quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Queda do Muro de Berlim



Nesta semana se comemoram os 20 anos da queda do Muro de Berlim - acima, a foto da celebração na cidade. Na narrativa mais difundida, é o evento que marca o colapso do comunismo (ou do socialismo real, para quem prefere o termo) e a consolidação da democracia como principal regime político do mundo. Minha avaliação é mais sombria – o fim do Muro foi um passo importantíssimo nesse sentido, mas sistemas e ideologias autoritários continuam fortes em diversas partes do planeta.

Na segunda tive um exemplo concreto disso. Fui a um debate sobre a queda do Muro, entre meu amigo Matias Spektor e o jornalista Pedro Bial. A ótima troca de idéias foi bruscamente interrompida por um velho comunista, que agrediu Bial e a platéia com xingamentos e gritos, lamentando o fim da União Soviética, acusando Gorbatchev de traidor subornado pelo Prêmio Nobel e por aí vai. Vários dos meus alunos estavam presentes e disse a eles que o espetáculo valia como uma aula de história do presente: para muitas pessoas, o Muro ainda não caiu.

Os palestrantes mencionaram a importância da imprensa nos acontecimentos e de como a comunicação mais veloz exige outro tipo de resposta dos líderes políticos. Comentou-se, claro, a recente mobilização pró-democracia no Irã. Tudo isso é verdadeiro e importante, mas enquanto conversávamos, Yoani Sanchéz era presa e espancada pela polícia cubana, em represália ao sucesso de seu blog que denuncia os desmandos do regime, e os golpistas em Honduras descumpriam o acordo com Zelaya em mais um gesto truculento.

Na Alemanha, os resultados da unificação foram bastante satisfatórios, levando em conta o tamanho dos desafios enfrentados pelo país. As condições de vida e a renda per capita no Leste continuam inferiores aos do Ocidente, mas esse foi sempre o padrão histórico, mesmo antes da divisão ao fim da Segunda Guerra Mundial. Berlim se tornou novamente uma capital cosmopolita e uma das cidades mais dinâmicas e interessantes da Europa. A Alemanha unificada não virou uma potência nacionalista ressurgente – como temiam franceses, britânicos e muitos alemães – e aprofundou seus vínculos com os vizinhos, por meio da criação da União Européia e da adoção do euro, a moeda comum do continente.



Cerca de 15% dos alemães desejam a volta do Muro, percentual curiosamente próximo à votação recebida pelos antigos políticos comunistas. O país é governado de forma habilidosa por uma chanceler conservadora oriunda do Leste e embora persistam problemas com movimentos racistas e xenófobos, eles são menos graves do que aqueles enfrentados por outras nações européias, como Áustria, França e Itália. A vida cultural alemã vive um momento de grande dinamismo, com realizações notáveis no cinema, literatura e teatro, em geral obras artísticas voltadas para o acerto de contas com o passado nacional.

Os 20 anos da queda do Muro e dos extraordinários acontecimentos de 1989 renderam a publicação de diversos livros. Se você quiser conhecer um pouco do debate, recomendo a excelente resenha sobre o tema, escrita pelo historiador Timothy Garton Ash. Seu livro “Nós, o Povo”, continua a ser o melhor sobre as revoluções na Europa Oriental. Para os eventos na URSS, minha dica é “A Queda do Império Soviético” (Down with Big Brother, no original), do jornalista Michael Dobbs. Mas se você quiser ler apenas uma obra, sugiro: “O Muro de Berlim: um mundo dividido, 1961-1989”, do historiador Frederick Taylor, que consegue fazer uma excelente ponte entre os debates sobre a Grande História e as trajetórias cotidianas cortadas dramaticamente pela Guerra Fria.

É com um episódio narrado no livro que encerro este texto. Todos conhecem a imagem do soldado alemão oriental pulando o Muro (quando a barreira era, na realidade, apenas uma cerca de arame farpado) para o Ocidente - foto que reproduzo acima. O rapaz se chamava Conrad Schumann e reconstruiu sua vida na indústria automobilística, casando-se e formando família. Após a queda do Muro, retornou em visitas ao Leste e descobriu que os amigos de juventude o consideravam um traidor, e recusavam seu desejo de reconciliação. A carga foi demais para Conrad, que cometeu suicídio. Que seu destino trágico nos leve a refletir sobre o muito que precisamos avançar para concretizar as promessas de liberdade e realização contidas no fim do Muro.

