segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Clarice Lispector



Escrever é procurar.
Clarice Lispector

Certa vez uma amiga mencionou um livro de Clarice Lispector numa entrevista de emprego num grande jornal e foi rechaçada: “Por que você gosta dela? Você é deprimida?”. O entrevistador foi eleito há pouco tempo para a Academia Brasileira de Letras e com a cultura nacional com esse tipo de luminar, não surpreende que a reflexão sobre a mais importante autora do país venha de fora, das mãos do americano Benjamin Moser. “Clarice,” (no original em inglês, “Why this world?”) é uma excelente biografia daquela que Moser classifica como “a melhor escritora judia desde Kafka” e descreve como “uma mulher que se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virgina Woolf”.

A família Lispector enfrentou provações trágicas em sua Ucrânia natal. Com o caos da guerra civil que se seguiu à Revolução Russa, a população judaica foi alvo de massacres tanto pelos comunistas quanto pelos monarquistas. Um dos avôs de Clarice foi assassinado num pogrom, e sua mãe, estuprada por um grupo de soldados russos. Contraiu sífilis, e a doença e o trauma psicológico acabaram por matá-la precocemente. Os Lispector conseguiram fugir da Ucrânia e foram para o Nordeste brasileiro, onde tinham parentes. Clarice ainda era bebê. Viveram em Maceió e no Recife e após a morte da mãe se mudaram para o Rio de Janeiro. A família tinha condições modestas de vida, mas as três filhas – Elisa, Tânia e Clarice – eram inteligentes, dedicadas e trabalhadoras. Todas se destacaram nos estudos e Elisa e Clarice tiveram carreiras como escritoras e profissionais liberais.

Clarice se formou em Direito – algo raro para uma mulher no Brasil da década de 1940. Ainda na faculdade, começou a trabalhar como jornalista e conheceu o escritor Lúcio Cardoso, por quem teve uma paixão platônica – ele era homossexual – e que foi amigo íntimo por toda a vida. Clarice era muito bonita e tinha diversos admiradores. Casou-se cedo com Mauro Gurgel Valente, um colega de universidade que se tornou diplomata. Como sua esposa, passou cerca de 15 anos no exterior, na Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos e Polônia.



Escrevia desde menina, quando seus contos eram rejeitados pelos suplementos infantis dos jornais por não seguirem as fórmulas convencionais do “era uma vez”. Publicou contos quando repórter e o primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”, pouco antes de deixar o Brasil. O livro teve excelente recepeção, mas o longo período no exterior foi uma época difícil para Clarice. O marido era apaixonadíssimo por ela, tiveram dois filhos (um dos quais tornou-se esquizofrênico) e um círculo de amigos amplo e instigante, que incluía o escritor Érico Veríssimo, os jornalistas Samuel e Bluma Wainer, o poeta João Cabral de Mello Neto, o banqueiro Walther Moreira Salles, a filha de Getúlio Vargas, Alzira do Amaral Peixoto e os diplomatas Vasco Leitão de Cunha e João Araújo Castro. Ainda assim, Clarice com frequencia ficava deprimida e com saudades do Brasil e da família. Ressentia-se do formalismo e dos protocolos da vida diplomática, e tais sensações aparecem no que escreveu na época, sobretudo o romance “A Cidade Sitiada”.

A correspondência de Clarice com os amigos no Brasil foi farta e muito calorosa, Moser faz excelente uso delas na biografia. Destacam-se as cartas para as irmãs e para os escritores Lúcio Cardoso, Fernando Sabino e Rubem Braga. Além de mantê-la a par das novidades, ajudavam com sua carreira literária e tentavam lhe encontrar editores. Ela fazia sucesso junto a um círculo restrito de admiradores, mas tinha dificuldade em publicar. Seu estilo introspectivo e mesmo sua aparência, nome e sotaque causavam estranhamento, como se fosse estrangeira.

