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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Isto não é um Filme

Confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta

Na semana passada participei de dois debates sobre cinema e política no Oriente Médio. Na FGV, discuti com Monique Goldfeld o documentário israelense “Valsa com Bashir” (que resenhei neste blog), e no Cine Jóia, Thalita Bastos e eu falamos sobre o iraniano “Isto não é um Filme”. É uma excelente produção que nos diz muito sobre as novas possibilidades que a tecnologia dá aos artistas que precisam enfrentar ditaduras.

Jafar Panahi é um famoso cineasta iraniano que foi condenado pelas autoridades da República Islâmica a ficar 20 anos (!) sem dirigir ou escrever filmes. Ele também corre o risco de ir para a cadeia, onde esteve por um processo anterior. O governo o proibiu de deixar o país, pelo medo que se torne uma influência internacional importante contra o regime autoritário. No passado, Panahi estaria num beco sem saída, mas o avanço tecnológico o permitiu driblar a censura. Com a ajuda de um amigo, Mojtaba Mirtahmasb, uma câmera portátil, e um celular, ele realizou o documentário “Isto não é um Filme”.

As filmagens foram feitas no dia do ano novo iraniano, no elegante apartamento do cineasta, em Teerã e consistem basicamente de duas longas conversas. A primeira é entre os dois amigos. Panahi começa tentando narrar um filme que tem em mente, sobre uma moça do interior que vai à capital estudar Artes. Mas ele se emociona e desiste: “Para que contar um filme quando se pode filmá-lo”. Os dois então falam sobre o processo judicial que o cineasta enfrenta, revêm em DVD trechos de suas obras mais famosas e trocam lembranças e observações sobre a dependência dos diretores com o Estado islâmico.

A segunda conversa é entre Panahi e um rapaz pobre, o cunhado do porteiro de seu edifício, que está substituindo o parente naquele dia. Ele é do interior, vive de vários biscates e cursa o mestrado em Arte – uma trajetória bastante parecida com a da personagem do filme que o diretor queria rodar. Conta que não tem esperança de conseguir emprego fixo, mesmo quando terminar a pós-graduação e os dois lembram da noite em que o cineasta foi preso pela primeira vez.

“Isto não é um Filme” tem pontos em comum com outras belas produções iranianas, como “A Separação”, “A Onda Verde” ou “Persepolis”. É um retrato tocante das aspirações democráticas de boa parte da população do país, uma crônica das desigualdades sociais e das expectativas frustradas e uma obra de arte que emociona e faz pensar. A produção foi contrabandeada para fora do Irã em um pen drive escondido dentro de um bolo e fez sucesso internacional. O Festival de Cannes, que a exibiu pela primeira vez no exterior, abriu uma petição online pela libertação do cineasta.

A propósito: tivemos excelente debate no Cine Jóia e a gentilíssima direção local me ofereceu o espaço para outros eventos semelhantes. Penso em fazer uma seção sobre a brilhante nova geração de cineastas da Turquia, ainda pouco conhecida no Brasil. Sugestões de vocês são bem-vindas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Xingu

O filme de Cao Hamburguer é um épico sobre os esforços dos irmãos Villas Boas (Cláudio, Orlando e Leonardo) em desbravar o Centro-Oeste do Brasil e posteriormente em criar um parque nacional para proteger as tribos indígenas com as quais entraram em contato. É uma espécie de faroeste político no qual o principal campo de batalha é o Estado, retratado como a única instituição capaz de mediar os diversos interesses que se enfrentam no Xingu – e ocasionalmente surgir ele mesmo como ameaça.

O filme começa com os irmãos se juntando à expedição Roncador-Xingu, na década de 1940, por espírito de aventura. Em plena Era Vargas e durante a Segunda Guerra Mundial, o Estado queria mapear o território, construir pistas de pouso e criar a infraestrutura que lhe permitisse gerir aquela vasta região, maior do que muitos países europeus. Em muitos aspectos era a continuação do trabalho iniciado pelo marechal Candido Rondon, que havia instalado as linhas de telégrafo no extremo-oeste e começado seu crucial trabalho em prol dos índios. Os irmãos Villas Boas foram chefiados por ele, mas o marechal, infelizmente, só é citado rapidamente no filme.

A primeira parte do enredo trata dos contatos iniciais da expedição com as tribos do Xingu, e seu extremo cuidado para dialogar com eles e estabelecer relações pacíficas. Eles são bem-sucedidos, mas descobrem que sua própria presença por ali traz consequências devastadoras: doenças mortais para os índios, como a gripe, e a abertura da região para pecuaristas e fazendeiros, que começam a matar para se apoderar das terras recém-abertas para a agricultura.

A partir, os irmãos iniciam articulações políticas com o governo federal e as Forças Armadas, negociando apoios para proteger os índios e o território – em troca de ajudar a contruir uma base militar na Serra do Cachimbo, os irmãos conseguem a promessa oficial da criação de um parque indígena. A cena em que Jânio Quadros se compromete com o projeto é antológica.

A parte final do filme é dedicada ao processo de implementação do parque, com as tensões que nascem entre os irmãos, as críticas e ameaças que sofrem dos grupos econômicos contrariados pelo projeto e seu empenho em levar para o território protegido tribos indígenas dispersas pelo Oeste e Norte do Brasil – necessidade acelerada quando o governo resolve construir a rodovia Transamazônica.

Não há menção no filme ao projeto da usina de Belo Monte, a obra pública mais controversa do Brasil de hoje, que ocorre justamente no rio Xingu. Mas este longa faz pensar nos modelos de desenvolvimento e nas abordagens experimentadas para lidar com as populações indígenas e ribeirinhas, e nas dificuldades em que sejam beneficiadas pelos grandes projetos governamentais. Vale ler também a crítica de Ivana Bentes ao filme: ela gostaria que houvesse a incorporação da cultura indígena à narrativa. É um bom ponto.

***

Minhas entrevistas dos últimos dias:

Visita da presidente Dilma aos Estados Unidos (New York Times)

Brasil, Estados Unidos e América Latina, às vésperas da Cúpula das Américas (France Presse)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

Este filme é sobretudo um ensaio sobre o envelhecimento, o luto e o vazio que fica após o exercício do Poder, centrado na figura da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Duplamente outsider – por ser mulher e por suas modestas origens sociais – ela ascendeu à liderança do Partido Conservador em momento de severa crise econômica, implementou reformas controversas no Reino Unido e foi decisiva para a opção britânica de retomar pela guerra as ilhas Malvinas, após a ocupação pela Argentina. Além de tudo, Meryl Strep nos brinda com um de seus melhores desempenhos como a protagonista, pelo qual foi indicada pela 17ª vez ao Oscar.

Margaret Thatcher era filha de um pequeno comerciante, dono de quitanda, e a relação com o pai está bem mostrada no filme, que o ilustra como a fonte dos ideais de autoconfiança, ética do trabalho e uma certa obstinação – para não dizer teimosia – em suas escolhas individuais. Ela conseguiu se formar em Oxford, em Química, numa época (anos 1940) no qual poucas mulheres chegavam lá e pouco depois se lançou na carreira política, como candidata ao parlamento, apesar de atitudes condenscendentes da cúpula dos Conservadores.

Ela se casou aos 24 anos, com Denis Thatcher, um industrial retratado no filme como um homem bem humorado, íntegro e apoio fundamental na carreira da esposa. Segundo a maioria dos relatos, ele era isso mesmo, mas também um milionário com visões extremistas, como querer proibir sindicatos no Reino Unido. Tiveram um casal de filhos, que aparecem no cinema como tendo uma relação algo fria e distante com a mãe – eles questionaram essa interpretação em entrevistas após o lançamento do filme. A narrativa se passa nos dias atuais, com uma Thatcher idosa e senil, com dificuldades de distinguir passado e presente, lembrando-se de sua vida à medida que prepara-se para doar as roupas que pertenceram ao marido, falecido há anos, mas a quem ela ainda vê em alucinações. É uma opção cinematográfica bastante questionável, e que poderia ter sido um desastre se não fosse pelo desempenho extraordinário de Streep.

