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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Os Dominós Democráticos na África

Há poucas semanas escrevi neste blog sobre o golpe no Mali e uma série de colapsos democráticos na África Ocidental, envolvendo também Níger, a guerra civil na Costa do Marfim e a crise política no Senegal. Infelizmente a situação piorou, com a deposição do governo da Guiné-Bissau em mais uma intervenção militar na política africana. O país está no segundo turno da eleição presidencial, após a morte (por causas naturais) do ex-mandatário, em janeiro. O presidente interino e o principal candidato ao cargo estão desparecidos.

Mali e Senegal são – ou eram – bastiões de estabilidade na região e as crises nesses países surgiram como ilustração de uma tendência preocupante: se até eles enfrentam problemas sérios, o que dirá das outras nações. A Guiné-Bissau é um caso extremo de instabilidade. Desde a independência de Portugal, em 1975, nenhum de seus presidentes conseguiu completar o mandato. Nos últimos três anos, houve seis assassinatos de dirigentes políticos, civis e militares. É um Estado muito frágil e que se transformou em um problema de segurança internacional, pois vem sendo usado com frequência por traficantes que levam drogas da América Latina para a Europa.

A Economist publicou um excelente quadro da democracia na África – do qual foi extraído o mapa abaixo - no qual afirma que a situação das liberdades civis e políticas é um “copo meio cheio”, com avanços consideráveis no Cone Sul e em países como Tunísia, Gana e Benin. É uma interpretação válida, mas a meu ver a conjuntura é mais sombria e exige atenção aprofundada pelos desdobramentos internacionais das crises domésticas.

No Mali, o caos político resultante do golpe favoreceu os rebeldes beduínos no norte do país, que proclamaram um Estado independente. A organização sub-regional da África Ocidental, Ecowas, ameaçou com uma intervenção militar contra os golpistas, pressionando por um acordo político, mas o desfecho da crise ainda não está claro.

Os golpistas na Guiné-Bissau também enfrentam resistência da Ecowas, e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa manifestou-se duramente contra o golpe. O Brasil, aliás, acordou com os Estados Unidos patrulhas navais conjuntas próximas ao litoral do país, para combater a pirataria.

No Egito, os passos iniciais da disputa presidencial estão confusos e turbulentos, como era de se esperar. O ex-chefe da polícia política da ditadura Mubarak, general Osmar Suleiman, lidera as pesquisas e a junta militar que governa o país tem vetado as candidaturas dos principais concorrentes – inclusive a do próprio Suleiman, vista mais como uma ambição pessoal do que como a representação dos interesses das Forças Armadas.

sexta-feira, 23 de março de 2012

De Volta à Era dos Golpes na África?

A era dos golpes militares está de volta? Nesta semana, o presidente do Mali foi deposto num movimento comandado por um capitão. Nos últimos meses, acontecimentos semelhantes ocorreram no Niger e nas ilhas Maldivas. Ainda é cedo para afirmar se estamos diante de uma tendência ou se é meramente o reflexo dos tempos turbulentos da crise econômica e até da Primavera Árabe. Sim, pois no caso do Mali, houve uma participação importante de mercenários que lutaram ao lado de Kadafi na Líbia e que voltaram ao país natal com armas, recursos e ambições de poder.

O presidente do Mali, Amadou Touré, deixaria o cargo em breve, após as eleições de abril. Ele foi acusado pelo líder dos golpistas, capitão Amadou Sanogo, de não ter apoiado suficientemente o Exército na luta contra rebeldes beduínos no norte do país. A insurgência é de fato forte e nas últimas semanas tinham ocorrido conflitos com soldados veteranos do conflito, que haviam protestado pelo tratamento que receberam. Contudo, o descontentamento com a guerra parece ser simplesmente um pretexto, até pela proximidade de Touré sair da presidência.

A situação no país está muito tensa, com os golpistas saqueando prédios públicos, lojas e residências particulares. O presidente deposto está desaparecido, aparentemente fugiu para não ser morto. Ele é general da reserva e havia dado um golpe na década de 1990, embora tenha sido importante na transição do Mali para a democracia. Curiosamente, o país era considerado um exemplo promissor na África. Há poucas semanas, quando visitei o Museu da Notícia em Washington, havia uma exposição sobre liberdade de imprensa situando o Mali como modelo para outras nações africanas.

A reação internacional tem sido ambígua: países como a França (ex-metrópole) e organizações internacionais como União Africana e Banco Mundial suspenderam a ajuda ao Mali, mas os Estados Unidos a mantiveram. Há rumores vindos dos próprios diplomatas americanos que o líder do golpe fez parte de uma unidade de elite enviada ao país para treinamento antiterrorismo. Não é difícil imaginar que ele irá se apresentar ao mundo como um campeão da luta contra a Al-Qaeda e outros grupos fundamentalistas. Os golpistas batizaram sua junta de “Comitê para Restaurar a Democracia e o Estado”, o que me leva a crer que pretendem permanecer um bom tempo no Palácio Presidencial...