segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Quebra-Cabeças do Rio



O Rio de Janeiro foi a capital do país por quase 200 anos, e chegou a sediar um império colonial que se estendia por vários continentes. Essa situação levou à carências curiosas. Tradicionalmente, as universidades e centro de pesquisas sediados na cidade pensaram o Brasil e o mundo, mas pouco olharam para a região ao redor. Nestes primeiros meses de retorno ao Rio, tenho me esforçado para reunir informações e dados sobre o estado. Com pesquisas, garimpo em sebos, observações e conversas com colegas na máquina do governo, na academia e no jornalismo estou aos poucos montando o quebra-cabeças da realidade estadual. Eis minhas principais conclusões, até agora.

O Rio tem um território densamente povoado, com 15, 5 milhões de habitantes,. Seu PIB é o segundo maior do Brasil (depois de São Paulo), equivalendo ao do Chile, e sua população, a segunda mais instruída (após o Distrito Federal). O estado tem o maior percentual de idosos do país, porque muitas pessoas optam por morar nele quando se aposentam.

A Região Metropolitana tem mais peso no Rio do que em qualquer outro estado brasileiro. Nela se concentram ¾ da população e 55% do PIB. Este último percentual foi muito mais elevado, da ordem de 85%, mas a partir da década de 1990 o interior cresceu a taxas dignas da China – por volta dos 12% anuais - ainda que esse sucesso econômico esteja concentrado em dez municípios do Norte, que se beneficiam do boom do petróleo. Persistem bolsões de pobreza expressivos, sobretudo na região serrana. Os recentes desabamentos em Angra dos Reis também de explicam, em parte, pela deteroriação econômica: a cidade foi muito favelizada (inclusive em áreas de risco) em decorrência do fechamento de diversos estaleiros na região, ao longo das crises das décadas de 1980 e 1990.

Os indicadores sociais fluminenses refletem tais desequilíbrios: apesar do estado crescer acima da média nacional, o desemprego é um dos mais altos do país e os dados relativos à saúde e à distribuição de renda estão mais próximos do Nordeste brasileiro do que dos outros estados do Sudeste. A educação enfrenta crise: as taxas de evasão e desempenho escolar são ruins e apontam para a perda de competitividade do estado, a menos que os profissionais qualificados venham de outras regiões para suprir as necessidades da economia.

Mesmo antes da exploração da camada pré-sal, a Bacia de Campos produz 85% de todo o petróleo brasileiro, e o setor é responsável por incríveis 25% do PIB estadual. Essa importância se traduz no cronograma dos investimentos para 2010-2012. São previstos cerca de R$125 bilhões em recursos, sendo que 60% deles estão a cargo da Petrobras, concentrados na instalação do Complexo Petroquímico em Itaboraí.

Todos sabem que a dependência do petróleo é perigosa e há esforços do governo e da sociedade para se pensar em alternativas e ações que diversifiquem a economia estadual. Os dois principais setores são a indústria naval e a siderurgia, que têm recebido investimentos de vulto – no primeiro caso, como desdobramento das atividades de extração petrolífera no litoral, no segundo, com a instalação da siderúrgica da ThyssnKrupp CSA (o maior investimento privado em curso no Brasil) e a futura usina da Votorantim em Resende.



Um velho gargalo para o desenvolvimento estadual é a infraestrutura. O problema começou a ser enfrentado graças à articulação entre os três níveis de governo. A maior parte dos recursos está nos portos: Sepetiba, Açu (no Norte do estado, para atender à cadeia petrolífera), a revitalização do porto do Rio e a construção de oito portos por empresas privadas. Outra ação fundamental é a construção do Arco Metropolitano (imagem acima), que ligará o porto de Sepetiba ao Complexo Petroquímico. A obra permitirá que os caminhões de carga deixem de atravessar a cidade do Rio, contribuindo para a melhora do trânsito. A agenda de reformas tem itens que ainda não foram totalmente definidos, como a modernização do Aeroporto Internacional Tom Jobim e a expansão do metrô carioca para a Barra da Tijuca.

A construção do Trem-Bala ligando o Rio de Janeiro a Campinas também terá um efeito positivo na economia do estadual, principalmente no Vale do Paraíba, que tem tudo para se tornar a região industrial mais dinâmica do país, a meio caminho entre os principais mercados – Rio, São Paulo e Minas Gerais. Cerca de 50% do PIB brasileiro é produzido num raio em torno de 500 Km em volta da cidade do Rio, e com a melhora dos transportes aumenta o atrativo do local como um pólo de serviços de alto valor agregado.

Além de tudo, há o impacto dos três grandes eventos que o Rio sediará (integralmente ou em parte) entre 2011 e 2016: Jogos Mundiais Militares, Copa do Mundo e Olimpíadas. E o planejamento do governo, centrado na reforma da gestão pública, na segurança e na atração de investimentos. Temas que ficam para outros posts.

9 comentários:

DD disse...

que impressionante 25% do pib carioca é petróleo! qual é a participação dos serviços? a Globo é incluída em serviços, junto com a eco informal?

no Valor hj há matéria afirmando que o trem bala só ficará pronto depois das olimpíadas, o gargalo de transporte aeroviário portanto será brutal, não?

Mauricio Santoro disse...

Salve, Dani.

