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domingo, 17 de junho de 2012

Golpe e Eleições no Egito

Na semana passada, a Suprema Corte do Egito ordenou a dissolução do Parlamento e a junta militar que governa o país decretou medidas que restringem a possibilidade de manifestações contra o regime (como a possibilidade de prender ativistas por bloquear o trânsito). O novo Legislativo será nomeado pelas Forças Armadas e irá elaborar a Constituição do país. Ambas as iniciativas aconteceram às vésperas do 2º turno das eleições presidenciais que opõem o ex-primeiro-ministro da ditadura e um representante da Irmandade Muçulmana e significam o esforço das Forças Armadas em controlar a transição política, limitando os poderes dos partidos islâmicos que despontam como os principais grupos do país. É um golpe de Estado judicial.

Os diversos partidos religiosos formavam cerca de dois terços do Parlamento. A Irmandade Muçulmana, o maior deles, tem longa e contraditória relação com os militares que governam o Egito desde 1952. Já foram aliados, inimigos e nos últimos anos da ditadura Mubarak ensaiaram um pacto de não-agressão e um certo nível de colaboração, embora a entidade não pudesse, oficialmente, participar da política. A força que ela ganhou com a queda do regime levou a uma disputa feroz pelo poder.

O Egito tem um poder judiciário considerado razoavelmente independemente, mas isso não se aplica aos tribunais superiores, cujos juízes são indicações políticas do governo. Não é surpresa, portanto, que a Suprema Corte tenha ordenado a dissolução do Parlamento. Foi alegada uma obscura razão técnica, a respeito de artigos ambíguos na lei eleitoral, mas considera-se que o real objetivo é afastar os partidos islãmicos do Legislativo, que entre outras tarefas irá elaborar a nova Constituição do país.

Enquanto escrevo, ainda não há o anúncio do vencedor das eleições. As análises sobre a conjuntura política do Egito estão bastante sombrias, com estudiosos prevendo a deflagração de conflitos violentos pelo poder, inclusive uma guerra civil. É uma possibilidade bastante alta. Somando a ela os riscos das eleições na Líbia e a persistência da brutalidade na Síria e no Iêmen, temos o Oriente Médio mergulhado numa gravíssima situação, em meio à crise na Europa e nos Estados Unidos.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Um Voto pelo Egito

Na quarta e na quinta o Egito realizou a 1ª eleição presidencial livre de sua história de muitos milênios. Com cerca de 25% de toda a população árabe, é uma votação com grandes consequências para o Norte da África e para o Oriente Médio. Os resultados, porém, são preocupantes e apontam para um instável sistema político tripolar entre um presidente relativamente fraco, um parlamento dominado por uma coalizão de partidos islâmicos e as influentes Forças Armadas como o poder por trás do trono, fiadoras da estabilidade do país para as potências ocidentais.

A junta militar que governa o Egito desde a queda do regime autoritário vetou as candidaturas dos líderes mais expressivos, como o dirigente da Irmandade Muçulmana, Khayrat El-Shater, e o ex-chefe do serviço de inteligência, Omar Suleiman. As pesquisas eleitorais egípcias foram realizadas em condições precárias, sob censura e não são confiáveis, mas apontam para quatro favoritos entre os 11 candidatos: dois representam os remanescentes da ditadura Mubarak (“felools”) e os outros, as principais correntes da Irmandade Muçulmana. Provavelmente haverá 2º turno em junho.

Pelo lado do antigo regime, concorrem o general da Força Aérea Ahmed Shafiq, ex-primeiro-ministro de Mubarak, e Amr Moussa, ex-chanceler do ditador e posteriormente secretário-geral da Liga Árabe – cargo que exercia quando começaram as revoltas democráticas. O único episódio mais tenso da eleição foi uma agressão contra Shafiq – manifestantes anti-ditadura jogaram sapatos nele.

A Irmandade Muçulmana havia prometido que não iria disputar a presidência, mas rompeu com esse compromisso. Como a junta vetou seu líder, o grupo lançou Mohamed Morsi. Ele não é considerado um homem carismático ou inspirador, mas sua campanha foi conduzida de modo eficiente e profissional – talvez a melhor executada das eleições. O azarão da Irmandade é Abdel Fotouh, um ex-dirigente da organização que acabou expulso dela após anos de divergências com os colegas. Era bem mais crítico à ditadura do que a maioria deles, que firmaram uma série de pactos políticos com Mubarak. F tem sido criticado por ter montado uma coalizão entre islâmicos e liberais considerada insustentável no médio prazo.

Mubarak havia governado longas décadas sob uma Lei de Emergência revogada após a queda do regime e as funções do futuro presidente só serão definidas com a elaboração da nova Constituição. A Irmandade tem cerca de 50% do parlamento, e outros grupos islâmicos, mais 25%. Seja quem for o vencedor da eleição presidencial, terá que negociar com essa aliança. E, claro, independemente dos votos, as Forças Armadas continuarão a ser a instituição mais poderosa, rica e influente do país.

O Egito não é um país rico em petróleo ou minérios, mas continua a ser chave na política global por muitas razões: sua localização geográfica, a influência sobre a Faixa de Gaza e o Hamas, o tratado de paz com Israel, a presença do Canal de Suez e sua gigantesca capacidade de ter impacto sobre os acontecimentos nos demais países árabes. E tudo isso em meio a muitos, muitos problemas econômicos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Os Dominós Democráticos na África

Há poucas semanas escrevi neste blog sobre o golpe no Mali e uma série de colapsos democráticos na África Ocidental, envolvendo também Níger, a guerra civil na Costa do Marfim e a crise política no Senegal. Infelizmente a situação piorou, com a deposição do governo da Guiné-Bissau em mais uma intervenção militar na política africana. O país está no segundo turno da eleição presidencial, após a morte (por causas naturais) do ex-mandatário, em janeiro. O presidente interino e o principal candidato ao cargo estão desparecidos.

Mali e Senegal são – ou eram – bastiões de estabilidade na região e as crises nesses países surgiram como ilustração de uma tendência preocupante: se até eles enfrentam problemas sérios, o que dirá das outras nações. A Guiné-Bissau é um caso extremo de instabilidade. Desde a independência de Portugal, em 1975, nenhum de seus presidentes conseguiu completar o mandato. Nos últimos três anos, houve seis assassinatos de dirigentes políticos, civis e militares. É um Estado muito frágil e que se transformou em um problema de segurança internacional, pois vem sendo usado com frequência por traficantes que levam drogas da América Latina para a Europa.

A Economist publicou um excelente quadro da democracia na África – do qual foi extraído o mapa abaixo - no qual afirma que a situação das liberdades civis e políticas é um “copo meio cheio”, com avanços consideráveis no Cone Sul e em países como Tunísia, Gana e Benin. É uma interpretação válida, mas a meu ver a conjuntura é mais sombria e exige atenção aprofundada pelos desdobramentos internacionais das crises domésticas.

No Mali, o caos político resultante do golpe favoreceu os rebeldes beduínos no norte do país, que proclamaram um Estado independente. A organização sub-regional da África Ocidental, Ecowas, ameaçou com uma intervenção militar contra os golpistas, pressionando por um acordo político, mas o desfecho da crise ainda não está claro.

Os golpistas na Guiné-Bissau também enfrentam resistência da Ecowas, e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa manifestou-se duramente contra o golpe. O Brasil, aliás, acordou com os Estados Unidos patrulhas navais conjuntas próximas ao litoral do país, para combater a pirataria.

