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quarta-feira, 28 de março de 2012

O Papa em Cuba

Bento XVI está discreto em sua visita a Cuba e não criticou o governo do país, mas a Igreja Católica continua a ser o pilar dos movimentos sociais que se opõem ao regime autoritário cubano – papel que desempenha desde o fim da década de 1990. É um jogo de médio prazo, com o horizonte ao longo desta década e no futuro imediato o Vaticano segue na complexa barganha com os irmãos Castro, moderando pressões mais intensas contra as autoridades e recebendo apoio financeiro do Estado para recuperar a influência perdida desde a Revolução de 1959.

Não há dados confiáveis para o número de católicos em Cuba, mas a maioria das estimativas aponta até um terço da população – um palpite razoável após 40 anos nos quais o Estado cubano foi oficialmente ateu e as atividades da Igreja foram cerceadas. Muitos padres foram expulsos da ilha e novas edificações foram proibidas por décadas – o seminário erguido há poucos meses foi a 1ª construção da Igreja em Cuba desde a Revolução.

Dito de outro modo, a força social do catoliciismo na ilha ainda é de uma escala em que o regime pode arriscar a normalização das relações com a Igreja. Fidel recebeu João Paulo II em 1998 e o papa que ajudou a derrubar o comunismo na Europa Oriental e combateu a Teologia da Libertação na América Latina criticou a situação dos presos políticos em Cuba. O Vaticano se tornou o principal patrono externo de diveros movimentos de contestação ao regime, como o Projeto Varela, mas isso não impediu que o governo prendesse seus líderes e ativistas mais importantes. Ainda que a mediação da Igreja tenha sido importante para libertá-los, anos mais tarde.

Houve divisões no Vaticano com relação à conveniência da visita do papa. Segundo relatos da imprensa, cardeais temeram que Bento XVI seria manipulado pela propaganda do regime cubano. De fato, as autoridades prenderam vários ativistas e impediram os dissidentes mais radicais de participar dos eventos com o papa. Bento XVI rezou pelos presos e por suas famílias, mas sem se referir de maneira explicíta aos que foram condenados por suas opiniões políticas. Seus ataques ao comunismo foram feitos na imprensa internacional - a qual a população cubana não tem acesso - e não na ilha.

Hoje é o ponto alto da visita papal, com a celebração de missa na Praça da Revolução, em Havana. Será uma surpresa se tivermos críticas frontais de Bento XVI ao regime cubano.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Bento XVI em Cuba

O papa Bento XVI chegará a Cuba no dia 26 de março. Ontem um jornal do Japão, o Yomiuri Shimbun, me pediu uma análise da visita e este post reproduz o que declarei àquela publicação.

A visita de Bento XVI a Cuba é importante porque consolida a nova relação de diálogo e parceria entre o governo socialista cubano e a Igreja Católica, iniciada na década de 1990, sob o comando de Fidel Castro e de João Paulo II. Essa relação sobreviveu a sérias tensões políticas, como o apoio da Igreja a grupos de dissidentes na ilha, e foi marcada por fatos positvos como a mediação bem-sucedida do Vaticano para libertar cerca de 70 presos políticos ao longo da última década.

Para Cuba, a relação é importante como um modo de implementar uma abertura lenta, gradual e controlada do regime. Para o Vaticano, a motivação é retomar a presença e influência da Igreja num país importante da América Latina, onde depois de cinco décadas de regime socialista apenas 10% da população se define como católica.

A Revolução Cubana teve uma relação conturbada com os católicos, ao proclamar um Estado ateu (e não meramente laico), expulsar sacerdotes estrangeiros do país e permitir o aborto e o divórcio. Com as reformas econômicas pró-mercado dos anos 90, houve um esforço de aproximação com a Igreja. A nova Constituição, de 1992, eliminou o caráter ateu do Estado e as autoridades cubanas voltaram a apoiar financeiramente as instituições religiosas. A Igreja construiu um novo seminário, o primeiro desde a Revolução. O momento mais simbólico dessa guinada foi a visita de João Paulo II à Cuba, em 1998, que transcorreu de forma cordial, apesar do histórico anti-comunista do papa em países como Polônia e Nicarágua.

O Vaticano é o principal patrono internacional dos movimentos democráticos mais importantes de Cuba como o Projeto Varela, que tem se inspirado na doutrina social da Igreja e nos partidos democrata-cristãos para propor eleições livres e reformas políticas em Cuba. O regime às vezes reprime essas demandas e vários dirigentes do movimento foram presos após a onda repressiva conhecida como Primavera Negra, em 2003. O Vaticano, em conjunto com o governo da Espanha, mediou a libertação de muitos deles.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Brasil, Cuba e a Longa Marcha dos Direitos Humanos na América Latina

Brasil e Cuba tem comércio bilateral significativo e diversos projetos de cooperação em áreas como saúde pública e energia. A presidente Dilma estará na ilha na próxima semana e a visita será dominadas pelos debates sobre direitos humanos. É inescapável, pelo enorme simbolismo da Revolução Cubana para a política na América Latina como uma referência em autonomia diante dos Estados Unidos e em reforma social. Mas a região é muito diferente hoje e o imaginário ocupado por Cuba é por vezes bastante incômodo. O país nunca será avaliado pelos mesmos critérios pelos quais se julgam ditaduras na China, Rússia ou Irã, e sim pelo descompasso com os padrões de seus vizinhos latino-americanos.

No auge da Guerra Fria, em meados da década de 1970, havia apenas duas democracias plenas na América Latina: Venezuela e Costa Rica - o México do PRI como um caso híbrido e ambíguo. A maioria dos habitantes da região eram pobres. Naquele contexto, Cuba não se destacava pelo autoritarismo – era a regra, à direita e à esquerda – e seus indicadores sociais eram muito expressivos.

Na América Latina de hoje, o único país no qual os governantes não são eleitos pelo voto é Cuba. É certo que as democracias da região continuam frágeis e repletas de práticas autoritárias: fraudes em larga escala no México, censuras e perseguições à imprensa na Venezuela, Argentina e Equador, grandes pedaços de território controlados pelo crime organizado na América Central, Colômbia, Brasil e México. Mas os avanços são notáveis e destacam-se na comparação com os outros continentes formados por nações em desenvolvimento, Ásia e África. Prisoneiros políticos praticamente desapareceram da América Latina, a não ser em Cuba e ocasionalmente na Venezuela – além, claro daqueles que os Estados Unidos encarceraram na base naval de Guantanamo. A pobreza caiu para um terço da população e houve ampla melhora dos padrões de vida e do consumo.

A Revolução Cubana perdeu seu apelo prático para a política da região. No Peru, México e Venezuela, os candidatos fazem campanha prometendo ser o próximo Lula – e não o futuro Fidel. As novas classes médias da região já têm dinheiro para passar férias no exterior, mas optam por conhecer os Estados Unidos ou nações vizinhas, e não a experiência socialista cubana.

Contudo, os países da região não criticam Cuba, fora uma ou outra exceção como a Argentina de Carlos Menem e o México de Vicente Fox - em ambos os casos, atitudes explicáveis mais pelo desejo dos dois presidentes em manter uma relação especial com os Estados Unidos. O regime cubano é tratado pelos governos latino-americanos como uma espécie de tio excêntrico e querido, de quem não se comenta os defeitos em respeito ao período em que foi importante na família, principalmente porque enfrentou o vizinho grandalhão e rico do qual todos tinham medo.

O mundo mudou e o velho parente irá falecer em breve. Igreja Católica, governos e organizações européias e canadenses estabeleceram bons diálogos com a oposição democrática na ilha, que em algum momento irá governar Cuba. Talvez ainda nesta década. Não é praxe das autoridades brasileiras buscar esse tipo de entendimento, em lugar nenhum do planeta, mas partidos políticos e movimentos sociais poderiam desenvolver uma agenda assim. Lançando, por exemplo, uma campanha “América Latina sem presos políticos.”

