segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Mundo se Despedaça



Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.


W.B. Yeats


O romance Things Fall Apart, do nigeriano Chinua Achebe, foi publicado em 1958 e é o marco do nascimento da moderna literatura africana. Contemporâneo às primeiras lutas de independência do continente, narra de maneira magistral o esfacelamento da sociedade tradicional da região diante da chegada dos colonizadores britânicos. Em boa hora a Companhia das Letras lança nova tradução brasileira, “O Mundo se Despedaça”, pois o livro há muito estava esgotado no país. O livro vem com breve mas esclarecedora introdução do diplomata Alberto da Costa e Silva, que foi embaixador do Brasil na Nigéria e é um dos mais importantes estudiosos nacionais sobre a África.

O romance é ambientado em duas aldeias do povo Ibo, no território que atualmente é o Sudeste da Nigéria. O protagonista é Okonkwo, um homem corajoso e trabalhador que conquistou o respeito de sua comunidade por sua bravura na guerra e dedicação na agricultura. Mas é um herói trágico: pois suas muitas qualidades convivem com o desprezo que sente pelo pai, já falecido, que era preguiçoso e incompetente, motivo de piada para parentes e vizinhos. Na ânsia de sempre provar que é diferente, Okonkwo se torna duro e amargo mesmo com relação àqueles que ama. Essas características o levarão a uma série de conflitos familiares, de sérias conseqüências para os Ibo.

O que torna Okonkwo explosivo é o momento delicado em que vive, quando os britânicos começam a se instalar em definitivo no interior da Nigéria. Até então, os Ibo tinham acesso às mercadorias trazidas pelos europeus, mas não haviam entrado em contato direto com os brancos, e até duvidavam de sua existência. Aos poucos, os britânicos chegam. Os missionários aparecem, e a mensagem igualitária do cristianismo atrai os humilhados e ofendidos da sociedade Ibo, todos aqueles desprezados pelo rigoroso código de honra local. O novo Deus entra em conflito com a antiga religião, e logo chegam juízes e soldados para mediar as disputas. Okonkwo tenta organizar uma revolta, apenas para descobrir que os britânicos haviam cortado as fibras que mantinham a sociedade Ibo unida, explorando habilmente suas divisões.

Achebe é um filho dos dois mundos, seus pais eram professores numa escola missionária e ele recebeu a melhor educação disponível na África colonial, inclusive estudando na universidade que os britânicos criaram para educar a futura elite nigeriana. Ele escreve em inglês, a língua do colonizador, e retira o título de seu livro de um poeta irlandês. Ao mesmo tempo, narra com maestria os costumes Ibo, que aos brasileiros soam familiares – muitos deles foram trazidos como escravos ao país, e com eles vieram o azeite de dendê e o som do agogô, muito mencionados no romance.

4 comentários:

Eugenio Hansen, OFS disse...

Paz e bem!

Há vários anos que li este livro,
numa edição da Ática
(numa série sobre autores africanos, lí vários)
Recordo o duplo conflito pai-filho
e as tragicas consequencias
na vida do personagem principal.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Eugenio.

Nunca consegui encontrar a edição da Ática. A da Companhia das Letras ficou excelente e espero que os leitores brasileiros agora possam ter acesso a este excelente livro.

Abraços

Rafaela Rodrigues disse...

Parece bem interessante.

Tive oportunidade de falar algumas vezes com o Sr. Alberto da Costa e Silva, ele é autor da Nova Fronteira, que faz parte do Grupo Ediouro, onde trabalho.

Além de inteligentíssimo, ele é uma das pessoas mais gentis e educadas que já conheci na vida.

Bjs! Rafa.

Mauricio Santoro disse...

Cara Rafa,

Sei disso, eu o entrevistei certa vez, justamente quando a Nova Fronteira lançava a segunda edição de sua excelente "A Enxada e a Lança: a África antes dos portugueses".

beijo