sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um Copo de Cólera



Nesta semana o mais importante filantropo americano no Paquistão e no Afeganistão, Greg Mortenson (foto), foi acusado pelo jornalista Jon Krakauer e pelo programa “60 Minutos” de ser uma fraude, tendo mentido sobre suas atividades de caridade e desviado doações. A controvérisa é feroz, porque os dois lados envolvidos têm muito prestígio. Mortenson vendeu cerca de 5 milhões de exemplares de seus livros, foi duas vezes indicado ao Nobel da Paz e recebeu até parte do dinheiro que o presidente Barack Obama ganhou do prêmio.

A história que rendeu a Mortenson tanta admiração é aquele narra em seu livro “A Terceira Xícara de Chá”. Ele era enfermeiro e alpinista amador e um dia se perdeu ao tentar escalar o K2, uma das montanhas mais altas do mundo. Terminou numa aldeia paquistanesa no sopé do Himalaia, habitada pelos baluchis, um povo de origem tibetana. Eles cuidaram com hospitalidade e afeto do estrangeiro desorientado e o encontro mudou sua vida, pois chocado com a extrema pobreza local, ele passou a se dedicar a construir escolas na região e em áreas vizinhas, como o Afeganistão. Sua mensagem, simples, é que a solidariedade e a cooperação internacional derrubam as barreiras culturais e o ódio e são o melhor antídoto ao fundamentalismo e ao terrorismo.

O livro é bem escrito e cativante e tocou em várias cordas sensíveis do público americano. Mortenson é filho de missionários e passou parte da infância na África. Sua narrativa é cheia de respeito pelos “bons selvagens” baluchis, não-corrompidos pela civilização, que lhe ensinam a importância de ter tempo para “a terceira xícara de chá”, ou seja, construir relações sólidas e carinhosas com amigos e família. Mortenson é ajudado ao ajudar e as lições que aprende com os baluchis o levam a reestruturar sua vida, trocando uma carreira instável pela fundação de uma associação filantrópica dedicada às escolas, e superando amores infelizes por um casamento fruto de um amor à primeira vista.



Todos gostam de um final feliz e a história de Mortenson parecia uma exceção em meio ao caldeirão de ódio e incompreensão que domina as relações entre EUA, Afeganistão e Paquistão. As denúncias de Krakauer e do 60 minutos são graves. Eles afirmam que o alpinista nunca teria ficado perdido na aldeia baluchi, que não foi preso pelos Talibãs, que construiu muito menos escolas do que afirma e que teria desviado para si mesmo cerca de 60% do que arrecadou com doações, para financiar gastos luxosos como um avião privado. Mortenson publicou defesa tímida e hesitante, que desapontou seus muitos admiradores.

Para além do drama pessoal do alpinista e filantropo, é possível fazer uma interpretação política da polêmica. Primeiro, ela revela as frágeis bases do pensamento a respeito da cooperação internacional dos Estados Unidos na “guerra contra o terror”. Como afirma Rebecca Winthrop, da Brookings, “boas intenções não são o suficiente” e o projeto preconizado por Mortenson têm falhas sérias, em especial pela dificuldade de acompanhar o trabalho e treinamento dos professores, e o desempenho dos alunos.

Em segundo, destaca a avidez da cultura de celebridades globais dedicadas às boas causas, e a decepção resultante quando os ídolos fracassam. A armadilha do personalismo: indíviduos são fragéis, contraditórios, suscetíveis a todo tipo de erro e de pressão. Mortenson motivou muitas pessoas a fazerem o bem, mesmo que suas próprias razões sejam, aparentemente, bem mais sombrias. Talvez quem esteja certo seja o velho mestre Machado de Assis: “o vício é muitas vezes o estrume da virtude, o que não impede a virtude de ser uma flor cândida e bela.”

6 comentários:

Turismo & Paradigma disse...

Muito bom seu texto.
Mas fica o velho poder do exemplo. A frase de Machado que terminou o seu txto serve para não desestimular aqueles que tem tendências altruístas.
Parabéns
Gustavo

Mauricio Santoro disse...

Caro Gustavo,

Pois é, acho que o velho Machado diria que a vida segue e que boas ações por vezes são o resultado de motivações ruins.

abraços

Karin Nery disse...

Muito bom!
Adorei a citação de Machado de Assis! Encaixa-se mto bem com a msg!

Abs.

Mauricio Santoro disse...

Obrigado, Karin.

Devo voltar em breve a Sampa.

Até lá!

abraços

Anônimo disse...

salve, santoro,

o altruísmo, também, é uma característica de nossa espécie, daí devemos sempre louvá-la.

no entanto, só se tornam eficazes quando se transformam em políticas públicas de uma determinada comunidade ou mesmo de um país.

um exemplo seria o combate à fome do inesquecível betinho e a institucionalização do bolsa família.

em sentido contrário, a legião da boa vontade e sua indefectível distribuição de sopa que só resulta em manipulação política.

abçs

carlos anselmo-fort-ce

Mauricio Santoro disse...

Salve, Carlos.

Sem dúvida há um impulso por cooperação dentro de cada um de nós, mas penso que é preciso um nível mais elevado de planejamento para transformar esses sentimentos positivos numa boa política pública.

abraços