domingo, 29 de abril de 2007

Réquiem Colombiano



O Renato é um jornalista brasileiro que vive no Peru e toca o excelente blog Tordesilhas, que trata sobretudo das coisas desta América. Ele escreve a respeito das revelações sobre os massacres cometidos pelos paramilitares na Colômbia, publicadas recentemente pelo jornal El Tiempo, o mais importante do país. O texto do Renato diz tudo que é necessário a respeito do tema, portanto vou apenas complementar suas informações com um pouco do contexto político desses crimes.

Os paramilitares surgiram na Colômbia como reação às guerrilhas que chegaram a dominar 1/3 do país. Os paras cobravam dinheiro da população para protegê-las dos ataques das FARCs e organizações semelhantes. À medida que foram ganhando o controle sobre o território, os paramilitares descobriram que era mais lucrativo simplesmente expulsar os camponeses de suas terras e dedicar-se eles mesmos à criação de gado, plantio de coca ou café, ou seja lá o que a região produzisse de mais valioso. Dominam através do terror e da violência, com requintes de barbárie só comparavéis aos de genocídios como nos Bálcãs e na África.

A Colômbia vive em guerra civil quase permanente desde 1948 e os principais causadores da violência variaram conforme a época. Embora as pessoas em geral pensem nas guerrilhas como as responsáveis pelo maior número de mortes, atualmente 98% das denúncias dizem respeito aos paramilitares.

O presidente Álvaro Uribe lançou um programa amplo e controverso para esses grupos visando ao que a ONU chama DDR – desarmamento, desmobilização e reintegração. O processo é complicadíssimo porque envolve a ira de suas vítimas, disputas judiciais, indenizações etc. Um dos itens do DDR é a colaboração dos paramilitares para esclarecer crimes do passado, incluindo a localização de valas comuns como as investigadas pelo jornal El Tiempo.

Conversei com funcionários da ONU que trabalharam na Colômbia, e também com diplomatas brasileiros que participaram do DDR no Haiti. Ambos os processos baseiam-se em experiências bem-sucedidas dos países da América Central, que passaram por ferozes guerras civis na década de 1980. No próprio caso colombiano há grupos guerrilheiros que se desarmaram e viraram partidos políticos, como Quintin Lame e o M-19. Este último foi especialmente importante, porque marcou época ao roubar a espada de Bolívar e depois teve papel de destaque na elaboração da nova Constituição colombiana nos anos 90.

No entanto, o DDR dos paramilitares passa por crise profunda devido aos escândalos envolvendo a cúpula do governo Uribe. Líderes influentes como o comandante do Exército, o chefe do serviço de informações, ministros e senadores foram acusados de receber dinheiro desses grupos. O senado dos EUA cancelou parte de ajuda financeira à Colômbia, à espera de investigações sobre as acusações.

As milícias do Rio de Janeiro repetem a história dos paramilitares colombianos, a única diferença é que por aqui o medo do tráfico substituiu o pavor da guerrilha. As conseqüências serão as mesmas: os novos donos do território irão se mostrar perigo tão ou mais grave do que os antigos vilões. Há poucas semanas, quando o governador Sérgio Cabral visitou Medellín, uma autoridade local lhe disse que o Rio lembrava sua cidade há dez anos. Como estaremos, os cariocas, em 2015?

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Enquanto Escrevo


Ontem apresentei o primeiro capítulo da minha tese de doutorado aos colegas do seminário no qual discutimos nossos trabalhos. Foi uma bela manhã de conversas a respeito da política e história da Argentina e os amigos fizeram muitas sugestões importantes, em especial ao me chamarem a atenção para a necessidade de aprofundar o estudo sobre a ascensão de Menem à presidência.

Aos poucos nasce a tese. Enquanto escrevo, gosto de espalhar os livros e fichas de leitura pela mesa, abrir as janelas da sala para que o mundo possa entrar, ouvir CDs de música latino-americana e levantar de quando em quando para consultar as obras de referência na biblioteca.

O texto flui rapidamente – já são mais de 100 páginas em um mês e meio de trabalho. Embora seja somente a primeira versão, é um ritmo tranqüilizador, porque planejo um total de cerca de 150. O prazo é março de 2008, acredito que terminarei tudo no segundo semestre.

