
No sábado, nasceu um país. O Sudão do Sul é fruto de mais de 50 anos de guerras civis entre um amálgama de etnias majoritariamente cristãs e seus ex-conterrâneos árabes do Sudão. Calcula-se que esses conflitos tenham matado cerca de 3 milhões de pessoas. A nova nação é uma das mais pobres do planeta, ainda que rica em petróleo, e tem o desafio de consolidar relações com o norte, organizar coalizões dos povos que a compõem e construir instituições a partir dos grupos guerrilheiros que conquistaram a independência.
O Sudão é o local de encontro dos dois Nilos, azul e branco, e foi incorporado ao império britânico ao fim do século XIX, principalmente por sua importância econômica para o cultivo do algodão, matéria-prima essencial à revolução industrial e pela localização estratégica como um corredor ligando o Magreb à África Central. Os britânicos governaram o norte e o sul do país como entidades administrativas diferentes até quase o fim da colonização, que terminou na década de 1950.
O país está na linha de fissura que marca o limite do avanço árabe na África, e por séculos as etnias do sul foram escravizadas pelas do norte. Diferenças de cor da pele e de religião agravaram as disputas econômicas, como o controle dos poços de petróleo, que se situam sobretudo no sul. O crescimento do fundamentalismo islâmico nortista, na década de 1990, foi outro fator que levou ao recrudescimento da guerra contra o sul e ao genocídio no oeste, em Darfur.

Lidar com as duas crises simultaneamentes foi demais para as organizações internacionais e na prática Darfur foi sacrificada em nome do entendimento entre norte e sul. Um acordo de paz em meados da década de 2000 abriu caminho para a missão de paz da ONU no país e para o referendo que culminou com a independência, no sábado.
É um caso raro de país africano que passou por secessão territorial – tentativas anteriores, como a rebelião de Katanga no Congo e de Biafra na Nigéria, terminaram na derrota dos insurgentes. O precedente é perigoso, pois é uma divisão apoiada por grandes potências, em nação rica em petróleo, que termina com derrota dos árabes. É perfeitamente possível imaginar cenários semelhantes em Estados como Líbia (separação da Cirenaica) ou Angola (o enclave de Cabinda).
Ao longo do último ano, tive o prazer de acompanhar os acontecimentos no Sudão por meio de meu ex-aluno Flávio Américo do Reis, capitão do Exército brasileiro, que serviu na missão da ONU no país. O Flávio foi entrevistado pelo jornal O Globo no fim de semana e fez uma análise muito rica da situação, apontando os desafios do país que nasce em meio a tanto sofrimento.
É possível que a perda do sul signifique também o aumento dos protestos democráticos contra o general Omar Bashir, o general que governa o norte. Há mandado de prisão contra ele, expedido pelo Tribunal Penal Internacional, pelo crime de genocídio em Darfur.