quinta-feira, 5 de abril de 2007

Malvinas, 25 anos


Reproduzo abaixo um artigo que escrevi sobre os 25 anos da Guerra das Malvinas e que foi publicado nesta quinta no jornal Valor Econômico:


O LEGADO DA GUERRA DAS MALVINAS

No dia 2 de abril de 1982 a ditadura argentina invadiu as ilhas Malvinas e Geórgias do Sul, tentando manipular o nacionalismo para manter o regime autoritário. A derrota para o Reino Unido após dois meses e meio de guerra encerrou o período militar, cujo terrorismo de Estado assassinou 30 mil pessoas. Contudo, a importância das Malvinas ultrapassa as intensões da ditadura e continua a influenciar a política externa argentina e as relações entre os países da América do Sul.

O mais inesperado legado da guerra foi o impulso à integração regional, em particular à aproximação de Argentina, Brasil e Chile. O governo brasileiro permaneceu oficialmente neutro no conflito, mas prestou apoio discreto e bem-executado aos argentinos, com vôos de reconhecimento operados por pilotos da FAB e também auxílio diplomático e econômico para amenizar o impacto das sanções internacionais impostas ao país vizinho.

A posição brasileira foi fundamental para consolidar os laços de construção de construção de confiança, em curso desde 1979 quando Argentina, Brasil e Paraguai assinaram o acordo tripartite de Corpus-Itaipu, que encerrou a disputa pelo uso hidrelétrico dos rios do Cone Sul. O reestabelecimento da democracia levou adiante a cooperação, incluindo o Uruguai e culminando na criação do Mercosul em 1991. Também se firmaram importantes acordos nucleares entre Argentina e Brasil, estabelecendo parceria em campo estratégico, anteriormente marcado por receios e rivalidades.

O caminho para a integração entre Buenos Aires e Santiago foi mais longo. O Chile apoiou clandestinamente o Reino Unido durante a Guerra das Malvinas, com auxílio logístico e informações aos britânicos. Ecos do conflito entre Pinochet e a junta militar argentina pelo Canal de Beagle, que quase resultou em guerra em 1978. A democracia resolveu as tensões criadas pelas ditaduras: o governo Alfonsín organizou referendo em que a população aprovou o laudo do Vaticano, desfavorável à Argentina. Decisão notável, ainda mais porque o ressentimento pelo comportamento do Chile na guerra das Malvinas continuava – e segue até hoje – forte entre os argentinos.

A redemocratização chilena beneficiou a cooperação. Os governos da coalizão de centro-esquerda da Concertación ocupam a presidência desde 1990 e acordaram com o presidente argentino Carlos Menem a resolução de outras 20 querelas territoriais. O Chile tornou-se membro-associado do Mercosul em 1996 e empresas chilenas investiram cerca de US$20 bilhões na Argentina ao longo da década de 90 – cerca de 60% do total do investimento chileno no exterior. Tropas dos dois paises participam conjuntamente em missões de paz da ONU e está em curso a criação de um batalhão binacional para tais operações. A integração também se expandiu para outras áreas, como o turismo. Já é comum que as agências de viagens ofereçam pacotes para a Patagônia com roteiros que praticamente ignoram as fronteiras, entrando e saindo dos paises conforme a conveniência de visitar um lago, vulcão ou cidade. Belo exemplo para outros ecossistemas compartilhados por várias nações sul-americanas, como a Amazônia.

Contudo, se a guerra das Malvinas terminou por estimular a paz no Cone Sul, “continua a ser uma questão que complica toda a política externa argentina”, desabafou um diplomata que teve importante papel no conflito. Alfonsin retomou os protestos na ONU, sem sucesso. Menem optou pela aproximação com o Reino Unido, reestabelecendo relações diplomáticas e optando pela fórmula que ficou conhecida como “guarda-chuva da soberania”. Embora mantivesse o reclamo territorial, o debate sobre o controle das ilhas foi adiado. Em seu lugar assinaram-se tratados de cooperação econômica na área de pesca e de exploração de hidrocarbonetos. Tambem foram firmados acordos humanitários, que permitem visitas às Malvinas dos veteranos de guerra argentinos e dos familiares dos soldados mortos no conflito.