Algumas pessoas já tem essa mobilização, como o cineasta Cláudio Galvão da Silva e sua parceria com a escritora cubana Yoani Sánchez. Ele a convidou a vir ao Brasil para o lançamento de um documentário sobre censura em Cuba e em Honduras. O governo brasileiro concedeu o visto, mas as autoridades cubanas desde 2004 proibem Sánchez de sair do país. Ela já foi presa e espancada por suas opiniões. A presidente do Brasil também o foi. Isso não mudará a diplomacia brasileira, digamos, com respeito às Damas de Branco. Havana não é Teerã. Mas Dilma não fará como Lula, que comparou os presos políticos cubanos a criminosos comuns.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Horizonte da Minha Pele



O poeta e crítico literário cubano Emilio Bejel traça neste “romance autobiográfico” um panorama da primeira geração de emigrados da Revolução de 1959, dos conflitos pessoais e sociais envolvendo sua autodescoberta como homossexual, em Cuba e nos Estados Unidos, e da difícil relação da diáspora com as autoridades e parentes na ilha. É uma história de perseguições e discriminações, e às vezes elas são maiores na Flórida do que em Havana. O livro está estruturado de maneira não-linear, com capítulos que intercalam recordações da infância e juventude do autor em Cuba com descrições de sua vida nos Estados Unidos.

Bejel é de uma família da pequena classe média da província, filho de mãe solteira, professora, neto de soldado espanhol que se encantou com Cuba. Era adolescente quando ocorreu a Revolução e a princípio a apoiou, pela possibilidade de fazer algo para combater a pobreza extrema que havia testemunhado quando trabalhava em ações sociais em grupos católicos. É justamente o conflito entre a Igreja e o governo marxista que faz com que ele afaste-se da Revolução e emigre para os Estados Unidos em 1962. Nunca mais veria sua mãe: “Aquela despedida, que passados os anos chegaria a ser a mais radical de sua vida, ocorreu sem espalhafato, sem muitas lágrimas visíveis. A mãe fingia estar serena.”

(...)

A importância da homossexualidade para a vida de Bejel é tão grande que forma o subtítulo do livro. Ele conta que já sentia impulsos gays em Cuba, mas que, confuso, tratava de reprimi-los. Na ilha da década de 1950, os homossexuais sofriam intensa discriminação, inclusive com agressões físicas. É somente nos EUA dos anos 60 que ele assume sua sexualidade, em meio ao ambiente liberal de Miami (“o que me interessava de verdade estava acontecendo nos alojamentos da universidade”) e, mais tarde, em Nova York. As lembranças de Bejel são agridoces, conjugando a descoberta do prazer sexual e da afirmação da identidade com certa rejeição de seu comportamento promíscuo na época, além do relato de situações de risco pelas quais passou, como quando foi sequestrado e ameaçado de morte por um amante de uma noite.


O resto, na resenha que escrevi para o Amálgama.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Um Curso sobre a Revolução Cubana



A Casa do Saber, no Rio de Janeiro, abriu inscrições para o curso que lecionarei em agosto. O tema é a Revolução Cubana, da guerrilha de Sierra Maestra aos impasses atuais. Cuba tem sido um assunto recorrente na minha produção acadêmica e estas aulas de algum modo resumem e complementam vários trabalhos anteriores.

Começarei com a discussão sobre a formação do regime marxista em Cuba, das lutas contra Fulgêncio Batista até a declaração de Fidel Castro sobre o caráter socialista do novo governo e a eliminação dos últimos focos de resistência armada, em 1965. Abordarei as medidas iniciais, como a reforma agrária e a nacionalização das grandes empresas, e os conflitos políticos entre nacionalistas, comunistas, opositores e governistas.

A segunda aula será para as guerras e conflitos internacionais da Revolução. Tratarei, claro, dos choques com os Estados Unidos, na invasão da Baía dos Porcos e na Crise dos Mísseis Cubanos. E falarei bastante sobre a diplomacia cubana na África e na América Latina, com o apoio às guerras de libertação colonial e as revoluções. Cada vez mais, esses temas têm sido abordados em trabalhos acadêmicos, como nos excelentes livros de Piero Gleises (o único a ter acesso aos arquivos da política externa de Cuba) e de Jorge Dominguez.

Talvez o ponto mais herotodoxo do curso seja uma discussão sobre a vida artística e cultural da Revolução Cubana, desde a década inicial, de intensa colaboração dos intelectuais e artistas com o governo, incluindo a construção de instituições importantes (Casa das Américas, ICAIC etc) até as crises iniciadas no fim dos anos 60, com longa sequência de perseguições e enfrentamentos. Minhas referências serão obras como a do historiador Rafael Rojas e o testemunho do romancista e diplomata chileno Jorge Edwards, enviado por Salvador Allende à ilha para restaurar as relações com o Chile. Ele era amigo íntimo de vários escritores perseguidos pelas autoridades e acabou em sérios problemas com o regime.

O curso se encerrará com o debate sobre Cuba no pós-Guerra Fria, e as diversas reformas econômicas empreendidas pelo governo para superar a perda do apoio da União Soviética. Discutiremos as mudanças políticas no país, como a ascensão de novas organizações da sociedade civil, como o Projeto Varela, e o caráter cada vez menos marxista e mais nacionalista do regime, bem como suas novas alianças internacionais, com a Venezuela de Hugo Chávez e com a China.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Congresso Cubano: socialismo em tempos de escassez


Menos Estado, mais mercado e mudança gradual na liderança foram as principais decisões anunciadas no VI Congresso do Partido Comunista de Cuba, que começou no sábado e termina amanhã. Raúl Castro afirmou que cortará gastos com políticas sociais, autorizará a abertura de mais pequenas empresas privadas e limitará a 10 anos a permanência nos cargos mais elevados do governo, com o objetivo de tornar mais jovem a cúpula cubana. Com 79 anos, ele deve permanecer como chefe do Estado pelo menos até 2013, e pelas novas regras poderá ocupar o posto até 2018, caso ainda tenha condições de saúde.

As leis cubanas não estipulam a periodicidade dos congressos do partido, mas desde a década de 1970 eles costumam acontecer no máximo a cada seis anos. Só que desta vez o intervalo foi de 14 anos, devido à incerteza causada pelo afastamento de Fidel Castro e pelos conflitos políticos internos que culminaram na exoneração da jovem geração de tecnocratas que ele havia promovido. O governo cubano sob Raúl está mais conservador, privilegiando veteranos do Exército e do Partido. A situação econômica piorou, pois a crise nos Estados Unidos e na Europa fez diminuir as duas principais fontes de divisas da ilha – remessas de emigrantes e turismo.

São tempos difíceis para Cuba e o governo teve a prudência de aproveitar uma ocasião de celebração histórica para realizar o VI Congresso, pois ele aconteceu logo após as comemorações dos 50 anos da vitória contra a tentativa de invasão organizada pelos Estados Unidos na Baía dos Porcos. A data é também o aniversário de cinco décadas da proclamação do caráter socialista da Revolução, anunciado por Fidel poucos dias antes do ataque americano. O simbolismo é lebrar as glórias do passado, para tornar menos amargos os remédios propostos no presente.

O discurso de Raúl no VI Congresso foi bastante crítico ao Partido, sobretudo no que toca à condução da economia: “Dois mais dois são quatro. Nunca cinco, muito menos seis ou sete, como às vezes fingimos.” O chefe de Estado reclamou a dificuldade da burocracia em implementar reformas e modernizar o aparato produtivo do país. No entanto, suas decisões reforçam esses impasses, pois anunciou o adiamento por prazo indefinido da demissão de 500 mil funcionários públicos, que havia comunicado meses atrás. Os planos são de transformá-los em pequenos empreendedores e fazendeiros, aliviando o peso da folha de pagamento estatal.

Raúl não fez promessas de liberalização política, mas elogiou a mediação da Igreja Católica e do governo da Espanha nas negociações que culminaram na libertação de 52 presos políticos. A Igreja foi autorizada a abrir seu primeiro seminário desde a Revolução. Tem havido um pouco mais de espaço para o debate crítico ao governo, mas dissidentes continuam a ser perseguidos e agredidos.

