segunda-feira, 23 de março de 2009

Guerra no Mar



De uns poucos anos para cá, quando convivi de maneira mais próxima com militares, tenho observado uma aproximação excelente entre as Forças Armadas e a comunidade acadêmica. Um excelente exemplo é o lançamento de “Guerra no Mar – batalhas e campanhas navais que mudaram a história”, organizado pelo almirante Armando Vidigal e pelo comandante Francisco Eduardo Alves de Almeida. A coletânea reúne 15 artigos escritos por oficiais da Marinha e por professores universitários (sobretudo das instituições do Rio de Janeiro) que abarcam da Grécia Antiga ao conflito pelas ilhas Malvinas.

Independente da formação profissional dos autores, todos os textos dão grande atenção ao contexto político no qual se desdobram os combates navais. Parece ser uma constante história que uma potência em ascensão ambiciona a construção de uma marinha de guerra, para garantir o domínio de rotas comerciais, acesso a matérias-primas ou negar o espaço marítimo a adversários. Isso vale mesmo para poderes tradicionalmente lembrados por suas conquistas terrestres, como a República Romana, a França Napoleônica e a Alemanha de Bismarck e Guilherme II. A cronologia dos artigos é um “quem é quem” das disputas entre diversos impérios: gregos e persas, romanos e cartagineses, espanhóis e turcos, espanhóis, ingleses e holandeses, ingleses e franceses. Faltou um ensaio dedicado a Portugal, omissão bastante curiosa em livro preparado por brasileiros!

Grosso modo, a tática naval permaneceu muito próxima à terrestre da Antiguidade até a batalha de Lepanto, no século XVI, na qual o expansionismo turco no Mediterrâneo foi detido por uma aliança complexa entre espanhóis e cidades-estado italianas. Nesse tipo de confronto, a embarcação primordial era a galera, movida a remo, que levava tropas de infantaria para abordar os barcos inimigos. Inovações tecnológicas como velas mais eficientes e a energia a vapor revolucionariam a maneira de lutar no mar, com a formação de grandes linhas de batalha, como as que se enfrentaram em Trafalgar, túmulo das ambições oceânicas napoleônicas.



Dos países não-ocidentais, o Japão é aquele examinado com mais detalhes no livro. Diversos artigos mapeiam a ascensão do poder naval nipônico, em suas bem-sucedidas guerras contra China e Rússia, e no esforço hercúleo, mas fracassado, de derrotar os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

Dois ensaios tratam da história militar sul-americana. Um deles aborda a batalha do Riachuelo, na qual a Marinha brasileira praticamente destruiu a paraguaia, em momento decisivo da Guerra da Tríplice Aliança. O segundo analisa a Guerra das Malvinas sob o prisma naval e é um testemunho eloquente das lições que a Marinha brasileira tomou daquele conflito, em particular a importância do submarino nuclear. O afundamento do cruzador General Belgrano (foto que abre o post) por uma dessas embarcações foi um dos instantes cruciais que selou a sorte das tropas argentinas.

Aliás, a universidade na qual estudei em Buenos Aires fica no bairro de Belgrano e na estação de metrô onde eu saltava havia uma maquete do cruzador tragicamente afundado nas Malvinas, com relatos de sobreviventes. Para quem se interessa pela história desse conflito, vale ler o relato do emocionante encontro entre um tripulante britânico do submarino e marinheiros do Belgrano. Às vezes as pessoas conseguem se elevar além da estupidez das nações.

5 comentários:

Anônimo disse...

Maurício,

Tudo bem? Bem, gostaria de saber se há algum artigo do livro que relata qualquer batalha durante a I Guerra Mundial. É isso.

Abraços,
Davi Avarenga

Mauricio Santoro disse...

Olá, Davi.

Sim, há um artigo sobre a batalha da Jutlândia.

Abraços

Patricio Iglesias disse...

Caro Maurício:
O Cervantes é chamado "el manco de Lepanto" porque na famosa batalha naval perdiu sua mäo direita e se tornou canhoto à força... de outro modo hoje näo poderiamos ler as aventuras do valeroso hidalgo Don Quijote de la Mancha.
Näo diria que selou a sorte das tropas argentinas o afundamento do General Belgrano. Os que tinham a mente selada foram os militares, que (além da idiota decisäo da guerra) cometiram toda classe de erros estratêgicos.
Sim, muito emotiva a história. Também faz umos anos apareciu na TV a de dos veteranos que se contataram pela red e, finalmente, o inglês convidou ao argentino a visitar o RU e, sendo de poucos recursos meu compatriota, o britânico solventou todos seus gastos. Todo um exemplo. Espero que pronto nossos paises possam voltar a ser mirar aos olhos como hermanos que, tras graves erros, fortaleciram sua relaçäo. Muita poesia! Ha, ha!
Amanhä os argentinos lembramos outro dia difícil: O 33º aniversário do golpe de Estado do Proceso.
Saludos!

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patricio.

É verdade, hoje é sempre um dia emocionante na Argentina... Que bom que mais um aniversário celebrado na democracia!

Abraços

AFNunes disse...

Olá

Gostaria de saber se este livro relata a batalha de Díu, considerada a 1º batalha da marinha moderna? a historiografia anglo-saxonica fala muito dela, pelo que ficaria espantado se os ilustres investigadores brasileiros negligenciaram este acontecimento, ou por puro desconhecimento, ou por puro "é portuga? Então esquece!"
Um abraço