Escrever uma tese exige bastante em termos de tempo e de dedicação, mas não é sofrimento. Trata-se antes de um tipo de artesanato, de meter as mãos no barro e ver as idéias tomando forma. No meu caso, significa lembrar dos bons momentos na Argentina. A cada página recordo de conversas, aulas, lugares, pessoas, livros, instantes.

Teses começam com hipóteses, que ao fim quase sempre estão erradas. A distância entre os resultados e as expectativas chama-se pesquisa. Revejo muitos (pré)conceitos sobre a política argentina. Meus e dos outros. Penso nos benefícios que meu texto poderá trazer ao debate: aproximar a discussão brasileira do ambiente intelectual argentino, chamar a atenção para pontos que passaram desapercebidos.

Não invento a roda. Não caminho sozinho. Minha pesquisa se insere no conjunto mais amplo de acadêmicos, no Brasil e na Argentina, como os amigos do Observatório Político Sul-Americano. As conversas com os alunos, os debates após as palestras que tenho dado com freqüência. Trama de complementações, reflexões, provocações, conspirações.

A tese também é janela, desculpa para mergulhar no vórtice argentino. A ditadura e a resistência a ela. As relações entre civis e militares. O pensamento sobre o declínio do país. A força da memória histórica. As coalizões políticas que implementaram o neoliberalismo na América Latina. As condições que permitem às idéias virarem agendas políticas. Altos e baixos do processo de integração regional. A grande crise de 2001. A ascensão dos movimentos sociais. O novo cenário de lutas e conflitos do governo Kirchner.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Equador



As ilhas de São Tomé e Príncipe ficam em frente à costa do Congo, marcadas pelo calor e pela umidade, com a tristeza se acumulando no ar feito camadas de poeira. Para aquele desterro sua majestade el-rei de Portugal enviou como governador Luís Bernardo Valença, protagonista do excelente romance “Equador”, do português Miguel Sousa Tavares.

Sousa Tavares é jornalista, filho da célebre poeta Sophia de Mello Andersen e autor de livros de reportagens e de crônicas de viagem. “Equador” é seu primeiro romance, e que estréia! Eles no dá de presente, de uma só tacada, uma trágica história de amor, uma narrativa dos últimos anos da monarquia portuguesa e uma fina análise política das disputas coloniais no início do século XX, pela ótica do decadente império de Portugal, ameaçado pela cobiça dos britânicos e alemães.

Seu herói Valença é um acomodado burguês de Lisboa, que chegou à meia-idade numa vida mansa feita de aventuras amorosas, festas gastronômicas e algum diletantismo intelectual. Adepto, com ceticismo, dos princípios liberais mais avançados da época, ele escreve uma série de artigos defendendo métodos mais modernos para administrar as colônias portuguesas na África, antes que impérios mais eficientes assumam a tarefa. Seu textos chamam a atenção da Corte, que precisa de um homem para desempenhar uma espinhosa missão em São Tomé e Príncipe.

As ilhas vivem da exportação de cacau e café e irritam os concorrentes ingleses, que acusam os portugueses de explorarem trabalho escravo nas lavouras e ameaçam com um embargo comercial. A escravidão havia sido abolida há décadas, mas a prática era um tanto mais nebulosa, marcada por castigos físicos, intimidação e a ausência de contratos efetivos com os trabalhadores. Valença logo descobre que se quiser cumprir as leis, poderá inviabilizar o sistema econômico da colônia, cujos altos lucros permitem a seus donos ausentes viverem como magnatas em Lisboa e Paris.

O novo governador precisa lidar com os colonos hostis, com rebeliões de trabalhadores e com a estranheza que causa seu comportamento sofisticado de intelectual lisboeta, que gosta de ouvir ópera no terraço e se ressente da solidão e da mesquinharia da vida na colônia. Para piorar as coisas, o cônsul que a Inglaterra envia para investigar o trabalho escravo é casado com uma mulher belíssima, por quem Valença se apaixona perdidamente.

“Equador” é um romance espetacular, com os aspectos políticos e românticos da trama se complementando maravilhosamente. Sousa Tavares é um entusiasta da África e seu amor pelo continente transparece nas descrições da natureza e da empatia com os africanos. As discussões sobre comércio e direitos humanos do romance são muito atuais, parecem os debates na OMC sobre “dumping social” da China.