A cúpula do Partido tem entre 70 e 80 anos, de modo que esta é provavelmente sua última década no poder. As decisões do VI Congresso apontam para uma reforma bastante restrita, na qual a preocupação dos líderes é manter o controle, até o fim, da transição para uma geração mais jovem de dirigentes. Querem mudanças graduais, mas num contexto econômico difícil, de escassez e corte de benefícios sociais.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Demissões em Cuba



No início da semana dei uma pequena entrevista à Folha de São Paulo, tratando da nova rodada de reformas econômicas em Cuba. O elemento mais significativo é a demissão de 500 mil funcionários públicos, um número muito expressivo para um total por volta de 4 milhões. O objetivo do governo cubano é estimular a formação de cooperativas e o crescimento do setor econômico privado, de maneira controlada.

Não é tarefa fácil. O setor público concentra cerca de ¾ da população economicamente ativa na ilha. As reformas dos anos 1990/2000 criaram um segmento importante na iniciativa privada, sobretudo na área turística e na mineração. Muitos cubanos trabalham como funcionários de empresas estrangeiras que operam no país em joint-ventures com o Estado, ou então tocam pequenos negócios próprios, como os restaurantes caseiros conhecidos como Paladares.

No entanto, setores importantes da economia de Cuba não passaram por reformas semelhantes. O mais expressivo é a agricultura, e aqui o contraste com a China é marcante. Lá, as reformas econômicas começaram com o que foi, na prática, a privatização das terras comunais, entregues aos camponeses sob diversos instrumentos jurídicos, como contratos com “empresas municipais” que só existiam no papel. Na ilha caribenha, a agricultura ficou em segundo plano e o açúcar – que era o principal produto de exportação – declinou acentuadamente. Cuba precisa importar grande quantidade de alimentos e tem enfrentado más colheitas e escassez de gêneros essenciais, como o arroz.

Transformar os burocratas cubanos em empreendedores e gestores de cooperativas será uma tarefa difícil para o governo de Raúl Castro. Há várias questões em aberto. Por exemplo: de onde virá o financiamento para estabelecer esses negócios? E o apoio técnico? Quais os segmentos econômicos mais viáveis para esses investimentos?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Fidel: revolução, armas nucleares e golfinhos



A revista americana The Atlantic publicou nesta semana ótima reportagem do jornalista Jeffrey Goldberg. É um especialista em Oriente Médio que foi convidado por Fidel Castro a visitá-lo em Cuba. Curioso com a oportunidade, aceitou e levou junto Julia Sweig, do Conselho de Relações Exteriores – suas análises são excelentes e sucintas: Fidel deixou a chefia do Estado cubano há quatro anos, em função de sua saúde precária, e agora quer se reinventar como um sábio estadista que comenta os principais temas da agenda internacional, em particular os conflitos entre Israel e Irã. Ele também avalia de modo muito crítico a própria Revolução cubana, afirmando que seu modelo não serve mais nem mesmo para a ilha. Para Sweig, trata-se de uma declaração que visa dar a seu irmão Raúl Castro autonomia para lançar reformas econômicas mais amplas, que se distanciam da ortodoxia marxista.

O exame que Fidel faz do Oriente Médio se destaca pela moderação – recrimina o presidente iraniano, Mahmoud Ahamadinejad, por seus comentários antissemitas e afirma que é necessário compreender o trauma das perseguições aos judeus para entender as intensas preocupações de Israel com sua segurança. Aponta como meta final na região o abandono das armas nucleares por todos os países da área e relembra inclusive a crise dos mísseis cubanos de 1962, talvez o momento em que o mundo esteve mais próximo de um apocalipse atômico. Diz que se arrepende de ter pedido ao líder soviético Nikita Kruschev para bombardear os EUA: “Não valia a pena”.

As críticas de Fidel ao modelo econômico da Revolução Cubana são menos surpreendentes do que parecem à primeira vista. Castro, sempre pragmático, foi decisivo em iniciar diversas reformas, já em meados da década de 1980. Nos anos seguintes, montou uma equipe de jovens tecnocratas, que promoveu a postos de chefia no Estado, para implementar a política de abertura controlada da economia cubana, em certa medida semelhante ao que China e Vietnã empreenderam no mesmo período.
A principal diferença de Cuba para essas nações asiáticas é a agricultura, onde o paradigma das fazendas estatais continua a vigorar e criou um problema sério para a balança comercial – um persistente déficit que vem da necessidade de importar grandes quantidades de alimentos. Raúl Castro anunciou recentemente algumas reformas econômicas, principalmente no sentido de demitir funcionários públicos e estimular pequenos negócios. Mas é pouco diante dos problemas da ilha.

A questão mais séria que Fidel deixou de abordar foi a das liberdades civis e políticas em Cuba. Bem ou mal, houve reformas econômicas significativas nos últimos 20 anos, mas pouca coisa aconteceu em termos de abertura política. Raúl, nesse aspecto, representa um retrocesso: afastou tecnocratas e trouxe de volta generais e velhos quadros do Partido Comunista.

Fidel preferiu levar Goldberg para ver um show de golfinhos – excelente, segundo o jornalista. O aquário estaria fechado, mas na melhor tradição caudilhesca, abriu exclusivamente para o chefe e seus convidados. A veterinária é filha de Che Guevara, o que talvez seja um símbolo de alguma coisa. Só não sei do quê.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

América Latina e Presos Políticos em Cuba



Reproduzo abaixo meu artigo publicado ontem no jornal "Folha de S. Paulo", que desenvolve pontos que abordei anteriormente aqui no blog.

A mediação diplomática da Espanha e do Vaticano resultou na libertação de 52 presos políticos em Cuba. O governo Raúl Castro, pressionado após a morte do dissidente Orlando Zapata, em decorrência de greve de fome, percebeu a necessidade de direitos humanos.

A conjuntura cria oportunidade excepcional para os países da América Latina, em sua maioria aliados do regime cubano: um esforço conjunto para convencer Havana a libertar os cerca de cem presos de consciência que continuam detidos nos cárceres da ilha.

O Brasil pode e deve assumir a liderança deste processo. Em 2009, a Revolução Cubana completou 50 anos, e seu estágio atual se parece muito mais com o nacionalismo de suas origens do que com os dogmas marxistas-leninistas adotados durante a vigência da aliança entre Cuba e União Soviética. O fim da Guerra Fria levou o regime cubano a um severo ajuste estrutural econômico, abrindo-se ao capital estrangeiro.
Investimentos espanhóis no turismo, canadenses na mineração e chineses na infraestrutura resultaram em crescimento, apesar da deterioração da qualidade de vida, em particular das habitações.

A guinada econômica foi acompanhada por mudanças na política externa. O apoio a grupos rebeldes e insurreições armadas foi substituído por diplomacia defensiva que visa a preservação do regime cubano. Cuba conseguiu interlocutores na União Europeia, Canadá e Vaticano, mas ao custo de concessões significativas.

A aproximação com a Igreja Católica, que culminou na visita do papa João Paulo 2º à ilha, em 1998, se fez ao preço do retorno das liberdades religiosas ao país, mesmo com a apreensão de Havana quanto aos movimentos sociais cristãos pró-democracia, dos quais o mais expressivo é o Projeto Varela.

A ascensão de governos de esquerda na América Latina, a partir de 1999, deu a Cuba o cenário regional mais favorável desde a Revolução. Embora os partidos progressistas do continente tenham diversas tendências ideológicas, todos consideram Havana símbolo do nacionalismo, da busca por autonomia e por reformas sociais. Muitos tiveram no regime cubano um aliado durante o enfrentamento às ditaduras militares das décadas anteriores.

Por sua tradição de resolução pacífica de conflitos, peso econômico e diplomático, o Brasil é o candidato natural à liderança do processo. Ótima oportunidade para o governo brasileiro abandonar a constrangedora prática recente de proteger ditadores e retomar a diretriz constitucional de que a política externa deve ser regida pela prevalência dos direitos humanos.