No Egito, os passos iniciais da disputa presidencial estão confusos e turbulentos, como era de se esperar. O ex-chefe da polícia política da ditadura Mubarak, general Osmar Suleiman, lidera as pesquisas e a junta militar que governa o país tem vetado as candidaturas dos principais concorrentes – inclusive a do próprio Suleiman, vista mais como uma ambição pessoal do que como a representação dos interesses das Forças Armadas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um Presidente da Irmandade?

Quando o general Mubarak renunciou no Egito, há pouco mais de um ano, a Irmandade Muçulmana anunciou que não iria apresentar candidato a presidente, tentando acalmar as pessoas que temiam a instalação de um regime fundamentalista no país. Dias atrás, a organização mudou de idéia e anunciou que irá disputar o cargo, por meio da candidatura de um empresário milionário, Khayrat el-Shater.

El-Shater integra a Irmandade desde os anos 70 e já esteve preso cinco vezes. Ele é um dos principais dirigentes da organização e uma figura-chave para as negociações da Irmandade com os ricos emirados do Golfo e com instituições econômicas internacionais. Sua escolha como candidato é lógica, o que merece explicação é por que a Irmandade mudou de atitude quanto a disputar a Presidência.

O grupo controla quase metade do novo parlamento e é a força política mais poderosa do país. Porém, enfrenta opositores bastante assustados com sua ascensão e que chegaram a falar na possibilidade de fechar o Congresso. As complexas relações com os militares também estão tensas, com os rumores de que o ex-chefe da inteligência da ditadura Mubarak irá disputar a presidência.

Outro fator importante é o risco de que não lançar candidato fragmentasse a Irmandade, pois muitos de seus ativistas deixaram a organização para apoiar o miliante islâmico Abdel-Moneim Abolfotoh, que também disputa a presidência. Ter um líder concorrendo ao cargo provavelmente irá unir os dissidentes em torno do nome de Shater.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Egito, Ano 1

Nesta quarta completa-se um ano da queda da ditadura de Mubarak no Egito, o mais importante país árabe. O balanço: as Forças Armadas continuam no governo e no poder, reprimindo de modo violento os manifestantes pró-democracia. Houve eleições parlamentares, com muito atraso, que resultaram na vitória de diversos partidos islâmicos, que controlam 72% do Legislativo. Com curiosas negociações com liberais e com o Exército, visando à criação de uma coalizão sólida. Os próximos passos são a elaboração da Constitução e a eleição de um novo presidente, um longo processo que só deve estar completado em 2013.

Transições de ditaduras para democracias são sempre complexas e o caso egípcio tem fatores que o tornam ainda mais difícil: uma delicadíssima posição na geopolítica do Oriente Médio e na segurança de Israel, a enorme força dos militares na economia, uma substancial minoria cristã e uma longa tradição de movimentos fundamentalistas, que remonta à década de 1920. Levando tudo isso em conta, pode-se fazer uma apreciação razoavelmente favorável dos desdobramentos do último ano. Os problemas eram esperados e o país segue no atribulado curso de sua transformação. É uma realização expressiva.

A Primavera Árabe mudou os governos da Tunísia, Egito e Líbia, com um acordo iminente no Iêmen. Levou a reformas expressivas na Argélia, Marrocos e Jordãnia, e deu novo alento ao movimento palestino por um Estado. As monarquias têm se mostrado mais estáveis e mais resistentes à mudança do que as repúblicas, e os reis e emires dos ricos Estados do Golfo conseguiram em grande medida passar imunes aos ventos revolucionários – com exceção dos soberanos do Bahrein, que se mantiveram no trono somente pela intervenção militar da vizinha Arábia Saudita.

A situação na Síria continua num impasse político entre Assad e a oposição, com crescente pressão internacional contra a ditadura do partido B´aath. Uma combinação significativa da Liga Árabe, da Turquia e da França tem dado apoio aos rebeldes (inclusive no campo militar, segundo as notícias) e tenta convencer a Rússia a abandonar seu principal aliado no Oriente Médio e aceitar sanções na ONU contra Assad. Difícil. Há risco de guerra civil na Síria.

Do ponto de vista da influência no Oriente Médio, está claro que a balança deste ano pende em favor da Turquia, cuja diplomacia tem mostrado extradorinário dinamismo, ousadia e coragem diante de um mundo em mudança turbulenta. Clique no link para ler estudo da Brookings sobre como ela e outras democracias emergentes (Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia) lidam com Primavera Árabe. O grande perdedor, sem dúvida, é o Irã. Sob pressão, acuado, enfrentando um embargo de 20% de seu mercado de exportações e correndo o risco de sofrer ataques militares de Israel e dos Estados Unidos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Egito: a praça, os quartéis, as mesquitas



Os protestos contra a junta militar que governa o Egito desde a queda da ditadura em fevereiro foram motivados pelas medidas autoritárias tomadas pelas Forças Armadas, como a prisão de cerca de 12 mil ativistas, tortura de vários deles, e o constantemente adiamento de eleições – as presidenciais podem ocorrer só em 2013. As manifestações desta semana resultaram em mais de mil feridos e 30 mortos, com um inédito pedido de desculpas da junta à população. Ministros civis do governo renunciaram e o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa (ex-chanceler de Mubarak) foi convidado para o posto de premiê. Este round foi vencido pelos movimentos pró-democracia, mas o desfecho segue incerto.

A Tunísia já realizou suas eleições legislativas e o novo parlamento, comandado por um partido islâmico moderado, elaborará a constituição democrática. A situação do Egito é mais complexa, porque as Forças Armadas que governam o país desde 1952 são maiores, mais poderosas e construíram um império econômico do qual não querem abrir mão. A força partidária mais relevante, a coligação comandada pela Irmandade Muçulmana, ocasionalmente protesta contra os militares, mas compartilha com eles o adversário comum: os novos movimentos sociais como o 6 de abril, nos quais os jovens têm papel de destaque.

As eleições parlamentares do Egito estão marcadas para começar no dia 28, e foram confirmadas apesar de rumores e solicitações para que fossem adiadas por uma ou duas semanas, em função dos problemas logísticos – o próprio ministro do Interior afirma que não pode garantir a segurança pública durante as votações. A nova lei eleitoral da junta é considerada consensualmente ruim e confusa, divide os distritos do país entre proporcionais com lista fechada (dois terços) e um modelo misto no qual podem concorrer candidatos independentes. As indefinições dificultam aos mais de 40 partidos elaborar estratégias coerentes para disputar votos e prejudicam em especial as novas siglas e movimentos, ainda em processo de consolidação. Favorecem, claro, o grupo mais antigo e bem-organizado: a Irmandade Muçulmana, fundada em 1928 e com ampla rede de mobilização e serviços sociais.

Ninguém duvida que a coligação islâmica seja a vitoriosa nas eleições, a discussão é quantos votos terá – especula-se que entre 40%-60% do total. O parlamento terá a tarefa crucial de elaborar a nova constituição democrática, mas a junta militar pressiona para que vários temas fiquem como “supra-constitucionais”, isto é, fora da alçada de deliberação democrática. A mais controversa é a proposta de que o orçamento de Defesa seja secreto.



A mobilização social no Egito tem sido impressionante e reuniu uma grande frente formada tanto por ativistas de classe média como por movimentos populares, como os sindicatos – cuja longa luta contra Mubarak foi importantíssima para a queda da ditadura. Isso criou contrapesos contra as medidas da junta militar, embora não tenha conseguido evitar a repressão política. Não ajuda que o comandante do grupo, marechal Hussein Tantawi (ironizado na foto que abre o post), tenha sido por 20 anos o ministro da Defesa do antigo regime.