Para um fã de Eça de Queirós como eu, é fascinante acompanhar as referências à obra do mestre espalhadas por “Equador”, como os cafés lisboetas freqüentados pelo protagonista e a veneração de seus amigos pelos “Vencidos da Vida”, o grupo de intelectuais ao qual pertencia o grande escritor de Portugal.

Para um professor de relações internacionais, é um estímulo ver o cenário dos conflitos imperialistas que precederam a I Guerra Mundial tratado com brilho e inteligência, em língua portuguesa, pela ótica de um cidadão de um país periférico aos grandes acontecimentos. Penso em utilizar trechos do livro com meus alunos. É bem mais saboroso que os argumentos áridos da teoria da dependência.

domingo, 22 de abril de 2007

Roma



Por conta do trabalho na tese, tenho passado mais tempo em casa. Costumo intercalar a escrita com algum filme na TV a cabo mas nos últimos dias assisti aos DVDs da primeira temporada da série "Roma", co-produção da HBO e da BBC. Eu havia visto os dois episódios iniciais e adorado. O resto só reforçou essa opinião.

"Roma" é ambientada nos anos finais da República, um dos períodos mais conturbados da história daquela civilização. A austera cidade-Estado dos primeiros séculos conquistara um enorme império que se estendia da Espanha à Turquia, mas nesse processo o poder se concentrara nas mãos dos aristocratas e a economia passou a depender cada vez mais do trabalho escravo e do latifúndio. Os conflitos sociais estouraram por toda parte: nobres x plebeus, italianos x romanos, escravos x homens livres... Era questão de tempo até aparecer um homem forte que centralizasse as instituições do Estado. Sila, Catilina e César tentaram, coube a Otávio realizar o feito e se tornar imperador.

A primeira temporada conta a guerra civil entre César e o Senado (na foto, uma animada contenda parlamentar entre os dois partidos), a segunda foca na luta por sua herança política entre seu aliado Marco Antônio e seu sobrinho-neto Otávio. A intriga em Roma é excelente, em particular nos episódios escritos pelo produtor da série, Bruno Heller. Meu favorito é o segundo, no qual César toma a decisão de atravessar o rio Rubicão e entrar na Itália com suas legiões, um crime gravíssimo pela lei romana.

A grande sacada da série é fazer o espectador entrar na história acompanhando dois personagens do povo, soldados da 13a Legião de César. Lúcio Voreno é o centurião exemplar, cidadão-modelo da República, que por seu prestígio junto à tropa é arrastado a contragosto para o esquema de favores e apoios políticos de César, a quem considera um aventureiro perigoso. Tito Pullo é o soldado fanfarrão, amante das mulheres, bebida, jogo e de uma boa briga. Os dois são unidos por uma forte amizade e enfrentam perigos que os levam das guerras na Gália, Grécia e Egito às disputas nas ruas de Roma.

Os conflitos pessoais dos dois soldados - a esposa infiel de Lúcio e a busca de Tito por um amor que preencha o vazio de sua vida - são intercalados com as tramas das famílias nobres de Roma, em particular a guerra de morte travada entre a sobrinha de César, Átia, e a ex-amante do líder, Servília.

As legendas da HBO são cheias de problemas e traduzem errado o nome de alguns personagens históricos (por exemplo, o rígido defensor dos valores éticos da antiga Roma chama-se Catão e não Cato) além de perderem aspectos importantes da trama, como a linguagem vulgar e agressiva dos soldados. Nada que realmente comprometa o produto final, mas poderia ser melhor cuidado.

Anteontem revi "Spartacus", também em DVD, cuja trama se passa cerca de 25 anos antes do início da série. O filme é realmente magistral e emocionante. Da fina ironia dos atores ingleses que interpretam os aristocratas romanos à beleza do enredo romântico, passando pelo épico politico da luta dos escravos. Foi o primeiro filme romano que não tinha mensagem religiosa e se concentrava simplesmente na questão da liberdade e da dignidade. O excelente roteiro é de Dalton Trumbo, escritor que encabeçava a lista negra de Hollywood, acusado de comunista. Ele salpicou referências muito interessantes ao McCarthismo no filme, como o momento em que o general calhorda que persegue Spartacus anuncia ter listas de "cidadãos desleais" em cada cidade da Itália. Genial.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Mangabeira Unger: no longo prazo, seremos todos governistas



Quando juro que Lula não é mais capaz de me surpreender, eis que ele nomeia Mangabeira Unger para a Secretaria Especial de Assuntos do Longo Prazo, que tem status de ministério. OK, qualquer mesa com carimbo e telefone tem status de ministério neste governo. As pessoas acham que eu implico com o Mangabeira Unger (ao entrar no link, cheque o post no fim da página).

