sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Adeus, Senhor Presidente



Na semana passada escrevi um pouco sobre o método de Planejamento Estratégico Situacional (PES) desenvolvido pelo economista chileno Carlos Matus. Fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que me pediram mais detalhes, portanto aqui vai este post. Se você quer um guia rápido para as principais ideias do autor, recomendo o livro-entrevista “O Método PES”, do jornalista Franco Huerta. Se você está disposto a um caminho mais heterodoxo, a dica é “Adeus, Senhor Presidente: governantes governados”, do próprio Matus. Ambos estão publicados no Brasil pela Fundap, que também traduziu outras obras do autor.

"Adeus, Senhor Presidente" mistura romance e ensaio. Cada capítulo abre com uma parte ficcional, nas quais temos cinco cenas da trajetória política do presidente de um país qualquer, presumivelmente na América Latina. Elas começam com sua posse, em meio a grandes expectativas de mudanças, e terminam com suas reflexões, já afastado do poder, sobre por que desapontou seus eleitores e não conseguiu realizar o que prometeu – seu consolo é que seu sucessor tampouco é bem-sucedido. Entre uma e outra, há uma excelente descrição de uma reunião ministerial para discutir a crise do país e até uma tentativa rocambolesca e divertidísisma de golpe militar.


A parte, digamos, científica, aplica o método PES a cada situação difícil vivida pelo presidente e procura convencer o leitor de que as ferramentas ali expostas resolveriam os problemas. Há muitas percepções interessantes, oriundas da ampla experiência de Matus como consultor e ministro de Salvador Allende. Gosto principalmente de suas análises sobre como questões banais e obstáculos protocolares com frequencia impedem os líderes políticos de se dedicarem ao que realmente importa. Mas os diagramas e etapas do método são muito complicados e permaneço com dúvidas se é viável aplicá-lo em sua totalidade.

De todos os gêneros literários, o romance é o que mais se aproxima das ciências sociais, como sabe qualquer um que tenha lido Balzac ou Machado de Assis. Matus se revela um ficcionista de talento surpreendente, e suas descrições do cotidiano político latino-americano fazem qualquer habitante do continente se identificar com os dilemas do presidente e de seus ministros. Há de tudo no círculo presidencial: sindicalistas veteranos, homens do partido (socialista, à la chilena), empresários, tecnocratas com muitos títulos acadêmicos e nenhuma vivência política, intelectuais idealistas, jornalistas céticos, parentes corruptos e as eternas polêmicas da região, tais como a melhor maneira de equilibrar as finanças públicas, e, simultaneamente, expandir os serviços governamentais e estimular o crescimento econômico.

Há bastante humor e sátira em Matus, em especial no episódio da tentativa de golpe, mas também um afeto real pelos esforços das pessoas que querem fazer um bom trabalho e desenvolver politicas públicas de qualidade. Certas passagens do romance – como o trecho em que o presidente media com habilidade uma discussão entre empresários e sindicalistas – são muito ricas em calor humano, fazem pensar se não seriam um retrato biográfico de Allende em ação.

Sempre me pareceu que a América Latina é tão complexa, inesperada e caótica que as categorias das ciências sociais simplesmente não conseguem dar conta do recado de compreender a região. É preciso um toque a mais, de romance, poesia ou música. Matus lançou um modelo muito promissor de romance-ensaio, pena somente que tenha preferido se concentrear no segundo aspecto, que ocupa muito mais espaço no livro, mas diz menos do que a parte ficcional.

3 comentários:

André Egg disse...

"Sempre me pareceu que a América Latina é tão complexa, inesperada e caótica que as categorias das ciências sociais simplesmente não conseguem dar conta do recado de compreender a região. É preciso um toque a mais, de romance, poesia ou música."

É por isso que gosto muito de ler gente como o José Miguel Wisnik e o Nicolau Sevcenko.

O Wisnik aliás deu a última e a mais certeira das tacadas com "Veneno Remédio - o futebol e o Brasil", no qual também fala bastante de América Latina.

Assisti ao documentário "La batalla del Chile", logo no início do governo Lula, o que me fez celebrar a prudência com que Lula vem se equilibrando na política brasileira.

Fazer um governo radical com apoio de uma minoria política pode não ser muito bom para a saúde...

Patricio Iglesias disse...

Caro Maurício:
"seu consolo é que seu sucessor tampouco é bem-sucedido".
Na Argentina dizemos: "mal de muchos, consuelo de tontos". Verdadeiramente däo ganhas de ler o livro com seus comentários... se chega cair nas minhas mäos näo vou soltar até terminar-lo!
Sem dúvidas é muito ambicioso quer solucionar todos os problemas políticos com um método, mas pode ajudar pra abrir novos horizontes.
Saludos!

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Oi, André.

Só ouvi elogios ao livro do Wisnik, preciso lê-lo em breve.

Dom Patricio,

Acredito que você encontra com facilidade os livros do Matus na Argentina, devem estar disponíveis nas grandes livrarias portenhas, como a Ateneo e a Prometeo.

Abraços