A política é mais o pano de fundo do que o palco central nesta produção, mas os principais fatos da carreira de Thatcher estão em tela: a crise econômica e social britânica da década de 1970, com as greves do célebre “inverno do descontentamento”, a perda de competitividade internacional do país, os atentados terroristas dos grupos da Irlanda e as polêmicas medidas de austeridade adotadas pela primeira-ministra e seu longo conflito com os sindicatos. Há ótimo apanhado de sua atuação na guerra das Malvinas, e boas cenas que mostram seu ceticismo pela União Européia, em particular na decisão de que o Reino Unido não adotaria o euro.

A visão sobre a personalidade de Thatcher é bastante equilibrada e matizada, com o desempenho de Streep ressaltando suas características positivas, como a determinação e a coragem, mas mostrando também seu lado sombrio, como a dificuldade de ouvir os outros, de fazer barganhas e concessões e uma centralização extrema que às vezes a levava a humilhar até assessores próximos.

Thatcher foi a 1ª mulher a servir como primeira-ministra no Reino Unido, e até agora a única. Também foi quem mais exerceu o cargo no século XX, por 11 anos (1979-1990). Uma vida longa e controversa que com certeza ainda alimentará diversos filmes e livros.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Separação

Há tempos não vejo um filme tão forte quanto “A Separação”, escrito e dirigido por Asghar Farhadi. É um drama familiar que nos diz muito sobre os conflitos políticos do Irã atual, mas acima de tudo é um exemplo de cinema humanista que transcende culturas e faz pensar nos trabalhos de velhos mestres como Roberto Rosselini ou Ingmar Bergman, pelo modo como apresenta dilemas individuais num mundo desordenado e injusto. Quase uma semana depois de vê-lo, me pego pensando em suas cenas e refletindo sobre seus diálogos.

O flime começa com o divórcio de um casal que está junto há mais de uma década e tem uma filha no início da transição da infância para a adolescência. A causa da separação é que a esposa quer emigrar, pois não vê futuro no Irã para a família, diante das “atuais circunstâncias” – que ela não explica, apesar de questionada por um juiz, mas que todos sabemos quais são. Seu temperamento inquieto é visível nos cabelos pintados de vermelho, entrevistos por baixo do véu. O marido quer ficar. Não por lealdade à República Islâmica, mas porque deseja permanecer ao lado do pai idoso e doente, que sofre de Alzheimer.

A esposa se prepara para sair do Irã e o casal decide quem ficará com a filha. Enquanto isso, o homem contrata uma empregada para cuidar do pai doente, enquanto ele está no trabalho. O salário é baixo, mas a mulher é muito pobre e enfrenta dificuldades extras: está grávida do segundo filho e o marido está desempregado e ocasionalmente na prisão, por não pagar suas dívidas. Ela está sob intensa pressão e tem problemas de saúde, não consegue lidar com o árduo trabalho físico de cuidar de um idoso, e sofre também com a dor de romper tabus religiosos, tendo que tocar um homem estranho. Acaba cometendo erros sérios, que darão origem a uma confrontação violenta com o patrão, numa escalada de conflitos que opõe as duas famílias e na qual todos e ninguem estão com a razão.

Como em no filme anterior do diretor, “À Procura de Elly”, é um ato inesperado de violência que revela as fissuras de uma sociedade aparentemente civilizada e organizada. São muitos focos de tensão: o econômico, entre os patrões de classe média (e suas redes de parentes e amigos) e os empregados pobres. O religioso, entre uma família quase laica e outra para quem as regras do Islã estão muito presentes no cotidiano e constituem a referência ética fundamental. O político, na relação com as autoridades do Estado que podem ser bastante duras na aplicação da lei, e bastante falhas no fornecimento de uma rede de proteção social e solidariedade.

O excelente roteiro coloca em cena personagens muito humanos: ambíguos, contraditórios, capazes de atos mesquinhos, mentiras, traições e egoísmos, e de gestos de generosidade e dedicação. Impossível esquecer a filha quase adolescente, que fará seu doloroso aprendizado da vida madura e da liberdade, sendo chamada a tomar decisões difíceis num ambiente de adultos confusos e que não servem como referência moral. O diretor afirma que ela representa a geração de jovens iranianos que, quiçá, poderão ter que aprender a viver na democracia. Terão um belo exercício neste filme de tantas vozes e visões de mundo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

J. Edgar

Se homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Se anjos governassem os homens, não seriam necessários controles externos ou internos ao governo. Ao planejar um governo que será administrado por homens, sobre homens, a grande dificuldade é esta: você precisa primeiro habilitar o governo a controlar os governados, e em seguida obrigá-lo a controlar a si mesmo.”

Alexander Hamilton e James Madison, “Os Artigos Federalistas

“J. Edgar”, novo filme de Clint Eastwood, é um ensaio sombrio a respeito dos impactos do (abuso de) poder sobre o caráter de um homem extremamente habilidoso e dedicado a seu país, mas atormentado por fantasmas emocionais que pioram ao longo dos anos e o transformam numa pessoa ruim e mesquinha, corrompida pela enorme influência que obteve por seu trabalho policial. Está longe de ser o melhor filme de Eastwood - há problemas com o elenco e o roteiro – mas é mais um forte trabalho em sua trajetória como cronista e intérprete da democracia nos Estados Unidos.

Seu biografado é John Edgar Hoover, que chefiou o FBI entre 1924-1972 e o transformou de um insignificante escritório no Departamento de Justiça numa das forças policiais mais eficazes do planeta, uma referência em termos de ciência e tecnologia aplicadas às investigações e com uma história de realizações no combate ao crime organizado nos EUA. Contudo, Hoover também era responsável por muitos casos envolvendo delitos políticos e ameaças à segurança nacional, e extrapolou por diversas vezes os limites da lei, da ética e de suas responsabilidades – ocasionalmente por ganho pessoal, em outros momentos por fanatismo e paranóia, que o levaram a enxergar maquinações comunistas em grupos democráticos que questionavam as ações dos presidentes americanos, como o movimento dos direitos civis. Ele não hesitava em chantagear os ocupantes da Casa Branca com base num enorme arquivo pessoal secreto, com gravações, fotos e documentos incriminadores sobre os governantes ou seus parentes próximos. Nenhum deles ousou demiti-lo do cargo.

Hoover nunca se casou e morou com a mãe até a morte desta. Houve muitos rumores sobre sua sexualidade, atribuindo-lhe um romance homossexual com seu principal assistente no FBI e até o hábito de usar roupas femininas em casa. O filme toma esses boatos como verdadeiros, e os mostra de maneira mais explícita do que acho necesário. O ponto essencial é que se tratava de um homem infeliz e amargo, com dificuldades de se relacionar com as pessoas e com uma formação moral muito rígida que se manifestava com frequência em perseguições aos seus próprios agentes no FBI, proibindo-os de usar certos tipos de terno, de ter bigode ou barba.

Ele foi um administrador eficiente, inovador e habilidoso nas disputas burocráticas com o Congresso com outros departamentos do Executivo. O filme mostra sua importância em usar as impressões digitais como uma técnica de investigação, em criar laboratórios para apoiar a ação do FBI e conseguir a aprovação de leis que permitissem mais campo de atuação para seus agentes, por vezes se aproveitando de casos dramáticos que levaram o pânico aos EUA, como os atentados da extrema-esquerda após a Revolução Russa, ou o sequestro do filho do aviador Charles Lindbergh. Ele também era atento à importância da imprensa e da arte, buscando contatos com jornalistas, desenhistas de quadrinhos e roteiristas de Hollywood para que retratassem com simpatia as proezas do FBI.

