domingo, 10 de fevereiro de 2008

1491



O livro “1491 – novas revelações das Américas antes de Colombo”, do jornalista americano Charles Mann, é uma viagem fascinante pelos debates científicos que estão mudando a maneira pela qual pensamos a história deste pedaço do mundo. Em meio às controvérsias dos pesquisadores, há tendências claras: os povos que aqui viviam eram mais complexos, numerosos e desenvolvidos do que se acreditava até recentemente.

Em parte porque haviam migrado para as Américas bem antes do que se supunha. Aprendi na escola que os primeiros habitantes da região vieram da Ásia, chegando aqui cruzando o estreito de Bering, há cerca de 10 mil anos. No entanto, descobertas arqueológicas (no México, no Chile, no Brasil) indicam que a presença humana é muito mais antiga, talvez tenha 20, 30 ou mesmo 40 mil anos, o que seria colonização anterior àquela da Grã-Bretanha, por exemplo. Mann afirma que a derrubada das velhas certezas abriu temporada de dúvidas e questionamentos e todo o tipo de teoria tem pipocado. Entre as mais difundidas, a que de teriam ocorrido diversas correntes migratórias por Bering, em milênios diferentes, ou que os primeiros habitantes das Américas vieram por mar, a partir das ilhas do Pacífico Sul.

Mann descreve as pesquisas que iluminam novos aspectos das maiores civilizações pré-colombianas, como incas, maias e a tríplice aliança (segundo ele, o termo “asteca” é incorreto). A foto que abre o post é da cidade maia de Tikal, a principal daquele povo. Durante séculos, disputou o poder com Kaan, a cidade da Serpente, num padrão semelhante ao de Atenas e Esparta na Grécia Clássica, ou de Florença e Veneza na Itália do Renascimento. Contudo, Kaan só foi descoberta há cerca de 70 anos, e só foi totalmente escavada na década de 1990! Ainda hoje a súbita destruição da cultura maia, por volta de 830 dC, intriga os cientistas. Eles mal começaram a compreender o que aparentemente foi um desastre ecológico, uma civilização que ruiu porque explorou além da conta seu meio ambiente.

A história do império inca tampouco é totalmente conhecida. Os arqueólogos agora acreditam que aquela civilização possuía linguagem escrita – mas no formato de nós rituais, dados em cordas especiais. Algo tão diferente de qualquer idioma ocidental que sequer foi considerado como linguagem. Escavações contemporâneas também apontam para indícios de uma grande muralha nos Andes, mais um tributo à capacidade arquitetônica dos incas.



As civilizações da Mesoamérica e dos Andes tinham em comum o papel central ocupado pelo milho e pelo algodão. Não me refiro ao milho que em geral consumimos no Brasil, mas às suas variantes da foto acima, extremamente coloridas, que são a base da culinária de países como Peru, Guatemala e México. A importância dessa comida é tão grande que muitos dos povos pré-colombianos se definiam como “homens do milho” e no mito de criação maia, o Popul Vuh, a humanidade é criada desse alimento. Curioso, pois os biológos afirmam que o oposto é verdadeiro: o milho teria sido criado a partir de cruzamentos realizados pela mão humana.

Mann dá muita atenção às contribuições das Américas para a alimentação mundial. Ele estima que 60% das safras cultivadas no planeta se originaram aqui: milho, mandioca, batata, amendoim. Não é para menos. As pesquisas indicam que os vales do litoral peruano abrigaram algumas das primeiras cidades do planeta, ao lado daquelas em torno dos rios Nilo, Amarelo, Tigre/Eufrates e Indo.

O povo mais desenvolvido que habitava o território que hoje é o Brasil estava na ilha de Marajó, que abrigou cultura sofisticada. Mann narra estudos interessantíssimos na região, que indicam que parte da Amazônia (talvez 25% dela) é, na realidade, paisagem criada pela ação humana. Pomares e campos agrícolas, a partir de processos de fertilização por carvão vegetal. A chamada “terra preta” hoje é pesquisada pela Embrapa e segundo Mann apresenta enorme potencial para o desenvolvimento agrícola da região.



Embora o título do livro fale das Américas antes da colonização européia, na realidade a narrativa abarca até o século XVIII e fala do impacto das guerras, da disseminação das doenças, da destruição das antigas culturas e das mudanças ambientais provocadas por esses fatos e pela introdução de animais e plantas de outras regiões. A editora disponibiliza no site as primeiras 40 páginas de “1491”. Boa leitura!

3 comentários:

Patricio Iglesias disse...

EXELENTE MAURÍCIO!!!
Näo savia nada dissas investigacôes! E nada da Ilha de Marajó!
Realmente é muito bom saver que cada dia há mais evidéncias que mostram que nossos antepasados (ao menos os que temos sangue indígena) nâo eram para nada "inferiores" aos europeos, como muitos tentam nos fazer creer.
Uma pergunta, vocè nunca pensou em editar um livro com os melhores de seus artigos?
Saludos de seu amigo

Patricio Iglesias

Patricio Iglesias disse...

Respeito á possível vinculacâo entre a poblacâo de América do Sul e a Polinésia é muito conhecida a expedicäo de Kon-Tiki, feita por Thor Heyerdahl (noruego) no ano 1947. Näo está na Wikipédia em portuguès, mas se alguém está interessado aqui va o enlace em espanhol: http://es.wikipedia.org/wiki/Kon-tiki_(expedici%C3%B3n)
Saludos

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patricio.

O 1491 é muito bom, mas não tem a melhor história da América pré-colombiana, aquela que você me contou sobre o "dinossauro corrupto" da Argentina!

Tenho três artigos publicados em livros (alguns estão disponíveis nos links da coluna direita do blog), e um quarto pronto para sair. A idéia é não parar por aqui e continuar com outras aventuras literárias.

Abraços