Os principais candidatos à Presidência da República -todos veteranos da luta contra a ditadura militar- podem ser agentes importantes dessa mudança.
Uma anistia ampla, geral e irrestrita aos presos políticos cubanos é excelente avanço rumo à vigência plena dos direitos humanos na ilha e à consolidação da democracia na América Latina.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Os 52 de Cuba



Uma bem-sucedida mediação do governo da Espanha e do Vaticano resultou na libertação de 52 presos políticos em Cuba. O resultado da negociação lança a pergunta: por que os países latino-americanos, aliados importantes das autoridades cubanas, não empreenderam um esforço semelhante?

Os espanhóis e a Igreja Católica tiveram sucesso porque o governo de Cuba precisava oferecer um gesto de boa vontade à comunidade internacional após a morte de um preso político em razão de greve de fome, no início deste ano. A mediação do Vaticano já tinha dado bons frutos anteriormente: Fidel Castro libertou 101 pessoas em 1998, quando o papa João Paulo II visitou Cuba. Além disso, a Igreja patrocina diversas ONGs e movimentos sociais que pressionam pela democratização cubana, em particular o Projeto Varela.

Há um contraste significativo entre a posição da Espanha e do Vaticano e as ações dos demais países da América Latina, que evitam criticar as violações dos direitos humanos pelo governo cubano e pleiteiam o retorno de Cuba ao sistema inter-americano, em instituições como o Grupo do Rio e a OEA.

A meu ver, há duas razões para o comportamento latino-americano.

A primeira é o forte referencial simbólico que a Revolução Cubana continua a ter para grupos da esquerda em toda a região, por seu apelo de reforma social, autonomia nacionalista e solidariedade entre países em desenvolvimento.

A segunda são os vínculos que as autoridades cubanas construíram com boa parte das lideranças da América Latina, sobretudo durante o período do enfrentamento às ditaduras militares do continente, nas décadas de 1960/80. Muitas pessoas nas atuais cúpulas dos partidos e dos movimentos sociais receberam ajuda da ilha: asilo, bolsas de estudos, treinamentos militares, prêmios culturais.

Mesmo após as libertações desta semana, restam pouco mais de 100 presos políticos em Cuba. É difícil acreditar que essas pessoas representem ameaças à segurança do regime cubano, ao Estado, a seja lá o que for. Será que não é possível uma solução negociada, com a intermediação dos países latino-americanos, para chegar a um acordo que resolva esse problema humanitário, que ademais é uma constante fonte de desgaste político para Cuba?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Gabriel García Márquez: uma vida



O escritor colombiano Gabriel García Márquez brincou que todo autor respeitável deveria ter um biógrafo inglês. O seu, Gerald Martin, cumpriu a tarefa com maestria. Após quase 20 anos de pesquisa, lançou um estupenda biografia, que examina a gênese do universo criativo de García Márquez e destrincha suas relações políticas com sua Colômbia natal e com a Revolução Cubana, de quem se tornou o principal defensor intelectual.

García Márquez passou a infância em pequenas cidades e vilarejos da costa caribenha da Colômbia. Sobretudo Arataca, cujas lendas ele imortalizaria na Macondo de “Cem Anos de Solidão”, sua obra-prima. Seu modelo era o avô materno, um coronel que lutou pelos liberais na Guerra dos Mil Dias, e em cuja casa o escritor viveu quando pequeno.

Na juventude, García Márquez foi estudar em Bogotá, mas nunca se sentiu à vontade na capital da Colômbia, situada nos Andes e de costumes bem mais conservadores do que a parcela tropical do país. Estudou Direito, sem se formar, se iniciou no jornalismo e assistiu ao terrível Bogotazo, a rebelião popular que marcou o início de La Violéncia, a guerra civil entre conservadores e liberais que se arrastou pela década de 1950.




Mas então García Márquez era menos interessado em política do que em literatura, cinema e jornalismo, e viveu aos trancos e barrancos como repórter por uma série de países: Colômbia, Venezuela, França, Estados Unidos e, finalmente, México, onde foi muito bem acolhido e desfrutou de um excelente ambiente cultural, no qual floresceu seu casamento com Mercedes e cresceram seus dois filhos, Rodrigo e Gonzalo.

Seus primeiros romances, como “La Hojarasca” e “Ninguém Escreve ao Coronel” começaram a torná-lo conhecido como escritor. A fama internacional veio com “Cem Anos de Solidão”, em 1967, saga familiar que mistura guerras civis, massacres de trabalhadores nas plantações de banana, ciganos, mitos e que se tornou um dos livros mais amados do século XX. García Márquez se tranformou numa celebridade global, íntimo de estadistas e artistas, e o Nobel conquistado em 1982 apenas reforçou seu status.

O escritor despontou no contexto do boom da literatura latino-americana, no qual também figuraram outros autores de primeiro quilate, como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes. Eram bastante amigos, mas García Márquez e Vargas Llosa terminaram adversários e protagonistas de uma célebre briga a socos, num coquetel explosivo que envolvia rivalidade pessoal, disputas amorosas e divergências políticas.

O cerne da polêmica foi Cuba. García Márquez fez parte da equipe da Prensa Latina, a tentativa da Revolução de 1959 de criar uma agência de notícias internacionais que desafiasse as grandes empresas ocidentais. O projeto fracassou em meio às disputas internas do próprio governo cubano, mas o escritor conseguiu aos poucos se aproximar de Fidel Castro e ambos se tornaram grandes amigos. García Márquez mediou alguns esforços humanitários – como libertar presos políticos cubanos – mas se calou diante do autoritarismo e das violações de direitos humanos do regime de Castro e com o tempo se transformou em algo muito próximo a seu propagandista, ao passo que outros intelectuais foram rompendo progressivamente com a Revolução cubana, criticando seu autoritarismo.



Aliás, García Márquez é fascinado pelo poder e pela proximidade com presidentes de diversos matizes, inclusive ditadores como Castro e como o general panamenho Omar Torrijos. Gerald Martin examina muito bem como isso reflete em sua obra, em particular nos romances “O Outono do Patriarca” e “O General em seu Labirinto”, que apesar de tratar de Bolívar, incorpora algo de Fidel.

García Márquez esposou outras causas políticas, como a condenação às ditaduras latino-americanas (em especial a de Pinochet) e o apoio à transição democrática na Espanha. Em sua Colômbia natal, seus esforços foram mais contraditórios e falhos. Seus projetos de revistas jornalísticas nunca prosperaram muito e sua relação com líderes políticos locais foram tensas. Ele oscilou da proximidade com os guerrilheiros do M-19 ao flerte com conservadores no contexto da ascensão do poder do narcotráfico. Na Venezuela, onde morou, García Márquez não gosta de Chávez, talvez porque seja amigo íntimo de seus adversários, como o ex-presidente Carlos Andrés Pérez (que Chávez tentou depor num golpe militar, em 1992) e do líder de esquerda Teodoro Petkoff.

Na maturidade, a obra literária de García Márquez passou a abordar principalmente o tema do amor, que parece coincidir com certo desencanto com o poder. Martin é entusiasta do romance “O Amor nos Tempos do Cólera”, e mais crítico com respeito aos livros mais recentes do escritor (como “Memórias de Minhas Putas Tristes”). O biógrafo retrata o declínio da saúde de García Márquez, como sua luta contra o câncer e problemas neurológicos que o têm acometido com frequencia.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lula e os Presos Políticos de Cuba



Os presos políticos de Cuba enviaram um apelo ao presidente Lula para que ele interviesse em defesa de seus direitos humanos, aproveitando a visita que faz ao país. Isso não ocorreu. A viagem do mandatário brasileiro coincidiu com a morte de um dissidente, encanador por profissão, que faleceu em decorrência da greve de fome que adotou na prisão. O ex-torneiro mecânico que preside o Brasil deve ter se identificado com o drama, pois usou o mesmo método quando foi encarcerado pela ditadura militar brasileira. À parte as diferenças ideológicas, todos os regimes autoritários se parecem em sua truculência e desrespeito à dignidade básica do ser humano.

