sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Perspectivas para o Brasil pós-Lula



Nesta semana dei entrevistas para a CNN e a Rádio França Internacional, fazendo o balanço da política externa brasileira no governo Lula e analisando as perspectivas do país após as eleições presidenciais do próximo mês. Ambas as conversas foram em espanhol, voltadas para o público hispano-americano. Nos próximos dias terei outra rodada de papos com jornalistas e acadêmicos da Argentina, Espanha, França e Itália. O quadro geral é o de grande interesse pelo Brasil e a percepção de consolidação do novo status global brasileiro, como uma potência em ascensão e um pilar de crescimento e estabilidade em um mundo marcado pela crise.

Nas entrevistas com os profissionais estrangeiros, tenho ressaltado as transformações no cotidiano brasileiro: ascensão da nova classe média, redução da pobreza, inflação sob controle, bom nível de crescimento econômico. Infelizmente, também a persistência de velhos problemas, como a fragilidade dos sistemas públicos de educação e saúde, deficiências da infraestrutura, partidos políticos frágeis, elevado nível de corrupção, descrédito de instituições importantes (como o Congresso Nacional).

Apesar da polarização dos debates, frisei que os principais candidatos à Presidência da República apresentam uma agenda bastante consensual, que é basicamente de centro-esquerda e se propõe a continuar as políticas públicas em curso, com alterações aqui e ali. As biografias desses candidatos trazem em comum a história de luta contra a ditadura militar e vinculações com as correntes mais representativas das idéias progressistas no Brasil: a doutrina social da Igreja Católica, o novo sindicalismo das décadas de 1970/80, movimento estudantil, marxismos diversos.

Contudo, disse que esse consenso partidário não reflete a diversidade e a pluralidade do país. Deixa de lado muitas linhas importantes de pensamento conservador e liberal, que não encontram representação nos candidatos, mas estão bastante presentes na imprensa, gerando por vezes forte descompasso entre o debate nos meios de comunicação e a política concreta vivida na campanha e nas negociações partidárias. Essa lacuna é ruim para a democracia. Quem fica de fora, sem perspectivas de participar e influir nos acontecimentos, tende à radicalização. Pragmatismo, compromisso e equilíbrio nascem do engajamento prático, das necessidades cotidianas da vida pública.

É patente a curiosidade dos jornalistas estrangeiros pelos detalhes e fatos biográficos dos candidatos à Presidência e tive excelentes conversas procurando explicar a ascensão de Dilma Roussef no governo Lula, as razões pelas quais Marina Silva deixou o PT e as relações entre José Serra, Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso. Percebo uma nova seriedade no modo como a imprensa dos outros países analisa o Brasil. Não mais nossos líderes políticos são vistos como tipos exóticos e pitorescos, são analisados em profundidade, questionados sobre suas idéias, sobre suas trajetórias em cargos e funções públicas, seu estilo de gestão etc.

Naturalmente, as perguntas se concentram nas perspectivas de Dilma, sem o carisma e a popularidade de Lula. Tenho dito que ela ficará mais dependente dos grandes partidos de sua coalizão, como PT e PMDB. E com a incógnita do papel que Lula irá desempenhar. Será que assumirá um cargo na ONU, como fez Michelle Bachelet, ex-presidenta do Chile? Irá se dedicar à cooperação internacional na África e América Latina? Em todo caso, será uma sombra poderosa para Dilma e tenho minhas dúvidas sobre como o sistema político brasileiro lidará com essa questão.

9 comentários:

Mário Machado disse...

A sombra de Lula pode ser poderosa, ou podem grupos que foram contidos pela personalidade do presidente tentar isolar sua influência.

Vejo uma bela luta pelo poder nos bastidores. Serão tempos interessantes.

Como sempre um excelente texto.

Abs,

Mauricio Santoro disse...

Caro Mário,

Tenho um pouco de medo do que vem pela frente... Acho que será chumbo grosso...