Clarice terminou se separando do marido e voltando em definitivo ao Brasil no início da década de 1960, vivendo no Rio até morrer em 1977. Foi uma fase de grande produtividade artística e literária, com reconhecimento público crescente e a publicação de seus livros mais celebrados, como “A Paixão Segundo G.H.”, “Laços de Família” e “A Hora da Estrela”. Mas também momentos pessoais de solidão, isolamento, depressão, a doença mental do filho, problemas com o abuso dos tranquilizantes e dificuldade de aceitar o envelhecimento.

Moser analisa de maneira clara os principais temas da obra de Clarice – a impossibilidade em se ajustar ao cotidiano, a ruptura caótica que se esconde em gestos banais, a dificuldade em se abrir para os outros, a procura de uma identidade e de um lugar no mundo. Credita esse aspecto sombrio à trágica história familiar dos Lispector, mas também mostra o lado luminoso de Clarice: as invenções linguísticas, as relações ternas com crianças e animais. Um lado muito interessante são os pontos em comum entre sua literatura e o misticismo judaico, de Spinoza aos cabalistas, sobretudo no que diz respeito à procura (ou invenção) de Deus e sobre a incapacidade das palavras expressarem a realidade.

3 comentários:

Sergio Leo disse...

Pois é, camarada. Eu nunca tive muita paixão por Clarice, embroa saiba que estou cometendo sacrilégio ou coisa pior. Não sei se v. viu a exposilç~çao no CCBB (está em Brasília, agora, cidade de onde você saiu como fugido, sem nem se despedir direito dos amigos). Uma coisa que me impressionou muito foi o vídeo com uma entrevista dela, em que ela, contrariamente à imagem que euf azia, de uma epssao doce, suave, fala com alguma rispidez, a face contraída, trejeitos estranhos e aparentemente muito pouco à vontade. Dura, sem charme, amarga. Já mostrava, na mão, as cicatrizes do acidente horrível em que se queimou ao dormir por efeito de soníferos com o cigarrop na mão. Continuava fumando, Hollywood, dá pra ver. Essa história de inconformismo com a velhice, sofrimento coma idfa, está toda tarduzida ali.

Mauricio Santoro disse...

Mestre Sergio,

Mea culpa, mea maxima culpa, mas o fato é que minha mudança de volta ao Rio foi extremamente corrida, com mil providências para serem tomadas em poucos dias e coincidiu com um período em que você estava fora de BSB, acho, ou por alguma razão você não tinha aparecido no MDIC para as coletivas do Barral.

Sobre a entrevista da Clarice, acho que é uma mencionada no livro, que ela deu pouco antes de morrer, e onde transpareciam exatamente esses sentimentos.

Clarice nunca foi minha escritora favorita, mas fiquei com vontade de reler algumas coisas dela, depois dessa biografia.

Abraços

Nara disse...

Olá Sérgio,

Encantei-me por Clarice faz uns quatro anos. O fascínio foi imediato assim como a identificação com seus textos. Tenho por ela um carinho muito especial, pois foi Clarice que me abriu as portas para o mundo das letras onde encontrei as minhas próprias.
A tua,é a mais interessante biografia de Clarisse que li, e por isso eu te agradeço. Fez com que eu me lembrasse de um comentário feito por um grande amigo. Ele disse ser tola, essa senhora. Baseou se em algo que leu (alguma crítica). Achei um ultraje!
Creio que esse tipo de coisa se dá devido a introspecção transparente que ela passa nas suas palavras. Clarisse é verdadeira, fala o que sente, sem preocupar em agredir ouvidos ou seguir estilos. Eu acho que ela conversa com ela mesma ao mesmo tempo em que joga palavras ao vento para quem puder ouvi-las. Creio que as palavras de Clarisse são para serem lidas com os olhos do sentimento. Daí a dificuldade que a “pseudo imortalidade” tem para entendê-la.Parabéns pelo texto.

Um grande abraço