Nenhuma transição democrática é fácil, e a do Egito certamente será mais difícil do que a da Tunísia. Em nome da estabilidade política, terão que ser feitos acordos com os militares, provavelmente com a garantia de que continuarão a desfrutar de parcela considerável do seu atual poderio econômico. E as Forças Armadas continuarão a representar para o Ocidente as fiadoras do processo de mudança, a garantia de última instância de que os fundamentalistas não tomarão o poder, de modo semelhante ao papel que desempenharam na Turquia e na Argélia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Olhares do Cinema sobre a Primavera Árabe



Em outubro, no Festival do Rio, assisti a dois excelentes filmes sobre a Primavera Árabe: o documentário “Tunísia: o fim do medo” e a coletânea de curta-metragens de ficção “18 Dias no Egito”. A trajetória dos dois países está intensamente interligada. Suas ditaduras foram derubadas com poucas semanas de diferença e o mesmo ocorre agora com suas primeiras eleições legislativas livres. A tunisiana foi em outubro, a egípcia será no dia 28.

O documentário sobre a Tunísia foi dirigido por Mourad Ben Cheikh e é uma co-produção com a emissora Al-Jazeera, importantíssima como fonte de notícias críticas sobre o Norte da África e o Oriente Médio, e para criar ou fortalecer o senso de identidade pan-árabe dos países envolvidos nas revoltas democráticas.

O filme é um conjunto de entrevistas com pessoas que participaram da derrubada da ditadura de Ben Ali: uma moça que escreve um importante blog político, uma advogada que comanda uma ONG de direitos humanos, seu marido, um veterano militante comunista e uma mulher em tratamento psicológico, que monta um grande e belo painel fotográfico sobre a revolta, como modo de expurgar os efeitos nocivos do regime autoritário.

O subtítulo, “o fim do medo”, resume à perfeição o clima da produção e os depoimentos emocionam – o filme foi aplaudidíssimo pela platéia no festival. O mais impressionante foi constatar a relação entre a democratização do país e o reforço dos laços de confiança entre os cidadãos, além de sua recuperação do espaço público. Contudo, o documentário peca pelo pouco espaço dedicado aos islamistas – que já se consagraram como a principal força política da Tunísia, com 40% dos votos.




O filme egípicio é uma colaboração entre dez cineastas, cada um com seu estilo, mas há grande coesão narrativa e política entre eles, talvez pelo trabalho de organização e articulação de Sherif Arafa. Os diversos curta-metragens abordam temas como a perseguição política e a tortura sob a ditadura de Mubarak, o cotidiano dos capangas que atacaram os manifestantes pró-democracia, as reações das pessoas sem engajamento político que subitamente se viram envolvidas pelos gigantescos protestos e até episódios poéticos ou humorísticos, como o menino que quer apenas tirar uma fotografia em cima de um blindado, ou o rapaz que se apaixona platonicamente pela vizinha que participa da ocupação da Praça Tahrir.

O melhor e mais elaborado dos curtas é o que abre o filme: um grupo de pacientes internados num hospital psiquiátrico assiste espantado às notícias da revolução, enquanto percebem as mudanças na administração da instituição. Há de tudo entre eles: um coronel da polícia secreta, um islamita, um jovem rebelde, um professor desiludido, um cínico jornalista da TV oficial. Lembra a peça Marat/Sade, de Peter Weiss.

O filme egípcio não é exatamente mais pessimista do que o tunisiano, porém é um tanto mais cauteloso, no sentido em que deixa claro que há muitos outros interesses no país além dos grupos pró-democracia – partidários da ditadura, oportunistas que esperam ver para onde soprará o vento, cidadãos apáticos, assustados ou confusos. Ele não trata dos militares, presumo que o assunto ainda seja tabu numa nação com Forças Armadas tão influentes. Mas o tema será quente nas iminentes eleições. Por aqui, em breve.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Os Cristãos e a Primavera Árabe



Os últimos dias foram os mais violentos no Egito desde a queda da ditadura de Mubarak. Conflitos entre o Exército e manifestantes cristãos deixaram mais de duas dezenas de mortos e reforçaram os medos que a turbulência política no Oriente Médio degenere em violência religiosa. Uma lógica que também ajuda a explicar os impasses na Síria e por que os alauítas governam o país apesar de serem apenas 10% da população.

O mapa abaixo mostra o Oriente Médio de acordo com as diversas religiões que predominam na região.Além de retratar o cisma ente sunitas e xiitas no Islã, ele ilustra bem como o Levante é área mais diversa em termos de crenças, em particular as montanhas à beira do Mediterrâneo (que atualmente estão sobretudo no Líbano), que tradicionalmente foram o refúgio para pessoas que fugiam da perseguição religiosa em outros lugares.



A comunidade cristã no Egito é a maior do Oriente Médio e representa cerca de 10% da população do pais, em torno de 8 milhões de pessoas. A maioria é de denominação copta, uma das primeiras a surgirem nos primórdios do cristianismo – a tradição atribui a São Marcos Evangelista papel decisivo na formação do grupo. Os cristãos egípcios tiveram papel de destaque nos movimentos nacionalistas contra os britânicos, são maioria em várias províncias e muitos destacaram-se na política e na diplomacia. O ex-secretário-geral da ONU, Boutrus Boutrus Ghali, por exemplo, é copta.

Há também uma história de choques e desconfianças entre os cristãos egípcios, grupos fundamentalistas muçulmanos e mesmo o regime secular de Nasser, Sadat e Mubarak. Nas últimas décadas igrejas e instituições cristãs sofreram diversos ataques de radicais islâmicos e em geral os criminosos ficaram impunes. A manifestação que culminou no massacre de domingo era justamente um protesto contra o mais recente desses atentados.

A transição no Egito tem sido mais lenta do que se previa. A junta militar propôs um longo plano pelo qual haverá eleições para a câmara baixa do parlamento (novembro), para a câmara alta (março) e a elaboração de nova constituição ao longo de 2012. Só no fim do próximo ano aconteceriam eleições para a Presidência. A lei egípcia proíbe partidos com base em denominações religiosas, mas é claro que existe o medo que um islamismo político revitalizado se volte contra os cristãos, ou mesmo que outras facções os utilizem como bode espiatório para os problemas do país.

Algo semelhante acontece na Síria. Desde a década de 1960, a república é governada pela família Assad e um grupo de aliados da seita islâmica do alauítas. É uma minoria religiosa que se considera mais laica e moderna do que os sunitas, que formam dois terços da população do país. O regime é autoritário, mas não houve na Síria o tipo de conflito religioso e de perseguições que ocorreram no Líbano ou na Arábia Saudita.

Os cristãos sírios são 10% do país e em geral defensores ardorosos de Assad, a quem vêem como protetor diante do risco de uma ditadura fundamentalista sunita. O jornalista Gustavo Chacra, do Estado de S. Paulo, escreve de Damasco uma série de reportagens contanto essa história e mostrando os receios dos cristãos de que haja um tipo de complô entre Estados Unidos e França para depor Assad.

Esse quado é importante para entender a posição cautelosa do Brasil - e dos demais BRICS – com relação a sanções da ONU contra a Síria. Além disso, há uma insatisfação grande entre China e Rússia pelo modo como o mandato das Nações Unidas na Líbia foi extrapolado da proteção aos civis para uma intervenção estrangeira para depor Muhamar Kadafi.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Primavera Árabe e o Conflito com Israel



Em meio às discussões pelo reconhecimento do Estado palestino, os nove meses da Primavera Árabe apontam para balanço duro: o acirramento do conflito com Israel. Nas últimas semanas, diplomatas israelenses foram expulsos ou fugiram do Egito, Jordânia e do país não-árabe que cada vez desponta como ator decisivo na região, a Turquia.