E é verdade.

O novo ministério assume o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que era vinculado ao Ministério do Planejamento, e é conhecido como o maior viveiro de economistas de direita do país. Os caras adoram reclamar do salário mínimo e da establidade trabalhista - dos outros, porque nunca movem um dedo para acabar com os benefícios dos quais desfrutam sendo funcionários públicos. Não é fácil aguentar essa turma, entendo que tenham resolvido jogá-los adiante para o Mangabeira Unger. Aliás, os economistas do Ipea também adoram falar em inglês, mesmo que seja em eventos oficiais nos quais representem o governo brasileiro. Logo se vê que têm grandes afinidades linguísticas com o novo ministro.

Mangabeira Unger também ficará responsável pelo núcleo de assuntos estratégicos da presidência, cuja principal função é fingir que o atual governo se preocupa com alguma coisa além de voltar ao poder em 2014. Deve ser o tal longo prazo, embora o economista mais brilhante do século XX, Lord Keynes, tenha nos alertado de que "no longo prazo, estaremos todos mortos." Ou governistas, milord.

A trajetória política de Mangabeira Unger é desafiadora mesmo para os padrões brasileiros, nos quais a pessoa muda de partido com mais freqüência do que os serial killers americanos mudam os pentes de munição. Nosso ministro vem de família conservadora, da velha UDN, mas ele mesmo foi guru de Ciro Gomes, depois conquistou Caetano Veloso, candidatou-se sem sucesso a prefeito de São Paulo e atualmente está no Partido da Igreja Universal do Reino de Deus, que tem lá um nome fantasia qualquer falando em república.

As idéias políticas de Mangabeira Unger louvaram o "potencial revolucionário das classes médias", a retomada do nacional-desenvolvimentismo, a necessidade de enfrentar os Estados Unidos e um clamor contra a corrupção. Vale aprofundar o último ponto. Vejamos o que sua excelência escreveu a respeito:

"AFIRMO que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos. Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente."

O tom quis imitar Zola, no J´Accuse, mas ficou para mais a UDN sem Carlos Lacerda. O mensalão é uma porcaria, mas não é o caso Dreyfus.

Impedimento? Como assim, ele ultrapassou a linha dos zagueiros e recebeu a bola na cara do gol? Well, Mangabeira deve estar a falar de impeachment... Anyway, esperamos que o novo ministro mantenha-se fiel as suas palavras e execute seu programa, destruindo o governo de dentro. Quiçá em aliança com o augusto Congresso nacional, que conta com parlamentares sem rabo preso, como Clodovil.

Quanto às tarefas que Magabeira Unger irá desempenhar, são um mistério. Deixo a resposta a vocês, na enquete ao lado.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

De Carona pela América do Sul


Ontem exibimos no Ibase "Caroneiros" e fizemos um debate com o diretor de fotografia desse simpático documentário. O filme segue uma idéia que parece saída dos sonhos de Jack Kerouac ou do Che Guevara: viajar pela América do Sul dando caronas e conversando com as pessoas comuns que passam pelo caminho. Das entrevistas/papos se faz um panorama do que anda pela cabeça da juventude sul-americana. Dois temas se destacam:

1- Conhecemos pouco sobre os demais países do continente. Sabemos mais a respeito do Império Romano do que de nossos vizinhos. A escola não cumpre esse papel e as pessoas que querem informações sobre a América do Sul precisam buscá-las por conta própria.

2- Existe uma identidade sul-americana que nos une? Ou nos vemos principalmente como brasileiros, argentinos, chilenos e sem muita disposição para sentir além das rivalidades nacionais?

A platéia era formada sobretudo por estudantes e no debate falei bastante sobre a experiência na Argentina, felicitando os produtores de "Caroneiros" pela maneira aberta e divertida pela qual colocaram em discussão os mesmos temas que vivenciei na universidade em Buenos Aires.

O diretor de fotografia do filme, Santiago, nos contou que a recepção dos caronas foi muito boa em todos os países, menos no Brasil. Aqui, o medo da violência afastou as pessoas do hábito de pegar carona, além de torná-las mais desconfiadas a estranhos.

