sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A Decolagem do Brasil



A capa da Economist desta semana é a “decolagem brasileira”. Para a prestigiada revista inglesa, o Brasil se destacou como o mais dinâmico dos BRICs, por conjugar democracia, estabilidade política e crescimento econômico, sobretudo pelo modo como se recuperou rapidamente da crise internacionais. A reportagem cita ainda a ascensão das multinacionais brasileiras e a conquista da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Alerta, no entanto, para alguns problemas, como a violência. É uma matéria extremamente elogiosa, mas que, curiosamente, deixa de lado o que a meu ver são os principais obstáculos para o desenvolvimento brasileiro: a péssima qualidade da educação, a infraestrutura deficiente e as falhas em serviços públicos essenciais, como saneamento e saúde.

Na primeira metade da década de 2000, o Brasil teve um crescimento econômico apenas mediano, e além disso muito volátil. Entre 2006 e 2008 o país acelerou essa taxa, graças a uma série de fatores positivos: a demanda chinesa por commodities (as exportações brasileiras mais do que triplicaram nestes anos), a ascensão de uma nova classe média, as políticas públicas de valorização do salário mínimo e de transferência de renda etc. Tudo isso é muito bom, e rompeu-se o ciclo de marasmo que paralisava expectativas desde a crise da dívida externa, em 1982.

Mas não é suficiente para promover o desenvolvimento, isto é, a transformação estrutural da economia brasileira para tornar o país competitivo nos serviços avançados que são o setor mundial mais dinâmico. Áreas como tecnologia da informação, biotecnologia, pesquisa científica avançada etc. Para dar esse salto, o país precisa de uma população extremamente qualificada do ponto de vista educacional. Ora, nas avaliações mais respeitadas, como a PISA, o Brasil ocupa os últimos lugares entre as nações examinadas. E isso apesar de investir relativamente bem no tema – 5% do PIB. Poucos brasileiros têm acesso à educação nos níveis mais elevados. Menos de 10% cursam universidade, e em torno de 30% completam o ensino médio.

O resultado é que o Brasil já sofre do déficit de profissionais qualificados, pois a economia cresce acima das possibilidades do sistema educacional em fornecer mão-de-obra bem preparada. Em 2008, o IPEA calculou que o país precisa de 90 mil desses profissionais, em áreas como engenharia civil, agronegócio, tecnologia da informação e mercado financeiro. A Confederação Nacional da Indústria estima que mais da metade das empresas enfrentam esse problema. E isso com cerca de 9 milhões de brasileiros desempregados...

Os problemas na saúde pública e na infraestrutura brasileira são tão conhecidos que dispensam explicações demoradas, mas vale destacar a questão do saneamento básico. Recentemente examinei os dados do IBGE para o tema. São assustadores. Mais da metade da população não conta com sistema de esgoto, e apenas 20% dos resíduos são tratados antes de serem lançados nos rios ou no mar. Isso traz enormes problemas de saúde, é claro.

Em suma, o Brasil melhorou, que ótimo. Mas vamos vestir as sandálias da humildade e manter sob controle nossas ambições de grande potência: crianças que saiam da escola sabendo ler e escrever, e que tenham vaso sanitário em casa, são muito mais importantes do que.... Bem, do que qualquer outra coisa.

15 comentários:

Mário Machado disse...

O maior pecado da nossa geração seria sentar nos louros desse progresso atual. Que se bem medido esse progresso todo apenas nos posiciona pra começar a desenvolver de verdade esse país.

P.S: Vc que tá no Rio agora confirma que terça-feira só quem teve luz foi a Madona? (não resisti)..

Arthur disse...

Só um comentário. Os países na amostra do PISA são quase todos países mais ricos que o Brasil. Logo, é natural que seu desempenho seja melhor que o nosso. Não significa que a educação não seja ruim, apenas que não dá para fazer uma comparação relativa de sua qualidade tão facilmente com base no PISA.

Mauricio Santoro disse...

Caro Mário,

É exatamente o que acho que irá acontecer.

A cidade ficou totalmente às escuras, mas imagino que o Eike Batista manteve um gerador próprio. Nossa, o sujeito doou US$7milhões para a Madonna! Não é à toa que ela chorou.

Caro Arthur,

A PISA envolve mais de 40 países e o Brasil está entre as dez maiores economias do mundo. Várias das nações avaliadas são mais pobres do que nós, tais como México, Colômbia etc.

Não há desculpa. A educação brasileira é uma porcaria mesmo, inclusive em comparação com países bem menos desenvolvidos do ponto de vista econômico.

Abraços

Wellington Amarante disse...

Caro Maurício, é possível notar uma pequena mudança de postura em relação à educação. A principal delas é a de encarar a educação como um todo, ou seja, desde a educação infantil à pós-graduação.

Porém não há dúvidas de que os próximos governos (pois a educação não melhora do dia pra noite) tem de colocar a educação em 1º lugar. Caso contrário perderemos mais uma vez o Trem (bala) da História.

Abraço

aiaiai disse...

Realmente nos falta pessoal qualificado.
De acordo com a globonews, faltam no brasil engenheiros civis, e é por isso que as obras paulistas caem.
Vc vê que interessante?

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
É muito valiosa su moderação ante os signos de progresso do seu pais em diversos aspectos. É muito fácil cair na tentação de pensar que todo está feito.
Abraços

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Caro Wellington,

Não tenho visto esse enfoque holístico com relação à educação. No plano federal, prevalece a postura de investir sobretudo no nível superior, embora a tendência recente seja mais ação no plano básico também (Fundef, Fundeb etc). Mas é muito pouco.

