
O G-8 se reuniu em Áquila, na Itália, e tentou conjurar um feitiço: manter o prestígio de épocas passadas, e oferecer aos grandes países emergentes a honraria de se juntar às reuniões, como convidados especiais. O problema é que a magia já se dispersou. Sem a participação constante da China e da Índia, não é possível alcançar acordos sobre as mais relevantes questões globais, como ficou claro pelo fracasso de um compromisso para conter a mudança climática. Qual a lógica de excluir esses dois gigantes e manter, por exemplo, a Itália - que de tão desfuncional tem sua expulsão do G-8 cogitada pelos outros membros do grupo?
A agenda do encontro foi ambiciosa: crise econômica global, mudança climática, pacote de desenvolvimento para a África e esforços de concertação diplomática para lidar com os conflitos asiáticos (Irã, Coréia da Norte, Afeganistão e Paquistão). Ninguém questiona a relevância dos temas. O problema é que são melhor abordados em outros fóruns, mais amplos, como o G-20, a OTAN, a COP-15 em Copenhague etc. O máximo que o G-8 conseguiu foi reafirmar compromissos adotados em outras instâncias, ou anunciar referenciais como a meta de evitar que a temperatura mundial se eleve acima de 2º C.
O símbolo mais expressivo da progressiva perda de influência do G-8 foi a saída repentina da China (que participava como convidada especial, junto ao Brasil, Índia, México e África do Sul) cujo presidente precisou retornar às pressas para o país, alarmado pela escalada da violência étnica na região de Xinjiang. Talvez a França tenha sido a nação do G-8 que melhor se adaptou ao novo cenário, propondo junto com o Brasil uma aliança pela mudança, para reformar as instituições de governança internacional. O presidente Lula, sempre adepto do soft power, distribuiu camisas da seleção brasileira de futebol. Obama parece não ter gostado muito, quiçá pelo resultado da Copa das Confederações...

O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi deu pausa em seus escândalos sexuais com prostitutas e modelos menores de idade e optou por realizar a cúpula do G-8 em Áquila, a cidade devastada por um terremoto há poucos meses. Deve ter sido uma tentativa de metáfora sobre retomada da recuperação econômica, mas acabou como um cenário adequado para um mundo em crise. Aliás, manifestantes locais aproveitaram para um criativo protesto sobre a falta de moradias e de apoio do governo para reconstruir suas casas: “Yes, we camp” (Sim, acampamos) faz um trocadilho com o slogan de campanha de Obama, “Yes, we can” (Sim, podemos).
Agora é esperar a próxima cúpula do G-20, em setembro, na cidade de Pittsburg, nos Estados Unidos. Provavelmente não haverá tanto bom humor, mas quem sabe as decisões sejam mais efetivas.