Abraços

Anônimo disse...

salve, santoro,

parabéns pelo instigante post o qual estimula o debate, coisa que o professor faz com maestria.

sobre a grande mídia, creio que, na verdade, o descompasso dela vem de longe, meu caro. e agora piorou com o avanço da blogosfera do que o blogueiro é um belo exemplo.

além do mais, são seis a sete exclusivas famílias proprietárias a tentar pautar a agenda política desse país continental de acordo com suas conveniências.

os esteites e as oropas não permitem a propriedade cruzada dos meios de comunicação. pelo que leio, tal informação não se encontra na veja, folha, globo ou estadão.

sobre a luta pelo poder nos bastidores, qualquer que seja o próximo presidente,será natural, pois é próprio da danada da democracia. é inerente ao processso civilizatório que estamos passando. que seja bemvinda, portanto.

por último, felizmente demonstrou-se que social-democracia sem movimentos sociais, sindicatos e inserção popular é um embuste. daí, o que restar de partidos conservadores que façam uma autocrítica e se modernizem senão o próprio pmdb será o repositário liberal-consevador desse país.

abçs

carlos anselmo-fort-ce

Mauricio Santoro disse...

Salve, Carlos.

A mídia se tornou mais concentrada no mundo todo, o que é um problema sério para a democracia. Mesmo num país com a tradição de movimentos sociais da França, temos um jornal como o Liberation virando um ramo de um conglomerado industrial de armamamentos.

Claro que com a concentração de poder das empresas de mídia no Brasil, esse problema só fica pior. E aqui há também a questão da fragilidade das instituições, inclusive partido, abrindo espaço para que a imprensa se arrisque a fazer o papel desses órgãos. O que faz mal.

abraços

evieira disse...

Maurício,

Como você explica que o pensamento liberal-democrata, embora existente e razoavelmente influente, não consiga criar algum tipo de representação política no pais?

Em outras palavras, porque o liberalismo é quase uma "lepra política" nesse país? Porque é tão dificil diferencia-la do militares ou da extinta Arena (que de liberais não tinham nada)?

Mudando de assunto, já escolheu o tema do próximo curso na Casa do Saber?

Um abraço do amigo,

Eduardo

Mauricio Santoro disse...

Salve, Eduardo.

Acho que eu precisaria de uma tese de doutorado para responder a isso... Mas dá para levantar algumas hipóteses.

O liberalismo está muito ligado a valores culturais que prezam a autonomia do indivíduo e a preservação de certos direitos com relação ao Estado.

Estas características só existiram na América Latina de maneira muito secundária, já que aqui prevalecem ideologias coletivistas, de várias matizes.

Ainda assim, havia um pensamento liberal importante no Império e durante a primeira metade do século XX, mas a meu ver esse desenvolvimento foi travado pela ditadura militar, já que boa parte da UDN acabou aderindo ao regime autoritário em nome do anticomunismo.

Mas isso dá pano para manga, e boas e longas conversas.

Sobre a Casa, fiz a sugestão de um curso a respeito da "Democracia nos EUA: origens, evolução, dilemas."

A instituição se mostrou interessada, falta só fechar data.

abraços

Bruno disse...

Santoro,

Um país que até a metade da década passada apresentou dificuldades crônicas na esfera social e que atualmente apresenta um crescimento econômico com inclusão muita intensa de pessoas das classes D e E para a C não tende a se firmar politicamente mais aos partidos do lado esquerdo?

E a respeito da mídia, já não seria ideal os grandes jornais assumirem de vez qual matriz política-partidária simpatizam? O minimo de honestidade seria interessante para deixar as coisas mais claras.

Abraço!

Rafael disse...

Maurício,

tenho a impressão que não houve renovação nos quadros conservadores, Bornhausen, Maciel e Lembo conseguiram, ainda que não de todo, se livrar da rótulo de apoiadores da ditadura

no entanto, a direita só faz desidratar.

ao invés da memória da ditadura não seria outra memória, a do governo FHC que enfraquece o pensamento liberal?

Mauricio Santoro disse...

Salve, Bruno.

A minha grande dúvida política neste momento é para onde vai a classe C nos próximos anos. Acredito que o líder que conseguir compreendê-la, e canalizar seus anseios, irá despontar.

Não estou certo de que ela será um grupo de apoio à esquerda, quando mais não seja porque é bastante conservadora em vários temas sociais, pelo menos para os padrões dos nossos amigos do Posto 9 de Ipanema.

Caro Rafael,

O cientista político americano Timothy Power escreveu um bom livro sobre os partidos de direita no Brasil democrático, no qual ele argumentava que essa identidade estava em transição, com os conservadores abandonando a vinculação com a ditadura e abraçando a agenda das reformas liberais.

Acho que ele errou na análise, e que a maior parte dos partidos de direita ficou no meio do caminho, sem conseguir definir exatamente qual sua mensagem política. O DEM, por exemplo.

Abraços