Muitos analistas de política internacional acreditam na teoria da “paz democrática”, isto é, a de que democracias tendem a ter relações mais estáveis e pacíficas com outros regimes da mesma natureza, em função do caráter público e negociado de suas deliberações e de muitos pontos de veto no sistema político à decisões que levem à guerra. No Oriente Médio, essa perspectiva reflete-se na esperança de normalização diplomática entre Israel e seus vizinhos árabes. Acredito que isso ocorrerá no médio prazo, em alguns anos, mas que nos próximos meses teremos mais convulsões e instabilidade, por duas razões

A primeira é a ocupação dos territórios palestinos por Israel e a persistência de tensões violentas por Jerusalém, pelo controle do rio Jordão e pelo direito de retorno de milhões de refugiados, desde a guerra de 1948. Para muitos países árabes, a questão palestina está numa fronteira tênue entre um tema internacional e política doméstica, particularmente para o Egito, onde a situação do Sinai está muito ligada à da Faixa de Gaza. Alguns regimes autoritários, como o egípcio, haviam controlado as demandas mais intensas pró-palestinos e agora essas reivindicações voltam com força.

A segunda é a existência de muitos bolsões autoritários na região – países, movimentos, instituições dentro de cada país – que agem no sentido de limitar ou contrapor-se às tendências democratizantes. Do Hamas aos colonos israelenses na Cisjordânia, do Irã ao partido extremista Israel Nossa Terra, passando por fundamentalistas de várias cores e matizes, há um excesso de grupos cujo interesse não está nos diálogos ou negociações, mas na permanência do conflito violento. E mesmo os atores democráticos desse jogo têm que chegar a acordos com esses parceiros ou adversários, buscando atrai-los para suas coalizões ou neutralizá-los por meio da adoção de versões mais moderadas de suas idéias.

O balanço atual da Primavera Árabe é que nos países mais homogêneos (Tunísia e Egito) as revoltas caminham rumo à transição para eleições democráticas. Nos estados mais fragmentados étnico-religiosamente, o quadro é sombrio guerra civil e intervenção da ONU na Líbia (talvez 25 mil mortos, numa população de 6 milhões) e massacres no Bahrein, Iêmen e Síria. Na Arábia Saudita, houve apenas protestos pouco significativos nas províncias de minoria xiita, e o rei reagiu com misto de repressão (inclusive mandando tropas ocupar a vizinha ilha do Bahrein), pagamento de benefícios financeiros e a decretação do direito de voto para as mulheres, em eleições municipais.

Também chama a atenção a mudança de comando na Al-Jazeera, emissora que foi tão importante na cobertura – e talvez na deflagração – das rebeliões. O jornalista palestino que a chefiava há oito anos foi substituído na semana passada por um membro da família real do Catar, país que sedia a empresa. O aristocrata não tem experiência com imprensa, era o presidente da estatal de gás natural. Tudo aponta para o fechamento político da Al-Jazeera, com maior controle por parte do emir do Catar.

Guerras e influências de potências externas no Oriente Médio forneceram aos ditadores o pretexto de um conveniente inimigo para aglutinar a população, ou um aliado internacional importante para ajudar a perseguir opositores. No caso da Síria, estabelecer o país como uma espécie de fiel da balança numa zona de enfrentamentos intensos, de modo que todos ficaram temerosos pela derrubada de governos que, bem ou mal, representam estabilidade.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Poder, Fé e Fantasia: os EUA no Oriente Médio



História é quando tudo inesperado em seu próprio tempo é registrado na página como inevitável. A história oculta o terror do imprevisto, transformando um desastre num épico.

Phillip Roth, escritor americano

O Oriente Médio tem sido importante para os Estados Unidos desde a criação do país. Conflitos com a região foram fundamentais para a expansão do poder militar do país e inspiraram símbolos nacionais como o hino e a Estátua da Liberdade. O próprio termo “Oriente Médio” foi inventado por um almirante americano. No entanto, tais relações são permeadas por desconhecimento, preconceito e atitudes irracionais, baseadas em fantasias ideológicas ou religiosas, que dificultam a formulação de políticas coerentes. Esses são os principais argumentos do excelente “Power, Faith and Fantasy: America in the Middle East, 1776 to the present”, do historiador e diplomata israelense Michael Oren.

A maior parte das análises sobre os EUA e o Oriente Médio concentra-se no período iniciado com a Segunda Guerra Mundial e a questão do petróleo, mas Oren defende de forma convincente que é necessário olhar as épocas anteriores. Na realidade, dois terços de seu livro abarcam os anos entre 1776 e 1939, e suas reflexões sobre os tempos contemporâneos deixam a desejar, talvez pela sua falta de objetividade: Oren é o atual embaixador israelense em Washington.

Ele se sai bem melhor tratando do passado mais remoto. Oren mostra como o envolvimento militar americano no Oriente Médio começou com ainda no século XVIII, com as guerras contra os piratas do Mediterrâneo, que operavam sob a proteção de governantes no Norte da África. A jovem república americana chegou a pagar 20% do seu orçamento anual em tributo aos bandidos, até chegar à conclusão que era necessário ter uma Marinha de guerra para defender seus interesses na região. O hino dos fuzileiros navais dos EUA começa falando nas “praias de Tripoli”, onde eles lutaram um de seus primeiros conflitos. Até hoje jogam bombas por lá, mas a retórica de condenação dos piratas bárbaros ao “cachorro louco” Kadafi é muito semelhante. A melodia do hino americano foi composta para essas guerras, mas depois ganhou a letra atual quando do confronto de 1812 com a Grã-Bretanha.



Ao longo do século XIX, a região ganhou em importância comercial e como importante local de atuação dos missionários americanos, que construíram não só igrejas, mas muitas escolas, universidades e hospitais como parte de seu esforço de evangelização. Acabaram criando fortes laços com elites locais, sobretudo cristãos (maronitas, ortodoxos, armênios etc) que viam nos EUA um aliado em reformas modernizadoras e como proteção aos impérios coloniais europeus. Isso ocorreu em especial no Egito e no Líbano. A Estátua da Liberdade havia sido pensada inicialmente como um símbolo das reformas egípcias, com auxílio dos técnicos e militares americanas. Foi nesse período que começou a tradição de usar judeus americanos como representantes diplomáticos no Oriente Médio, por supostas afinidades deles com a região. Os Estados Unidos também foram, desde o início, apoiadores importantes do movimento sionista.

O próprio termo “Oriente Médio” foi inventado pelo almirante americano Alfred Mahan, no fim do século XIX, para delimitar a área que vai do Marrocos até o Irã. Os europeus se referiam à região como “o Leste” ou “o Oriente”. Mas o conceito é elástico, hoje em dia é aplicado com frequência também ao Afeganistão e ao Paquistão, que no entanto não estão cobertos pelo livro de Oren.

Em todo caso, a destruição do Império Otomano após a I Guerra Mundial marcou a divisão da área pela Grã-Bretanha e pela França. Já comentei no blog sobre a decepção árabe com o presidente Woodrow Wilson, em particular no Egito, quando os nacionalistas descobriram que os princípios de autodeterminação dos povos não seriam aplicados fora da Europa. Na luta contra o Eixo, os americanos ocuparam Marrocos, Argélia e Líbia, mas em geral não foram saudados como libertadores, e sim tratados com cautela e desconfiança.



A descoberta das grandes reservas de petróleo e a recriação da Israel tem marcado a diplomacia americana no Oriente Médio desde a década de 1940, com o frequente envolvimento dos EUA nas ferozes disputas locais e traumas históricos como o golpe contra os nacionalistas do Irã, em 1953, a ocupação da embaixada americana em Teerã, na revolução islâmica de 1979, os atentados terroristas e sequestros contra os americanos no Líbano, na década de 1980, as duas guerras contra o Iraque e os conflitos sem fim que culminaram nos atentados de 11 de setembro de 2001.