Não tenho o percentual de serviços, mas sei que ele é o maior do estado e inclui a Globo. O problema é que muitos desses serviços são de baixo valor agregado, ao passo que diversos entre os mais altos (mercado financeiro e agências de publicidade, por exemplo) migram para Sampa. Mas voltarei a escrever sobre isso, em mais detalhes.


O gargalho dos transportes está preocupando muito, não só para chegar/sair do Rio, mas também para circular dentro da cidade.

abraços

Igor Pessoa disse...

Caro Maurício,

você não sabe como é triste estudar urbanismo em uma cidade como o Rio de Janeiro. É muito decepcionante ver que a sua cidade não possui absolutamente nenhuma política de planejamento urbano eficaz. Desde quando o problema de transporte assola a cidade? Pelo menos desde pereira passos. O transporte sempre foi negligenciado e entregue à iniciativa privada que hoje se configura por um verdadeiro cartel do transporte público. O transporte acaba sendo mais um fator de segregação social, aumentando a imensa desigualdade na mancha urbana da Rio.
A própria questão da favelização, que possui políticas específicas (como o favela bairro), é completamente ineficiente. O caso de Angra pode comprovar isso. E parece que vamos continuar repetindo os absurdos do rio por lá, pois já estão falando em construção de muros ao redor das favelas de Ilha Grande.
E sinceramente, não tenho muita esperança na melhoria da infra-estrutura para os eventos que você citou. A cidade já se especializou em maquiar seu problemas, vide o Pan. Se você reparar, no projeto urbano das olimpíadas existe apenas a previsão da implementar faixas seletivas. Nenhuma modificação estrutural está planejada.
Triste...muito triste...
Abraço

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Tuda uma leccäo de "janeirologia". Poderia escrever o livro "Río de Janeiro para cariocas e näo fluminenses". Ja, ja, ja!
Aqui sempre chegam, lamentávelmente, novas sob a pobreca e a inseguridade na sua cidade. Uma pena.
Abracos

Patricio Iglesias

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
Tuda uma leccäo de "janeirologia". Poderia escrever o livro "Río de Janeiro para cariocas e näo fluminenses". Ja, ja, ja!
Aqui sempre chegam, lamentávelmente, novas sob a pobreca e a inseguridade na sua cidade. Uma pena.
Abracos

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Salve, Igor.

Pois é, mas uma das contradições que não entendo é como o Rio concentra tanto conhecimento em urbanismo (Ippur, IPP, IAB) e como tão pouca coisa prática acontece.

Hoje eu conversava com amigas de fora da cidade que me contavam que as vagas dos hotéis já estão esgotadas, em pleno janeiro, antes do carnaval.

Se isso é assim agora, imagine com a demanda crescente, em função dos grandes eventos esportivos.

Há muito, muito trabalho a ser feito...

Salve, Patricio.

Sugestão anotadíssima... :-)

Aliás, outro dia um amigo e eu conversávamos meio de brincadeira sobre a possibilidade de editarmos um The Carioca Reader, com trechos selecionados de livros clássicos sobre o Rio de Janeiro.

Abraços

Ricardo Horta disse...

Mauricio,

Desculpe-me pela pergunta "off-topic", mas já que a questão de ser um EPPGG foi abordada por você em postagens mais antigas (leio o blog faz um tempo), gostaria de saber como é possível ser gestor federal e conseguir uma lotação fora de Brasília.

É difícil ou é factível exercer a carreira nos Estados?

(Pergunto porque fui aprovado no último concurso, que está atualmente suspenso na Justiça por causa de algumas firulas da soma de pontos no edital).

Abraços e obrigado,

Mauricio Santoro disse...

Caro Ricardo,

É possível, mas extremamente difícil, e não recomendo.

Para sair de Brasília, você precisa estar em um órgão federal com unidades nos estados, receber um convite de lá, ter a aceitação dos seus superiores na capital e do Ministério do Planejamento, que supervisiona a carreira.

Vários dos meus amigos em Brasília estão tentando sair, e não conseguem.

Se seu objetivo é morar fora da capital, tente outro concurso.

Abraços

André Egg disse...

E tem mais.

A inexistência de um arco rodoviário no Rio e de um anel rodoviário em Sampa são as coisa mais kafkeanas que se pode imaginar.

Ainda mais para um país que só usa transporte rodoviário. Até para transportar arroz do Rio Grande do Sul para o Nordeste.

Qualquer pessoa ou carga que precise ir do Sul ao Sudeste tem que passar pelas marginais paulistas. É o absurdo dos absurdos.

Do mesmo modo, qualquer um que queira vir do Sul ou de SP para o norte Fluminense ou o Espírito Santo, tem que passar por Av. Brasil e ponte Rio-Niterói!

Só com o abastecimento da região metropolitana a agricultura familiar já poderia ser uma potência econômica no estado.

Aliás, é preciso lembrar que petroleiras, petroquímicas, estaleiros e siderúrgicas devem ser bons. Mas não bastam. Está nos pequenos negócios a chave do crescimento sustentado: agricultura familiar, pequenas manufaturas, restaurantes, pousadinhas, pequeno comércio, serviços. Toda renda disso fica no estado. A das grandes empresas vai para uns poucos acionistas.

O Rio de Janeiro tem tudo para ser um grande centro cultural, gastronômico e turístico - uma Paris do hemisfério sul. Cadê os planos para tornar isso uma realidade?