Dom Patricio,

O Brasil tem um nacionalismo intenso, mas que em geral é uma máscara para a insegurança e a fragilidade (vide os comentários da Ai Ai Ai).

O clima de ufanismo que tem dominado o governo tem feito muitos estragos ao debate. Como comentamos, o Brasil está num tipo de surto que me faz lembrar o peronismo. Mas os problemas essenciais do país não estão sendo enfrentados. Essa conta será cobrada em breve.

Abraços

DKRc disse...

Santoro,

Concordo com o que voce disse. Mas como economista tambem alerto para outros problemas, como o cambio muito valorizado que inviabiliza o investimento nacional em produtos de maior valor agregado.

Acho que todos os pontos levantados por voce sao importantes, mas a parte cambial tambem eh essencial. Competir com produtos chineses com um preço muito baixo nao motiva o nosso empresariado a produzir outros produtos em que nao tenhamos uma vantagem comparativa.

Com um empresariado motivado em produzir produtos de maior valor agregado, com infra-estrutura (saude, educaçao, obras e etc...) e politicas especificas para setores de alto valor agregado, acho esse pais realmente decola.

DKRC disse...

Ah, Nao ligue para a falta de acentos. Estou com problemas no teclado.

Rafaela Rodrigues disse...

Descordo que o clima de ufanismo prejudique os debates. É preciso comemorar - e muito! - pois, pela primeira vez na história desse país, estamos andando na direção correta, ainda que com muitos tropeços.

Acho que toda essa mobilização nacional e mundial em torno do Brasil não esconde nossos principais problemas, afinal os indicadores são visíveis e estão aí, apenas representa uma comoção nacional necessária sobre os novos tempos e o reconhecimento internacional de um país que está deixando pra trás uma história de trevas total.

Parabéns pelo post. Fomentou debates interessantes. É disso que o país precisa.

Mauricio Santoro disse...

DKRc,

Você está corretíssimo. O câmbio tem sido um problema sério para nosso comércio exterior, não só pela apreciação excessiva do real, mas também pela enorme oscilação da moeda. Não há planejamento empresarial que dê conta dessa confusão, e mesmo firmas sérias se meteram em grandes dificuldades por causa dos derivativos cambiais.

Querida Rafaela,


Se o Brasil fosse um país dado a surtos de autocrítica muito dolorosa, como nossos vizinhos argentinos, um pouco de ufanismo não nos faria mal. Mas nossa tradição é muito mais a de jogar a sujeira para debaixo do tapete e seguir comemorando como se estivesse tudo bem. Não é legal para o Brasil esse clima de oba-oba, que convive com problemas muito, muito sérios.

Abraços

DKRC disse...

Bem lembrado Santoro. Não só a valorização do Real prejudica o planejamento de investir no pais, a volatilidade excessiva do câmbio contribui em muito para isso.

E mais, não é só o comércio exterior que fica prejudicado. Atrapalha também o planejamento visando o mercado nacional. Ainda não produzimos vários bem de capital, muitos são importados.

Mas apesar de tudo sou um otimista. Essa questão do câmbio é um problema já reconhecido pelas autoridades - um exemplo é a adoção do IOF. E ano que vem temos dois candidatos com visão desenvolvimentista. Além disso ao que parece vai ocorrer mudança na diretoria do BC ano que vem também.

Aos poucos vamos arrumando a casa em outras questões também. Só podia ser um pouco mais rápido né. =)

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Ri com suas palavras "Se o Brasil fosse um país dado a surtos de autocrítica muito dolorosa, como nossos vizinhos argentinos, um pouco de ufanismo não nos faria mal". É assim, nós nunca podemos festejar nada. Houve um pouquinho de alegria e esperança populares, digamos, no 2004-2005, quando saimos da crise e a melhora não ficou nos números da macroeconomia (se foi um crescimento "real" ou "mágica sojeira" é outro assunto).
Ah, se serve de consolo, e seguindo a tradição argentina, sexta-feira, por uma simple chuva, grão parte da Capital Federal também ficou sem eletricidade.
Abraços!

Patricio Iglesias

Wellington Amarante disse...

Caro Maurício, o Fundeb avançou em diversos pontos em relaçao ao FUNDEF. Te dou como exemplo a expansao do ensino fundamental para 9 anos, o que garantiu ao menos um ano de educaçao infantil. A inclusao da educaçao de jovens e adultos como modalidade que pode receber verbas.


A expansao dos Institutos Federais de Tecnologia, a expansao das Universidades Federais. E o mais importante a Lei do Piso, aprovada e que garanta ao professor 1/3 de atividade fora da sala para preparaçao de aula e capacitaçao. O problema é que 5 estados fora ao STF e consiguiram anular a Lei em seus estados. Ou seja, mesmo os avaços que ainda sao pouco nao tem apoio amplo dos estados. Vejo o governo federal atuando amplamente sim. O suficiente, ainda nao, mais do que antes, sem dúvida.

ps. problemas no teclado.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patricio.

Como bons países irmãos que somos, não poderíamos deixar de ficar sem luz ao mesmo tempo. E ainda incluímos o Paraguai na jogada.

Caro Wellington,

É como foi dito no debate do outro post, a educação de nível superior e técnico avançou um pouco, mas os passos à frente foram insuficientes.

Hoje almocei com um grupo de amigos que dão aulas em cursos de graduação e as histórias que contam do baixo nível dos alunos são impressionantes, de analfabetismo funcional. Isso ajuda a explicar o surto dos Talibãs da Uniban...

Abraços