Há dois problemas significativos no filme. O primeiro é a fragilidade como ator de Leonardo DiCaprio para encarnar um personagem tão complexo. Ele não dá conta da tarefa, imaginei como seria ter um mestre da atuação, como Phillip Seymour Hoffman ou Gary Oldman como Hoover. Teríamos outro filme, muito melhor.

O segundo obstáculo é o roteiro. A narrativa é confusa, dividida em três momentos: Hoover na década de 1960, narrando sua juventude para agentes do FBI, depois o próprio período dos seus anos iniciais, 1919-1934, e posteriormente seus últimos meses de vida, já no governo Nixon. As idas e vindas são um tanto confusas e não funciona bem do ponto de vista dramático a autojustificativa de Hoover ao narrar sua própria trajetória.

*** Abusos de poder e necessidade de controles democráticos sobre o governo não são, evidentemente, um problema exclusivo dos Estados Unidos. Nesta semana em que a presidente Dilma Rousseff visita Cuba, vale sempre boa discussão sobre o tema. Abaixo, duas de minhas intervenções recentes:

Entrevista à Globo News – Uma sociedade mais democrática no Brasil pressiona por posições pró-direitos humanos nas relações com Cuba, em meio a um novo contexto regional na América Latina.

Entrevista à Rádio Holanda Internacional – Por que a diplomacia brasileira passou a criticar o Irã por violações de direitos humanos, mas mantém a postura de não-intervenção com respeito a Cuba.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Olhares do Cinema sobre a Primavera Árabe



Em outubro, no Festival do Rio, assisti a dois excelentes filmes sobre a Primavera Árabe: o documentário “Tunísia: o fim do medo” e a coletânea de curta-metragens de ficção “18 Dias no Egito”. A trajetória dos dois países está intensamente interligada. Suas ditaduras foram derubadas com poucas semanas de diferença e o mesmo ocorre agora com suas primeiras eleições legislativas livres. A tunisiana foi em outubro, a egípcia será no dia 28.

O documentário sobre a Tunísia foi dirigido por Mourad Ben Cheikh e é uma co-produção com a emissora Al-Jazeera, importantíssima como fonte de notícias críticas sobre o Norte da África e o Oriente Médio, e para criar ou fortalecer o senso de identidade pan-árabe dos países envolvidos nas revoltas democráticas.

O filme é um conjunto de entrevistas com pessoas que participaram da derrubada da ditadura de Ben Ali: uma moça que escreve um importante blog político, uma advogada que comanda uma ONG de direitos humanos, seu marido, um veterano militante comunista e uma mulher em tratamento psicológico, que monta um grande e belo painel fotográfico sobre a revolta, como modo de expurgar os efeitos nocivos do regime autoritário.

O subtítulo, “o fim do medo”, resume à perfeição o clima da produção e os depoimentos emocionam – o filme foi aplaudidíssimo pela platéia no festival. O mais impressionante foi constatar a relação entre a democratização do país e o reforço dos laços de confiança entre os cidadãos, além de sua recuperação do espaço público. Contudo, o documentário peca pelo pouco espaço dedicado aos islamistas – que já se consagraram como a principal força política da Tunísia, com 40% dos votos.




O filme egípicio é uma colaboração entre dez cineastas, cada um com seu estilo, mas há grande coesão narrativa e política entre eles, talvez pelo trabalho de organização e articulação de Sherif Arafa. Os diversos curta-metragens abordam temas como a perseguição política e a tortura sob a ditadura de Mubarak, o cotidiano dos capangas que atacaram os manifestantes pró-democracia, as reações das pessoas sem engajamento político que subitamente se viram envolvidas pelos gigantescos protestos e até episódios poéticos ou humorísticos, como o menino que quer apenas tirar uma fotografia em cima de um blindado, ou o rapaz que se apaixona platonicamente pela vizinha que participa da ocupação da Praça Tahrir.

O melhor e mais elaborado dos curtas é o que abre o filme: um grupo de pacientes internados num hospital psiquiátrico assiste espantado às notícias da revolução, enquanto percebem as mudanças na administração da instituição. Há de tudo entre eles: um coronel da polícia secreta, um islamita, um jovem rebelde, um professor desiludido, um cínico jornalista da TV oficial. Lembra a peça Marat/Sade, de Peter Weiss.

O filme egípcio não é exatamente mais pessimista do que o tunisiano, porém é um tanto mais cauteloso, no sentido em que deixa claro que há muitos outros interesses no país além dos grupos pró-democracia – partidários da ditadura, oportunistas que esperam ver para onde soprará o vento, cidadãos apáticos, assustados ou confusos. Ele não trata dos militares, presumo que o assunto ainda seja tabu numa nação com Forças Armadas tão influentes. Mas o tema será quente nas iminentes eleições. Por aqui, em breve.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Vergonha da Itália



Este é o primeiro de uma série de posts comentando os melhores filmes a que assisti no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, particularmente bom neste ano. Começo com dois documentários que tratam do declínio da Itália nesta época de crise econômica e de governo de Silvio Berlusconi.

“Itália, ame-a ou deixe-a” trata de dois rapazes que viajam pelo país conversando com pessoas sobre os problemas italianos, para decidir se irão emigrar (como fizeram vários de seus amigos) ou se permanecem e tentam mudar as coisas. O título é original, não é uma referência ao slogan do regime militar brasileiro.

O filme é surpreendente leve e bem-humorado, muito por conta da personalidade de um dos protagonistas, natural do Tirol, região italiana na qual a língua materna é o alemão, e que desempenha o papel de um cético rabugento, a todo tempo citando estatísticas que mostram o descalabro do país. Exemplo: apenas 15% de jovens na universidade, o índice mais baixo da União Européia!

No giro pela Itália, os dois rapazes vêem de tudo: crime organizado, corrupção, salários baixos, precarização do trabalho, cultura de massas vulgar e sórdida, degradação ambiental, descaso com o patrimônio histórico do país, maus tratos a imigrantes africanos, a persistência do fascismo e do autoritarismo na sociedade. Mas também encontram pessoas interessantes que estão engajadas em ações de transformação social. Não é um filme pessimista, mas chama a atenção o declínio acentuado com relação à prosperidade e criatividade do país nas décadas passadas.

O gráfico abaixo ajuda a entender os problemas, com a estagnação italiana desde a adoção do euro em 2002. O país perdeu competitividade internacional e enfrenta dificuldades crescentes para se manter solvente por conta da elevação das taxas de juros.



O documentário trata, claro, de Berlusconi – uma das sequências mais assustadoras é o encontro dos rapazes com um grupo de idosas que admiram o primeiro-ministro. Ele é o protagonista de “Para Sempre Silvio”, biografia não-autorizada e para lá de irônica, mas editada somente com seus discursos e declarações. Ou de pessoas próximas a ele, como sua mãe, mostrada no vídeo abaixo.



O filme trata brevemente de sua carreira como empresário, que o levou a se tornar o homem mais rico da Itália, mas concentra-se em seu envolvimento com a política. Depois que o sistema partidário italiano entrou em colapso com escândalos de corrupção, Berlusconi criou seu próprio partido e elegeu-se repetidas vezes com teatro público que tornou o primeiro-ministro célebre – ou infame – no mundo todo.

Os dois documentários por vezes acabam caindo na armadilha de focar nos escândalos sexuais de Berlusconi – assunto privado. Se ele organiza orgias com prostitutas com seu dinheiro, não é uma questão de Estado. Esse lado espalhafatoso do primeiro-ministro afasta o debate do que realmente importa: sua gestão da política pública italiana, a concentração de poderes em suas mãos e os riscos que representa para as instituições do país.

Dois livros recentes de intelectuais italianos renomados chamaram minha atenção. Na Foreign Policy, o jornalista Beppe Severgnini discute sua nova obra com 10 razões pelas quais Berlusconi se mantém no poder – sobretudo por meio de redes de clientelismo e corrupção.