Essa história está longe de terminar. E nada indica que ela ficará pacífica.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Economia na Primavera Árabe



Em meio à crise européia e à ascensão do G-20, o G-8 mostrou que ainda tem musculatura político-econômica e na reunião que realizou nesta sexta anunciou um pacote de ajuda de US$20 bilhões para Egito e Tunísia, visando a consolidar a transição democrática nos dois países. O valor do auxílio pode chegar ao dobro, com contribuições dos ricos emirados do Golfo Pérsico, que falam até na criação de um banco de desenvolvimento para os povos árabes. As declarações vêm em excelente momento, pois uma vez derrubados os ditadores no norte da África, começam a surgir as demandas por reformas na economia, que muito se ressente da turbulência deste semestre.

No Egito, o turismo caiu quase pela metade, algo gravíssimo numa nação em que 1 em cada 7 empregos depende do fluxo de visitantes estrangeiros. A queda foi provocada não apenas pelos choques entre o regime autoritário e os manifestantes democráticos, mas também pelo receio da escalada de violência religiosa, como os conflitos entre muçulmanos e cristãos coptas, que agravaram-se nos últimos meses.

Na Tunísia, há protestos crescentes com relação à má situação econômica no interior do país e movimentos sociais organizam-se contra empresas européias que investem no setor de gás, por conta de condições de trabalho e desemprego. No Egito, os sindicatos voltaram a se organizar – eles foram importantes no início da oposição a Mubarak, sobretudo no setor têxtil - inclusive na tentativa de recriar os antigos partidos de esquerda banidos pela ditadura.

Em suma, a agenda sócio-econômica ganha força no Magreb e para que a democracia vença a batalha, terá que atender pelo menos em parte às expectativas de melhorias de condições de vida. O cenário é mais complexo no Egito, cuja economia estava em pior estado do que a da Tunísia, e onde há mais interesses a conciliar. Os manifestantes iniciaram um novo ciclo de protestos contra a junta militar que controla o governo de transição, demandando o adiamento das eleições, para que os novos partidos tenham mais tempo para se organizar. Uma votação em poucos meses beneficiaria os poderes constituídos, como os políticos aliados aos militares e a Irmandade Muçulmana, que apesar de declarações em contrário, começa a se organizar como o partido “Justiça e Liberdade”. Supostamente autônomo, ele parece se inspirar no islamismo moderado do “Justiça e Desenvolvimento”, que governa a Turquia há uma década.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Momento de Wilson



Erez Manela é um professor de Harvard que tornou-se expoente da história internacional, o esforço em buscar perspectivas cosmopolitas para os grandes episódios da política global. Seu “The Wilsonian Moment – self-determination and the international origins of anticolonial nationalism” cumpre essa tarefa para o periodo crucial de 1918-9, quando as expectativas decorrentes do fim da I Guerra Mundial detonaram uma série de revoluções que visavam a redesenhar sistemas de governo, da Alemanha à China.

O livro de Manela concentra-se no impacto no mundo colonial e na China da doutrina de autodeterminação dos povos anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, como um dos “14 pontos” da reconstrução da ordem internacional após a guerra – a imagem que abre o post representa as palavras mais frequentes nesse célebre discurso. Wilson pensava nos súditos dos impérios multinacionais da Europa central e oriental e pouco tinha refletido sobre o que suas palavras significariam em outros continentes. O tema é abordado de passagem na maioria das histórias da época, mas Manela aborda de modo magistral as consequências revolucionárias do “momento wilsoniano” no Egito, Índia, China e Coréia do Sul.




Com exceção da China, todos os outros eram colônias, da Grã-Bretanha ou do Japão, e interpretaram os pronunciamentos de Wilson como a promessa de que conquistariam a independência, enviando delegados para tentar participar da Conferência de Paz de Versalhes. No caso chinês, a questão eram os enclaves estrangeiros no país, sobretudo os que os japoneses haviam tomado dos alemães durante a I Guerra Mundial. As expectativas despertadas por Wilson foram muito além do que os Aliados pretendiam oferecer após o conflito e o resultado foi a explosão de uma série de revoluções ou revoltas, todas duramente reprimidas, que foram o marco de passagem no surgimento do nacionalismo contemporâneo no Oriente Médio e na Ásia.



Neste post, tratarei apenas do Egito, uma vez que foi o país que motivou a ler o livro. Oficialmente, ele era parte do Império Otomano (mapa acima) mas gozava de grande autonomia desde meados do século XIX, sob uma dinastia albanesa de quedivas, os soberanos locais. A enorme dívida externa contraída para construir o Canal de Suez e tocar projetos de modernização levou à ocupação militar do Egito pelos britânicos, que decretaram um “protetorado”, consolidado após a derrota de uma revolta nacionalista sob um líder militar, o paxá Urabi.

O Império Otomano foi destruído na I Guerra Mundial e os espólios dos territórios árabes foram divididos entre britânicos e franceses pelos termos do acordo Sykes-Picot, ainda que os novos países criados então fossem declarados “mandatos” coloniais provisórios, sob a égide da recém-inaugurada Liga das Nações. Um mapa instável que o historiador David Fromkin chamou de “uma paz para acabar com todas as pazes”.

Não houve mudança formal na situação do Egito, e a elite local ficou revoltada em ser tratada pior do que as tribos da Arábia, que de imediato ficaram livres. Os nacionalistas egípcios formaram um novo partido, o Wafd (delegação) e impulsionaram a Revolução de 1919, visando à Independência – momento histórico admiravelmente narrado no primeiro volume da “Triologia do Cairo”, de Nagib Mahfouz, protagonizada por uma família partidária do Wafd. Os britânicos conjugaram repressão com concessões, cedendo mais poderes à assembléia legislativa local. Mas a autonomia do Egito só viria bem mais tarde, após a outra guerra mundial.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Mapa do Amor, Ahdaf Soueif



Continuando com a idéia de ler literatura árabe contemporânea, nesta semana é a vez do romance “O Mapa do Amor”, da egípcia Ahdaf Soueif (foto), uma bela mistura entre lirismo e política no Oriente Médio, por meio do contraste entre dois casais de apaixonados, no início do século XX e no fim da década de 1990, quando o livro foi publicado.

O enredo é dominado pela paixão entre dois aristocratas, a inglesa Anna e o egípcio Sharif, que se conhecem no Cairo no turbulento contexto da consolidação do poder britânico sobre o Egito. Anna é a jovem viúva de um militar que morreu na campanha para derrotar a rebelião islâmica no Sudão. Sharif, um líder nacionalista que luta pela autonomia de seu país.

O Egito nunca foi formalmente uma colônia britânica, mas a experiência de dominação foi semelhante. Oficialmente parte do Império Otomano, desde meados do século XIX o país era governado por um soberano, o quediva, com poucos laços concretos de vassalagem ao Sultão em Constantinopla. Os governantes egípcios lançaram ambiciosos projetos de modernização, como a construção do Canal de Suez, que os deixaram completamente endividados. Britânicos e franceses ganharam grande influência no país a partir do controle de suas finanças públicas e a ocupação militar da Grã-Bretanha começou após uma rebelião nacionalista em 1882.



Soueif faz de Sharif filho e sobrinho de líderes dessa revolta, e ele tenta encontrar maneiras de aproveitar ao máximo os espaços de liberdade criados pelos britânicos, como jornais, tribunais e um arremedo de parlamento, para defender a causa do Egito. Anna, uma aristocrata não-convencional e algo rebelde, revela-se uma parceira entusiasmada de seu projeto, enquanto ambos enfrentam a desconfiança da colônia européia no país.