Perguntei ao Santiago se ele havia sentido a presença forte de preconceitos e rivalidades nacionais e ele comentou que sim, em especial entre argentinos e chilenos. Também trocamos idéias sobre o anti-americanismo no continente, em particular na Patagônia - a belísisma região argentina, pouco povoada e rica em recursos naturais, onde várias empresas transnacionais, com se instalaram recentemente.

Boa parte da platéia eram alunos de geografia da UFRJ, levados pela professora. Conversamos após o filme sobre o ambiente acadêmico da Argentina, o qual não canso de elogiar. Compartilhamos o desejo de que as universidades brasileiras prestem mais atenção ao que as instituições hermanas pesquisam e discutem e fiquei de lhe passar material que recolhi em Buenos Aires.

Fazer a ponte entre Argentina e Brasil está sendo a parte mais gratificante da minha experiência de intercâmbio e acredito que minha tese vai contribuir com essa conversa.

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O Brasil não conhece a América do Sul, e sequer conhece o Brasil. Mas fica
a dica do "Vidas e Imagens", blog emocionante e sensível, sobre as pessoas comuns que fazem este país. Dica de Rafael Galvão.

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Disseram no debate que o motivo do ódio de Galvão Bueno à Argentina é que sua mulher teria fugido com um portenho. Bom demais para ser verdade. Alguém confirma a história?

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Foto de uma Conversa



No dia em que Celso Furtado morreu, eu estava num vôo do Chile para o Brasil. Fizemos uma escala em São Paulo, para trocar de avião, e no saguão do aeroporto vi o jornal com a notícia. Passei-a adiante para o veterano economista que me acompanhava, consultor do projeto de cooperação internacional do qual eu era parte - o ponto alto da viagem foi uma excelente conversa em Santiago com o ex-ministro da Economia de Salvador Allende. Meu colega começou a chutar os cinzeiros e as latas de lixo ao redor, enquanto esbravejava contra a estupidez da elite brasileira. Quando se acalmou, trocamos idéias sobre o que Furtado representou para sua geração, que entrara na vida acadêmica nos anos 60 - ele mesmo havia escolhido a profissão por influência dos livros do mestre.

O episódio ficou para mim como um momento muito simbólico, porque durante todo o meu trabalho no Chile pensava na obra de Furtado e em sua atuação política, sobretudo os estudos que desenvolveu na Comissão Econômica da ONU para a América Latina (CEPAL), cuja sede era em Santiago. Relembrei aquelas sensações ao ler "A Foto de Uma Conversa".

Em 1991 Cristovam Buarque entrevistou Celso Furtado em Paris. As fitas com a gravação da conversa ficaram esquecidas até que o político pernambucano resolveu transcrevê-las, mais por razões sentimentais para lembrar o grande economista falecido em 2004. Buarque descobriu que o material continuava interessante e publicou um simpático livrinho com o papo com Furtado.

Em menos de cem páginas curtas, o mestre passa por uma grande quantidade de temas: sua experiência na Segunda Guerra Mundial, as transformações pelas quais passava a Europa no início da década de 90, a Guerra do Golfo como um retrocesso do pan-arabismo e da cooperação sul-sul, seu orgulho com a Sudene, a frustração com as possibilidades que o Brasil perdeu com o golpe militar de 1964 e as críticas ao modo como a economia é ensinada atualmente. Buarque acrescentou colunas laterais com seus comentários atuais às opiniões de Furtado.

As idéias do mestre continuam a estimular o pensamento e provocar a reflexão, impressiona como ele consegue sintetizar em poucas frases questões complexas. O nível do debate é muito mais alto do que qualquer coisa que exista atualmente na política brasileira. As preocupações de Furtado casam bem com as que estudo no curso sobre o nacionalismo no Brasil dos anos 50, agora leio os pensadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), como o filósofo Álvaro Vieira Pinto e o sociólogo Roland Corbusier. Mais tarde escrevo a respeito.

De aperitivo, fica lição de Furtado, aliás igualmente presente no ISEB: O ser humano é um projeto, algo sempre a se transformar, e só se completa na liberdade e na esperança. Menino nascido no sertão da Paraíba, o mestre entendia alguma coisa sobre a capacidade de alargar horizontes e reinventar-se.