quarta-feira, 25 de março de 2009

Frost/Nixon


Vinte e cinco anos após o Watergate, o espectro de Richard Nixon continua a assombrar os Estados Unidos, como um símbolo do lado mais sombrio de sua sociedade e de seu sistema político. O ex-presidente é um coadjuvante curioso no filme de super-heróis (e vilões) Watchmen e a estrela de Frost/Nixon, um brilhante drama sobre a responsabilidade e as limitações da imprensa em exercer o "Quarto Poder" no controle do abuso da autoridade.

Adaptado da peça de Peter Morgan (o mesmo do ótimo "A Rainha"), Frost/Nixon conta a história de uma série de entrevistas televisivas com o ex-presidente, realizadas em 1974 pelo apresentador britânico David Frost. O duelo jornalístico acabou sendo o mais próximo a um julgamento que Nixon enfrentou pelos crimes que cometeu quando chefe de Estado, e também seu (restrito) mea culpa pelas atrocidades que resultaram de seus erros, como a tragédia que detonou no Camboja ao decidir atacar o país durante a Guerra do Vietnã.

Frost era um herói improvável para confrontar Nixon, pois se tratava de um playboy e showman mais afeito ao convívio com celebridades e reportagens leves do que ao noticiário político. Mas teve o faro de perceber que, poucos meses após renunciar à presidência, Nixon continuava a ser um tema explosivo, em particular pelo modo arrogante com que tratou sua própria saída do poder, sem jamais admitir culpa.

O filme é muito feliz em retratar a difícil preparação das entrevistas - nenhuma grande rede de TV bancou Frost, que teve que custear as despesas do próprio bolso, inclusive uma elevada quantia paga a Nixon, para que ele aceitasse participar do programa. O roteiro mostra Frost lento em reagir às provocações do ex-presidente, mas auxiliado por uma brilhante equipe de assessores, motivados e idealistas.

Nixon - em interpretação magistral de Frank Langella - é retratado como uma velha raposa, cheia de manhas e charme, inteligentíssima, mas ao mesmo tempo raivosa, amargurada e com os complexos de menino pobre, sempre desprezado pela elite política americana. A relação de ódio é simbolizada em sua obsessão com John Kennedy, sua antítese. Curiosamente, a biografia de Nixon tem muitos pontos em comum com a do próprio Frost, semelhança que será crucial para o desfecho da trama.

Como exemplo de cinema político inteligente e bem feito, Frost/Nixon nos faz pensar em muitos desdobramentos, como o papel que a imprensa jogou nos anos recentes e difíceis do governo Bush nos Estados Unidos, e de como seria bom ter algo semelhante às celebres entrevistas na América Latina. Alguém tem candidatos para o papel de Nixon no Brasil, Argentina ou México?

7 comentários:

Milton Ribeiro disse...

Aguardando a estreia em Porto Alegre...

Carlos disse...

caro santoro,

facílima a resposta.
na lata, confrade: fhc no brasil, salinas no méxico e menem na argentina.

não conheço outras opções.

abçs

Mauricio Santoro disse...

Salve, Milton.

O filme demorou tanto para ser lançado aqui em Brasília que cheguei a pensar que fosse alguma conspiração político-partidária...

Carlos,

Por que não o Collor?

Abraços

Carlos disse...

caro santoro,

pois é, seria uma ótima opção essa do collor.

no entanto, esse personagem e seus acólitos, a meu ver, se pautaram pela grosseria de senhores de engenhos ou de escravos.

já, fhc e seu grupo, representam a sofisticação do mercado global e da mídia tupiniquim.

abçs

Sergio Leo disse...

Estou contigo, Santoro, Collor está mais de acordo com uma entrevista dessas. mas o cara de pau jamais faria uma confissão como a feita por Nixon. E a cultura política brasileira jamais permitiria a um político submeter-se ás regras como o Nixon do filme (da história). Mesmo lá,, a gente vê no filme, a turma do Nixon ameaça romper oa cordo e só vai até o fim depois de contra-ameaças da equiope do frost, de processos de milhões de dólares por perdas e danos...

É interessante comaprar a diferença cultural também nessa da imprensa. Se uma rede de TV pagasse uma fortuna a algum político para uma entrevista isso seria visto como escândalo por aqui.

O filme é mesmo espetacular, uma bela dica, Maurício. Eu e Marta vimos, por indicação do cristiano Romero, e ficamos angustiados,mesmo sabendo como iria terminar a coisa.

Essa sensação deseperadora, de estar com um entrevistado importante e ver ele escorregando pelas mãos, minando suavemente suas tentativas de arrancar algo relevante da entrevista é uma constante na profissão. O filme trabalha muito bem isso.

Patricio Iglesias disse...

Caro Maurício:
Concordo totalmente com o Carlos em que só Menem poderia ser o Nixon da Argentina. Quém mais? Foi insuperável! Em corrupçäo, claro. ¡Menem lo hizo! Ha, ha, ha!
O caso Nixon é um pequeno consolo pra os "tercermundistas". Nos faz ver que há coisas que näo só acontecem em nossos paises.
Saludos!

Mauricio Santoro disse...

Salve, Carlos e Sergio.

O Collor é sem dúvida um cara truculento, mas ele tem um lado pirado que tornaria uma entrevista dessas deliciosa, ainda que eu concorde com o Sergio que a cultura política do Brasil tornaria uma briga dura como a do Frost bastante difícil, senão impossível.

Patricio,

Você conhece um documentário argentino chamado "Yo Presidente"? É uma série de pequenas entrevistas com ex-chefes de Estado de seu país, de Alfonsín a Menem, e tem algumas cenas muito interessantes. As melhores, claro, são com o insuperável Menem.

Abraços