Nesta semana comecei a lecionar a segunda versão do curso sobre Ditadores Contemporâneos, agora para o MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. A aula inicial foi justamente sobre Cuba, e comentei sobre os acontecimentos recentes relativos às violações de direitos humanos na ilha, como a “Primavera Negra”, a onda de prisões em massa contra os dissidentes. Mencionei o surgimento do movimento das “Damas de Branco” (foto), formado por mães e mulheres dos presos políticos e fiz a analogia com grupos semelhantes em outros países, como as Mães da Praça de Maio. Citei o escritor peruano Mario Vargas Llosa: “As mulheres são sempre as primeiras vítimas das ditaduras”. Mas talvez possam ser suas opositoras mais ferrenhas e eficazes.

Não é da política externa brasileira criticar países que violem direitos humanos, salvo raras exceções como as condenações ao golpe em Honduras e às tentativas na Venezuela e no Paraguai. Desde que as relações diplomáticas foram reestabelecidas com Cuba, durante a redemocratização do Brasil na década de 1980, nenhum presidente condenou o regime de Havana. A posição brasileira contrasta com as sanções adotadas pela União Européia após a Primavera Negra, e mesmo com as críticas efetuadas por alguns governos na Argentina e no México, embora estas tenham ocorrido como parte de uma estratégia de rejeitar a agenda diplomática terceiro-mundista e reforçar as reformas liberalizantes na economia.

Em sua visita a Cuba, o presidente Lula anunciou financiamento oficial brasileiro para reformar o porto de Mariel. Ironias da história. Trata-se do local por onde partiu uma geração inteira de emigrantes cubanos para os Estados Unidos, na década de 1980. O chamado “êxodo de Mariel” ocorreu sobretudo por razões econômicas e seus participantes hoje são parte importante da comunidade cubano-americana.

A economia de Cuba está novamente em dificuldades, sentindo os efeitos da crise internacional. A escassez de divisas levou o governo a adotar medidas que prejudicaram as empresas brasileiras, como retenção de dólares no país ou simplesmente calote de dívidas relativas a comércio exterior. Tal como na questão dos direitos humanos, o presidente Lula optou por ignorar o problema durante a visita.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Os Colegas de Fidel



A Revolução Cubana tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para escritores, e por difícil que seja pensar em uma abordagem original para o tema, ainda há possibilidades, como “Os Meninos do Dolores: os colegas de classe de Fidel, da Revolução ao exílio”, do jornalista americano Patrick Symmes.

Symmes partiu de uma velha foto em preto e branco que mostra duas centenas de adolescentes no pátio do colégio jesuíta de Dolores, em Santiago de Cuba, a escola mais tradicional da ilha, ao lado de sua instituição irmã em Havana. Por suas salas de aula passaram os herdeiros das grandes fortunas, como os Bacardi, filhos de profissionais de classe média em ascensão e os irmãos Castro - rebentos de um ex-soldado espanhol que enriqueceu como capataz das grandes empresas americanas. Desse microcosmo da elite cubana, Symmes pinta um panorama dramático e comovente das transformações da Revolução.

Quando os Castro estudaram por lá, na década de 1940, Cuba vivia sua breve primavera democrática. Os jesuítas eram, em grande medida, o que havia de mais progressista na educação da ilha, com sua ênfase no mérito, na ciência e no raciocínio crítico. Mas também eram limitados por preconceitos, como a exclusão de estudantes negros e um culto da disciplina que podia chegar à brutalidade. Fidel tivera que brigar com o pai para estudar no Dolores, que fascinava o rapaz pelo prestígio e pela qualidade das aulas. Nele se destacou como ótimo aluno, atleta entusiasmado e líder dos colegas. Inevitável que a memória tenda a ver no adolescente os sinais de sua vida posterior e vários dos entrevistados destacam o lado sombrio de Fidel, como seu autoritarismo, propensão à violência e pouca disposição ao diálogo. Me chama a atenção as inseguranças sociais que provavelmente sentiu: perto dos colegas era um caipira, sem a sofisticação de uma família culta, e deve ter tentado compensar as fragilidades pela postura macho-alpha.

As amizades que Fidel fez no Dolores entre famílias de elite foram fundamentais durante a Revolução, para estabelecer uma rede de contatos, informantes e de ajuda financeira que manteve seu movimento vivo mesmo nos piores períodos da repressão. Sua entrada triunfal em Havana foi recebida com entusiasmo pela maioria dos colegas, mas em cerca de dois anos quase todos já estavam contra o novo governo. O constante adiamento das eleições, a estatização da educação e a supressão do dissenso político o afastaram dos antigos amigos, e os mais ricos ainda tiveram terras e fábricas confiscadas. Muitos estiveram entre os primeiros a se exilar nos EUA e alguns tomaram parte das conspirações que culminaram na fracassada invasão da Baía dos Porcos – um dos pontos altos do livro é a narrativa da batalha mais acirrada do conflito, pela ótica de um rapaz que lutou com os anti-castristas.

O retrato feito por Symmes da diáspora cubana em Miami é o de um exército quixotesco que viu ruir todos os seus sonhos e planos, e vive no limbo entre a cultura americana e uma Cuba de nostalgia que não mais existe. Alguns raros ex-alunos do Dolores permaneceram na ilha, e sua situação é mais dramática: experimentam na pele as agruras da vida no “período especial”, a brutal crise econômica que se seguiu ao colapso da URSS. A foto dos meninos do Dolores pode ser só um retrato na parede – mas como dói!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O Groucho-Marxismo de Cuba na OEA



Na semana passada os países da América Latina comandaram votação na Organização dos Estados que autoriza o retorno de Cuba à instituição. O país estava suspenso desde 1962, quando seu governo se declarou marxista. No, entanto, Havana recusou a oferta, afirmando que a OEA é um “ministério das colônias ianques”. Para ficarmos com a ideologia dos Marx, de Karl para Groucho: aquele que não entrava para clubes que o aceitavam como sócio.

Meu palpite é que as razões da recusa cubana estão no medo do regime de que seus dissidentes usem contra o governo os instrumentos da OEA, como a Carta Democrática e a Corte Interamericana de Direitos Humanos (que permite aos cidadãos apresentarem petições contra suas autoridades nacionais). No contexto atual, voltar à OEA provocaria riscos para a estabilidade política do país, num momento delicado em que por conta da crise voltam restrições econômicas, como racionamento de energia elétrica.

A OEA foi criada no início da Guerra Fria, na mesma lógica que levou os Estados Unidos a lançarem alianças regionais semelhantes na Europa, Ásia e Oriente Médio (OTAN, Seato, Pacto de Bagdá etc). Embora a retórica afirmasse a primazia da democracia, muitas vezes a organização apoiou ditaduras e golpes de Estado, e sempre se mostrou uma dócil ferramenta da política externa americana.

Isso começou a mudar na década de 1980, quando o diplomata brasileiro João Clemente Baena Soares foi secretário-geral da OEA e encontrou um importante nicho de atuação nas negociações de paz na América Central, então dividida entre ditaduras militares e guerrilhas de esquerda. Mais recentemente, a eleição do político chileno José Miguel Insulza tornou a OEA um fórum crítico às políticas dos Estados Unidos na região, em particular nos conflitos andinos, como as crises entre Colômbia e Venezuela.

O moral da História talvez seja o de que a participação na instituição ajuda a causa da democracia, e o isolamento, contribui para a permanência de regimes autoritários. Nesta perspectiva, vale a leitura do artigo que o embaixador Rubens Ricupero publicou no último domingo, no qual relembra a proposta do chanceler brasileiro, San Tiago Dantas, de uma solução alternativa para a crise que culminou com a suspensão de Cuba da OEA. San Tiago:

... percebeu que o isolamento e as sanções contra Castro apresentavam o mais grave defeito de qualquer política, a de ser contraproducente, tornando inevitável o que desejava evitar: a consolidação da influência soviética. (...) San Tiago não desistiu e continuou a insistir na sua proposta de “finlandização” de Cuba, isto é, um acordo pelo qual os americanos aceitariam a opção marxista de Havana em troca da neutralização da ilha nas questões políticas e estratégicas da Guerra Fria. Da mesma forma que ocorrera com a Finlândia em relação à URSS de Stalin após a guerra.

