quinta-feira, 15 de março de 2007

Conversas com Gore Vidal



Ler um romance de Gore Vidal é conversar horas com uma pessoa muito inteligente e bem-humorada, com profundo conhecimento da história de seu país. Já escrevi a respeito de suas Narrativas do Império, a série de sete livros sobre a trajetória dos EUA da guerra de independência ao século XXI. Garimpei mais dois capítulos da saga, Burr e 1876.

O primeiro trata da vida aventuresca e amalucada de Aaron Burr, anti-herói americano que foi um dos coronéis da Revolução e terminou seus dias condenado como traidor, após ter perdido a eleição presidencial para Thomas Jefferson (empataram no Colégio Eleitoral, mas o Congresso deu o posto a seu rival), matado em duelo o vice-presidente Alexander Hamilton e se envolvido em tramas rocambolescas para criar um império para si mesmo no México.

A vida de Burr é narrada por seu secretário Charles mas ouvimos também seus depoimentos em primeira pessoa, no qual se dedica a criticar os Pais Fundadores dos EUA. O livro causou escândalo ao ser publicado em 1974, mas muito do que está nele se tornou bem aceito depois como a revelação de que Jefferson teve filhos com uma amante negra, sua escrava.

Charles também protagoniza e narra 1876. O livro começa com seu retorno aos EUA, depois de trinta anos vivendo na Europa, onde se tornou um escritor de alguma fama. Tem dois objetivos: arrumar um marido para sua bela filha Emma, recém-divorciada de um príncipe napoleônico, e conseguir um cargo diplomático na Europa, pois perdeu sua fortuna na crise financeira de 1873.

O ano de 1876 foi o centenário da Independência americana, celebrado com a exposição da Filadélfia -- o imperador d. Pedro II, que a visitou, faz uma ponta algo ridícula no romance. Mas acima de tudo foi um período de extrema corrupção, culminando com a tremenda fraude eleitoral que deu a presidência ao candidato republicano, Rutheford Hayes. Parece muito com o escândalo de 2000 com Bush, tem até recontagem na Florida!

O romance acompanha esses fatos, à medida que Charles se junta aos democratas em busca de sua boquinha burocrática, e sua filha inicia ambiciosas manobras matrimoniais, tão sem escrúpulos quanto aos atos dos políticos em Washington. Vidal publicou o livro em 1976, quando os EUA ainda estavam em plena ressaca do caso Watergate. Lembrava a seus compatriotas de que a corrupção não era novidade inventada pelo malvado Nixon, mas algo tão tipicamente americano quanto a torta de maçã.

Há em Vidal um toque de Henry James ou Edith Warthon, que também retrataram a alta sociedade de fins do século XIX. Mas enquanto ambos contrapunham a (suposta) inocência de seus compatriotas à (presumida) corrupção dos europeus, os personagens de Vidal são cínicos e desencantados. No fim, o narrador diz que os políticos e magnatas dos EUA são tão safados quanto Napoleão e Bismarck, mas que os estadistas europeus queriam glória, além de riqueza, o que os torna mais interessantes.

Curiosidade: além do imperador, outro brasileiro ilustre estava nos EUA em 1876: o jovem Joaquim Nabuco, então servindo como diplomata. Seus diários recém-publicados mostram que detestou o país, achando que todos só pensavam em dinheiro (como afirma Vidal) e reclamando que era impossível arranjar uma amante, pois as mulheres casadas eram fiéis (nesse ponto, Vidal poderia ensinar uma lição ou duas ao nosso compatriota).

Que tal uma roda de conversa com Vidal, Nabuco, James e Warthon? Pelo menos vou colocar todos na mesma estante.

3 comentários:

Paulo Gontijo disse...

Salve Maurício,
Me lembro de Daisy Miller do Henry James e realmente os europeus eram maus feito pica pau. Outra coisa, precisamos marcar um almoço aqui no centro, está podendo semana que vem?
Abs
Paulo

Sergio Leo disse...

Caro Maurício, o engraçado é que Nabuco virou embaixador nos EUA depois de fracassar nas negociações territoriais para incorporar a Guiana inglesa (ou parte dela, não lebro) ao território brasileiro, o que nos daria uma saída caribenha...

O Gore Vidal dos romances históricos é sensacional, mas o homem também é espetacular em seus romances boiolísticos. O primeiro romance de sucesso e polêmico dele, A Cidade e o Pilar´foi escrito quando ele tinha pouco mais de vinte anos (e, é bem verdade, todo reescrito depois), e é um romance imperdível sobre o mundo homossexual dos EUA (e um libelo discreto contra os estereótipos da categoria). Myron, continuação de Myra Beckinridge fala de um travesti, e ambos os livros são alegorias divertidíssimas. Balance a sisudez de sua estante com esse str~es livrinhos, que se lê de uma sentada (opa, eu disse sentada? quis dizer, da noite pro dia. Acho que não consertei lá muito bem, mas vá lá).

abraços

Mauricio Santoro disse...

Grande Paulo,

pois é, mas às vezes o medo é balanceado por uma certa fascinação. Penso na Ellen Olenska da Warthon, a condessa divorciada que vivia em Paris e é a personagem mais sedutora do livro.

Me mande um email e vamos combinar um almoço, estou livre na segunda, terça e sexta.

Salve, Sergio.

Pois é, mas o Nabuco foi passado para trás pelo rei da Itália, que simplesmente dividiu em dois o território contestado com a Inglaterra. Ossos do ofício.

Já me falaram muito bem dos dois livros que você citou, em especial d´A Cidade e o Pilar, que dizem que foi mesmo um marco na literatura americana. Está na lista!

Abraços