E a Foreign Affairs publica trecho do novo estudo do filósofo Maurizio Viroli sobre a “tirania velada” do primeiro-ministro. Embora ele nunca tenha dado golpes de Estado, Viroli elenca vários motivos pelos quais o premiê ameaça a democracia, do cerceamento à liberdade de imprensa ao envolvimento com o crime organizado. O autor aponta também a fragilidade estrutural da sociedade da Itália, observando como os períodos de democracia liberal foram curtos e instáveis no país.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sergio: os dilemas das intervenções da ONU



Na semana passada estive na UFF, a convite do centro acadêmico dos estudantes de Relações Internacionais, para debater o documentário “Sergio”, a respeito de Sergio Vieira de Mello, o brasileiro que mais se destacou na ONU, tendo servido como chefe do governo de transição em Timor Leste, Alto Comissário de Direitos Humanos e representante no Iraque, onde foi assassinado num atentado da Al-Qaeda, em 2003. O filme é uma boa adaptação da biografia escrita pela jornalista Samantha Power, ainda que eu avalie que ele se concentra excessivamente no último dia de vida do protagonista e pouco aborde seus anos cruciais nas missões de paz da antiga Iugoslávia. Centrei minha palestra em como sua trajetória representa os dilemas das intervenções militares humanitárias após a Guerra Fria.

Vieira de Mello ingressou na ONU em 1969, recém-formado em Filosofia pela Sorbonne, e passou toda a vida profissional na organização. Filho de diplomata, havia morado em vários países, sobretudo na Europa. Era parte da geração rebelde dos anos 60 e na França tinha participado intensamente dos protestos de maio de 1968, chegando até a ser preso e espancado pela polícia. Militava na extrema-esquerda e tinha opiniões fortemente contrárias ao colonialismo e às intervenções militares do Ocidente em Estados como o Vietnã. Nas suas primeiras duas décadas nas Nações Unidas, trabalhou sobretudo com a distribuição de ajuda humanitária a refugiados na Ásia e na África.

A partir dos anos finais da Guerra Fria, as missões de paz da ONU se multiplicaram em número e aprofundaram seu escopo. Deixaram de ser concentradas na manutenção de cessar-fogo entre Exércitos hostis e passaram a abranger tarefas cada vez mais intervencionistas, como a “imposição da paz” a grupos armados que não haviam aceitado um acordo, organização de ministérios, condução de políticas públicas e até a construção de Estados soberanos no Kosovo e no Timor Leste. Vieira de Mello foi um ator importante em várias dessas operações, tendo inclusive chefiado algumas.



Meu argumento é que tais mudanças foram mais problemáticas do que em geral consideramos, porque significam contradição de princípios fundadores da ONU, como a neutralidade e a imparcialidade. Como afirmei em entrevista recente, a organização é encarada por grupos como radicais islâmicos (mas não só por eles) como uma maneira encobrir interesses das potências ocidentais, ocultando disputas por recursos naturais sob o manto da defesa dos direitos humanos e da democracia. Países como o Brasil tem sido bastante refratários às doutrinas mais intervencionistas das Nações Unidas, como a “responsabilidade em proteger”.

Contudo, muitas pessoas acreditam que a ONU pode e deve ter papel mais ativo nos conflitos internacionais, intervindo em países que violam os direitos humanos de sua população e forçando-os – por meio de sanções econômicas ou força militar – a mudar de atitude. O próprio Vieira de Mello passou a defender essa postura, após suas decepções com o modelo clássico das operações de paz das Nações Unidas. Argumentei que tal posição com freqüência subestima o quanto o poder é coercitivo e agressivo, mesmo quando aplicado com as melhores intenções, e pode gerar resultados contrários aos esperados. Citei o poeta britânico P.B. Shelley: “Os bons querem poder, mas para enxugar lágrimas inúteis. / Os poderosos querem bondade: inútil para eles.”

Tais contradições da ONU e das intervenções humanitárias foram elevadas ao máximo com a decisão da organização em instalar-se no Iraque após a invasão dos Estados Unidos. A idéia era aproveitar ao máximo a possibilidade de ocupar algum espaço depois do fato consumado da guerra não-autorizada pelo Conselho de Segurança. Não era difícil prever que muitos grupos a considerariam como simplesmente um braço auxiliar dos americanos no país e a Al-Qaeda a atacou com força – o atentado que matou Vieira de Mello foi o pior contra a instituição, às vezes chamado de “o 11 de Setembro da ONU”. Mas não foi o último, como mostram os ataques no Afeganistão e Nigéria.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Fora da Lei



O cineasta Rachid Bouchareb já havia nos brindado com "Dias de Glória" (Indigènes) um ótimo filme sobre os laços dolorosos e contraditórios entre Argélia e França a partir da experiência dos soldados argelinos que ajudaram a libertar os franceses do jugo nazista na Segunda Guerra Mundial. "Fora da Lei" é um novo épico, igualmente poderoso, que conta a história de uma família devastada pelas lutas de independência da Argélia.

O filme cobre o período de 1925 a 1962 e é centrado na saga de três irmãos que crescem na pobreza quando seus pais perdem as terras durante o corrupto regime colonial. Adbelkader é um intelectual preoce que se junta aos militantes pró-independência e participa dos protestos de Sétif, quando o Exército francês matou diversos ativistas nacionalistas no mesmo dia em que acabou a Segunda Guerra Mundial. Preso, Abdelkader vai cumprir a pena na França. Messaoud alista-se nos páraquedistas e luta na Indochina, onde testemunha a derrota do império francês para os vietnamitas. Said quer ficar fora da política, e temeroso da guerra, leva a mãe para morar numa favela nos arredores de Paris, onde acaba por se tornar um pequeno gangster, explorando prostituição e cabarés.

Na prisão, Abdelkader torna-se um aguerrido militante da Frente de Libertação Nacional, e uma vez solto reune-se aos irmãos e começa a organizar os argelinos na França para apoiar a guerra de independência. Messaoud, transformado pelo que viu na Indochina, alia-se a ele. A causa da FLN pode ser nobre, mas seus métodos são questionáveis e envolvem assassinato de rivais e dissidentes e a estratégia de provocar o Estado francês, esperando ganhar adeptos com a radicalização.

A maior parte do filme é centrada nesse esforço de organização política - uma espécie de "A Batalha de Argel" centrado no front francês e com algumas passagens na Alemanha e na Suíça, países em que a FLN montou bases importantes. O foco do cineasta é nas relações de família e nos ciclos de amizade, afastamento e lealdade entre os três irmãos. Há poucos personagens franceses de destaque, como um coronel do serviço secreto que persegue Abdelkader e uma simpatizante do FLN que se sente atraída por ele.

"Fora da Lei" é um épico com heróis falhos e cheios de defeitos e possivelmente sua visão sombria da história não agradará nem a franceses nem a argelinos. Que bom. O mundo tem nacionalismo extremista em excesso, um pouco de senso crítico diante da tragédia da política não fará mal a nenhum espectador.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

De Thomas Jefferson a Michael Moore



Assisti ao DVD de “Capitalismo: uma história de amor”, o documentário mais recente de Michael Moore. Superficialmente, é um filme com as características que o fazem adorado ou detestado: um panfleto ácido e bem-humorado com lógica conspiratória, que explica a crise econômica dos EUA como o resultado de um complô das elites empresariais, financeiras e governamentais, propondo como alternativa a mobilização popular para retomar o sonho americano. Mas o documentário pode ser interpretado de outro modo, como a manifestação mais recente de um padrão recorrente na história dos EUA, desde os tempos de Thomas Jefferson - a desconfiança que os defensores da democracia mantêm das grandes organizações econômicas. Moore repete, talvez sem perceber, argumentos presentes nos debates mais controversos do início da República, como a polêmica que opôs Jefferson aos federalistas pela criação do Banco dos Estados Unidos.