Nos livros de auxiliares de Kennedy, menciona-se o interesse que a proposta despertou. A fórmula de San Tiago teria poupado ao mundo a crise dos mísseis de outubro de 1962, o mais perto que se chegou do aniquilamento nuclear durante a Guerra Fria. Pena que a ideia fosse racional demais para o estágio de amadurecimento de americanos e cubanos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Obama e Cuba: um novo começo?


Há algumas semanas o IBASE me convidou para escrever uma coluna sobre temas ligados à América Latina. O primeiro texto da série é este, que trata das relações entre Estados Unidos e Cuba.

***


Barack Obama venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos com promessas de mudança e, na política externa, com o compromisso de retomar o diálogo com inimigos históricos como Irã e Cuba.

No que diz respeito à ilha caribenha, tais expectativas tiveram suas primeiras expressões no discurso em que Obama propôs “um novo começo” na relação diplomática, em conjunto com a implementação de medidas que facilitam às famílias cubanas residentes em território estadunidense visitar Cuba e enviar dinheiro para seus parentes que vivem por lá. Apesar do início promissor, permanecem dúvidas sobre se haverá disposição ou condições para terminar com o embargo econômico à ilha e reintegrar Cuba à Organização dos Estados Americanos, da qual está suspensa desde 1962.

Para além das novas ideias trazidas por Obama, as mudanças na diplomacia estadunidense são explicadas por diversas razões: as transformações recentes na economia cubana, a vitória da esquerda em diversos países da América Latina e as mudanças na própria comunidade cubano-americana. Esse conjunto de fatores têm tornado as posições dos Estados Unidos em relação à ilha cada vez mais isoladas e de difícil permanência diante de atores internacionais mais ágeis, como União Europeia, China e Canadá.

O “Período Especial” do Pós-Guerra Fria

Quando a União Soviética e os regime socialistas da Europa Oriental entraram em colapso, entre 1989 e 1991, muitas pessoas acreditaram que o mesmo aconteceria em Cuba. Afinal, o país dependia desses aliados para vender sua produção de açúcar e tabaco a preços mais elevados do que os do mercado, e para importar produtos industriais e combustível a custo reduzido.

O fim do bloco soviético lançou a economia cubana numa séria crise, conhecida como “período especial em tempos de paz”, que durou, oficialmente, de 1991 a 2005. Durante essa época, o PIB da ilha caiu 36%, as exportações, 47% e as importações, 70%. Pobreza e desemprego, de taxas irrisórias, saltaram para 20% e 10%, respectivamente.

O governo reagiu com um pacote de austeridade, racionando gêneros básicos e abrindo a economia à iniciativa privada, tanto cubana quanto estrangeira. Contudo, a liderança da ilha havia aprendido com os erros da União Soviética e optou por reformas mais moderadas e controladas, à semelhança daquelas implementadas pela China e pelo Vietnã. As empresas estrangeiras foram convidadas a se instalar em Cuba, mas sempre em joint-ventures com o Estado – cada sócio responsável por 50% do empreendimento. As autoridades também decidiram abandonar setores em que não era mais possível competir com os rivais estrangeiros, como na tradicional indústria do açúcar, que havia ficado defasada diante das inovações tecnológicas do agronegócio brasileiro e fora prejudicada pelo protecionismo agrícola da União Europeia.

As medidas do governo cubano foram bem recebidas internacionalmente e diversas firmas se interessaram em fazer negócios na ilha. Os conglomerados turísticos espanhóis investiram em hotéis de luxo, as mineradoras canadenses, na extração de níquel, as estatais chinesas multiplicaram por seis a produção de petróleo cubano. A economia voltou a crescer, com o turismo superando o setor açucareiro como o mais importante. Novos segmentos, como a biotecnologia, também prosperaram.

Os Estados Unidos perderam a oportunidade de dialogar com as mudanças. A comunidade cubano-americana se negou a entrar em entendimentos com Fidel Castro e suas pressões foram ouvidas em Washington. Esse importante segmento populacional está concentrado na Flórida – um dos maiores colégios eleitorais estadunidenses, e ainda por cima um “swing state”, isto é, estado que ora vota com republicanos, ora com democratas, sendo cortejado por ambos os partidos.

Tal atenção resultou nas leis Torricelli e Helms-Burton, ainda mais duras e restritivas para regular as relações com Cuba. O caso Elián, no qual um menino sequestrado pela mãe cubana (que tentou emigrar para os EUA e morreu na travessia) foi devolvido ao pai, que vive na ilha, tensionou ainda mais a agenda entre os dois países.

Cuba no novo cenário latino-americano

A partir do fim da década de 1990, partidos e movimentos de esquerda começaram a vencer as eleições em diversos países da América Latina. O resultado foi uma onda eleitoral progressista que deu a Cuba o cenário regional mais favorável desde a Revolução. A relação mais importante é com a Venezuela de Hugo Chávez, com a qual a ilha estabeleceu acordos que garantem segurança energética em troca de serviços sociais, sobretudo ajuda médica.

Melhor disposição política favoreceu os negócios e, atualmente, cerca de 40% do comércio exterior cubano se dá com os demais países latino-americanos, recorde histórico e ruptura para um país cujas exportações tradicionalmente se destinavam aos mercados de fora do hemisfério. Os novos aliados e clientes regionais querem Cuba de volta à Organização dos Estados Americanos, ao Grupo do Rio, à Cúpula das Américas e às outras instituições do sistema interamericano.

Enfim, as mudanças também chegaram à Flórida. Está em curso uma alteração geracional na liderança da comunidade cubano-americana. Os homens e mulheres mais velhos, que haviam vivido na Cuba pré-revolucionária, morreram ou se afastaram da política, sendo substituídos por uma ala jovem mais pragmática, sem memórias diretas da ilha antes de Fidel, de agenda focada nas oportunidades de negócios perdidas para a União Europeia, China e América Latina por conta do anacrônico embargo econômico que herdaram da Guerra Fria. Eis a base eleitoral que impulsiona o discurso renovador de Obama.

A ironia da história é que Cuba nunca precisou tão pouco dos Estados Unidos. Com suas reformas econômicas e novos aliados internacionais, a ilha recuperou a prosperidade. Raúl Castro afastou a assessoria tecnocrática que havia realizado as mudanças para o irmão, e colocou em seu lugar oficiais militares mais confiáveis politicamente, embora menos propensos a transformações ousadas. É questionável que essa liderança política mostre entusiasmo por negociações arriscadas com os Estados Unidos, contra o qual pesam longas décadas de desconfianças e inimizades.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O Che de Soderbergh


Como diz meu amigo Douglas, cada um tem seu Personal Che. O do cineasta americano Steven Soderbergh é curiosamente conservador e parece ter permanecido como nos pôsteres da década de 1960. A primeira parte de seu épico sobre o revolucionário argentino é baseada nos diários do próprio Guevara sobre o período da guerrilha em Sierra Maestra, e intercala cenas da epopéia da Revolução Cubana com um discurso de Che na Assembléia Geral da ONU, em 1964. Cinquenta anos após o triunfo dos barbudos, já é hora de um olhar menos reverente sobre o mito.

Benicio del Toro interpreta Guevara com paixão que assemelha a uma possessão religiosa, e merece plenamente o prêmio de melhor ator que conquistou em Cannes. Rodrigo Santoro (não, não, nenhum parentesco com este blogueiro!) está bem como Raúl Castro, um papel pequeno mas importante para o enredo. Já Deminán Bichir, que vive Fidel, se parece tanto com Vittorio Gassman que a qualquer momento eu esperava que soasse a marcha do Incrível Exército de Brancaleone.