Quase cem anos depois, as cartas e o diário de Anna são descobertos por Isabel, uma de suas descendentes, que vive em Nova York e apaixona-se por um músico egípcio, Omar, também parente distante de Anna. Ele lhe aconselha viajar ao Egito para descobrir os detalhes do documento e lá ela torna-se amiga íntima de Amal, irmã de seu namorado e as duas viajam pelo país e pela história, enquanto a política egípcia passa pelas dificuldades da ascensão dos radicais islâmicos e da repressão desmedida e injusta do governo de Mubarak.

O romance explora com habilidade as analogias entre os dois momentos do Egito e do Oriente Médio, ressaltando semelhanças como a questão palestina. Sharif se preocupa com o início da colonização sionista da região, que vê de modo semelhante aos projetos imperiais dos britânicos. Omar e Amal, filhos de mãe palestina, lamentam o rumo que a região tomou e desconfiam da ação dos Estados Unidos. Soueif também frisa a constante repressão política na história egípcia e fala com nostalgia do período de Nasser, como um tempo de esperança e de mudanças sociais, como reforma agrária.

Em “O Mapa do Amor” a utopia é menos política e mais pessoal, o romance entre pessoas de culturas diferentes oferece mais possibilidades do que os grandes projetos de transformação da sociedade. Uma das cenas mais bonitas é o encontro de Amal com ex-colegas do movimento estudantil da década de 1970, que comentam a ocupação da Praça Tahrir (pois é, desde então...) e como aquilo não levou a nada. Em outra passagem, os acertos imperiais entre Grã-Bretanha, França e Itália levam à invasão da Líbia pelos italianos, detonando o processo que até hoje reverbera naquele país.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Edifício Yacubian



Decidi começar a ler literatura árabe contemporânea, porque cheguei à conclusão de que somente por meio dos artistas entenderei os anseios, desejos e insatisfações que originaram as revoltas democráticas que varrem a região, do Marrocos ao Iêmen. O primeiro romance da minha lista foi “O Edifício Yacubian”, do egípcio Alaa Al Aswany. Publicado em 2004, tornou-se rapidamente um sucesso internacional e foi adaptado para o cinema. É fácil compreender por quê: seu painel de personagens retrata de maneira brilhante os impasses do Egito nos anos finais da ditadura de Mubarak.

O Edifício Yacubian existe (foto), é um prédio no centro do Cairo construído durante a monarquia por um milionário armênio como um conjunto residencial para as famílias da elite cosmpolita da cidade. Os anos foram impiedosos com o Yacubian. As comunidades estrangeiras fugiram ou foram expulsas do país pelo regime militar, oficiais do Exército ocuparam apartamentos e o telhado foi favelizado e transformado num centro de pequeno comércio. Os novos ricos trocaram o centro por subúrbios nos arredores da capital e o Yacubian ficou como um símbolo da decadência do Egito. O autor teve um consultório dentário no prédio.



A beleza do romance de Aswany é capturar o mosaico de figuras humanas cômicas, tristes e trágicas que circulam pelo edifício e formam um microcosmo da sociedade egípcia contemporânea. O mais cativante personagem é Zaki Beki el Dessuqi, um aristocrata que tenta manter os hábitos de playboy da monarquia, dedicando-se às mulheres e tentando encontrar um pouco de beleza e suavidade em meio ao declínio que o cerca. Seus diálogos com a jovem amante, que sonha em deixar o Egito, são o melhor do livro:

“Não consigo entender sua geração. Na minha época, o amor pelo próprio era como uma religião. Muitos jovens morreram lutando contra os britânicos.”
“Vocês fizeram manifestações para expulsar os britânicos? Certo, eles se foram. Isso significa que o país está bem?”

Outro bom personagem é Taha el Chazli, o inteligente e compenetrado filho do porteiro do edifício, que vê sua ascensão social barrada pela falta de conexões pessoais com as elites e pela corrupção e violência do regime, e se envolve com um grupo radical islâmico. Impressionam as descrições sobre a ação dos fundamentalistas nas universidades egípcias, agindo sobre os migrantes rurais e os jovens pobres que pela primeira vez chegam ao ensino superior.

Em certos trechos do romance, os personagens soam um tanto forçados, como a figura de Hagg Azzam, um empresário rico que resolve ingressar na política sob os auspícios do corrupto partido nacional de Mubarak, ou Hatim Rachid, um jornalista sofisticado e liberal que precisa manter sua homossexualidade em segredo. Mas o efeito mosaico, de pintar o quadro geral do Egito, compensa largamente esses pequenos problemas.

O romance mostra de forma clara as raízes da humilhação e raiva dos egípcios, mas deixou de fora outro elemento essencial das revoltas atuais: a esperança. Entre os personagens, não há nada parecido com os jovens modernos, dinâmicos e versados em tecnologia que foram tão importantes nas manifestações, embora o autor seja um profissional de classe média (dentista) e militante anti-Mubarak. A realidade será sempre mais rica do que a ficção, e ocasionalmente mais bela, como nestes tempos interessantes em que nos coube viver.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sombras na Transição



A questão atual no Egito é saber se as Forças Armadas aceitarão implementar as reformas democráticas ou se usarão seu controle sobre o processo de transição para criar obstáculos às demandas dos manifestantes que derrubaram Mubarak. As medidas iniciais da junta militar que assumiu o controle do país mostram o desejo do Exército em frear o ritmo da participação popular e os especialistas têm se mostrados céticos com o compromisso democrático dos militares em, por exemplo, investigar violações de direitos humanos e combater a corrupção dos aliados de Mubarak. Na Tunísia, a transição tem se mostrado difícil, pela permanência em posições de poder de muitos quadros do regime autoritário.

A junta é presidida pelo marechal Mohammed Tantawi, o ministro da Defesa de Mubarak, e considerado ainda mais conservador do que o ditador deposto. Ele se opôs inclusive à abertura econômica que o regime promoveu na última década. Os primeiros atos da junta foram ordenar aos manifestantes que deixem a Praça Tahrir, fechar o Parlamento e abolir a Constituição. Embora fossem instituições do antigo regime, sua exclusão elimina os freios formais à ação das Forças Armadas, o que é preocupante.

Os militares prometem criar comitês com a participação da oposição para elaborar uma nova constituição e realizar eleições em breve. Com votações previstas para setembro, é questionável a necessidade de abolir tantas leis de uma só vez. O melhor seria deixar que um novo parlamento elaborasse a nova carta magna do Egito. O roteiro apresenta semelhanças perturbadoras com a narrativa clássica dos golpes militares na América Latina, embora as Forças Armadas egípcias desfrutem de um forte prestígio junto à população, mantido inclusive ao não reprimirem as manifestações populares.

Outro fator que fortalece os militares é serem, para os Estados Unidos, Israel e União Européia, os grandes fiadores da transição. Aqueles capazes de manter o tratado de paz de Camp David, conter os radicais islâmicos e garantir a estabilidade do país. Isso leva a crer que o governo egípcio irá receber generosa ajuda econômica para lidar com os graves problemas que enfrenta: alta do preço dos alimentos, desemprego, queda no turismo.

Contudo, os manifestantes egípcios têm demonstrado extraordinária capacidade de mobilização, organização e pressão e tais qualidades serão decisivas para garantir que a transição democrática se efetive e que o Egito realize em breve eleições que garantam um governo com legitimidade para implementar as reformas. Atenção às ruas do Cairo, porque o jogo continua.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Cai o Rei de Espadas, Cai o Rei de Ouros



Nos dias de hoje
É bom que se proteja
Ofereça a face a quem quer que seja

Nos dias de hoje esteja tranquilo
Haja o que houver pense nos seus filhos




Não ande nos bares esqueça os amigos
Não pare nas praças não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não Ponha o dedo na nossa ferida... Ah...