O banco foi idealizado por Alexander Hamilton, secretário do Tesouro. Seria de propriedade privada, mas negociaria com a dívida pública e estimularia o desenvolvimento econômico. O modelo era o Banco da Inglaterra, a bem-sucedida instituição que financiou de forma brilhante a expansão do império britânico. Mas Jefferson e seus seguidores acreditavam que o banco significaria a captura do Estado por parte de grandes interesses privados, que sem supervisão adequada desviariam os recursos públicos para seus próprios fins. Qualquer semelhança com os debates sobre a atuação do Tesouro, do Fed e do Congresso nos recentes mega pacotes de ajuda financeira não é mera coincidência.

Jefferson desconfiava de grandes burocracias e preconizava a importância de pequenos fazendeiros, autônomos e com espírito crítico, para fiscalizar a ação do Estado. Moore é um filho da prosperidade do século XX, seu modelo, como retratado no filme, é a sólida situação que sua família viveu durante sua juventude, com um pai que trabalhava na General Motors e um pacote de benefícios generosos, entre privados (plano de saúde) e públicos. Em suma, algo mais próximo ao Estado de Bem-Estar Social do que da utopia agrária de Jefferson.



O paraíso de classe média de Moore também está bastante distante da experiência contemporânea dos Estados Unidos. Nos últimos trinta anos, o país se tornou o mais desigual entre as nações desenvolvidas, como analisado em recente livro de Paul Pierson e Jacob Hacker. O 1% mais rico saltou de 8% da renda (1979) para cerca de 25% (2009). São os piores índices desde a Depressão da década de 1930. Os profissionais com menor qualificação tiveram piora considerável da renda. Em grande medida, a transformação reflete a guinada da economia industrial para serviços, como tecnologia da informação e finanças, que exigem instrução mais avançada, mas a concentração de renda também foi agravada por políticas públicas que beneficiaram os ricos, como redução de impostos.

Pierson é um dos mais respeitados especialistas na crise do Estado de Bem-Estar, na Europa e em sua versão mais modesta, dos EUA. É curioso, no entanto, que ele trate tão pouco do aspecto internacional. Será coincidência que as desigualdades sociais tenham aumentado tanto nos Estados Unidos quando a Guerra Fria acabou? A rivalidade com o comunismo e o medo da URSS foi um fator fundamental para o estabelecimento das grandes coalizões políticas das décadas de 1940-1970, que implementaram as abrangentes políticas sociais do período. Essa aliança foi rompida e nos EUA muitos conservadores inclusive repudiam as reformas do New Deal e dos anos 60.

No filme de Moore há o lamento do cineasta de que o socialismo nunca tenha sido uma ideologia política forte nos EUA. Na Europa, claro, a história foi outra, o que ajuda a explicar a permanência de boa parte dos Estados de Bem Estar naquele continente. Moore trata pouco das causas do caso americano, mas aos interessados recomendo “The Broken Covenant”, de Robert Bellah. Suas hipóteses: a fragmentação étnica dos trabalhadores americanos, dificultando a ação coletiva, e uma cultura política de matriz puritana, centrada nas virtudes do espírito individual de iniciativa, e cética diante de projetos coletivistas e de amparo governamental.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2: a guerra agora é na esfera pública



"Tropa de Elite 2" é melhor, mais maduro e sombrio do que o primeiro filme da série. O agora coronel Nascimento descobre que combater a corrupção na polícia - e sua ramificação, as milícias - é muito pior do que enfrentar traficantes em favelas, e que suas batalhas decisivas não são travadas com armas, mas na esfera pública, no Legislativo e por meio da imprensa, a um alto custo pessoal.

"Tropa de Elite" transformou o capitão Nascimento em herói nacional, um tanto a contragosto da equipe do filme, que o havia imaginado como um personagem problemático, à beira de um colapso nervoso. A verdadeira jornada heróica do primeiro filme era a de André Matias, o jovem e idealista aspirante que aprendia, ao longo da história, como se tornar um policial implacável, e eficiente no combate. Seu rito de transição terminava com ele assassinando o traficante que matara seu melhor amigo. Mas a vingança não era redentora, apenas simbolizava o que André perdera ao longo do caminho, como o rompimento com a namorada e o estranhamento com os colegas de turma na faculdade de Direito.

Em Tropa 2, os anos de violência cobraram um preço caro tanto para Matias quanto para Nascimento. O filme começa com os dois liderando uma invasão do BOPE a um presídio onde ocorre uma rebelião liderada por uma facção de traficantes. A operação terá um desfecho inesperado, que alterará a vida dos protagonistas: Nascimento vira subsecretário de Segurança, responsável pela inteligência, Matias começará um período de ostracismo na polícia, e o outro envolvido, o ativista de direitos humanos Diogo Fraga, é eleito deputado estadual com a agenda de denunciar os abusos cometidos por policiais.

O primeiro filme era maniqueísta e apresentava os ativistas de DH como inocentes úteis nas mãos dos bandidos. Diretor e roteirista aprenderam com as críticas: Fraga é um dos heróis do segundo longa, e aos poucos ganha o respeito de um relutante Nascimento, inclusive por razões pessoais - Fraga se casou com sua ex-esposa, e de certo modo fez a cabeça do filho adolescente do coronel, que tem problemas em se entender com o pai. Na Secretaria de Segurança, ele aplica suas idéias para transformar o BOPE numa excelente máquina de guerra. Mas à medida que mata ou expulsa traficantes de favelas, vê o vazio de poder ser preenchido pelas milícias, grupos do crime organizado com fortes ramificações na polícia, na Assembléia Legislativa e que funcionam como cabos eleitorais para a elite do estado.



Nesse aspecto, Tropa 2 é quase um roman à clef: todos os protagonistas são inspirados em figuras públicas do Rio. Fraga, no deputado estadual Marcelo Freixo, que presidiu a CPI das Milícias (e que faz uma pequena ponta como figurante, ao lado do sociológo Michel Misse). Nascimento e Matias, nos policiais Rodrigo Pimentel e André Batista.

Os vilões são facilmente reconhecíveis para aqueles familarizados com a crônica fluminense: são amálgamas de ex-secretários de Segurança, apresentadores de TV, deputados estaduais e federais. O Sistema, como diz Nascimento. Alguns dos episódios do filme, como a captura de uma equipe de jornalistas pela milícia, também foram inspirados em fatos recentes. Não é o padrão de Hollywood. Heróis morrem, coisas más acontecem a pessoas boas, e nem sempre os maus são punidos. Bem-vindos ao Rio de Janeiro.

"A única coisa que o Sistema respeita é a mídia", desabafa Nascimento. Os jornalistas estão por toda a parte em Tropa 2, e exercendo várias funções: fiscais das autoridades, manipuladores da opinão pública, ou simplesmente à busca de suas ambições pessoais, seja ganhar a manchete principal, seja usar sua fama para obter cargos públicos.

Tropa 2 talvez incomode aos fãs mais ardorosos do primeiro filme, pois mostra o quanto a ânsia da sociedade por vingança contra os criminosos é explorada e manipulada pela elite política corrupta que muitas vezes ganha legitimidade ao atender a esses anseios. O mal-estar será excelente, pois estamos diante de um filme altíssima qualidade, inteligente, provocador, tecnicamente impecável. Que venham mais e melhores deste quilate, pois a esfera pública brasileira também é feita pelo cinema.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Arte e política na Itália: Vincere e Caro Michele



Poucos países tem uma tradição de arte política tão forte quanto a Itália. Gosto especialmente do cinema na segunda metade do século XX e de sua belíssima crônica das esperanças e desapontamentos do período. A Itália contemporânea é um estudo de caso para o declínio de valores éticos, mas suas produções artísticas continuam a maravilhar, mesmo que não com a mesma freqüência da época mais rica.