A alusão à ótima comédia de Mario Monicelli não é à toa. A guerrilha em Sierra Maestra pode ser narrada de várias formas, e quem leu o excelente diário de Raúl Castro sobre o conflito sabe o quanto de bom humor brancaleônico havia nos jovens combatentes, mesmo diante das situações mais difíceis como morte e fome. Nada assusta muito quando temos 20 anos, não é mesmo? Os cineastas italianos são mestres em aplicar a ironia para uma visão mais terna e humana dos conflitos políticos, e Ettore Scola deu uma boa ajuda a Walther Salles JR. como consultor do roteiro de "Diários de Motocicleta", talvez o filme mais doce e poético já feito sobre a formação de um líder revolucionário.

Contudo, a opção de Soderbergh excluiu inteiramente o humor. Seu Che parece um homem de aço forjado nos cânones do realismo socialista. Em todos os momentos do filme ele é determinado, honesto, incorruptível, duro, fazendo o que tem que ser feito - seja atender camponeses doentes e miseráveis, executar desertores, tratar prisoneiros com humanidade ou combater. Há uma cena que poderia estar na série Rambo, na qual ele toma uma bazuca de um guerrilheiro que não consegue operá-la direito, a coloca nos próprios ombros, e explode um posto do Exército cubano. Tudo muito macho man.



Guevara deixou a primeira esposa no México, antes de partir para a guerrilha, e teve uma vida amorosa bastante ativa na Sierra. Esse aspecto não é retratado no filme, embora o enredo mostre como ele conheceu Aleida, que se tornaria sua segunda mulher, e como ela se tornou sua assistente durante a Revolução.

O aspecto político do filme é bastante bem trabalhado, com mais precisão do que em qualquer outra obra de ficção que eu conheça. Vemos Fidel articulando a luta armada com os movimentos de oposição ao ditador Fulgêncio Batista, numa difícil articulação que mistura operações guerrilheiras, greves gerais, trabalho clandestino e negociações delicadas. Nestes tempos em que o Exército dos EUA debate exaustivamente táticas de contrainsurgência, talvez "Che" possa ser exibido como aula cinematográfica sobre ataques guerrilheiros. Nesse sentido, é bom ver a representação de importantes momentos da história latino-americana, como a batalha de Santa Clara, célebre pelo ataque dos guerrilheiros ao trem blindado de Batista. Ainda que eu ache que tudo tenha ficado um tanto confuso em cena.

Na realidade, esta é apenas a primeira parte de um filme que ficou longo demais para ser lançado de uma só vez, portanto é interessante esperar e ver como Soderbergh irá tratar de Guevara após a conquista de Havana e suas tentativas (Brancaleônicas? Quixotescas?) de levar a revolução ao Congo e à Bolívia. De qualquer modo, terei o filme em mente amanhã, quando darei uma aula sobre Cuba no pós-Guerra Fria, no MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Um Olhar sobre Cuba e Obama


Há alguns dias escrevi por aqui sobre a reforma ministerial de Raúl Castro em Cuba, se é que o termo não é simplesmente um eufemismo para seu movimento de afastar os tecnocratas reformistas e substituí-los por comunistas veteranos, de sua confiança. Agora leio uma belíssima análise sobre as expectativas do governo cubano com relação a Obama. Havana não está entusiasmada com o novo presidente dos Estados Unidos, porque acredita que seus ganhos diplomáticos em outros tabuleiros - América Latina, União Européia, China e Rússia - superam em muito eventuais concessões que teriam que ser feitas para consolidar a abertura em Washington.

O exame da situação em Cuba é feito pela historiadora americana Julia Sweig, autora de um clássico sobre a Revolução de 1959 e uma intérprete arguta das transformações recentes na ilha. Ela chama a atenção para como a questão cubana ganhou novamente proeminência na agenda diplomática latino-americana, com os países da região renovando esforços para trazer Cuba de volta ao sistema interamericano. O governo Obama sinalizou boa vontade e enviou projeto de lei ao Congresso facilitando remessas de dinheiro e visitas à ilha por parte dos exilados cubanos que vivem nos Estados Unidos. Além da óbvia importância humanitária das medidas, pode ser o primeiro passo no relaxamento do embargo econômico que os EUA impuseram ao país. Hoje, tantos anos após a Guerra Fria, é não somente um anacronismo, mas um desperdício de oportunidades de negócios para as empresas americanas. O setor turístico cubano, por exemplo, virou um importante investimento para as redes hoteleiras espanholas.

Com euros, yuans, bolívares e rublos fluindo para Cuba, não é de espantar que a liderança política em Havana se sinta pouco disposta a mostrar boa vontade diante do velho inimigo. Contudo, Julia Sweig atenta para o impacto duplo da crise econômica e de uma temporada de furações de força inusitada, que causou danos estimados em 20% do PIB cubano. Nessa conjuntura, a instransigência não é boa opção, se é que funciona em algum momento... Minha curiosidade é como o governo cubano irá negociar com os Estados Unidos diante da demissão de alguns de seus diplomatas mais experientes e bem-sucedidos. Colocar algum guerrilheiro de barbas brancas para executar a missão é uma escolha esdrúxula em comparação aos excelentes profissionais afastados por Raúl Castro.

A historiadora reforça as análises que apontam para a importância crescente dos militares no governo cubano. Claro, o próprio Castro foi ministro da Defesa por décadas, e seus homens de confiança estão nas Forças Armadas. Mas há mais em jogo, como Julia Sweig ressalta ao frisar o peso econômico dos militares, que controlam diversas empresas e projetos de cooperação internacional. Acrescento que, em contextos de instabilidade e incerteza, a disciplina das Forças Armadas deve soar muito atraente para uma liderança política cada vez mais insegura diante de um mundo em rápida transformação.

Com certeza, preciso ler mais sobre o tema dos militares na Cuba contemporânea, e há à disposição alguns livros que parecem bem interessantes. Em junho, devo aproveitar o congresso da Latin American Studies Association para me abastecer de novidades.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Mudanças em Cuba (ou a falta delas...)


Raúl Castro já está no poder há quase três anos e após tímidas medidas liberalizantes, realizou sua primeira reforma de vulto: afastou 11 ministros, incluindo alguns dos principais colaboradores do irmão, como Carlos Lage e Felipe Pérez-Roque (foto). Ambos são jovens para os padrões da liderança cubana, fazem parte da geração que nasceu após a Revolução de 1959 e têm formação profissional mais tecnocrática.

É a maior reestruturação já ocorrida na cúpula do regime cubano. Uma das interpretações é que Raúl está substituindo os favoritos de Fidel por seus próprios apadrinhados, sobretudo militares que serviram com ele na guerrilha de Sierra Maestra ou durante as longas décadas em que comandou as Forças Armadas.

Nesse sentido, parece mais o retorno da velha guarda do que renovação generacional. Os ministros afastados por Raúl pertenciam ao chamado Grupo de Apoio, uma espécie de Estado-Maior de Fidel. Lage, por exemplo, foi o principal articulador das reformas de abertura econômica durante o “período especial” que se seguiu ao colapso da União Soviética, e era o vice-presidente. Pérez-Roque liderou os esforços diplomáticos da ilha durante dez anos, conseguindo ganhos notáveis como a aproximação com a União Européia, China e Venezuela.

Os irmãos Castro são sempre extremamente cuidadosos em se mostrar publicamente de acordo um com ou outro. Fidel deu declarações bombásticas apoiando Raúl e esculhambando com os antigos colaboradores. Eles, no estilo clássico da burocracia comunista, publicaram cartas de arrependimento e auto-crítica, pedindo desculpas por terem falhado com a Revolução. Como Cuba não é a URSS de Stálin, não irão para a Sibéria, mas provavelmente curtirão o tédio (relativo) de uma aposentadoria à beira do Caribe. Há destinos piores.