Nos dias de hoje
Não lhes dê motivo
Porque na verdade
Eu te quero vivo



Tenha paciencia
Deus está contigo
Deus está conosco
Até o pescoço



Já está escrito
Já está previsto
Por todas videntes
Pelas cartomantes

Está tudo nas cartas
Em todas as estrelas
No jogo dos Buzios
E nas profecias... ah...




Cai, o Rei de espadas
Cai, o Rei de ouros
Cai, o Rei de paus
Cai, não fica nada!!

Composição de Ivan Lins e Vítor Martins, imortalizada na voz de Elis Regina. Um canto para o fim de outra ditadura, neste dia em que somos todos egípcios, e celebramos com eles a queda de Hosni Mubarak. Nos próximos dias, posto sobre as perspectivas da transição e o efeito dominó em outros países árabes.

Dias de Ira



Nesta sexta-feira os manifestantes pró-democracia no Egito anunciam o “Dia dos Mártires”, em homenagem às mais de 300 pessoas que foram mortas nos confrontos com a polícia, em quase três semanas de protestos. O dia promete ser explosivo: ontem o presidente Hosni Mubarak anunciou que não renuncia, num discurso paternalista e autoritário que ignora as profundas transformações em curso na consciência política do país. Seu recém-nomeado vice, general Osman Suleiman, foi na mesma direção, aconselhando o povo a parar de “ver TV via satélite.” O colapso do regime é iminente, com motins até mesmo na mídia estatal, generais visitando os manifestantes na Praça Tahrir do Cairo e defendendo suas demandas e o Conselho Supremo das Forças Armadas fazendo declarações semelhantes. Tudo aponta para um golpe militar contra Mubarak, caso ele não fuja do país.

O clima entre os manifestantes é de indignação, com a raiva aflorando ainda durante o discurso de Mubarak e marchas até os arredores do Palácio Presidencial, em Heliópolis. Durante a semana já haviam acontecido dois desdobramentos importantes nos protestos: a eclosão de uma série de greves, sendo a mais significada a do setor petroleiro, e a manifestação para celebrar a libertação de Wael Ghonim, o executivo do Google preso pelo regime. Algo impressionante num país tão nacionalista quanto o Egito, onde as empresas estrangeiras em geral foram vista como parte do problema. Sinal da relevância das novas tecnologias de informação para as lutas sociais, e de como tornaram-se símbolos da democracia (Bill Gates deve estar morrendo de inveja, mas isso é outra história).

No quadro que se desenha no Egito, as Forças Armadas crescem a cada dia em importância como fiadoras de uma transição à democracia que mantenha a estabilidade no país, controlando grupos radicais e mantendo as alianças internacionais egípcias. Não será um cenário fácil, pois certamente haverá conflitos com movimentos políticos que cobram a punição dos responsáveis pelas violações de direitos humanos durante a longa ditadura e que provavelmente demandarão alterações na diplomacia, no sentido de apoio mais decidido aos palestinos.

A obstinação de Mubarak não diz respeito somente a seu apego ao poder, mas também ao medo de ser preso pela enorme corrupção de seu regime. Sua fortuna é estimada na casa de bilhões de dólares, maior do que o PIB de vários países africanos, e a máquina de negócios escusos abarca muitos líderes e instituições, inclusive as Forças Armadas, que controlam várias fábricas e empreendimentos econômicos.

No entanto, os militares já demonstraram não ter disposição para promover o banho de sangue que seria necessário para encerrar as manifestações. A praça Tahrir não ficou como a da Paz Celestial, na Pequim de 1989. Provavelmente há grande pressão dentro das próprias Forças Armadas, com oficiais mais jovens e de patente mais baixa sentindo-se muito próximos aos participantes dos protestos. Afinal, a monarquia do Egito caiu em 1952 pela ação dos coronéis, desgostosos com a cumplicidade dos generais com o regime corrupto, e agindo após um massacre que as tropas britânicas em Suez cometeram contra manifestantes nacionalistas. Esse ato ocorreu em 25 de janeiro – a nova revolta foi lançada nessa data em sua celebração.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Juventude, Democracia e Desenvolvimento



As revoltas democráticas iniciadas pela juventude nos países árabes iluminam tendências comuns demonstradas pela participação juvenil em outros protestos, como os que ocorrem na União Européia, em meio à crise econômica. Também notei semelhanças com o que observei quando pesquisei movimentos sociais juvenis na América do Sul. Os pontos principais: a juventude sente com mais intensidade as linhas de choque da economia global, como o desemprego, as deficiências do sistema de educação e a exposição às novas tecnologias da informação.

Na pesquisa que realizamos na América do Sul, as demandas mais frequentes dos jovens eram por trabalho e educação. Ou mais especificamente, por um emprego estável, de boa qualidade, diferente das ocupações precarárias em geral disponíveis para a juventude. No caso educacional, tratam-se de jovens com bem mais instrução do que seus pais, mas insatisfeitos com a qualidade baixa das escolas e universidades, e com a incapacidade dessa formação extra lhes render uma boa situação no mercado de trabalho.



São condições muito parecidas com as que existem no Egito e na Tunísia, onde o índice de desemprego juvenil está entre 25%-33%, mas não é um problema exclusivo do mundo em desenvolvimento. O gráfico acima mostra como a questão está presente nos países ricos, membros da OCDE. Em geral, o desemprego entre os jovens é o dobro, triplo ou mesmo quádruplo daquele registrado para os adultos. Notem que em países como a Espanha, a taxa é inclusive maior do que a das nações árabes.

A juventude européia é bem qualificada e educada, mas isso não tem sido suficiente para resolver o problema do emprego precário e de baixa remuneração. Na Itália se fala da "geração mil euros", que não consegue ultrapassar essa faixa de renda e continua vivendo com os pais mesmo depois dos 30 anos. Em Portugal o patamar é inferior, a "geração dos 500 euros" que tem seu hino na canção satírica do vídeo abaixo - que me foi gentilmente enviada por meu amigo Ramon Blanco de Freitas, que cursa o doutorado em Relações Internacionais na Universidade de Coimbra:



A instatisfação da juventude européia tem resultado em protestos, como as greves gerais na França e as ocupações universitárias no Reino Unido. Na América do Sul, os jovens têm sido atores importantes nos movimentos sociais que ganharam força na região. Ao contrário dos países árabes, nesses dois continentes há estruturas de participação política democrática (ainda que bastante falhas), que canalizam a raiva e a frustração. Naturalmente, é preocupante o crescimento da extrema-direita na Europa e a persistência de bolsões de autoritarismo na América do Sul, mas o quadro atual é muito melhor do que o passado sombrio dos dois continentes, como os regimes nazi-fascistas europeus das décadas de 1920-40 e as ditaduras militares sul-americanas dos anos 1960-80.

Outro ponto comum é o fascínio dos jovens com as novas tecnologias de informação. Observamos isso na pesquisa na América do Sul e me supreendi em como, por exemplo, os músicos do hip-hop indígena na Bolívia usavam a Internet para se articularem com artistas de tendência semelhante em diversos países. No Egito, os manifestantes da praça Tahrir ensinaram ao mundo inteiro como usar essas ferramentas para organizar protestos, denunciar abusos governamentais e cultivar a imagem internacional pacífica do movimento.



