quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Graciliano Ramos, gestor público



Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejavam administrar. Cada pedaço do Município tinha um administrador particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.

Tinha ouvido falar bastante do célebre relatório que Graciliano Ramos enviou ao governador de Alagoas, mas só há poucos dias li o texto completo. Ele foi escrito no fim da década de 1920, quando Graciliano era prefeito da pequena cidade de Palmeira dos Índios e ainda não havia publicado nenhum trabalho de ficção. Contudo, o relatório chamou a atenção para seu nome e logo ele despontou como um dos principais nomes do modernismo brasileiro.

Para que semelhante anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensava uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administrava melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.

Os debates sobre administração pública no Brasil são muito sofisticados do ponto de vista teórico e mostram atualização sobre as correntes mais atualizadas no exterior. O problema é que com frequencia essas discussões estão muito descoladas da realidade brasileira. Em diversos casos, a situação não é tão diferente da que Graciliano enfrentou: a tentativa de construir uma administração profissional num quadro dominado por patrimonialismo e recursos escassos.

Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restaram poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem com suas obrigações e, sobretudo, não se enganam nas contas. Devo muito a eles.

Não sei se a administração do Município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior.


Graciliano escreveu um pouco antes do início de uma série de iniciativas implementadas pelo presidente Getúlio Vargas para modernizar o serviço público. Ao longo da década de 1930, foram feitas reformas importantes, em particular pela criação do DASP, uma espécie de super-ministério encarregado da reorganização do Estado. Durante o período ditatorial, o DASP teve braços nos governos estaduais (então chamados de interventorias). A redemocratização ocorrida em 1946 não soube bem o que fazer com essa herança, que acabou minguando. Mas os técnicos formados nessa época foram fundamentais para os esforços do nacional desenvolvimentismo das décadas de 1950 a 1970.

Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.

Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome.

Não me fizeram falta.

Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebescito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.


Graciliano cansou rápido da gestão pública e foi ser escritor e jornalista para o resto de sua existência. Se vivo fosse, provavelmente se espantaria em como os viventes desta terra ainda precisam avançar tanto no sentido de concretizar uma administração governamental profissional.

A biblioteca da Escola Nacional de Administração Pública se chama Graciliano Ramos. É uma bela biblioteca. Passei momentos muito agradáveis nela, quando lá estudei.

Talvez o Velho Graça gostasse da homenagem. Ou talvez matutasse se não haveria outro gestor, quiçá com mais anos de experiência, para receber a honraria.

5 comentários:

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio,

Se por um lado os gestores hoje se tem um avanço significativo na administração, por outro existe o legado patrimonialista está aí e a política continua sendo um meio que a sociedade vê de se enriquecer, por isso a noção de Estado separado dela (sociedade).

Marcelo L. disse...

Nem vou seguir muito, por que tenho visão que não muito boa de nenhum dos lados que hoje atuam na política, claro que diferente de vc por ser paulista tenho mais notícias e "amigos" em um...por isso sei que eles vêem Brasilia como sua Jerusalém , e como bons cruzados vão saquea-la quando a tomarem.

Enzo Tessarolo disse...

Mauricio,

Estava escrevendo um estudo sobre o Estado Social brasileiro e percebi realmente essa dificuldade em se enquadrar a realidade brasileira em uma corrente produzida no exterior. As teorias neomarxistas e as neoinstitucionalistas me pareceram mais adequadas. Essa última principalmente, pois reconhece a influência dos legados políticos (como o patrimonialismo brasileiro) sobre a elaboração das políticas públicas.

A elite política-administrativa parece estar bem representada. Vinicius de Moraes no Itamaraty, Graciliano Ramos na Administração Pública...eheh.

luizgusmao disse...

uai: não foram dois relatórios? um para cada ano em q ele ocupou a prefeitura? lembro de ter dado boas gargalhadas com o estilo marrento, seco e ríspido desse catão em luta contra os desmandos e a politicagem do interior.

Mauricio Santoro disse...

Caros Marcelo e Enzo,

Patrimonialismo, eis a questão. Sem dúvida a profissionalização avançou, mas a gente vê cada coisa no Estado...

Entre as correntes teóricas estrangeiras, as duas que o Enzo mencionou me parecem mesmo as mais interessantes, mas vale a pena ler também "The Three Worlds of Welfare Capitalism", do Gosta Esping-Andersen. O modelo brasileiro se aproxima do tipo "corporativista" descrito por esse autor.

Salve, Gusmão.

Até onde sei foi apenas um relatório, descrevendo todo o período em que ele foi prefeito.

Abraços