“Vincere” [vencer, um dos brados dos fascistas], de Marco Bellocchio, é um olhar original sobre o fascismo, a partir de uma história pouco conhecida: o romance entre Benito Mussolini e a empresária Ida Dalser. Ela se tornou sua amante quando ele era um jovem e provocador jornalista de extrema-esquerda, nos anos que precederam a I Guerra Mundial. A eclosão do conflito dividiu os socialistas em toda a Europa, e Mussolini foi talvez o mais estridente entre os que abraçaram a causa bélica. No decorrer de quatro anos em que a Itália sofreu derrotas fragorosas, ele virou um nacionalista agressivo e um homem de direita.

Mussolini já era casado quando conheceu Ida, mas os dois tiveram um filho. A relação não era um problema nos tempos da militância socialista, porém virou um obstáculo político à medida que o fascismo ascendia e pregava um ideal bastante conservador de família, incompatível com os casos extraconjugais do Duce. Ida acabou num hospício, e o filho, criado por um ativista fascista.

Bellocchio usa a história de amor para fazer a anatomia da loucura do fascismo, sobretudo na sequências ambientadas nos diversos hospícios em que Ida é internada. Numa das melhores cenas, as internas cantam a altos brados os hinos fascistas, numa paródia que me lembrou a excelente peça Marat/Sade, de Peter Weiss, na qual o Marquês de Sade encena momentos decisivos da Revolução Francesa com seus colegas de encarceramento no hospício.

Destaque para o ótimo roteiro e uma dupla de atores sensacionais: Giovanna Mezzogiorno, como Ida, e Filippo Timi, que interpreta Mussolini e seu filho. Ele soa mais convincente e carismático do que o próprio Duce: imagens de época, exibidas no filme, o retratam como um canastrão risível, com mais do que uma semelhança ocasional com o atual primeiro-ministro Silvio Berlusconi...

Em suma, Bellocchio completa com este filme seu ensaio sobre outra loucura política italiana, a da extrema-esquerda, em seu ótimo “Bom Dia, Noite”, sobre as Brigadas Vermelhas.



A luta armada italiana é o tema de um belo e triste romance epistolar, “Caro Michele”, de Natalia Ginzburg, recém-publicado no Brasil. Ambientado no início dos anos 70, é a história de um rapaz (em italiano, Michele é o equivalente a “Miguel” em português) que se envolve com um grupo comunista em meio à uma intensa crise pessoal. Enquanto sua vida íntima cai aos pedaços, ele se envolve num conflito que não entende.

Acompanhamos seus dilemas por meio de cartas e bilhetes trocados entre ele, sua mãe, irmãs, o melhor amigo, uma moça a quem talvez tenha engravidado e outros personagens. A família é de uma confortável classe média e a correspondência entre os integrantes pulula de preconceitos: contra os pobres, homossexuais, e a incompreensão com as escolhas políticas do filho único. No belo texto de Ginzburg, a maior parte das coisas importantes não é dita, ou está nas entrelinhas, num jogo de silêncios e incompreensões que pavimenta o caminho para o destino trágico da geração dos anos de chumbo italianos.

Ginzburg escreve com conhecimento de causa: militante histórica da esquerda italiana, seu primeiro marido foi morto na prisão, durante o fascismo, e ela eurodeputada pelo Partido Comunista.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Uma Noite em 67 e Dzi Croquettes


Cultura, contracultura e o dinamismo artístico do Brasil durante a ditadura militar. Estes são os temas de dois ótimos documentários recém-lançados: “Uma Noite em 67” e “Dzi Croquettes”.

O primeiro foi dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra trata do III Festival da Canção, realizado pela TV Record. Os eventos eram famosos por reunir a nata da então nascente MPB e o de 1967 foi marcado pelo surgimento da revolução do Tropicalismo – um impacto tão grande que ainda hoje inquieta e desnorteia os protagonistas.

O filme contrasta as imagens da época com entrevistas com os principais artistas e organizadores do festival. Hoje são senhores de 60 e 70 anos, mas na ocasião eram inacreditavelmente jovens, levando em conta a qualidade de sua produção artística. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque tinham pouco mais de 20 anos quando compuseram clássicos absolutos da MPB como “Alegria, Alegria”, “Domingo no Parque” e “Roda Viva”. Já Sérgio Ricardo parece mesmo um moleque, na inesquecível sequência em que quebra o violão e o lança sobre o público, após uma longa vaia.

A platéia vibra, vaia, aplaude e participa de modo fantástico – bem, talvez o auditório da TV fosse o único espaço público para manifestações disponível na ditadura... Com direito aos exageros da época, como a passeata contra o uso de guitarras elétricas. Mas a televisão brasileira parecia muito mais velha. A pompa dos jornalistas e o estilo formal (cantores de MPB se apresentando de smoking, Caetano sendo chamado de "Veloso"!) mostra o quanto a cultura brasileira se transformou. Em grande medida, sob o impacto da contracultura e de movimentos como o Tropicalismo.

É patente a mágoa de Chico Buarque e Edu Lobo porque eram considerados “velhos e conservadores” diante de Caetano, Gil e dos Mutantes, embora fossem todos da mesma geração. A desorientação com os tropicalistas também atingiu a Jovem Guarda – uma das melhores cenas do documentário são os integrantes do MPB4 contando uma conversa com Erasmo Carlos, no banheiro de uma boate onde Caetano se apresentava, e todos confessando não entender nada do que acontecia. E como é curioso ver Roberto Carlos cantando samba, em pleno festival!




Se em 1967 a revolução nos costumes apenas começava, em meados da década de 1970 ela já havia explodido, e é disso que trata “Dzi Croquettes”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que faz um retrato afetuoso do grupo que misturava teatro, dança e música e lançou o embrião de uma guinada irreverente nas artes cênicas. Formado por 13 homens, homossexuais, que se apresentavam vestidos como mulheres mas com símbolos de virilidade, as Dzi Croquettes desafiavam esteriótipos e lotaram casas de espetáculo do Rio de Janeiro a Paris. A ditadura levou um tempo até perceber o que ocorria – seus shows não tocavam em temas abertamente políticos, mas eram desafios ao conservadorismo do regime autoritário

Tatiana é filha de um dos cenógrafos do grupo e destaca bastante o aspecto de “grande família”, que permeava as Dzi Croquettes – todos moravam juntos, por exemplo. Há um forte esforço de memória, de lembrar a importância de pessoas como o ator e humorista Wagner Ribeiro e do bailarino e coreógrafo Lennie Dale, um bad boy da Broadway que acabou em Copacabana, apaixonado por Bossa Nova e pela música brasileira - impressiona ver como muitos dos entrevistados choram ao se lembrar dele.

Oito das Dzi já morreram. Quatro por AIDS, um por aneurisma e três assassinados. Mas, curiosamente, a mensagem subversiva e questionadora do grupo se adaptou muito bem à TV, encontrando continuadores e difusores na geração de atores e humoristas formados no teatro do Besteirol – pessoas como Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Cláudia Raia, todos entrevistados no documentário. A própria Tatiana foi atriz da Globo, e hoje vive em Nova York e trabalha no mercado financeiro. Talvez seja o caso de inverter o famoso verso de Caetano Veloso: de perto, todos são normais. Dolorosamente normais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Tetro



Assisti em DVD a “Tetro”, o novo filme de Francis Ford Coppola, que o veterano diretor apresentou no Festival de Cannes de 2009. É um trabalho magistral sobre as rivalidades e segredos dos Tetrocini, uma dinastia de músicos e escritores, numa história que atravessa os Estados Unidos e a Argentina. Impossível não pensar na saga familiar dos Corleone, da célebre triologia d´”O Poderoso Chefão”, e na própria história dos Coppola, repletos de cineastas, atores e músicos. O diretor afirmou sobre o filme que “nada é autobiográfico e tudo é verdadeiro”. Acredito.