Há uma particularidade importante no mundo árabe, que é a deficiência das mídias tradicionais. O Egito possui meios de comunicação privados, que tentam conquistar espaço para criticar o regime ditatorial. Outros países possuem uma situação mais complexa. Nesse contexto, aumenta a importância de tecnologias de informação que permitam aos usuários gerar e compartilhar notícias, imagens e dados. Há também o caso muito especial da Al-Jazeera, a rede de TV sediada no Catar que tem realizado a melhor cobertura das revoltas democráticas árabes. Por reunir profissionais de várias nacionalidades e buscar uma perspectiva ampla, é possível que ela esteja contribuindo para o fortalecimento de uma identidade regional, pan-árabe.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Depois da Emergência



Se a democracia triunfar no Oriente Médio, haverá alguns demagogos, nacionalistas e fanáticos, assim como nos Estados Unidos e em Israel, e eles podem tornar a diplomacia mais complicada. Mas lembre-se de que foram a repressão, prisão e tortura de Mubarak que alimentaram extremistas raivosos como Ayman al-Zawahri da Al-Qaeda, o braço direito de Osama Bin Laden. Seria trágico se deixarmos nossas ansiedades impedirem nosso abraço da liberdade e da democracia na mais populosa nação árabe.

Nick Kiristof, colunista do New York Times

A transição para a democracia no Egito deu passos importantes no fim de semana, com a realização da manifestação do "Domingo dos Mártires" e a bem-sucedida negociação entre governo e oposição que culminou na abolição da Lei de Emergência, que autorizava boa parte dos poderes ditatoriais de Mubarak. A censura à imprensa também será suspensa, prisioneiros políticos serão libertados e comissões mistas elaborarão emendas constitucionais para regular a nova vida política do país. São conquistas extremamente significativas para as duas semanas de protesto e em comparação com outras experiências internacionais, embora os manifestantes continuem a exigir a renúncia do ditador e seu julgamento pelos crimes cometidos ao longo dos 30 anos de regime autoritário.

As negociações também iluminam pontos importantes das disputas políticas no Egito. O principal negociador pelo governo é o recém-empossado vice-presidente Omar Suleiman, que assim confirma sua posição como representante das Forças Armadas e da estabilidade, em meio aos medos de caos no país. Os jovens egípcios tiveram representação própria, junto aos partidos de oposição, o que comprova o destaque de suas demandas e capacidade de mobilização.

O grande ponto de interrogação é a participação da Irmandade Muçulmana na transição. Kristof argumenta que ela terá pouca influência e cita a experiência do Iêmen, onde os fundamentalistas foram derrotados após breve permanência na coalizão do governo. São bons pontos, mas acredito que ele subestima o conservadorismo religioso de boa parte da população egípcia, em especial na empobrecida zona rural. Em países como o Líbano, a ação do Hezbolá no governo tem sido bem mais perigosa e duradoura. A Economist também entrou bem na discussão, defendendo os partidos islâmicos moderados como a melhor maneira de conter o fundamentalismo.



A revista britânica publicou um ótimo quadro, reproduzido acima, que lista os países árabes de acordo com indicadores internacionais de democracia, corrupção e liberdade de imprensa. O quadro é dramático para as liberdades civis e políticas, onde as regiões melhor situadas - Líbano e Palestina - mal conseguem ficar entre as 100 mais democráticas. Curiosamente, alguns regimes autoritários árabes se saem melhor no tema do combate à corrupção, como os ricos Estados do Golfo (Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Irmandade Muçulmana



Os manifestantes no Egito batizaram este dia como a “Sexta-feira da Partida”, na esperança de que o grande protesto que marcaram para hoje convençam Mubarak a renunciar à presidência. O ditador se apega ao cargo e lançou capangas armados (policiais à paisana e outros defensores do regime) contra ativistas democráticos, jornalistas e representantes de ONGs de direitos humanos. O Exército às vezes assistiu à violência sem intervir e em outros casos procurou separar os grupos em conflito, mas não reprimiu diretamente os manifestantes, o que mostra que os militares não estão dispostos a patrocinar um banho de sangue em defesa da ditadura, como ocorreu na China em 1989 e no Irã em 2009. Mesmo os aliados internacionais de Mubarak nos EUA e na União Européia clamam por sua renúncia e o argumento que restou ao ditador é afirmar que sem ele o Egito cairia no caos, sendo dominado pelos fundamentalistas da Irmandade Muçulmana. Hora de analisar o movimento.

A Irmandade foi fundada em 1928 e passou a maior parte de sua história na clandestinidade. Ela nasceu no contexto do colapso do colonialismo – do Império Otomano e das potências européias – no Oriente Médio, e da ascensão do nacionalismo árabe e dos anseios de modernização social e econômica na região. Sua receita era outra: o abandono dos projetos de reforma ocidentais e o retorno às raízes muçulmanas para assegurar uma sociedade ética e justa. Ela não foi fundada por pessoas ignorantes e isoladas do mundo, seu principal teórico, Sayyid Qutb (foto), havia se formado numa universidade dos Estados Unidos, e voltado horrorizado com o que viu por lá, inclusive a discriminação racial que sofreu.

Bandeiras religiosas estavam fora de moda no Egito da primeira metade do século XX, que seguia um modelo de modernização semelhante ao adotado pela Turquia: militares depondo a monarquia e iniciando um programa de reformas sociais autoritárias. Excluída do Estado e com seus militantes perseguidos e torturados, a Irmandade refugiou-se na Arábia Saudita, onde a Casa de Saud, em sua luta contra a dinastia hashemita, abraçou o wahabismo, uma versão hiper-puritana do Islã, como meio de conquistar legitimidade política para ser a guardiã dos locais sagrados em Meca e Medina.

No Egito, a Irmandade trabalhou sobretudo na área social, procurando “islamizar a sociedade”, já que não conseguia dominar o Estado. Fundou hospitais, clínicas, creches e posicionou como uma alternativa ética a uma oligarquia militar cada vez mais corrompida e desacreditada, pelas derrotas militares diante de Israel e pelo fracasso de seus grandes projetos de desenvolvimento em gerar empregos aos jovens da nova geração, que não viveram o auge da luta pela independência e autonomia egípcias, e conheceram apenas o declínio do regime dos militares.

Os choques do petróleo na década de 1970 deram à Arábia Saudita musculatura financeira para patrocinar o islamismo radical em escala global, e a Irmandade Muçulmana foi fundamental nesse processo, ajudando a recrutar as brigadas internacionais que combateram a URSS no Afeganistão, e auxiliando na criação do Hamas para lutar contra a ocupação isralense dos territórios palestinos. Cerca de metade dos terroristas envolvidos com os atentados de 11 de setembro eram egípcios, o que mostra a influência do país nessas redes políticas.

Nos últimos anos a Irmandade envolveu-se numa série de acordos de bastidores com Mubarak, nos quais o arranjo básico era uma espécie de pacto de não-agressão, pelo qual a Irmandade concordava em não tentar derrubar o governo em troca de permissão para expandir sua influência, embora continue oficialmente proibida. Segundo a maioria dos relatos, a organização enfrenta um período difícil, com muitos militantes desgostosos deixando-a, desiludidos com a conivência com o governo corrupto.

A Irmandade é forte demais para ser excluída de um futuro governo de transição no Egito, mas certamente irá procurar assegurar ministérios-chave para seu projeto político, como Educação ou Cultura, e tentará ganhar espaço com as inevitáveis frustrações que se seguirão em temas como o papel egípcio no conflito árabe-isralense.

PS - Fui entrevistado hoje à tarde no Jornal da Globo News e falei do longo caminho que vai do 11 de setembro às revoltas democráticas, como as do Egito. Clique no link para ver o vídeo.