportivos (SUVs) que os japoneses demoraram para compreender. Os erros de Detroit foram arrogância, má administração, estruturas rígidas difíceis de mudar. Ele dedica vários capítulos para dissecar essas falhas, desde a tentativa de reestruturação da GM (lançamento do Saturn, com um modelo trabalhista e de produção diferente) até os acordos malsucedidos das Três Grandes com firmas européias, como a Daimler-Benz.

Ingrassia é bastante cético das perspectivas das Três Grandes em se reerguer, mesmo com a ajuda do governo americano, que agora, pasmem, é o acionista majoritário da GM! A Chrysler, depois do fracasso do acordo com os alemães, pediu falência e pasou ao controle da Fiat, que não é exatamente um marco de eficiência em gestão. Ingrassia aponta também a ascensão de novos competidores internacionais, como os indianos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os BRICs e o Câmbio Chinês



Dias atrás os BRICs fizeram sua segunda reunião de cúpula, em Brasília. O bom desempenho dos países do grupo (com exceção da Rússia) em meio à crise econômica global os tornaram estrelas em rápida ascensão também na política internacional. Contudo, muitos analistas mantém-se céticos quanto à capacidade de constituírem uma aliança coerente, devido à diversidade dos perfis comerciais, dos regimes de governo e do longo histórico de rivalidades entre os membros asiáticos da sigla. Os debates sobre o câmbio chinês são um teste importante para a possibilidade dos BRICs se tornarem uma coalizão coesa. Tema, aliás, de excelente artigo publicado nesta semana na Economist.

A China tem mantido sua moeda subvalorizada em relação ao dólar, o que a deixa ainda mais competitiva no comércio internacional. O lado ruim, para o governo chinês, é que isso cria pressões inflacionárias, que até aqui tem sido mantidas razoavelmente sob controle. O problema pode ficar mais sério: a inflação de grande porte ao fim do período nacionalista (décadas de 1910-1940) é um trauma nacional, e o surto de menor escala ocorrido nos anos 80 contribuiu bastante para a eclosão dos protestos da Praça da Paz Celestial.



Os Estados Unidos têm pressionado a China para que mudem sua taxa de câmbio e diminuam um pouco a pressão sobre os mercados americanos. Os chineses têm se recusado de maneira resoluta. O Brasil tem uma moeda sobrevalorizada com relação ao dólar, e portanto ainda mais no que diz respeito ao yuan chinês. Resultado: a política cambial de Pequim prejudica bastante o comércio exterior brasileiro com a China, principal destino das exportações do país. A novidade é que agora Brasil e Índia se uniram para solicitar ao governo chinês que valorize sua moeda. Será que os pedidos dos amigos em Brasília e Nova Délhi serão ouvidos com mais simpatia do que as demandas de Washington?




À primeira vista, a resposta seria "não", dada a rigidez com a qual a China defende seus interesses econômicos. Mas Pequim tem buscado, de modo muito consistente, apresentar uma face suave para os parceiros no mundo em desenvolvimento, participando de todas as principais coalizões desses países (acima). Não é impossível que as concessões pudessem abarcar também aspectos econômicos significativos, em especial pela mensagem que passaria à comunidade internacional: a de que os BRICs virariam interlocutores essenciais para as grandes questões globais, inclusive as que lidam com assuntos duros, como economia.

Ainda sobre os BRICs: não deixem de ler o perfil de Jim O´Neill, o executivo do banco de investimentos Goldman Sachs que criou a sigla num estudo sobre perspectivas da economia internacional. O texto foi publicado pelo Financial Times e é uma jóia do jornalismo de política e de negócios.