6 comentários:

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio,
Vamos por partes, mas sobre Cuba tinha lido do ocorrido no site passo de caranguejo e é duro, a ditadura cubana piora a cada momento, o isolamento infelizmente nesse caso reforçou o regime, como já era de esperar, já que a polarização aí nunca foi democracia x ditadura e sim aliado americano x cubanos.
Honduras, apesar de concordar com a intervenção brasileira era de se esperar um balão do Micheletti, acompanho um forum hondurenho e vi que ninguém deu como certo a volta do Mel, além do mais os vôos de "turistas" para lá aumentaram, a violência, nos últimos dias pessoas ligadas ao tenebroso batalhão 316 reforçaram suas posições.
Mas, pela imprensa da área acredito que o Brasil ganhou pontos e os EUA agora estão com problema para descascar, a própria saída de cena fez com que pareça que somos um governo de ideiais multilaterais e não imperialistas.
Agora a do Bilal, é o fim da picada, mas eu não vejo em nenhum dos lados como o muro tenha caído, a polarização só aumentou ao ver agora, já que agora não está claro as posições, essa necessidade de fantasmas criou de um lado a Fundação Ford como onipresente do outro lado o tal fórum São Paulo.
A queda do capitalismo de estado como diria o Andrés Nin Pérez caiu de podre por razões ao meu ver gerenciais do modo de produção, quem sabe um dia o patrimonialismo brasileiro vai também a breca pelas mesmas razões, só espero que sem a mesma crise social.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Marcelo.

Honduras merece um novo post, que virá em breve, tão logo eu me informe melhor sobre os novos desdobramentos.

Na Europa Oriental, foram vários fatores que levaram à queda dos regimes comunistas, e os ideais democráticos foram apenas parte de um pacote que incluiu também nacionalismos, religião e o desejo de prosperidade econõmica.

Mas na Alemanha a questão democrática foi particularmente importante, pois do outro lado do Muro havia um exemplo muito forte para ser seguido.

Fico verdadeiramente surpreso com a persistência de pessoas que ainda sentem saudades dos regimes da Cortina de Ferro, eu pensava que eles já estavam definitivamente abandonados. Mas no caso brasileiro, isso provavelmente se deve mais a uma postura de criticar o capitalismo do que propriamente pela admiração àqueles sistemas.

Abraços

Mário Machado disse...

Não sei Mauricio posso ser mais pessimista mas parece que pra muitos no país, principalmente na acadêmia, ainda estamos em 1968.

Um loop eterno...

Enzo Tessarolo disse...

Salve Mauricio,

realmente curiosa essa pesquisa divulgada pelo Estadão. Quando morei na Alemanha, nos anos de 2004e 2005, não percebi essa intenção dos alemães do ocidente em reerguer o muro de Berlim. Ainda é evidente o contraste entre os dois lados da Alemanha, no que diz respeito à arquitetura urbana, mas os supostos entraves econômicos decorrentes da reconstrução do leste não pareciam estar entre as maiores preocupações dos alemães. Eles se queixavam muito mais do seguro desemprego que os imigrantes (principalmente turcos) recebiam.

Qual será, então a porcentagem dos alemães que querem um muro em volta da Alemanha?

Abraços,
Enzo.

glaucia disse...

Estive na Alemanha, pela primeira vez com pouco mais de um ano, e minha mae sempre contava como era triste cruzar de um lado ao outro, deixando a familia 2 quarteiroes antes do Check pointe charlie no icicio dos anos 70.
Voltei em janeiro de 1991, pouco mais de um ano depois da queda do muro, e fiquei impressionada, sem conseguir entender como era possivel que existisse um muro ali onde passavam as velhas linhas do metro, mas se notava a diferença, nos predios velhos. Nosso guia, dava voltas de um lado ao outro, só pelo prazer de passar por onde poucos meses antes estava proibido.
Voltei na Copa em 2006, e foi muito emocionante, ver como era possivel um cambio tao radical em pouco mais de 15 anos. Aquela alemanha velha ja nao existia. E o povo até sorria!!!!Isso me da esperanças, que outros muros possam cair, e que com verdadeira vontade politica, muitas coisas podem ser diferentes.

Mauricio Santoro disse...

Mário,

Às vezes penso o mesmo. Tenho visto umas coisas bem assustadoras na academia carioca. Quanto mais distantes de Brasília, mais as pessoas idealizam o governo federal...

Salve, Enzo.

É possível que o percentual citado pela pesquisa tenha sido provocado pelo próprio momento histórico, de repensar os 20 anos da queda do Muro.

Curiosamente, o livro do Taylor conta que a imigração turca em larga escala começou somente após a construção do Muro, pois até então o êxodo alemão-oriental supria as necessidades da crescente indústria alemã.

Cara Gláucia,

Muito interessante o seu depoimento. Acompanhei bastante o impacto da Copa, porque à época trabalhava com fundações alemãs. Me impressionou como os meus amigos no país realmente se emocionaram com a manifestação do nacionalismo benigno por causa do esporte.

Abraços