O ritmo das reformas de Raúl já estava lento antes das demissões em massa. Penso que com o afastamento do ministério o atual chefe do governo cubano quis dar um recado: o de que ele é quem decide a velocidade e profundidade das mudanças. Que cedo ou tarde, terão que acontecer. Mas o perfil ideológico e biográfico de Raúl e de seus companheiros aponta para uma postura muito, muito restrita diante de qualquer transformação de maior vulto. Será uma pena se isso significar a perda da oportunidade histórica de abertura com os Estados Unidos, como tem indicado o governo Obama.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O Homem que Inventou Fidel




Aconteceu em fevereiro de 1957, durou três horas, mudou a vida dos envolvidos, e quem sabe a própria História. O veterano jornalista Herbert Matthews despistou o Exército cubano e entrou na Sierra Maestra, onde entrevistou Fidel Castro, o líder da pequena guerrilha que tentava derrubar a ditadura de Fulgencio Batista. Matthews foi o primeiro repórter a falar com ele depois do início da luta armada, desmentindo a versão governamental de que havia morrido em combate. Rendeu a primeira página do New York Times, transformando Fidel numa celebridade internacional.

Essa é a parte mais conhecida da saga, mas o jornalista Anthony DePalma nos conta mais em seu livro - “O Homem Que Inventou Fidel – Cuba, Fidel e Herbert L. Matthews do New York Times”. Basicamente, como o velho repórter foi seduzido ideologicamente pelo líder guerrilheiro e passou a advogar sua causa e a da Revolução Cubana junto à opinião pública americana, numa atitude que destruiu sua carreira à medida que se radicalizaram as relações entre Washington, Havana e Moscou.

Matthews tinha décadas de experiência a serviço do New York Times quando conheceu Fidel, mas também havia demonstrado perigosa tendência em simpatizar demais com os países/grupos políticos que cobria. Nos anos 30, com o Japão e a Itália fascista. Na Guerra Civil Espanhola, com os republicanos. Escrevia reportagens e editoriais sobre a América Latina quando Cuba começava a se tornar um tema importante, e a correspondente local, Ruby Phillips, era próxima ao regime de Batista, ou simplesmente acomodada demais à sua velha rotina para desafiar as fontes oficiais.

Em 1957 os rebeldes mantinham uma pequena guerrilha na Sierra Maestra e um amplo movimento clandestino nas principais cidades da ilha. A entrevista com Matthews foi um sensacional golpe publicitário. O jornalista descreveu Castro como um Robin Hood ou George Washington, dizendo que ele implantaria uma versão cubana do New Deal. Nos meses seguintes, defendeu Fidel daqueles que o acusavam de ser comunista, ou de ser tolerante com colaboradores dessa ideologia, como seu irmão Raúl e Che Guevara.



Entre 1957 e 1959, Matthews foi crucial para angariar a simpatia da opinião pública, e mesmo de vários segmentos da burocracia americana, para a Revolução Cubana. A lua-de-mel dos EUA com o barbudo foi curta. Poucas semanas após sua tomada do poder, começaram as críticas em função dos fuzilamentos e dos primeiros confiscos de propriedades de empresas americanos. Depois vieram a frustrada invasão da ilha, orquestrada pela CIA na Baía dos Porcos, a entrada de Cuba na órbita da URSS, a crise dos mísseis e o início do embargo.

A defesa de Fidel por Matthews foi se tornando cada vez mais impopular. Ele passou a ser vigiado pelo FBI, investigado pelo Congresso, ameaçado e agredido por opositores de Castro, ridicularizado pelos colegas e terminou se indispondo com a direção do New York Times, que o manteve no jornal, mas parou de publicar seus textos. Sobraram poucos amigos – Ernest Hemingway, seu admirador desde a guerra da Espanha, universidades como Stanford, pequenas publicações de esquerda.

Matthews foi considerado herói da Revolução Cubana, homenageado por Fidel. Contudo, Castro o humilhou numa cerimônia, contando uma história – quase com certeza, inventada – de que teria enganado o jornalista fazendo suas parcas tropas marcharem em círculos, para dar a impressão de serem mais numerosas. O que parece ter ocorrido foi outro truque: os guerrilheiros falavam em novidades da “segunda coluna”, quando à época só havia uma. E se vangloriavam de armas e recursos que não tinham. Matthews acreditou neles.

O livro de DePalma tem uma história curiosa. Ele é repórter do New York Times e foi encarregado do obituário de Fidel, para a alegria de sua esposa, uma exilada cubana. Na pesquisa, ficou fascinado com Mattews. Chega a apontá-lo com o percursor do jornalista partidário que se tornou popular nos EUA atuais, como os apresentadores de talk radio. Ok, isso não é elogio. Mas daria uma bela reflexão num curso sobre mídia e relações internacionais, que talvez eu lecione algum dia...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Panorama de Cuba



Ao longo do meu trabalho em cooperação internacional, aprendi a admirar as fundações partidárias da Alemanha, que atuam na América Latina com grande competência e capacidade de análise. Um exemplo desse enfoque é a revista Nueva Sociedad, editada pela Fundação Friedrich Ebert, cuja edição atual é dedicada à situação de Cuba sob Raúl Castro. São 11 artigos, dos quais extraí as informações que cito neste post.

Comecemos pela economia. Cuba conseguiu deixar para trás o chamado “período especial”, a severa crise provocada pelo fim do bloco soviético. Os efeitos foram terríveis para a ilha: o PIB caiu 35%, as exportações, 47% e as importações, incríveis 70% - o que explica a escassez material que vi na minha visita ao país, em 2001.

De lá para cá, Cuba se reergueu com a ajuda de alguns amigos: Venezuela e China, mas também Canadá e os países da União Européia, sobretudo a Espanha. Os principais investimentos estrangeiros têm sido na área da mineração, petróleo, telecomunicações e turismo. Isso mostra o novo perfil econômico cubano, centrado em serviços e em exportações minerais, em particular de níquel. A produção petrolífera se multiplicou por seis desde 1990, algo fundamental para um país que historicamente sofreu de forte escassez de combustível.



Apesar das melhorias, vários problemas persistem na economia. A desigualdade aumentou na medida em que apenas alguns cubanos têm acesso aos dólares dos turistas, contudo o índice Gini cubano é de 0,38, melhor do que o dos Estados Unidos e comparável aos dos países latinos da Europa. Raúl Castro tem acenado com concessões para essa nova classe média, é esse o sentido da recente abertura para importar eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos.

Mais preocupante é a situação agrícola. A produção de alimentos caiu muito, em alguns setores para metade do que havia sido. O resultado é uma perigosa dependência de importações, em momento de alta nos preços agrícolas. Isso explica porque Raúl Castro tem apostado na privatização das fazendas coletivas, e analistas sugerem que ele aplique o modelo chinês de dar mais autonomia produtiva aos municípios. As reformas têm sido limitadas, quase 80% da economia continuam sob controle estatal.

Outra transformação significativa é na indústria do açúcar, que sofreu bastante nos últimos anos com a falta de capital e a perda de mercados internacionais. O governo começou a fechar usinas e os planos são de manter abertas apenas 40 instalações, de um total que já foi de quase 180.



Internacionalmente, Cuba está menos isolada. Além da supra-citada aliança com Venezuela e China, a União Européia suspendeu as sanções que havia adotado quando o regime cubano prendera dezenas de dissidentes, no início da década. Ferramentas tradicionais da diplomacia de Havana, como o envio de médicos para países em desenvolvimento, continuam a pleno funcionamento: são cerca de 30 mil profissionais de saúde atuando em 70 países, além de 10 mil estudantes estrangeiros nas escolas médicas de Cuba (acima, foto do projeto venezuelano Barrio Adentro, que coloca médicos cubanos em favelas e bairros pobres). O mais impressionante é que o país começou a investir em pesquisa biotecnológica na Ásia, em parcerias com China e Malásia.

Infelizmente, o número especial da Nueva Sociedad não trata das questões relativas à democracia e aos direitos civis e políticos. Eu gostaria de ter mais detalhes sobre a ação de iniciativas de oposição ao regime de Raúl Castro, como o Projeto Varela, e quero entender o padrão da nova leva de migração, que já começou a ser comparada ao célebre êxodo de Mariel, da década de 1980. Me pergunto também se a Rússia ressurgente que começa seu retorno ao Caribe venezuelano não irá buscar algum tipo de envolvimento com seu antigo aliado, hipótese que me parece bastante possível, dado interesses comuns na área de energia.