O filme é ambientado na Argentina, entre Buenos Aires e a Patagônia. O cenário é essencial, porque engloba a ascendência italiana da família e o rico ambiente cultural de música, literatura e teatro no qual circulam os personagens. O enredo: um adolescente chega à cidade para visitar o irmão mais velho, que não vê há mais de 10 anos, e por quem é fascinado. Ambos são filhos de um maestro respeitadíssimo, uma celebridade musicial, mas que com freqüência é autoritário e manipulador. O primogênito é um escritor frustrado que tentou colocar no papel, sem sucesso, as frustrações na relação com o pai e as mágoas e segredos da dinastia. A chegada do caçula será o catalizador para que todos esses problemas latentes venham à tona, num processo doloroso e sofrido, mas também com grande potencial redentor.

Coppola já tem mais de 70 anos, mas filma com o entusiasmo de um estreante – e a segurança de um velho mestre. Ele declarou que “Tetro” é seu primeiro “filme de autor”, e de fato é apenas a terceira vez em que é também o autor do roteiro. Filmado em preto-e-branco, com flashbacks em cor, falado majoritariamente em espanhol, não é uma obra para grande circuito, mas é um presente e tanto para os fãs de Coppola. E de bom cinema, em geral.

O elenco é muito bom. No papel do primogênito está o ator Vincent Gallo, excelente. Sua namorada, uma psiquiatra que se apaixonou por ele ao atendê-lo no projeto da rádio “La Colifata”, é vivida pela musa do cinema espanhol, Maribel Verdú. O pai-patrão é Klaus Maria Brandauer (o astro de “Mefisto” e “Coronel Redl”, presença saudosa nas telas) e o irmão caçula, Alden Ehreinreich (parece Leonardo di Caprio no início da carreira). Em pequenos papéis, temos Carmem Maura, Leticia Bredice e Rodrigo de La Serna.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Profeta



Este excelente filme de Jacques Audiard é uma versão contemporânea, e francesa, para a tradição dos dramas prisionais caros ao cinema dos Estados Unidos. O contexto social é o da busca pela identidade numa Europa fraturada por conflitos culturais e religiosos – dentro e fora dos muros da cadeia.

O protagonista é Malik, um rapaz de origem árabe preso por agredir um policial. Com apenas 19 anos, semi-analfabeto e sem família ou amigos para ajudá-lo, é presa fácil para as gangues rivais que disputam o controle da prisão. Até que recebe – como diria dom Corleone – uma oferta que não pode recusar. César, um velho corso que praticamente manda na cadeia, o recruta para assassinar um preso árabe que irá depor num processo importante.

Malik ascende na hierarquia da prisão como um faz-tudo para os corsos, que parecem uma mistura de mafiosos com criminosos políticos – há um movimento separatista na ilha na qual nasceu Napoleão. Os corsos operam numa rede étnica bastante fechada, mas o rapaz aos poucos conquista a confiança e mesmo um certo afeto por parte de César. Os demais corsos estão sendo transferidos ou libertados e César se vê cada vez mais sozinho e isolado diante dos árabes, cuja explosão demográfica está mudando o equilíbrio de forças dentro da cadeia.

Aos poucos Malik começa a ser designado para missões políticas para César, que lhe arranja liberdade condicional de modo que ele possa passar alguns dias fora da prisão. Malik começa a intermediar negociações complexas entre os corsos e outros grupos, e inicia suas próprias e lucrativas iniciativas comerciais.

Contudo, Malik segue um criminoso de segunda categoria para os corsos, com freqüência sendo ofendido com xingamentos étnicos e religiosos. À medida que inicia uma amizade com outro preso árabe, o rapaz desenvolve uma autoconsciência crescente de sua identidade e começa a manobrar sua posição de intermediário para deflagrar uma guerra étnica que mudará o jogo dentro da cadeia.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Instantâneos do Século XXI



Em julho lecionarei na Casa do Saber o curso “Instantâneos do Século XXI – Grandes mudanças no cinema, na literatura e na sociedade”. A idéia é discutir em quatro aulas o que a arte produzida nos últimos 10 anos tem a nos dizer sobre o mundo contemporâneo.
Estruturei o curso em quatro aulas: terrorismo/guerra; celebridades/líderes, economia global e uma sessão dedicada ao olhar atual sobre as utopias do século passado. É muito comum que eu cite filmes e romances nos meus debates a respeito de Ciência Política, de modo que a idéia de um curso inteiro para abordagens artísticas é um desdobramento lógico.

Eis alguns dos autores que pretendo utilizar:

Na literatura e no teatro: Ian McEwan, Mohsin Amid, Eduardo Mariani, Aravind Adiga, Tom Stoppard, Michael Frayn, J.M. Coetzee, Mia Couto.

No cinema: Robert Redford, Clint Eastwood, Walther Moreira Salles Jr., Costa-Gavras, Neill Blomkamp, Ari Folman, Fernando León de Aranoa, Juan José Campanella, Roman Polanski.

Meu objetivo é fazer um apanhado geográfico bastante abrangente, com artistas da Europa, EUA, América Latina, Ásia e África. Afinal, este século se inicia sob o signo das potências emergentes, fora do mundo ocidental.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Escritor Fantasma



O cineasta polonês Roman Polanski está preso por ter estuprado uma adolescente na década de 1970. Sua história de vida trágica incluiu a perda de sua ex-esposa (então grávida do primeiro filho do casal), a atriz Sharon Tate, que foi assassinada por um psicopata. É incrível que Polanski tenha o mínimo de equilíbrio emocional necessário para dirigir um filme e quase inacreditável que ele o faça com extraordinária competência. Seu último lançamento, “O Escritor Fantasma”, mistura política, espionagem, direitos humanos e política internacional.

O protagonista é um homem cujo nome nunca é dito, interpretado por Ewan McGregor. Ele trabalha como ghost writer para celebridades – seu último caso foi a autobiografia de um mágico – e acaba sendo designado para escrever as memórias de Adam Lang (Pierce Brosnan), um carismático ex-primeiro-ministro britânico. O redator anterior apareceu morto em circunstâncias misteriosas e a conjuntura é dramática: Lang está sob investigação do Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra. Ele é acusado de ter cedido suspeitos de terrorismo para o programa secreto da CIA que os torturava em ditaduras aliadas.

O escritor é confinado numa ilha na Costa Leste dos EUA, onde Lang se refugiou com a esposa, Ruth (Olivia Williams) e alguns assessores. À medida que começa o trabalho, surgem dúvidas, peças que não se encaixam. Lang é um mulherengo boa-vida, e sua decisão de entrar para a carreira política não faz sentido. Sua esposa parece muito mais inteligente e dedicada, mas a relação dos dois é péssima. Diversos dados biográficos do ex-primeiro-ministro são confusos e de algum modo essa indefinição parece relacionada ao desaparecimento do outro ghost writer. Simultaneamente, o crescimento dos protestos sociais contra Lang colocam o personagem de McGregor numa situação ética bastante incômoda.

Num clima de paranóia que vai se tornando cada vez mais asfixiante, o escritor fantasma se envolve numa trama de espionagem que aborda as guerras no Oriente Médio, os conflitos em torno do terrorismo e a responsabilidade moral dos governantes. Tudo isso com uma interpretação muito, muito interessante do atual estágio das “relações especiais” entre EUA e Reino Unido.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Que Resta do Tempo



Em “O Que Resta do Tempo – crônica de um presente ausente”, o cineasta Elia Suleiman conta a história de 60 anos de conflito árabe-isralense por meio de quatro episódios na vida de uma família palestina de classe média, residente na cidade de Nazaré, que se vê incorporada a contragosto no Estado de Israel. Político, poético e autobiográfico, Suleiman criou uma obra de arte comovente que mostra que a resistência à opressão passa por muitos caminhos, inclusive os gestos cotidianos, como pescar, manter a língua afiada, dançar durante o toque de recolher e jamais perder a capacidade de indignação e surpresa com os absurdos da guerra.

A narrativa começa em 1948, com a guerra que criou Israel. O pai de Elia é um rapaz que fabrica armas e integra uma mílicia árabe desorganizada, que não é páreo para o exército israelense, que rapidamente ocupa Nazaré. Preso após ser traído por um companheiro palestino, ele passará por momentos dramáticos com seus captores.