A aproximação entre a Argentina e os EUA durante o governo Menem incluiu a expectativa de que Washington pudesse mediar as negociações com o Reino Unido e dizer palavras favoráveis à causa da reconquista da soberania. Entretanto, não foi o que ocorreu. Os presidentes Bush e Clinton limitaram-se a elogiar a disposição pacífica da Argentina, mas não se envolveram nos esforços diplomáticos relativos às ilhas. Em contraste, os países latino-americanos manifestam seu apoio às autoridades argentinas em diversos fóruns: Organização das Nações Unidas, Organização dos Estados Americanos, Grupo do Rio e na recém-criada Comunidade Sul-Americana de Nações.

A política menemista para as Malvinas foi marcada ainda por curiosa “estratégia de sedução” dos kelpers, os moradores das ilhas, que incluiu presentes de Natal para cada um, enviados pelo chanceler Guido di Tella. O gesto amenizou as tensões, mas teve poucas conseqüências práticas – os kelpers manifestaram em diversas ocasiões seu firme desejo de continuarem cidadãos britânicos.

Apesar da declaração de Jorge Luís Borges, para quem a guerra se tratou de dois carecas brigando por um pente, as Malvinas seguem presentes na memória histórica e na agenda política argentina. Dezenas de filmes, romances, documentários e exposições relembram seus momentos trágicos, como o afundamento do cruzador General Belgrano, e seus gestos heróicos, em particular o desempenho da Força Aérea argentina.

A política de Kirchner tem sido marcada por choques com os britânicos. Argentina e Reino Unido celebraram em separado os 25 anos da guerra. Também pesam questões econômicas: a disparada no preço do petróleo tornou os hidrocarbonetos das Malvinas bem mais preciosos e levou Kirchner a romper o tratado de cooperação nesse campo. O presidente sequer compareceu ao ato que recordou o conflito, na cidade argentina de Ushuaia, porque temia protestos contra seu governo por parte de manifestantes locais. A solução definitiva para a disputa pela soberania das ilhas continua tão distante quanto a reconciliação entre os antigos inimigos.

3 comentários:

patricio iglesias disse...

Para mim é um terrível dor ver a inimizade entre meu pais e o Reino Unido, pensando no legado cultural comum entre nossos paises, a inmigraçäo britânica à Argentina, os exiliados argentinos que encontraram em Londres o lugar que a ditadura näo lhes dava, etc. Cada partido de futebol e uma continuaçäo da guerra.
Respeito ao plebiscito, pelo que ouvi a propaganda oficial era: ou chegar a um tratado, favorável ou näo, ou a posibilidade latente da guerra e a gente, a só dois anos da guerra das Malvinas, optou pelo "Sim". Näo estou seguro, mas penso que nessos tempos, ainda baixo a ditadura de Pinochet, näo devia se saver sobre a ajuda chilena ao RU.
Um abraço argentino

DANIEL PEARL disse...

É visível o desprezo da "Grande Mídia" para com a Semana Santa. A insensibilidade dos donos dos jornais, rádios e televisões têm contribuído ao esvaziamento da maior data da cristandade. O blog DESABAFO PAÍS descobriu que essa mesma “Imprensa” além de insensível, não é imparcial, como ela fala pelos quatro cantos do Brasil. Desde 2002, a Mídia Conservadora e PSDB, PFL, PPS e Cia. vêm tramando a queda do Lula. E agora, políticos do PSDB e PFL reuniram com o Comando dos Controladores de Vôo em Brasília, 5(cinco) dias antes do “Caos aéreo” da semana passada. Porque a grande mídia omitiu esse fato? Quem são os jornalistas empenhados em instaurar o terror no País - A legião de colaboradores do Golpe de Estado se divide em três frentes diferentes na mídia: 1) Jornalistas da grande imprensa; 2) Blogueiros e articulistas "independentes"; 3) Formadores de opinião (analistas políticos, artistas, etc...). Acesse: http://desabafopais.blogspot.com. Um abraço, Daniel Pearl.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patricio.

Imagino o quanto o tema das Malvinas ainda é doloroso para a Argentina.

Comento brevemente o plebiscito na minha tese, com o argumento de que o laudo do Vaticano foi aceito porque era uma maneira de resolver logo a questão territorial e eliminar um foco de tensões que poderia envolver novamente os militares num problema internacional.

Abraços