segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Petróleo nas Malvinas



“As Malvinas são uma questão que continua a atrapalhar toda a política externa argentina”, me disse um ex-embaixador do país na ONU, em uma conversa em Buenos Aires. “Dificulta nossa agenda na Assembléia Geral das Nações Unidas, nos forçando a buscar apoio do bloco afro-asiático. Dificulta nossas relações com o Reino Unido e com a UE. E até com os EUA”. Lembrei da entrevista que o diplomata me concedeu por conta das atuais disputas, envolvendo a decisão do governo das ilhas de autorizar prospecção de petróleo em seu território.

Desde os anos 90 se fala no potencial de hidrocarbonetos das Malvinas, e mesmo antes disso o tema era sujeito a muitas especulações, em grande medida na busca de razões econômicas que justificassem a disputa por um território cuja principal atividade era a criação de ovelhas. O escritor Jorge Luís Borges certa vez descreveu a guerra pelas ilhas como “dois carecas brigando por um pente”. Com ou sem petróleo e gás natural, a alta no preço da energia ao longo dos últimos anos tornou mais vantajoso os investimentos para procurar por essas riquezas nas profundezas geladas do Atlântico Sul.

Justamente, o contexto político da década de 2000 – ascensão do nacionalismo, valorização dos hidrocarbonetos – piorou bastante as relações entre Argentina e Reino Unido pela questão das ilhas. Nos anos 90, o governo Menem adotou uma diplomacia de aproximação, optando por não discutir a questão mais candente, da soberania sobre o território, e buscar acordos de cooperação em temas mais consensuais, como visitas humanitárias que permitissem aos veteranos e parentes de militares mortos na guerra de 1982 ir até as ilhas.

O governo argentino já anunciou sua oposição aos esforços britânicos de prospecção de petróleo, e adotou uma série de restrições para empresas que queiram usar seu território para comerciar com as ilhas, e irá levar seus pleitos à ONU e à Cúpula do Grupo do Rio (isto é, aos demais países da América Latina). Nestes tempos de pré-sal, é de se esperar de que o Brasil seja mais do que simpático às demandas da nação vizinha.

8 comentários:

Rafaela Rodrigues disse...

Também escrevi um pouquinho sobre isso hoje. Nossos vizinhos andam ocupando as manchetes dos jornais.

Você acha que seria possível uma nova guerra nessa questão das Malvinas ou isso já não caberia no cenário internacional atual (principalmente o da Argentina)?

Abs, Rafa.

"O" Anonimo disse...

A Argentina só vai parar de afundar, encontrar o fundo de seu poço, quando o exército paraguaio conquistar a saída para o mar no estuário do Prata, digamos em 2135. Até lá, ladeira abaixo!!

Mauricio Santoro disse...

Oi, Rafa.

Não acho possível uma nova guerra, mas acredito que um conflito diplomático com o Reino Unido pode atrapalhar as relações economicas internacionais da Argentina, neste momento em que os Kirchner tentam aumentar a credibilidade do país por conta da dívida pública.

abraços

Patricio Iglesias disse...

Minha cara:
A opinão pública argentina está totalmente contra a possibilidade de uma nova guerra desde 1982. O ditador Galtieri ficou na sentimento popular como "el borracho que mandó a que mataran a los chicos".
Beijos argentinos!

Patricio Iglesias

Igor Pessoa disse...

Maurício,

Outro dia escutei de um professor que o caso deve parar na CIJ. Você acredita nisso?
Abs

Mauricio Santoro disse...

Salve, Igor.

Sim, acredito. A Argentina já está com uma disputa por lá, por conta do conflito com o Uruguai em função das papeleras.

Abraços

Igor Pessoa disse...

E ainda temos a disputa do Chile com o Peru. A CIJ está se tornando especialista em América do Sul.
Abraço!

Mauricio Santoro disse...

Caro,

Sem dúvida, é a região do planeta que mais demanda os serviços da CIJ, ao menos no que diz respeito às disputas territoriais...