No episódio seguinte, em 1960, o cineasta é um menino sonhador e inquieto, que estuda numa escola israelense voltada para a minoria árabe que vive no país. Os alunos cantam canções em hebraico que falam da alegria da criação de Israel, mas Elia se mete em confusão por suas opiniões heterodoxas. Os palestinos enfrentam a humilhação da derrota: o vizinho da família se embriaga e ameaça se autoimolar, enquanto tece teorias mirabolantes para pensar maneiras de vencer o inimigo. A tia do garoto desenvolve uma obsessão com o escapismo da TV, e acredita sempre ver na tela a irmã que emigrou para a Jordânia.



No trecho posterior, em 1970, Elia é um adolescente cujos problemas vão se tornando mais sérios, incluindo enfrentamentos com as autoridades israelenses por conta de atividades na resistência à ocupação. A causa palestina vive um momento de desorientação, abalada pela morte do presidente egípcio, Gamal Nasser, que havia sido seu principal patrono.

O último episódio mostra um Elia já maduro, retornando a Nazaré para visitar a mãe doente. A cidade enfrenta a turbulência da Segunda Intifada, e o cineasta visita também Ramalah, a capital da Autoridade Palestina. O cineasta vê com humor os detalhes surreais do conflito e as contradições entre a modernização da sociedade – imigrantes e turistas de várias partes do mundo, cultura pop – com a persistência dos ódios étnicos, nacionais e religiosos.

“O que Resta do Tempo” é um filme com surpreendentemente poucos diálogos, Suleiman tem um estilo cômico que lembra o humor mudo de Buster Keaton ou Jacques Tati. E, como Keaton, seus personagens não sorriem. É fascinante como ele mostra a passagem de 60 anos por meio de pequenas mudanças, no cenário, no figurino, nos objetos em cena.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Os Homens Que Encaravam Cabras



Fazia tempo que não via um filme tão original quanto "Os Homens que Encaravam Cabras". Uma sátira aos novos modos de se travar a guerra, e um olhar afetuoso e nostálgo à contracultura das décadas de 1960 e 1970, mesmo no improvável ambiente das Forças Especiais do Exército. O mais bizarro é que boa parte das situações do enredo ocorreram realmente, sendo apenas levemente modificadas para o cinema. Um trabalho esperto e ágil do cineasta Grant Heslov, roteirista do também ótimo "Boa Noite e Boa Sorte."

O roteiro, excelente, mistura dois eixos narrativos. No primeiro, um jovem repórter, Bob Wilton, (Ewan McGregor) é abandonado pela esposa, e resolve provar seu valor indo cobrir a guerra do Iraque. Ele acaba esbarrando no soldado Lyn (George Clooney) que havia pertencido a uma unidade secreta do Exército, que visava à criação do que ele chamava de "guerrereiros jedis", com poderes paranormais. O jornalista se junta ao militar, que ruma para uma missão clandestina no interior iraquiano, e à medida que viajam, Lyn conta sua história.

Lyn havia sido recrutado pelo excêntrico coronel Django (Jeff Bridges, que rouba o filme numa atuação maravilhosa). Após ser ferido no Vietnã, Django entrou numa crise existencial e passou anos vagando pelos cultos e tendências mais radicais da contracultura. Mas decidiu voltar às Forças Armadas e criar uma unidade especial, o "Exército da Nova Terra", para aplicar suas técnicas recém-descobertas à prevenção de conflitos e à construção de uma cultura de paz.



Misturando esoterismo, cultura pop (há muitas e divertidíssimas citações de Star Wars, inclusive pela escalação de Ewan "Obi-Wan Kenobi" McGregor) e paranóia da Guerra Fria, a unidade atrai uma série de recrutas, dos quais Lyn é o mais brilhante, e começa a fazer um certo sucesso com seus métodos heterodoxos. Mas a inveja de um soldado menos talentoso, Larry (Kevin Spacey), leva o projeto à derrocada.

Quanto mais se infiltram no caos do Iraque, Bob e Lyn encontram mercenários, sequestradores, tortura, e os empreiteiros que lucram na onda de terceirizações e privatizações da guerra. Aos poucos, os dois fios do enredo se mesclam, com aplicações surpreendentes do que Lyn chama de "o lado negro" de suas antigas atividades no Exército da Nova Terra.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Pachamama



Os latino-americanos sofremos de um déficit de imagens cinematográficas sobre nosso próprio continente, sobre nossos países, povos e costumes. E são ainda mais raros os olhares brasileiros para as demais nações da região. Por isso, é especialmente importante o lançamento do documentário “Pachamama”, de Eryk Rocha (filho do cineasta Glauber), que narra uma viagem ao Peru e à Bolívia, acompanhando as transformações sociais em curso nos Andes. Aliás, trata-se de uma parceria com o Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos mais dinâmicos e criativos centros de pesquisa a respeito da América Latina.

O filme tem uma brevíssima narração em off, limitada ao início, e no resto do documentário o espectador é estimulado e pensar e refletir por meio de um conjunto de belíssimas imagens que vão da Amazônia às minas de estanho bolivianas, passando pela arquitetura deslumbrante de Cuzco, no Peru, e por manifestações nas ruas de La Paz e El Alto.

Eryk filma as pessoas comuns com grande empatia e respeito, e desse modo temos depoimentos excelentes de uma grande variedade de personagens: ativistas de associações de moradores, índios na fronteira do Peru com o Brasil, velhos camponeses narrando mitos de criação da Terra e condenando o genocídio perpetrado pelos espanhóis, militantes da autonomia das províncias bolivianas, entusiastas de Evo Morales, peruanos descrentes de tudo, crianças fascinadas com a câmera.

Bolívia e Peru têm histórias semelhantes, mas realidades que são hoje muito diversas, e o filme mostra isso com clareza. Os dois países eram parte do Império Inca e foram subjugados pela Espanha por suas riquezas minerais. Após a Independência, foram governados por repúblicas oligárquicas que passaram por convulsões sociais depois de derrotas militares – respectivamente, para o Paraguai e o Chile. A diferença é que a Bolívia teve na Revolução de 1952 um impressionante processo de mudança que até hoje dá frutos, ao passo que as transformações no Peru foram bem mais limitadas e travadas pela violência e pelo autoritarismo, em particular pelos efeitos do terrorismo do Sendero Luminoso e da ditadura de Alberto Fujimori nas décadas de 1980/1990.

Em linhas gerais, o resultado é que os peruanos entrevistados no filme apresentam uma enorme descrença na política e no Estado, em atitudes nihilistas do tipo “tudo está perdido”. Na Bolívia, há uma intensa mobilização política – em torno dos movimentos sociais indígenas e dos grupos regionais que se opõem a eles e querem autonomia do poder central em La Paz. O risco no Peru é a apatia, na Bolívia, a polarização e a violência entre facções opostas. Mesmo assim, impressiona a articulação e clareza com a qual os bolivianos das diversas correntes expõem suas opiniões e defendem suas idéias.

No início do documentário, Eryk Rocha diz que filma os países vizinhos com o objetivo de fazer com que nós, brasileiros, pensemos um pouco sobre nós mesmos, a partir do olhar lançado para outros povos, que nos são próximos. De fato, Bolívia e Peru oferecem um jogo de espelhos para analisar a situação brasileira. O Brasil não tem movimentos sociais tão ativos e dispostos a cobrar resultados do Estado quanto os bolivianos – a maioria das organizações populares chegou a algum tipo de apoio/acomodação ou acordo com o governo Lula. As posições nihilistas dos peruanos encontram muito eco entre os brasileiros, sobretudo quando se trata de corrupção, mas a maioria dos brasileiros têm expectativas muito mais sólidas com relação ao Estado, que por aqui conseguiu construir ilhas de excelência de êxito inegável.

Enfim, bons temas para debates. Aguardo o lançamento do filme em DVD, para que eu possa usá-lo em sala de aula.