segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Conversa com Antanas Mockus



Uma das contradições mais fortes que experimento na América do Sul é o contraste entre a violência que atinge a Colômbia há 60 anos e o caráter absolutamente bem-humorado e afável dos colombianos que conheço, para não mencionar a alta qualificação técnica de seus acadêmicos e a beleza estonteante das mulheres. Na última sexta-feira, recebemos no instituto a visita do ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, um dos principais formuladores de políticas públicas de segurança naquele país. Foi uma excelente conversa que reforçou a alta consideração que tenho dos colombianos.

O nome de Mockus soa estranho aos ouvidos latinos, porque ele é filho de imigrantes lituanos. Formou-se em matemática e filosofia e antes de se dedicar à política foi reitor da Universidade Nacional e se destacou em seus dois mandatos em Bogotá (1995-1997 e 2001-2003) como um inovador excêntrico e controverso, que mudou a maneira de se pensar segurança na Colômbia. O cerne da polêmica foram as ações de seu programa de “cultura cidadã”. A idéia principal é que a violência tem um forte componente cultural e que para combatê-la é necessário não somente melhorar a polícia, mas atuar nas relações cotidianas das pessoas.

Mockus fala na necessidade de romper o “divórcio entre lei, moral e cultura”, isto é, a percepção de determinadas transgressões são aceitáveis para a sociedade. Por conta disso, seu governo investiu na criação de instituições de resoluções pacíficas dos conflitos. Por exemplo, realizando “campanhas de vacinação contra a violência”, na qual as pessoas expressavam publicamente seus ódios mais intensos. Ou distribuindo cartões com polegares para cima e para baixo, que eram entregues aos motoristas e usados para manifestar descontentamento em incidentes de trânsito. Outra medida foi contratar mímicos para ridicularizar pessoas que violavam as leis de tráfego.



O prefeito também tomou medidas bastante controversas, como a chamada Lei Cenoura, um toque de recolher em bares e restaurantes. Decretou noites exclusivas para as mulheres da cidade, deixando os homens em casa. Casou-se num circo e fantasiou-se de super-herói para divulgar suas idéias. É incrivelmente engraçado e com uma retórica muito habilidosa para defender seus projetos.

Os êxitos de Mockus foram notáveis: reduziu a taxa de homicídios em Bogotá de 82 para 35 por cem mil habitantes e em grande medida foi o responsável pela cidade ser considerada hoje como “uma ilha de legitimidade dentro da Colômbia”, na expressão de um amigo daquele país. Concorreu à presidência em 2006, mas teve votação pífia, ficando em quarto lugar numa disputa vencida com facilidade por Álvaro Uribe. Alguns avaliam que suas políticas de difícil classificação no esquema clássico direita/esquerda acabaram por confundir os eleitores.

Havia diversas colombianas presentes ao debate e muitas eram opositoras de Mockus e eleitoras do atual prefeito de Bogotá, Lucho Garzón, do Pólo Democrático, o novo partido de esquerda da Colômbia, que tem crescido rapidamente. Elas criticaram Mockus sobretudo por sua repressão aos camelôs e vendedores de rua, alegando que era preciso olhar o aspecto social do problema, já que muitos deles são migrantes rurais que foram para a cidade fugindo da guerrilha e dos paramilitares.

Após o último mandato como prefeito, Mockus lecionou em Harvard e trabalha como consultor para o Banco Interamericano de Desenvolvimento e para diversos governos e instituições. Ele toca projetos no Brasil em parceria com as administrações de São Paulo e Belo Horizonte. Também lidera um pequeno partido, o movimento Visionários pela Colômbia.

2 comentários:

Artur disse...

Muito interessante o texto. Mais ainda as posições de Mockus. Divago sobre as razões do seu sucesso. Gostaria de assistir a tal experiência, aqui, no Brasil. É um alternativa às posições dominantes baseadas na ultrarepressão. E não se baseia numa prevenção "técnica", que prescinde de qualquer visão cultural (antropológica) da violência, como muitos defendem na terrinha. Parabéns pelo blog! Abs.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Artur.

Pois é, quando as pessoas no Brasil falam das políticas de segurança na Colômbia, em geral vem à tona o aspecto militar e policial dessa estratégia, mas há lições importantes dos programas de cultura cidadã desenvolvidos em Bogotá e Medellín. Qualquer dia escrevo sobre o processo de paz com os paramilitares.

Abraços