quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ressurreição



A Cosac e Naify publicou uma nova edição de “Ressurreição”, o último grande romance de Liev Tolstói, pela primeira vez traduzido diretamente do russo para o português. O mestre é um dos meus escritores favoritos e este livro é de qualidade excepcional.

Ao participar como jurado no caso de uma prostituta acusada de assassinar um cliente, um aristocrata descobre que a ré é a ex-criada que ele seduziu e abandonou, grávida. Ele cai numa crise de culpa e se oferece para casar com ela e acompanhá-la à Sibéria, onde ela deve cumprir pena de trabalhos forçados, por conta de um erro judicial. O enredo foi baseado num acontecimento verídico, contado a Tolstói por um famoso advogado da época, que também sugeria tramas a Dostoiévski.

O príncipe Dimitri Nekhliúdov, protagonista de “Ressurreição”, tem elementos do próprio Tolstói e já havia aparecido em esboços autobiográficos do autor. É um dos “homens supérfluos” que povoam a literatura russa. Um aristocrata ocioso que passou por várias fases em sua vida: estudante idealista, simpático às idéias radicais de reforma social, serviço militar nos Regimentos da Guarda (restritos à elite, pois conviviam com a família imperial) e por fim uma existência de luxo e dissipação,que ele coloca em xeque ao reencontrar Kátia no tribunal.

O romance faz um belíssimo flashback para contar como Dimitri e Kátia se apaixonaram na juventude, quando ela trabalhava como criada na fazenda das tias do rapaz, onde ele passava férias. A descrição do amor romântico de ambos é linda, e marca o contraste quando Dimitri, já corrompido pela vida no Exército, seduz a moça.

Ao envolver-se novamente com ela, o aristocrata mergulha no mundo das prisões e do sistema judiciário do fim do império czarista e acaba se tornando amigo e admirador dos presos políticos, pertencentes aos vários grupos socialistas da época ("as melhores pessoas na sociedade russa atual") e dos dissidentes religiosos. Tolstói dá uma demonstração de maestria literária impressionante, descrevendo em detalhes os ambientes mais diversos: dos gabinetes dos altos funcionários em São Petersburgo, onde Dmitri vai pleitear por Kátia e seus amigos, à realidade sórdida e difícil das diversas masmorras do Império: a Fortaleza de Pedro e Paulo, prisões provinciais e os cárceres na estrada para a Sibéria.

O interesse de Tolstói pelo tema ia além do literário. “Ressurreição” foi escrito ao fim do século XIX, quando ele havia quase abandonado a literatura de ficção e se dedicava a uma série de causas sociais, em particular a defesa de seitas religiosas que desafiavam a Igreja Ortodoxa, oficial. O romance foi pensado como um modo de arrecadar dinheiro para essas organizações.

As análises de Tolstói sobre a decadência das instituições russas, e o modo como se tornaram instrumentos para os interesses da aristocracia são impressionantes, bem como a narrativa dos caprichos, vaidades, pequenas e grandes corrupções da elite.

2 comentários:

Flavio Faria disse...

Salve Maurício,

Vi esta edição no site da editora, mas a melhor notícia está na matéria. A Cosac Naify pretente lançar em 2011 o livro Guerra e Paz, do mesmo autor. Seria ideal ter uma edição de luxo dessa grande obra, pois só vejo hoje nas livrarias aqueles quatro livros da L± não que seja ruim, mas uma edição de colecionador de Guerra e Paz é outra história.

Um forte abraço,

Mauricio Santoro disse...

Salve, meu caro.

Ah, com certeza, espere mais uns meses e compre a edição da Cosac Naify, vale a pena.

Abraços