sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

Este filme é sobretudo um ensaio sobre o envelhecimento, o luto e o vazio que fica após o exercício do Poder, centrado na figura da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Duplamente outsider – por ser mulher e por suas modestas origens sociais – ela ascendeu à liderança do Partido Conservador em momento de severa crise econômica, implementou reformas controversas no Reino Unido e foi decisiva para a opção britânica de retomar pela guerra as ilhas Malvinas, após a ocupação pela Argentina. Além de tudo, Meryl Strep nos brinda com um de seus melhores desempenhos como a protagonista, pelo qual foi indicada pela 17ª vez ao Oscar.

Margaret Thatcher era filha de um pequeno comerciante, dono de quitanda, e a relação com o pai está bem mostrada no filme, que o ilustra como a fonte dos ideais de autoconfiança, ética do trabalho e uma certa obstinação – para não dizer teimosia – em suas escolhas individuais. Ela conseguiu se formar em Oxford, em Química, numa época (anos 1940) no qual poucas mulheres chegavam lá e pouco depois se lançou na carreira política, como candidata ao parlamento, apesar de atitudes condenscendentes da cúpula dos Conservadores.

Ela se casou aos 24 anos, com Denis Thatcher, um industrial retratado no filme como um homem bem humorado, íntegro e apoio fundamental na carreira da esposa. Segundo a maioria dos relatos, ele era isso mesmo, mas também um milionário com visões extremistas, como querer proibir sindicatos no Reino Unido. Tiveram um casal de filhos, que aparecem no cinema como tendo uma relação algo fria e distante com a mãe – eles questionaram essa interpretação em entrevistas após o lançamento do filme. A narrativa se passa nos dias atuais, com uma Thatcher idosa e senil, com dificuldades de distinguir passado e presente, lembrando-se de sua vida à medida que prepara-se para doar as roupas que pertenceram ao marido, falecido há anos, mas a quem ela ainda vê em alucinações. É uma opção cinematográfica bastante questionável, e que poderia ter sido um desastre se não fosse pelo desempenho extraordinário de Streep.

A política é mais o pano de fundo do que o palco central nesta produção, mas os principais fatos da carreira de Thatcher estão em tela: a crise econômica e social britânica da década de 1970, com as greves do célebre “inverno do descontentamento”, a perda de competitividade internacional do país, os atentados terroristas dos grupos da Irlanda e as polêmicas medidas de austeridade adotadas pela primeira-ministra e seu longo conflito com os sindicatos. Há ótimo apanhado de sua atuação na guerra das Malvinas, e boas cenas que mostram seu ceticismo pela União Européia, em particular na decisão de que o Reino Unido não adotaria o euro.

A visão sobre a personalidade de Thatcher é bastante equilibrada e matizada, com o desempenho de Streep ressaltando suas características positivas, como a determinação e a coragem, mas mostrando também seu lado sombrio, como a dificuldade de ouvir os outros, de fazer barganhas e concessões e uma centralização extrema que às vezes a levava a humilhar até assessores próximos.

Thatcher foi a 1ª mulher a servir como primeira-ministra no Reino Unido, e até agora a única. Também foi quem mais exerceu o cargo no século XX, por 11 anos (1979-1990). Uma vida longa e controversa que com certeza ainda alimentará diversos filmes e livros.

8 comentários:

Ana Angélica disse...

Bem, se o filme a mostrou como uma mãe muito mais presente e doce do que realmente foi, ao menos não poupou seu lado cabeça-dura e deveras obstinado como primeira-ministra. Foi uma tentativa clichê de humanizar a personagem, gerar empatia numa pegada "mãe e mulher", uma coisa "meu coração não é de pedra ops, de ferro.

Diogo disse...

Não há mal que nunca acabe. Se bem que o Cameron está se esforçando para ser mais crápula do que ela, sempre com a cumplicidade criminosa da grande mídia...

Marc Jaguar disse...

Prezado Mestre e Amigo Mauricio

Concordo com a ultima parte do comentario do Diogo...
"Nao ha mal que nunca se acabe"...
E ao que parece os venezuelanos estao muito proximos de atingir essa condicao.

Abracao, Mauricio!

Mauricio Santoro disse...

Salve, Ana.

Na realidade, a crítica dos filhos da Thatcher é que ela foi retratada como sendo uma mãe ausente e desinteressada, e eles afirmam que ela não era assim.

Abraços

Anônimo disse...

Prezado mestre
Tive oportunidade de assistir ao filme e serviu como um excelente flashback de minha infancia... A impressao que tenho eh que os fatos internacionais eram mais marcantes naquela epoca e, por isso, ainda os trago na memoria... Foi um bom exercicio de recordacao
Aproveito para mandar um abraco ao marc jaguar
Vinicius

Mauricio Santoro disse...

Salve, Vinicius.

Hoje em dia temos uma quantidade tão grande de notícias internacionais que elas acabam ficando um tanto diluídas, menos intensas do que eram no passado.

Abraços

Bruna Guiseline disse...

Mestre,
o filme além de mostrar a personalidade de Tatcher, sendo por algumas vezes clichê ou não, mostra de forma muito próxima os efeitos que a perda do poder traz em alguém, sendo homem ou mulher.
A contradição do que espera ser e do que realmente é, através de suas decisões, ficou fantástico interpretado pela Meryl Streep.

Mauricio Santoro disse...

Cara Bruna,

Foi uma belíssima atuação de Streep, que bom que ela ganhou o Oscar pelo papel.

abraços